OS PROCESSOS EVOLUTIVOS DA FLORESTAÇÃO EM PORTUGAL
AS HERANÇAS AMBIENTAIS
3.2 Fomento da florestação e "incultos"
Entretanto, após 1750, a questão do aproveitamento dos incultos para arborização ou cultivo começa a ocupar um lugar de destaque em qualquer estudo publicado sobre a utilização dos solos. Mas a problemática do potencial da expansão da floresta e da arborização tem que se enquadrar no ambiente sócio-político do último quartel do século XVIII. É o momento em que se afirma o declínio do Antigo Regime e se prenuncia o advento do liberalismo e "individualismo", vistos como agentes de "progresso" do país, no domínio tanto técnico como sócio-económico.
A partir de 1790, as reformas e os projectos das instituições centrais no âmbito florestal abrangem sobretudo dois principais campos de acção: o das matas da coroa, que sempre se relaciona com o problema do aprovisionamento em tabuado para a Marinha c o campo da política de florestação em algumas áreas críticas.
Nos finais do século, o Pinhal de Leiria encontrava-se em muito mau estado. Os regimentos de 1751 e 1783, que pouco alteraram os alvarás promulgados pelos reis Filipe de Espanha no fim de Quinhentos, não tinham melhorado a sua capacidade produtiva. Em 1790, é editado um novo regulamento, que extingue o sistema dos antigos couteiros e seus privilégios, subslituindo-os por um pequeno corpo de funcionários encarregados do ordenamento. Em quatro anos sucessivos, de 1796 a 1799, são lançadas as bases de uma remodelação de fundo para aumentar a produção de toros, passando todos os pinhais do rei para a Junta da Fazenda da Marinha. A Junta faz um inventário em 1798, de que resultariam, no ano seguinte, novas recomendações para a observação das leis de
1623 e 1633.
Finalmente, em 1800, admite-se que a administração das montarias necessita de uma reforma orgânica. Muito reduzidas desde o regimento de 1650, que tinha actualizado o de 1605, estabelecem-se novas delimitações, a abolição dos ofícios e privilégios, e a criação de patrulhas volantes. Também são confirmadas as proibições tradicionais relativas ao pastoreio ou outras formas ilícitas de exploração. É, de facto, o reconhecimento da absoluta desadaptação da Montaria-Mor em relação ao ordenamento florestal que se pretendia. Os sucessivos descoutamentos feitos de 1650 a 1800 não justificavam uma organização de ofícios tão pouco eficiente. As matas ou pinhais das áreas descoutadas tinham passado para a Direcção dos Pinhais da Fazenda da Marinha e ficavam apenas umas tapadas nas proximidades de Lisboa para os lazeres da Corte. Abolidas em 1821, repostas em 1824, o que restava das coutadas reais acaba quase por desaparecer na altura da venda dos bens da Coroa (M. COSTA, 1964). Algumas malas e pinhais do rei (14 864 ha) são incorporados na Administração-Geral das Matas criada em 1824, que, no início das suas actividades, reconhece a sua ruína quase completa.
No que se refere à florestação, um novo passo é dado nos primeiros anos do século XIX, antes que as invasões napoleónicas venham suspender a sua execução. Sob o impulso de J. Bonifácio de Andrada e Silva, Intendente-Geral das Minas e Metais desde 1802 até às invasões, a plantação de pinheiros e amoreiras toma-se o fulcro da legislação. O Intendente-Geral é hoje considerado como o primeiro "silvicultor" português, já que tinha estudado silvicultura na Alemanha na qualidade de metalurgista. Preocupado com as fontes energéticas das actividades industriais, tinha-se dedicado à restauração das matas e dos pinhais das ferrarias do Alge, dotando-as de um regime florestal. Em 1802, enquanto se tentava mais uma vez a realização de um tombo dos baldios, o próprio J. B. de Andrade e Silva promove a publicação de duas cartas régias para fomentar a fixação e arborização das dunas de Lavos e a plantação de pinheiros perto de Aveiro e da foz do Vouga.
A par da actuação das instituições públicas, outras há que prolongam uma política muito antiga. Ainda não abordámos até agora, senão muito brevemente, a situação e evolução da floresta eclesiástica na Época moderna. Não abundam as pesquisas sobre o assunto, mas sabe-se, pelo menos, que de todos os proprietários que possuíam grandes superfícies arborizadas, foram as ordens religiosas que melhor cuidaram do seu património. Durante a Idade Média, os mosteiros implementaram regularmente plantações nos coutos. Os primeiros inventários florestais foram empreendidos no país pelos grandes mosteiros, tal como o de Alcobaça em 1530, antecipando de muito tempo as iniciativas das instituições régias no fomento da rearborização dos pinhais costeiros, degradados pelos cortes e fogos (I. GONÇALVES, 1984, pp. 118-124 e 355-368).
