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PONTO DE PARTIDA

1. A ORDEM E A DESORDEM

1.5. FLEXIBILIDADE

É p'ra amanhã Bem podias fazer hoje Porque amanhã sei que voltas a adiar E tu bem sabes como o tempo foge Mas nada fazes para o agarrar Foi mais um dia e tu nada fizeste Um dia a mais tu pensas que não faz mal Vem outro dia e tudo se repete E vais deixando ficar tudo igual É p'ra amanhã Bem podias viver hoje Porque amanhã quem sabe se vais cá estar Ai tu bem sabes como a vida foge Mesmo de quem diz que está p'ra durar Foi mais um dia e tu nada viveste Deixas passar os dias sempre iguais Quando pensares no tempo que perdeste Então tu queres mas é tarde demais É p'ra amanhã Deixa lá não faças hoje Porque amanhã tudo se há de arranjar Ai tu bem sabes que o trabalho foge Mesmo de quem diz que quer trabalhar Eu sei que tu andas a procurar Esse lugar que acerte bem contigo Do que aparece tu não consegues gostar E do que gostas já está preenchido É p'ra amanhã Bem podias fazer hoje Porque amanhã sei que voltas a adiar Ai tu bem sabes como o tempo foge Mas nada fazes para o agarrar É p'ra amanhã Bem podias viver hoje Porque amanhã quem sabe se vais cá estar Ai tu bem sabes como a vida foge Mesmo que penses que esta p'ra durar É p'ra amanhã Deixa lá não faças hoje Porque amanhã tudo se há de arranjar Ai tu bem sabes que o trabalho foge Mesmo de quem diz que quer trabalhar

António Variações — É p'ra amanhã

As permanentes transformações (crises) para novas formas de exploração e acumulação de capital são a expressão da flexibilidade, principal característica que sustenta o capitalismo tardio. Esta é mantida porque carrega, concomitantemente, um

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sistema de precarização da força de trabalho. Esta característica de manutenção do capital sempre esteve presente nesse modelo, entretanto, o que mudou na passagem para a acumulação flexível foi a sua forma; passa-se de uma indiferença ligada à classe materialmente, para uma indiferença mais pessoal «porque o próprio sistema é menos cruamente esboçado, menos legível na forma» (Sennet, 1999).

A flexibilidade (Harvey, 1989: 181)

(...) conseguida na produção, nos mercados de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções financeiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. Isso implicaria que o sistema financeiro alcançou um grau de autonomia diante da produção real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último a uma era de riscos financeiros igualmente inéditos.

A redução do tempo de giro, resgatada no pós-modernismo, é a principal fonte da flexibilidade, ou seja, o resgate de uma diminuição do tempo de produção e a inovação tecnológica como aliados a complexificação da efemeridade produtiva atual.

A redução do tempo de giro de consumo, com a redução do tempo de produção, é a chave para o sucesso desse período. O que acontece, após as revoluções industriais (3a e 4a), é que se aprofunda, mais uma vez, a flexibilização das relações de trabalho e, também, da comercialização da imagem. Foi acompanhada «por uma atenção muito maior às modas fugazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de formas culturais» (Harvey, 1989: 148). Vivemos num mundo que aspira elementos pós-modernos quando convém ao capital.

As transformações das estruturas sociais devido às mutações desse sistema podem ser consideradas tão importantes quanto as transformações provocadas pela passagem da sociedade agrária para a sociedade industrial (Lopes; Louçã; Ferro, 2017).

E a precarização do trabalho é uma das consequências dessa mutação, portanto, a elasticidade, a flexibilidade transcende a indiferença de classe para a indiferença pessoal

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e para a flexibilização e precarização laboral. Mas isto não quer dizer que a interpretação dos atores sociais seja uma leitura negativa.

Os novos arranjos flexíveis e, por vezes, efêmeros, podem criar uma relação mútua de benefícios. Esta é mais uma das relações contraditórias deste período. As pessoas que trabalham podem ver a flexibilidade como uma oportunidade de

“liberdade”, a ideia do “self-made” foi tão bem construída e imbricada no imaginário coletivo que as novas táticas de flexibilização são vistas como um fator de libertação de obrigações laborais, ou de maior “controle” do seu tempo e consequentemente da sua liberdade. Contudo, o efeito é inverso. «A atual tendência dos mercados de trabalho é reduzir o número de trabalhadores "centrais" e empregar cada vez mais uma força de trabalho que entra facilmente e é demitida sem custos quando as coisas ficam ruins»

(Harvey, 1989: 144). O autor, já em 1989, sinalizava essas alterações, construídas no modelo ainda fordista no Japão. Hoje, o nosso maior exemplo é o que aconteceu durante a pandemia. Por um lado, houve as demissões em massa, ou ainda o tão recorrido layoff, mas mais preocupante foi a condição dos trabalhadores informais, autónomos e falsos recibos verdes ou pessoa jurídica no Brasil. Essas situações abriram a ferida, que já sangrava, do descaso e dos retrocessos das leis laborais a nível mundial.

