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3.1 Elementos institucionais e instituintes do processo de registro do projeto

3.1.3 Financiamento

Quanto ao financiamento das atividades, a documentação disponível revela que o grupo original buscou duas possibilidades de financiamento: internas e externas a instituição.

Inicialmente o projeto concorreu aos processos de seleção para financiamento do Fundo de Incentivo a Extensão (FIEX), contando anualmente com um orçamento de R$ 450, 00 de verba custeio que, segundo memorando N° 01/2000 da Comissão de Extensão do Centro de Ciências Sociais e Humanas, poderia contemplar material de consumo, passagens e outros serviços de terceiros, além de uma bolsa de Estágio Acadêmico. De outra parte, em 2002, foi construído outro projeto que tomava as dinâmicas do Práxis como espaço de aplicação, financiado pelo Fundo de Incentivo a Pesquisa (FIPE), intitulado Assessoramento em Ações Pedagógicas aos Acadêmicos -

professores do projeto Práxis Pré-vestibular Popular: Acadêmicos e Candidatos Construindo um Dialogo. Tal trabalho, orientado pela professora Marilú Favarin, indica

que uma das estratégias de captação de recursos para a viabilidade do projeto foi a tentativa de organizá-lo no formato dos chamados projetos guarda-chuvas, isto é, sub- dividir suas fases ou atividades em projetos específicos, mantendo um núcleo comum de aplicação, para onde todos convergem.

No que se refere a recursos externos, o grupo original do Práxis contou com o auxilio do Departamento de Assistência Social da Gráfica e Editora Pallotti que, entre 2000 e o primeiro semestre de 2004 imprimiu os polígrafos utilizados no projeto 53. Da

53 Os únicos documentos relacionados a relação do Práxis com a Gráfica e Editora Pallotti disponíveis no

Arquivo dos Movimentos Sociais do Práxis relacionam-se a memorandos de agradecimento pela impressão dos materiais enviados pelo projeto à referida gráfica e a listas de nomes e números de Registros Gerais dos educandos que receberam tais materiais. Neste sentido, embora a temática exija uma análise mais detalhada, abordagem que não foi tomada como prioritária neste estudo, relatos de membros da Coordenação Geral na série de vídeos produzida junto com a TV OVO em 2002, referidos

mesma forma, em alguns materiais de divulgação deste período contam com os termos

Apoio Sedufsm e Apoio Assufsm, o que indica que os trabalhos contaram desde a sua

origem com o apoio da Secção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria e da Associação dos Servidores Técnico Administrativos da UFSM, principalmente na forma de impressões, doações realizadas esporadicamente até os dias atuais.

Com a re-configuração do projeto em 2003, verifica-se que esta edição guarda a particularidade de não contar com nenhum tipo de financiamento da instituição. Neste sentido se, como anteriormente, uma das tarefas que desviavam as energias da Coordenação Geral era exatamente a necessidade de constantemente legitimar o projeto entre a administração do Departamento de História e a Direção do Centro de Ciências Sociais e Humanas, além de buscar apoios materiais junto a outras organizações, é possível que tal questão tenha sido vivida em 2003 de forma mais intensa, embora o Centro de Educação continuasse contribuindo com o fornecimento de um computador, armário, mesa, cadeiras e alguns materiais de expediente, como papeis, giz e canetas.

A análise dos memorandos elaborados pelo projeto para comunicação com as esferas institucionais da universidade e da agenda do coletivo daquele período revelam que um desdobramento imediato foi uma mudança de postura com relação ao financiamento.

A agenda dos trabalhos do Práxis daquele ano faz referência a uma audiência ocorrida entre a Coordenação Geral, uma representação de dois educandos, o então Diretor do Centro de Ciências Sociais e Humanas, Professor João Manoel Espina Rossés, e o então Magnífico Reitor da UFSM, Professor Paulo Jorge Sarkis, em 10 de setembro de 2004.