Vejamos, por exemplo, esta evolução no extenso couto da abadia Tibães (Braga). Contrariamente à tendência geral do século XVII, prosseguem as plantações de carvalhos, sobreiros e castanheiros (A. de OLIVEIRA, 1974, p. 275 e ss). No seguinte, a abadia acresce-lhes as de salgueiros e desenvolve o fomento dos pinhais a partir de 178618. Na segunda metade do século XVIII, o mosteiro redobra a vigilância e o
policiamento dos montes dos coutos, já que os cortes de árvores e as roças ilícitas são mais frequentes. O mosteiro tinha os seus próprios viveiros, quando ainda não existiam na região (A. de OLIVEIRA, 1979, p. 226-232). Aliás, faz-se sempre na época o elogio das matas de folhosas nos coutos, em nítido contraste com o estado geral da floresta minhota. Além de serem imprescindíveis para as actividades agro-pecuárias e as construções dos
18 Mais uma vez se apresenta o problema do tipo de espécies de pinheiro semeado. Em 1786-88, "semeouse
hum pinhal de Flandres"; mais tarde, em 1801-03, "semearãose pinhões... que não prosperarão todos por causa de dilatados e rigorosos invernos." (Mapa de plantações de A. de OLIVEIRA, 1979, s/p). No couto costeiro da Estela, semeiam-se também pinheiros. Temos ainda que encarar as três hipóteses: pinheiro silvestre, manso ou bravo. A madeira importada de pinho de Flandres era utilizada nas construções de luxo, além das construções navais. Não é portanto de admirar que se tenha experimentado o seu fomento. Quanto ao pleno sucesso das sementeiras e bom desenvolvimento das árvores, já se pode ter mais dúvidas. Aliás, as confusões entre pinheiro de Flandres e bravo eram ainda frequentes no início do século XIX, tal como o verificaremos na alínea consagrada à situação florestal de Oitocentos.
monges, os produtos florestais eram comercializados, constituindo uma fonte importante de rendimentos para os mosteiros.
Com base em documentos da época e estudos recentes, analisaremos seguidamente a situação florestal no Noroeste onde, embora fosse uma das áreas mais arborizadas do país, a florestação dos incultos e a conservação das matas constituem então uma das principais preocupações das instituições centrais. Limitar-nos-emos a apontar as condições do bloqueamento da florestação nos finais do Antigo Regime político e realçaremos também os interesses divergentes entre o poder central e os grupos sociais locais, acerca da arborização dos incultos e exploração das matas.
A nova demarcação das comarcas em 1792 deu origem à preparação de estudos sobre algumas províncias, entre as quais o Minho. No Plano para a descrição geográfica e
económica da província do Minho (1799), repare-se que as questões das matas e dos
baldios ocupam um lugar preeminente (A. CRUZ, p. 109-128). Em 1803, o Visconde de Balsemão recebe ordens, algumas prescritas por J. B. de Andrada e Silva, para "promover e animar as plantacoens de amoreiras e mais árvores de alto festo". Para este efeito, os magistrados das comarcas e câmaras são incumbidos da realização de inquéritos nas suas jurisdições, não só acerca das amoreiras, mas também sobre o estado das matas e os locais mais propícios para a criação de viveiros. Grande parte da informação que juntou o Visconde de Balsemão tem um valor desigual, que depende do empenhamento das câmaras ou personalidades contactadas. Toda esta informação, reunida no Rezisto das plantações, foi utilizada pelo V. de Balsemão para escrever uma Memória sobre o Minho que não foi publicada, mas lida na Academia Real das Ciências em 1814-181519.
