5 AUTOR COMO PRODUTOR LO-FI EM RECIFE
5.1 Flores do teu mal
Flores do teu mal87 é uma faixa classificada sonicamente como lo-fi e disponibilizada em formato digital MP3 (MPEG-3) 320kbps no blog www.recifelofi.blogspot.com através da coletânea Recife Lo-Fi Volume I no ano de 2010. A faixa foi inteiramente gravada e produzida pelo músico Domingos Sávio sob o pseudônimo D Mingus em seu home studio, sendo ele autor e produtor da faixa. Iniciaremos com uma breve análise de espectro sonoro em comparação com a faixa de referência padrão.
Figura 17 – Análise de espectro sonoro da faixa Flores do teu mal
Fonte: Análise T-Racks Master Match – REAPER / Arquivo pessoal
A faixa Flores do teu mal (em cinza) apresenta um desenho bastante aproximado da faixa de referência padrão (em amarelo), revelando um grande empenho na etapa de mixagem e masterização por parte do autor-produtor, apresentando algumas divergências significativas entre 35Hz e 90Hz (ausência nas regiões graves), assim como após 10kHz (ausência nas regiões agudas), e alguns picos de 400Hz como sobras da faixa de referência padrão. Podemos notar também um subgrave na região de 20Hz mais acentuado. Sobre o espaço físico do home studio:
Gravei num apartamento (1º andar) de um prédio localizado numa das avenidas mais barulhentas do Recife (a Agamenom Magalhães), onde residia à época (2009, 2010). Gravava sons acústicos e voz na despensa do apê, que era um lugar sem janelas, então era o local com menos vazamentos externos. Também era um depósito de coisas, o que costumava evitar reflexões indesejadas. Em paralelo a isso sempre observei aqueles horários mais estratégicos em que o fluxo de veículos e outros sons externos era menor. (D MINGUS, em entrevista ao autor, 2019).
87 D MINGUS. Flores do teu mal. Recife: Coletânea Recife Lo-Fi Volume I, 2010. Disponível em: https://soundcloud.com/wagnerbeethoven/coletanea-recife-lo-fi-1?in=wagnerbeethoven/sets/recife-lo-fi-volume- i . Acesso em: 12 jul. 2019.
Notamos que o espaço do home studio não tinha isolamento acústico profissional, o que fez com que D Mingus utilizasse a criatividade técnica buscando novas formas para a solução de problemas diversos de ordem acústica relativa ao isolamento; como gravar sons acústicos e voz na despensa pois, com o acúmulo de objetos, absorviam frequências reflexivas do ambiente. Sobre os equipamentos de gravação:
Utilizei uma guitarra semiacústica Ibanez Artstar, um mic condensador da AKG (não lembro do modelo), um pre amp tube ultragain da Beringher e um PC de mesa comum à época (não lembro a configuração)... Não tinha uma interface externa ainda. Usei o Reaper como DAW, de plugin, acho que essencialmente o Amplitube crackeado. (D MINGUS, em entrevista ao autor, 2019)
Verificamos a utilização de alguns equipamentos considerados amadores. O pré- amplificador – no caso o Tube Ultragain da Beringher – e o PC de mesa comum não são característicos de uma gravação profissional padrão. Também é importante notar a ausência de uma interface externa de gravação. As guitarras foram gravadas no software Amplitube “crackeado” (ou seja, pirateado). A ausência de equipamentos adequados para a produção musical coloca um problema técnico grave para o músico; deve buscar soluções técnicas através de novas formas de produção. Nesse sentido, D Mingus – enquanto autor e produtor – atribui uma nova função aos equipamentos que estão à mão (transformando o PC comum em estúdio e a dispensa e sala acústica improvisada).
O tratamento amador operativo da produção da faixa é o indicador cultural que utilizaremos como sua classificação. Na produção dessa faixa D Mingus desempenha o papel de um amador operativo e refuncionaliza tecnicamente esses equipamentos com base na bricolagem e improviso tecnológico. E assim, entrega a gravação de Flores do teu mal feita com total autonomia. Assim, D Mingus realiza “a transformação de formas e instrumentos de produção” e cumpre a exigência fundamental do autor como produtor: “não abastecer o aparelho de produção, sem o modificar (...)” (Benjamin, 1985, p.127).
Abaixo, na Figura 16, observamos o espaço físico do home studio de D Mingus, revelando o ambiente doméstico de gravação (em uma sala comum) desprovida de tratamento acústico profissional, evidenciando uma série de adaptações técnicas criativas para a utilização tanto de equipamentos, quanto do espaço, evidenciando novas funções para as ferramentas de produção.
Figura 18 – D Mingus (esq.) e Flaviola (dir.) no home studio Pé de Cachimbo
Fonte: Domingos Sávio / Facebook
O resultado estético dessa operação é uma faixa característica do modo de produção musical lo-fi. Sobre essa estética sonora:
Algo feito longe dos grandes estúdios, corporações, mais conectada à necessidade de registro da ideia em si. Mais próxima do habitat natural do artista. Num nível mais autoconsciente, acho que trata-se de enxergar e assumir as próprias precariedades e limitações como elementos importantes e expressivos da obra, poeticamente, esteticamente. Tudo movido pela instigação e urgência de criar, interagir... antes fazer – precariamente que seja – do que não fazer. (D MINGUS, em entrevista ao autor, 2019).
Interessante notar que para o produtor, o modo de produção lo-fi se baseia numa operação de conhecimento e integração das limitações tecnológicas e da precariedade material do próprio artista ressignificado como elemento estético e poético. Sobre a ética DIY, máximo do faça-você-mesmo:
Significa tudo aquilo que fui e sou. Isso está em quem eu sou pessoalmente, está no meu som... Poder fazer por mim mesmo nas minhas produções, sem ter que esperar dos outros, foi fundamental pra minha sobrevivência como artista e ainda é. (D MINGUS, em entrevista ao autor, 2019)
Assim, tendo em vista a produção teórica abordada no corpus de pesquisa e a coleta empírica analisada acima – Flores do teu mal – é possível categorizar D Mingus como um amador operativo, ou seja, um autor-produtor contemporâneo.