A pandemia foi uma das grandes responsáveis por várias tomadas de consciência coletiva, por mais efêmeras (ironia do próprio sistema?) e líquidas21 que tenham sido, sobre setores que realmente são importantes para o funcionamento da nossa sociedade. Além disso, destampou o curativo sobre as diferenças de quem mais despende de tempo para multitarefas, que na sua grande maioria são realizadas pelas mulheres, no âmbito do trabalho reprodutivo e dos cuidados.

Neste estudo, não iremos nos deter a uma análise aprofundada em relação ao gênero e às diferenças acerca desta temática em relação ao nosso objeto empírico.

Contudo, é importante ressaltar que as mulheres têm uma relação diferenciada na história das transformações do capitalismo e isso não diferiria nos dois países que aqui analisamos, visto que o patriarcado e a sua influência neste sistema se dá

21 Metáfora — assim como fluidez — que Bauman (2014:10) utiliza como a captura da «natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade».

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estruturalmente. As mulheres, durante a transição para a acumulação flexível, conquistam mais espaço no mercado de trabalho, apesar de, em sua maioria, na esfera do trabalho reprodutivo e dos cuidados, e também mais direitos de autodeterminação dos seus corpos, no entanto, ainda permanecem vigorando tabus e retrocessos. Embora sejamos uma grande parte da classe trabalhadora, também somos as mais precarizadas, por isso ainda há muito o que ser conquistado no que diz respeito à igualdade e equidade. Portanto, apesar de o recorte de género não ser um dos focos desta pesquisa, enquanto mulher e ativista, essa linha reflexiva sempre será presente nas discussões aqui apresentadas.

A organização do capitalismo, através “da dispersão, da mobilidade geográfica e das respostas flexíveis nos mercados de trabalho, nos processos de trabalho e nos mercados de consumo, tudo isso acompanhado por pesadas doses de inovação tecnológica, de produto e institucional” (Harvey, 1989: 150 e 151) intensifica a permanência e as mutações. A desordem é quem ordena.

A organização mais coesa e a centralização implosiva foram alcançadas, na verdade, por dois desenvolvimentos paralelos da maior importância. Em primeiro lugar, as informações precisas e atualizadas são agora uma mercadoria muito valorizada. O acesso à informação, bem como o seu controle, aliados a uma forte capacidade de análise instantânea de dados, tornaram-se essenciais à coordenação centralizada de interesses corporativos descentralizados. A capacidade de resposta instantânea a variações das taxas de câmbio, mudanças das modas e dos gostos e iniciativas dos competidores tem hoje um caráter mais crucial para a sobrevivência corporativa do que teve sobre o fordismo (idem).

Outra contradição característica desse período é o reforço do lugar, do território, da identidade. O lugar é importante porque a imagem também o é, como já vimos.

Portanto, lugar não é só aquele bom para a operacionalização capitalista, mas também aquele seguro para viver e para consumir (na lógica sistêmica do capital). O lugar é espaço, território e imagem em simultâneo. À medida que se transfere uma importante parte da indústria e da produção para o Sul global, vende-se a imagem segura e consolidada do Norte global, reforçando a lógica hegemônica já estabelecida. Por isso, a imagem do lugar (e consequentemente de identidade) torna-se importante nessas

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imagens espaciais e territoriais que se sobrepõem e “implodem em nós”. Nós, indivíduos, ocupamos espaços (corpo, quarto, casa, comunidade, nação), por isso, construímos a nossa identidade. «Além disso, se ninguém "conhece o seu lugar" nesse mutante mundo-colagem, como é possível elaborar e sustentar uma ordem social segura?» (Harvey, 1989: 272).

Essa constatação tem reflexos diretos nos movimentos sociais ou luta de classe, porque há dilemas de identidade e pertença que dá a volta ao “mundo globalizado”, contudo as lutas permanecem, na sua grande maioria, focadas numa identidade de pertença ao lugar. Talvez esteja aqui uma das grandes dificuldades, e vagareza, em construções reflexivas coletivas e de ações baseadas na interseccionalidade22. «Ao se apegarem, muitas vezes por necessidade, a uma identidade dependente de lugar, esses movimentos de oposição, contudo, se tornam parte da própria fragmentação que um capitalismo móvel e uma acumulação flexível podem alimentar» (idem, 272).