Estes dois trabalhos completam as informações dadas por Link acerca da distribuição e composição florística dos territórios arborizados e florestais. As folhosas predominam nas áreas de cultivo, coutos e devesas. Daí talvez as dificuldades encontradas nas plantações das amoreiras, pouco aliciantes tanto para os proprietários como para os povos. Aliás, trata-se de um fomento conjuntural que não terá no futuro qualquer prosseguimento. Os pinhais são abundantes nas áreas ocidentais dos concelhos litorais e ao longo do rio Minho, tal como é explicitamente referido em Gaia, Maia e Caminha. Em Esposende, encontram-se quase exclusivamente pinheiros. O relatório de Caminha oferece a mais pormenorizada descrição da cobertura florestal, que foi elaborada à escala da
19 Rezisto dos officios e Ordens sobre Plantations de Arvores nas Provindas do Norte, 1803 e 1804-1806. Reúne cartas e questionários do Visconde de Balsemão e as respostas mais ou menos extensas ^ cfiman». A CRUZ publicou as perguntas e o relatório de Esposende da autoria de Custódio José Gomes deVILAS-BOAS (1970, p. 92-102), o maior documento de todo o manuscrito (*«»'£..,p.<&-7e 36-47). Salientemos também o interesse das respostas de Caminha, Valença e Penafiel (p. 26 27 e 29). J NUNES (1984) transcreve no seu trabalho parte das cartas mandadas por algumas camarás A Menwna sobre o estado da agricultura da provinda do Minho, principalmente tocante a ^ ^ « f " ^ 1 ^
nor J M A MENDES (1980) com uma ampla introdução sobre o seu autor, o Rezisto, e diversos assuntos referentes aos séculos XVIÏÏ-XIX. Note-se que o Rezisto e a Mentiria versam essencialmente sobre r a i S d e Entre-Douro-e-Minho, não abrangendo a montanha minhota, para além de breves achegas
freguesia. Mas, curiosamente, são omissos os pinheiros da "Mata de Camarido". Esquecimento voluntário? Podemos pensá-lo, se considerarmos por um lado as motivações dos inquéritos, e por outro, os condicionalismos da exploração dos pinhais em toda a província.
De um modo geral, o Visconde de Balsemão atribui o mau estado dos pinhais e das matas à ausência de planificação dos cortes e de limpeza. Invoca também a exploração florestal desenfreada, devida à procura de material de construção, e os estragos provocados pelo pastoreio livre e os fogos. Estão a ser "aniquiladas" as matas de folhosas, com a excepção dos bosques dos coutos, cuidadosamente conservados pelos religiosos. Sucedem-se de forma monótona as apreciações do autor sobre pinheiros de "mui má qualidade", ou "mui derrotados". De facto, não faz referências senão a pinheiros de pequeno porte, observando que "a necessidade determina o acto do corte". E escusado repetir mais uma vez quais eram as necessidades da região em produtos florestais, que contrariavam o crescimento dos pinhais até ao estado adulto. Além do mais, assinala-se que muita madeira da região era "exportada" pelo porto de Esposende. Tratar-se-ia de um comércio de cabotagem para outras cidades portuguesas ou para a Galiza. A descrição aponta para material de construção, sobretudo madeira de solho de 12 palmos (2,5 m), lenhas e remos (A. CRUZ, p. 101).
Na opinião de Vilas-Boas, os pinhais de Esposende resultam de uma regeneração espontânea. "Os pinhais renascem naturalmente do pinhão cahido com o vento..., a natureza supre neste destricto a perguiça dos Proprietários, reproduzindo os pinheiros do pinhão disperso" (A. CRUZ, p. 99). Em outros concelhos, havia algumas sementeiras feitas por particulares ou plantações fomentadas pelas câmaras, por exemplo em Valença e Aveiro. Mas para o V. de Balsemão, os proprietários e os povos são
"preguisosos" e "indolentes", o que justificaria o estado da cobertura florestal e o "atraso" técnico-cultural da agricultura. São, pois, comentários vulgares na época em que nos situamos.
Entre os motivos do bloqueamento do fomento florestal, tal como as instituições centrais o entendiam nessa época, a questão dos "incultos" e dos baldios surge com certa relevância. Mas as respostas não fornecem avaliações de superfície, com a excepção dos montes da comarca de Penafiel. Se os dados indicados mostram que os baldios eram mais numerosos nos concelhos do Norte da região, a recensão ficou incompleta por excluir as áreas de montanha. Notemos também que as câmaras não estavam então interessadas em pormenorizarem o assunto20. Muitos incultos não podiam
ser dispensados, já que forneciam o mato para estrumação, lenhas e pastos (J. NUNES,
2 0 No Couto de Tibães, A. de OLIVEIRA calculou que, nos finais do século XVII, as terras não aráveis,
incluindo matos e devesas, representavam 20% da superfície total no maior casal, e cerca de 40% no menor (1979, p. 66).
