A literatura acadêmica nos permite compreender que a formação docente deve caminhar alicerçada na indissociabilidade entre a reflexão e a ação, entre a teoria e a prática educativa, tendo a universidade e a escola como lócus privilegiados dessa formação, valorizando a produção do conhecimento pelo docente, como um sujeito pensante e um agente ativo do saber. Nesse sentido, deve-se primar não somente pela formação inicial, mas também pela formação continuada, uma vez que o aprendizado é um processo vivo, dinâmico e permanente na vida dos seres humanos.
2.8.1 Formação Continuada
Os desafios da escola do século XXI são grandes e o professor é o condutor do processo educativo, por isso, a prática docente tem sido alvo de discussão, principalmente nas próprias salas de graduação nas universidades, pois a maior questão é exatamente refletir junto aqueles que irão se formar como futuros educadores.
Nesse sentido, é indispensável que os professores reflitam sobre o papel social da escola, a fim de construir um juízo crítico capaz de saber identificar, avaliar e analisar informações, com vista a lidar com as demandas sociais desse tempo (violência, relações de gênero, sexualidade, homossexualidade, entre outros).
Não há o que questionar: os professores são os animadores da aprendizagem com suas práticas, suas reflexões, seu compromisso e sua competência. A sala de aula é o espaço privilegiado onde a ação educativa se realiza, numa relação direta entre aluno e professor. Nesse sentido, a tarefa de ensinar e aprender exige formação, tempo e planejamento.
Dessa forma, para conseguir bom desempenho, os professores precisam se sentir preparados para o exercício da ação docente, o que exige um amplo programa de formação continuada. Ao tratar sobre essa formação como instrumento de profissionalização, Alarcão (1998) afirma:
Entendo que a formação continuada de professores deve visar ao desenvolvimento das potencialidades profissionais de cada um, a que não é alheio o desenvolvimento de si próprio como pessoa. Ocorrendo na continuidade da formação inicial, deve desenrolar-se em estreita ligação com o desempenho da prática educativa.
Nóvoa (1992) destaca que a formação deve estimular uma perspectiva crítico- reflexiva para fornecer aos professores os meios de um pensamento autônomo, facilitando as dinâmicas de autoformação. Diante dessa consideração, os professores precisam refletir constantemente sua prática docente, a partir de um processo de reflexão pessoal em que possam descobrir suas potencialidades para desenvolver novos saberes e habilidades que transformem sua prática pedagógica em sala de aula, visando o tipo de aluno que quer formar e o tipo de sociedade que quer ajudar a construir.
2.8.2 Papel do professor diante da homossexualidade no contexto escolar
Para compreender a atitude do professor à frente problemática da sexualidade, como algo constantemente presente no ambiente escolar, provocando dúvidas e inquietações, é necessário que os mesmos se prepararem adequadamente, com base numa sólida formação, sem cair nos modismos de época e bem fundamentados em concepções progressistas e emancipatórias, conscientes dos termos a serem utilizados, principalmente com as noções de diferença, diversidade, gênero e sexualidade existente na sociedade, as quais estão dentro de sala de aula, tendo em vista que a escola é um espaço em que as manifestações sexuais são evidenciadas com recorrência, por isso é importante fomentar estratégias de promoção do respeito às diferenças de cada um.
Braga (2010) salienta que as manifestações de gênero e sexuais são cogitadas na escola e por muitos momentos são trabalhadas de modo impróprio. Ao que parece isso ocorre porque os professores apresentam dificuldade em tratar desse tema em seu cotidiano. No tocante à homossexualidade, essa dificuldade torna-se ainda maior, em virtude de ser vista de forma restrita, vinculada ao preconceito e desrespeito, adjetivos associados, muitas vezes, impostos pelos meios políticos, morais, religiosos e afins.
Tomando como referência os PCN (BRASIL, 1996), intitulado em seu volume 10 como “Orientação Sexual e Pluralidade Sexual”, são trabalhados os temas transversais. Esse documento também traz como proposta conteúdo específico a ser
trabalhados, como: sexualidade, prevenção contra gravidez, Doenças Sexualmente Transmissíveis, AIDS e prevenção para saúde sexual.
