CAPÍTULO 3 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS
3.2 Análise do mapa de fontes
3.2.1 Tipos de fontes acessadas
3.2.1.1 Fontes oficiais
Várias constatações da fase de observação participante foram confirmadas pela análise do percurso percorrido pelos jornalistas para obter informações para suas matérias. A primeira é o predomínio do uso de fontes oficiais: das 339 fontes de informações utilizadas pelos cinco repórteres no período de observação (excluindo-se 27 situações em que não foi possível determinar o tipo de fonte), 179, ou 52,8% eram oficiais. A prática foi observada nas duas emissoras, sendo que, na Banda B, 53,2% das fontes utilizadas eram oficiais e, na BandNews, 52,3%.
O protagonismo das fontes oficiais já era aguardado, não apenas pelo que apontava a pesquisa de campo, mas também por meio da literatura sobre o assunto. Suzana Varjão (2008), por exemplo, que fez um estudo comparativo entre os tipos de fontes em três jornais
da Bahia, identificou que 54% das fontes utilizadas para a produção das matérias jornalísticas policiais nestes três impressos, no período analisado, eram oficiais. Note-se que o percentual é bem próximo do apurado na presente pesquisa.
A prevalência no uso de fontes oficiais, segundo o que pode ser extraído do discurso dos repórteres, durante as entrevistas semiestruturadas, está associada à questão da credibilidade. De modo geral, os repórteres tendem a confiar mais nos dados repassados diretamente por autoridades ou mesmo assessorias de imprensa. “Você tem que confiar, porque é a fonte oficial. [...] É a fonte que eu tenho oficial, então vai sair dessa fonte. É claro, se a gente tiver outra pessoa que diga outra coisa, a gente vai colocar os dois lados da história”, comentou uma das jornalistas entrevistadas. O simples fato de serem oficiais já é suficiente, portanto, para tornar as fontes merecedoras de crédito, de modo que a versão da realidade construída no noticiário policial sempre atende aos interesses das autoridades. Os jornalistas até admitem apresentar o contraditório, mas apenas depois de trazer a versão oficial dos fatos.
A lógica é a mesma exposta por autores como Gay Tuchman (1983), Josenildo Guerra (2008) e Nelson Traquina (1993), para quem, no jornalismo de modo geral (independente da área), opera a convenção da “credibilidade da autoridade”, segundo a qual as fontes oficiais, pela posição que ocupam, sabem mais do que outras pessoas, sendo neste sentido mais confiáveis.
Em certa medida, essa opção também é resultado do profissionalismo, conforme pontua John Soloski (1993), para quem os jornalistas entendem que o lugar natural para encontrar fontes com valor noticioso é na estrutura do poder da sociedade. Tuchman (1983) também destaca o uso de fontes graduadas como recurso de proteção, usado pelos jornalistas para se distanciar dos fatos, passar uma visão de imparcialidade e, deste modo, proteger-se de eventuais erros de informação. Isso explica também o valor dado pelos jornalistas de rádio às sonoras. Alguns dos profissionais entrevistados chegam a considerar a sonora indispensável, mesmo que não tenha qualidade informativa. Um dos repórteres contou que são raríssimos os casos em que ele não inclui sonoras em suas produções. “Só quando não consigo mesmo. Mas em geral sempre tem alguém que pode ilustrar. Porque você tem toda a informação do fato e pode narrar tudo, mas se você tiver uma sonora de um vizinho que diga 'mas o rapaz tava caído aqui no asfalto e tinha um cachorrinho do lado dele', pronto, isso já ilustrou tua reportagem.” Mesmo os profissionais que não consideram a sonora fundamental destacam sua importância: “Ela não é fundamental, mas traz credibilidade. Primeiro porque mostra que a fonte foi consultada. É a fonte falando, então o que ela diz é inquestionável”, opinou outro
profissional. Seja diferencial da matéria de rádio ou fator de credibilidade, as sonoras também podem ser vistas como instrumentos que facilitam o trabalho da reportagem, na medida em que elas ajudam a compor as matérias de modo mais simples, exigindo menos trabalho de interpretação dos repórteres.
O casamento entre tempo curto e facilidade de acesso também é outro fator que contribui para a preferência pelas fontes oficiais. Em Curitiba, pelo que foi possível constatar durante a observação e também por meio de entrevistas, as forças de segurança contam com amplas estruturas de assessoramento. Há uma equipe de assessores de imprensa dentro da Secretaria de Segurança Pública do Estado e núcleos estruturados também nas duas polícias: Militar e Civil. Assim, se um repórter precisa falar com alguma autoridade, pode telefonar, mandar mensagem de whats ou por alguma rede social para um assessor de imprensa e esperar que ele consiga marcar a entrevista com uma fonte oficial. Enquanto isso, pode empregar seu tempo na apuração de outras informações sobre o tema ou mesmo dedicar-se a outras pautas.
E o tempo é fundamental, até porque a rotina de um repórter de rádio não inclui apenas a produção de matérias, mas também muitas participações ao vivo. O ritmo pode se tornar intenso ao ponto de inviabilizar, por exemplo, a gravação de sonoras, como numa tarde em que um dos repórteres observados fez cerca de dez boletins ao vivo para sua emissora, a rede nacional e uma rádio parceira. Além de suas pautas, teve que apurar outra a pedido da emissora de televisão do mesmo grupo da rádio. Também apresentou parte de um noticiário nacional. Ao final, fechou quatro matérias, mas todas sem sonoras.
Além disso, não é somente a pressão do tempo que opera. Há também a pressão das chefias, sejam elas imediatas ou superiores. Essa pressão pode ser indireta: o repórter sabe que produtividade é um fator de sobrevivência, que, quanto mais produtivo for, maior a probabilidade de seu trabalho ser reconhecido e seu emprego estar garantido. Pode ser também direta, como notado no período de observação, quando um repórter, visivelmente sobrecarregado, pediu para não pegar uma pauta de última hora, mas a chefia imediata fez um apelo para ele cumpri-la também. Deste momento, dedicando menos tempo às suas outras pautas, com possíveis impactos no resultado final do seu trabalho, ele cedeu ao apelo e cumpriu a pauta.
Em resumo: numa rotina industrial de produção de notícias, em que o tempo é sempre limitado e a pressão sempre presente, as fontes mais acessíveis (ou que se encaixam na urgência jornalística) têm maior probabilidade de ganhar espaço. E assessorias de imprensa, cientes disso, podem se favorecer, sendo vistas como “facilitadoras da vida do
repórter” ao intermediar o contato rápido com as fontes – nem sempre as melhores, porém as mais acessíveis, escolhidas pela própria assessoria e em melhores condições de transmitir as mensagens que se têm interesse em divulgar, ou, como destacado por Schudson (2010, p. 216), que permitem a construção de “uma imagem da realidade que reforça o ponto de vista oficial”.
A opção pelas fontes mais acessíveis foi verificada durante todo o período de observação exploratória. Um dos repórteres observados, como exemplo, optou por utilizar uma sonora que não tinha o conteúdo ideal porque ela já estava disponível e agilizaria o processo produtivo. Em outro episódio, o mesmo repórter preferiu usar uma sonora extraída do Facebook. Neste caso, o conteúdo foi analisado como suficiente para a produção da matéria, além de já estar pronto.