1984)21. O processo de alienação individual dos baldios e da "repartição dos montes" é
também abordado pelas câmaras. Várias leis promulgadas durante a segunda metade do século XVni, entre as quais a de 23 de Julho de 1766, tinham tentado limitar os abusos da divisão entre os "poderosos" locais. A confusão jurídica existindo entre bem do concelho e logradouro comum facilitou certamente o estabelecimento de situações irregulares, prejudicando os direitos dos vizinhos.
Para ultrapassar os impasses da legislação em proveito da arborização nos baldios, Vilas-Boas apresenta uma proposta em que se adjucaria sem foro a propriedade dos terrenos e das árvores plantadas aos particulares. No entanto, prossegue que "he verdade que esta liberdade he contraditória a Ley de 23 de Julho de 1766, que estabelece o aforamento dos maninhos". É preciso contornar esta dificuldade, aplicando as leis de arborização das Ordenações Filipinas22 e as de 1623 e 1633. Além do mais, propõe que se simplifique o processo de acquisição de terras para sementeiras de pinheiro, deixando-o ao livre arbítrio dos corregedores e oficiais das câmaras (A. CRUZ, p. 94-95). As raízes desta proposta encontram-se nas disposições legislativas do início do século XVII, mas há incompatibilidades com a legislação setecentista acerca da alienação e aforamentos dos baldios. Nos começos do século XIX, a política régia de florestação esbarra portanto com uma situação jurídica muito complexa e contraditória. As "dúvidas e embaraços" provocados pela valorização dos incultos articulam-se localmente com os interesses divergentes dos grupos sociais. As aspirações dos vizinhos, dos grandes lavradores ou da burguesia são ora ponderados, ora exarcebados pelos funcionários, consoante as relações pessoais ou colectivas entre uns e outros.
De Norte a Sul da região, as câmaras defendem-se com sólidos argumentos contra a arborização dos incultos, "de absoluta necessidade" para os matos e o corte de lenhas pela população mais desfavorecida. Nas comarcas litorais de Viana e de Barcelos, demonstram que há pinheiros em número excessivo e que os terrenos que podiam ser arborizados fornecem carvão. Nas do interior, então com menos pinhais, tal como em Penafiel ou Guimarães, dizem que as terras são "apertadas" para a sua plantação, provando também que o desenvolvimento dos pinheiros prejudicaria o crescimento do mato (J. NUNES, p. 38-43). A comarca de Guimarães declara, curiosamente, ter poucos baldios e poucas matas "por os terrenos não serem aptos para ellas" (J. A. MENDES, p. 79). Em Esposende, Vilas-Boas lamenta que as sanções previstas pelas antigas leis de arborização não sejam aplicadas e consagra alguns parágrafos sobre a ausência de
2 1 Não abordaremos aqui a complexidade das formas jurídicas que revestem a evolução dos "incultos" —
baldio, logradouro comum, bens do concelho, maninhos, bens de mão morta- utilizando^ termo genérico de baldio. Para uma informação mais completa, ver Thomaz A. de V. N. PORTUGAL 790) A A ROCHA PEIXOTO (1908), F.J.VELOSO (1953), A. SILBERT (1967), O. RIBEIRO (1970), A CASTROi (1971), A.GIL (1975), M. M. SOBRAL NETO (1984), J.NUNES (1984), M. RODRIGUES (1987), J. GRALHEIRO, (1990).
fiscalização: os corregedores devem castigar os oficiais camarários que não promovem a arborização e fecham os olhos perante a "indolência" dos proprietários (A. CRUZ, p. 95-96). Em suma, as considerações de Vilas-Boas sobre a actuação do poder local situam-se na mesma linha de rumo que a personalizada por J. B. de Andrada e Silva, o qual, na sua Memória de 1815, preconizava uma administração florestal "única e enérgica".
Colocando agora todos os protagonistas ligados à questão do fomento florestal e da alienação dos baldios, parece necessário matizar a oposição pela qual se costuma demarcar o processo à escala local, isto é, "todos" contra os "vizinhos" e seus direitos (M. RODRIGUES, 1987). Esquematizemos seguidamente a pluralidade das situações locais:
— os representantes da autoridade régia e uma política de arborização já antiga, rejuvenescida pela corrente fisiocrática, mas sem inovações de vulto, para além dos projectos de fixação das dunas;
— os vizinhos e seus direitos nos logradouros comuns, de que a divisão prejudica os mais pobres. Para além das suas próprias necessidades, a venda de lenha colhida nos baldios constituía um complemento relevante aos escassos rendimentos dos
"sem terra";
— os proprietários, membros da burguesia ou lavradores abastados, que se apoderam dos melhores baldios. Contudo, os seus interesses não se coadunam com as modalidades de produção de toros;
— os administradores das câmaras, acusados de "corrupção" neste processo, ocorrência documentada que não se pode excluir. Todavia, velam também pelas conveniências locais contra a ingerência das autoridades centrais, tentando salvaguardar os matos necessários à produtividade agrícola e ao aprovisionamento em produtos lenhosos.