Nesta audiência foi apresentado um texto que assim solicitava a reitoria:

(...) um projeto como o Práxis Pré-vestibular Popular, por ser elaborado por mãos que testam sua experiência didático – pedagógica no cotidiano das anteriormente, dão indícios de que tais impressões eram desenvolvidas com base na Lei de Responsabilidade Social, que permite às empresas abatimentos ou isenções tarifarias de donativos realizados. Dado que a documentação envolve a listagem individual dos beneficiários, é possível que tais impressões tenham sido realizadas sem vinculo jurídico com a UFSM e sim nominalmente, com aqueles que recebiam as apostilas.

atividades, paga o preço de sua ousadia e iniciativa. As dificuldades se avolumam a nossa frente, mas nem por isso tem se esmorecido diante do processo. (...) Porém, magnífico reitor, de todas as dificuldades, a que mais se sobressai é a de caráter material. Educadores (na maioria absoluta composta por acadêmicos) e educandos extraem, na maior parte, recursos próprios para desenvolver e/ou acompanhar as atividades: a produção de material didático tem sido resolvida de forma precária, muitas vezes por iniciativas filantrópicas da comunidade santa-mariense. (...) Assim, viemos reivindicar diante de vossa magnificência a ampliação do já importante e fundamental apoio institucional para esse projeto através das seguintes reivindicações. 1) Impressão do material didático das aulas do Práxis Pré-vestibular Popular na gráfica da UFSM (...); 2) Apoio para a aquisição de materiais de expediente (..); 3) Cotas de xerox (...); 4) Passagens para educadores (...); 5) Bolsas para educadores (...); 6) Um computador, uma impressora e um ramal telefônico (...); 7) Ampliação do espaço físico para coordenação (que trabalha com cerca de cinqüenta educadores e oitenta educandos e dispõe de uma minúscula sala; 7) (...) garantia ou ampliação do espaço físico (para as aulas e para a coordenação do projeto) no centro da cidade, tendo em vista a transferência programada co Curso de História para o novo prédio no Campus da UFSM e a possibilidade de assistência das aulas pelos educandos carentes do projeto fora do perímetro central de Santa Maria (..) (Práxis, 2004).

Observa-se, assim, uma mudança de postura diante das possibilidades de viabilização material do coletivo, que representa um rompimento com o financiamento via iniciativa privada e a aproximação mais orgânica com as concepções que entendem que o financiamento das experiências educacionais deve ser realizado pelo Estado. No caso, ela se expressa fundamentalmente na solicitação de que a UFSM se responsabilize pelo financiamento dos materiais didáticos, pela disponibilização de espaço físico adequado e materiais de expediente para o desenvolvimento das atividades e a concessão de bolsas de estudos e transporte para os acadêmicos que desenvolvem a experiência.

Segundo o Relatório de 2004, a partir daquela audiência a Direção do Centro de Ciências Sociais e Humanas acordou em disponibilizar R$ 600, 00 em materiais de experiente e a manutenção da liberação de duas salas de aula e da sala 422, aonde então estava funcionando a coordenação do projeto. A reitoria da UFSM, por sua vez, comprometeu-se em garantir ao Práxis a impressão dos materiais didáticos na gráfica da UFSM, além de quatro bolsas estudantis da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis, no valor de R$ 200, 00, entre os meses de setembro e dezembro, o que totalizaria uma verba de R$ 3.200, além de uma bolsa transporte no valor de R$ 600, 00, totalizando um orçamento global de R$ 4. 400 para 2004.

Desta forma, por um lado o processo de institucionalização do projeto envolveu a conquista lenta de viabilidade material da UFSM que, internamente, possibilitava um salto quantitativo, encerrando os desvios de energias que a coordenação envolvia para resolver estas questões. Por outro lado, este processo não se desencadeava pelas esferas de Colegiados do Departamento, Colegiado de Centro ou do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade, mas em uma relação direta entre o projeto, a Direção do Centro e a Administração Central.

De toda forma, é possível inferir que, ao longo do desenvolvimento das atividades do pré-vestibular popular, a própria necessidade de constituir uma viabilidade material para o empreendimento, colocou, principalmente a Coordenação Geral, em um processo de interação com outros setores da sociedade que, de diferentes formas, guardavam a especificidade de apresentarem-se críticos ao neoliberalismo. Tal interação, por um lado, constituí, assim, um capital social que passa a ser mobilizado não apenas na manutenção material do Práxis, como também no sentido de produzir uma inflexão na identidade e nas motivações dos grupos proponentes, isto é, da vanguarda.

Neste sentido, a forma como ocorre a institucionalização e o financiamento do Práxis junto a instituição é marcada pela fragilidade política, uma vez que, mesmo considerando um espaço de autonomia de negociação entre os projetos e a reitoria que não envolvem uma subversão do Regimento da Universidade, ele não é portador da garantia de continuidade e regularidade que seria garantida pelos conselhos, principalmente nos processos de transição de gestores na Administração Superior da Instituição. Isto é, a construção da viabilidade material da experiência foi desencadeada através de um processo que, embora institucionalmente legitimo, é marcado sobretudo pela fragilidade política.

3.2 A estrutura organizacional do movimento Práxis