1 EDUCAÇÃO: ONTEM E HOJE
1.7 Formação de professores e trabalho docente
A Na realidade, podemos colocar a hipótese de que a condição e a profissão docentes estão atualmente em fase de mutação.
Maurice Tardif & Claude Lessard
Com o avanço das tecnologias e a crescente inserção de crianças, jovens e velhos na rede mundial de computadores, o céu é o limite para a globalização que
atualmente vivenciamos. Falar em comunidade local não faz muito sentido quando as fronteiras entre os espaços estão sendo desconstruídas e reconstruídos. É uma constante desterritorialização e reterritorialização, redefinindo espaço de contatos sociais virtuais e reais. Até mesmo as fronteiras entre real e virtual hoje são muito tênues e difíceis de precisar. Local e global já se confundem de tal maneira que fica complicado demais querer demarcar território. Se as escolas possuem páginas na internet, tornando “público” seus trabalhos, seu movimento e seu cotidiano, como definir até onde e a quem ela afeta?
A internet, de todas as redes que conecta computadores é a mais conhecida e de alcance mundial. É possível acessá-la praticamente de qualquer lugar do planeta, bastando alguns poucos dispositivos. Nem ousarei citar algum, pois na publicação desse trabalho, já será obsoleto e estará ultrapassado meu exemplo.
A mídia não apenas veicula informações, mas constrói discursos e produz significados. Estar conectado hoje é existir. A máxima de Descarte “Penso, logo existo” hoje já pode ser modificada para “acesso, logo existo”. Vincula, inclusive uma brincadeira entre os internautas que diz que, se uma coisa qualquer não está no Google10, ela não existe.
Com o exposto, falar em educação hoje sem falar das novas exigências do trabalho docente, dos novos alunos em nossas salas, dos novos modos de aprender e ensinar e dos imensuráveis conhecimentos e informações disponíveis na internet, parece-nos falar de um processo educacional e de uma escola do passado, que já não existem mais, pois para além dos prédios, a escola somos nós: alunos, professores e demais atores educacionais que a povoamos. Essa nova escola, nesse novo cenário é que nos interessa e sobre a qual nós, pesquisadores, devemos nos debruçar para tentar entender seu ritmo, que pulsa no compasso da globalização e não tem como não percebermos nem voltarmos atrás, pois
[...] vale dizer que, com as novas tecnologias, o lugar do saber se descentraliza e se expande, fazendo com que o conhecimento esteja em todo lugar e em nenhum lugar. (SILVA, 2001, p. 22)
A forma como os professores concebem o trabalho docente e a visão positiva ou negativa que têm da carreira docente vai interferir, inevitavelmente, em sua
10Empresa multinacional de serviços on line e software dos Estados Unidos. O Google hospeda e desenvolve uma série de serviços e produtos baseados na internet e gera lucro principalmente através da publicidade.
prática pedagógica. E, por falar em trabalho docente, vamos esclarecer o que chamamos neste trabalho de profissionalização docente.
António Nóvoa (1991) fala de uma cultura profissional dos professores.
Segundo ele,
a produção de uma cultura profissional dos professores é um trabalho longo, realizado no interior e no exterior da profissão, que obriga a intensas interações e partilhas. O novo profissionalismo docente tem de basear-se
modifica profundamente a própria natureza do trabalho e a atividade do trabalhador”
(TARDIF; LESSARD, 2011, p.28). O fato de o professor lidar com outro ser humano, interagindo com ele, ensinando e também aprendendo, faz toda diferença na profissão docente, configurando-se como uma profissão de interação humana. “[...]
ensinar é trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos, para seres humanos” (TARDIF; LESSARD, 2011, p.31). O professor exerce um trabalho interativo com outros seres humanos, um trabalho material, porém que também é cognitivo, sobre o outro, com todas as sutilezas que caracterizam as relações humanas. Nisso reside a centralidade da profissão docente para os autores.
Os autores apresentam ainda a docência como um trabalho flexível, pois lidando com seres humanos, suas especificidades, peculiaridades e subjetividades, todas misturadas em um mesmo ambiente, sobe as mesmas condições, porém com reações tão distintas diante de delas, fazem com que uma aula, uma turma, um professor nunca seja o mesmo na presença do outro, do grupo, em dado momento do processo de ensino.