Algumas petições do Minho mandadas às primeiras Cortes liberais de 1821-1823 mostram a complexidade da situação económica e dos conflitos sociais que se prendem com os baldios e a floresta. Vejamos um exemplo que se refere à exploração das matas no Minho (A. SILBERT, 1968, p. 150-151). Alguns proprietários protestam contra a limitação dos cortes de árvores estabelecida à escala nacional em 1807 e renovada em 1820. É o Intendente da Marinha do Porto que, na região, verifica a aplicação das leis que protegem carvalhos, sobreiros e pinheiros mansos. Os lavradores pedem a extinção das proibições, "ficando-lhes livre dispor delias como melhor lhes convier sem dependência de licença". Para justificar esta reclamação (que não será atendida), não hesitam em relacionar a interdição com a "desanimação geral na plantação de árvores" pelos particulares. A exploração e a arborização para a produção de tabuado para a Marinha, sobretudo as essências de qualidade mencionadas nas leis, imobilizariam o seu património
florestal, o que não se ajustava, nem com os rendimentos especulativos que podiam tirar das matas, nem com as necessidades mais correntes de produtos lenhosos.
Assim, a partir dos começos de Oitocentos, a valorização dos incultos e a exploração florestal na área das colinas evoluem num processo que escapa às orientações delineadas pela política régia. Esta evolução apenas se confirmará mais tarde, no século XIX adentro. Mas reconhecemos os limites das nossas pesquisas, que sobrevoaram os dois séculos em que se assiste à progressiva formação da ideologia da vocação e aptidão do país para a produção agrícola e florestal.
O estudo dos processos evolutivos da floresta carece ainda de trabalhos e monografias baseados em fontes primárias, que, por seu lado, têm de ser articuladas com o ambiente natural já transformado pela acção humana. Se a desarborização após 1750 é um processo globalmente confirmado na informação disponível, até à situação conotada de "catastrófica" no início do século XIX, é necessário interpretar a evolução através do conceito de "floresta" produtora de toros, que é subjacente no conteúdo de muitos documentos. Por outro lado, verificámos que os surtos da legislação sobre florestação, a execução dos diplomas e o alargamento da área florestal não foram suficientemente investigados para que se possa esboçar um quadro territorializado que não seja muito geral.
Acerca da distribuição e fisionomia das "mattas e pinhaes", apenas delinearemos as hipóteses seguintes:
— o espaço florestal ou arborizado da Época Moderna era constituído por um mosaico muito mais heterogéneo que na actualidade. No Norte do país, havia maior extensão de espécies mediterrânicas: sobreiros e pinheiros mansos são frequentemente mencionados na documentação que se refere ao Entre-Douro-e-Minho. No interior, abundavam soutos e carvalhais nos locais florestados;
— a área dos pinhais ainda era descontínua e situava-se essencialmente na fachada marítima entre os rios Sado e Minho. A florestação fomentada pelos municípios teria favorecido a progressão espontânea desta resinosa, enquanto prosseguia, nos séculos XVII e XVIII, a desarborização das folhosas;
a existência de grandes extensões de "incultos" é a nota dominante da informação, particularmente no Alto Alentejo ocidental e nos cumes de qualquer relevo. Mas este facto não excluiria a presença de árvores dispersas ou de bosques mais densos, ignorados nas avaliações da época por não produzirem madeira de boa qualidade.
A par das incessantes recomendações e "obrigações" para arborizar, as
Reformações da Época Moderna revelam um "ordenamento" florestal muito incipiente.
Correspondem mais a uma política defensiva e fiscalizadora contra a deflorestação, tentando-se, ao mesmo tempo, garantir o abastecimento necessário para lenhas, carvão e outros usos quotidianos. De facto, são muito raras as informações sobre técnicas culturais, regulamentos dos cortes e tratamentos para a regeneração das folhosas. O "atraso"
técnico-cultural é um aspecto sobre o qual insistiu particularmente o pensamento económico do fim de Setecentos, em parte inspirado, aliás, pelo ordenamento "exemplar" das matas