A docência é, então, concebida como um “artesanato”, uma arte aprendida no tato, realizada principalmente às apalpadelas e por reações parcialmente refletidas em contextos de urgência. (TARDIF; LESSARD, 2011, p.46).
Para Contreras “[...] a profissionalidade refere às qualidades da prática profissional dos professores em função do que requer o trabalho educativo”. E, mais adiante, eles completam o pensamento:
falar de profissionalidade significa, nesta perspectiva, não só descrever o desempenho do trabalho de ensinar, mas também expressar valores e pretensões que se deseja alcançar e desenvolver nesta profissão.
(CONTRERAS, 2011, p. 74).
O autor apresenta ainda três dimensões da profissionalidade docente que situam o professor em condições de dar uma direção adequada à sua preocupação em realizar um bom ensino e são importantes para conceber a autonomia docente a partir de uma perspectiva educativa. A saber: a) a obrigação moral:
[...] acima das conquistas acadêmicas, o professor está comprometido com todos os seus alunos e alunas em seu desenvolvimento como pessoas, mesmo sabendo que isso costuma causar tensões e dilemas: é preciso atender o avanço na aprendizagem de seus alunos, enquanto que não se pode esquecer das necessidades e do reconhecimento do valor, que como pessoa, lhe merece todo alunado” (CONTRERAS, 2011, p.76).
E mais adiante complementam: “este aspecto moral do ensino está muito ligado à dimensão emocional presente em toda relação educativa” (CONTRERAS, 2011, p. 77). Novamente aparece a questão da interatividade nas relações entre alunos e professores; b) o compromisso com a comunidade: em relação a isso o autor afirma que “a educação não é um problema da vida privada dos professores, mas uma ocupação socialmente encomendada e responsabilizada publicamente”
(CONTRERAS, 2011, p. 79). Ou seja, cada sociedade vai formar professores dentro de sua cultura local para lidar com sujeitos também se desenvolvendo dentro dessa mesma cultura, então, há que se esperar certo modo de convivência social pertinente à comunidade onde o trabalho desse professor se dá. “Isso obriga a que as práticas profissionais não se constituam como isoladas, e sim como partilhadas”
(idem); c) a competência profissional: o autor afirma que “a competência profissional transcende o sentido puramente técnico do recurso didático” (CONTRERAS, 2011, p.
82), referindo-se a uma competência complexa, que combina habilidades, princípios e consciência do sentido e das consequências das práticas pedagógicas (CONTRERAS, 2011, p.83).
A seguinte afirmação de Tardiff e Lessard, sobre o trabalho docente nos remete ao também à ação dos professores blogueiros:
a docência é um trabalho cujo objeto não é construído de matéria inerte ou de símbolos, mas de relações humanas com pessoas capazes de iniciativa e dotadas de certa capacidade de resistir ou de participar da ação dos professores (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 35).
Essa interação, que pode ser participativa ou de resistência, está bastante evidente nos blogs de professores, muito mais participativa que de resistência, sendo que blogs os debates entre eles são quase sempre de concordância com o que é postado, quando não, de complemento ao que fora dito. Raramente refutando alguma afirmação ou informação. O mesmo já não acontece nos debates desenvolvidos nas redes sociais, como veremos mais adiante.
Os autores consideram ainda do trabalho docente como status, que representa, no fundo, aspectos normativos da função e remetem à questão da identidade do educador, tanto dentro da escola quanto na sociedade. Onde antes se destacava a instituição escola, hoje se destaca o professor (TARDIFF; LESSARD, 2011, p. 50-51). É mais frequente ouvir-se a respeito do status dos professores que das escolas onde trabalham.
E, por fim, os atores também relacionam a docência como experiência, remetendo às experiências acumulados pelos docentes ao longo da carreira, que fazem com que adquiram o chamado “domínio de turma”, por possuírem manejo das mais variadas situações, repetindo comportamentos que se mostraram eficazes; e também remetendo às experiências que marcam definitivamente a carreira do professor, amadurecendo-o e apurando seu profissionalismo. (TARDIFF; LESSARD, 2011, p.51). Isso porque ambos os tipos de experiências se dão no âmbito do processo ensino-aprendizagem, nas interações com os alunos, reforçando mais ainda o fato da docência ser primordialmente uma profissão de interações humanas.