Embora nos PCN se apresente a proposta de trabalhos com esses temas transversais, grande parte dos professores não se dispõe a explorá-los, alegando despreparo e encerrando o assunto sem delongas. Há que se refletir, então, sobre a necessidade de uma formação que contemple as preocupações dessa natureza.
A orientação sexual é tratada teoricamente com o tema da sexualidade na infância e adolescência, incluindo questões como posturas, crenças tabus e valores, porém não se concretiza, pois encontra o silêncio embutido quando não encontra espaço no currículo, nas disciplinas, para tratar sobre o assunto. Interessante ressaltar que os PCN distribuídos para as escolas, não tinha sido lido ou consultado pelos docentes que participaram da pesquisa.
Em muitos casos, os professores trabalham apenas na disciplina de Ciências, sem seguir a transversalidade no ensino, abordando apenas questões de fisiologia do corpo e reprodução humana, delimitando assim a discussão, motivo pelo qual se faz premente a inserção dessa temática na formação dos professores.
Sabemos que não é tarefa fácil, em decorrência de muitos tabus, e por não aparecer nos livros didáticos também, por isso os professores encontram muitos desafios, principalmente o medo dos pais dos alunos não aceitarem.
Dessa forma, a construção de relações e espaços de aprendizagem no âmbito escolar exige dos educadores uma prática sempre inovadora, criativa e uma formação continuada com ênfase para alcançar os objetivos e o crescimento educacional dos alunos. Isso contribuirá, no nosso entendimento, para o desenvolvimento de um trabalho amplo, não pautado apenas para o cumprimento de metas e conteúdo, mas sim para uma formação mais ampla.
Diante disso, compreendem-se as razões pelas quais muitos adolescentes não encontram abertura e são impedidos de falar de seus sentimentos, inquietações, medos e anseios, e é nesse período que muitos se auto afirmam e por vezes, manifestam sua sexualidade em alto nível de rebeldia.
Para Ferreira e Luz (2009), a escola pode reproduzir papeis de gêneros e modelos de sexualidade que oprimem, mas que também podem construir relações que libertem. Nesse sentido, a escola deve agir no respeito à diversidade. É preciso apoiar os alunos, devendo os professores auxiliá-los no diálogo e discussão sobre sua sexualidade,
ou caso contrário, muitos tendem a abandonar as salas de aula por não se sentirem acolhidos, compreendidos e aceitos nesse espaço.
Louro (2000,) complementa que as instituições têm a ver com as formas como construímos nossas identidades sociais, especialmente nossa identidade de gênero e sexual. O professor, como um formador de opiniões e responsável pela difusão de conhecimentos, deve assumir o compromisso de ser transparente, desprendido de preconceitos e esclarecer os equívocos colocados na escola pelo senso comum, numa sociedade que está sempre ditando o que é certo e errado.
É de suma importância que o professor possa refletir essa nova realidade, repensar sua prática e construir novas formas de ação que permitam não só lidar com os discursos e teorias, mas também possa reconstruí-los e reconfigurá-los nas ações cotidianas, pois o mesmo não é apenas um transmissor de conhecimento, mas “é aquele que reconstrói permanentemente o seu saber profissional. Assim, mais do que um reprodutor de práticas, o professor é um reinventor de práticas...” (CANÁRIO, 2006, p.
22).
Cabe ressaltar também, que a figura do professor ganha mais destaque em virtude de muitos pais dos alunos não falarem sobre sexualidade e orientação sexual, e quando isso ocorre, geralmente, não é abertamente, pois não tiveram nenhum preparo e acham que não está na hora. Para isso, é importante que professores se utilizem de diferentes estratégias; aulas, palestras e vídeos sempre dialogando sobre o tema, para que possam ajudar na luta de conscientização da diversidade. As escolas precisam se adequar a estas questões oferecendo subsídios ao aluno para que possa pensar o mundo contemporâneo e, mais do que isso, vive-lo plenamente.
No capítulo seguinte será abordado sobre o percurso metodológico do estudo.
3 METODOLOGIA
Nesse capítulo serão apresentados os aspectos metodológicos do estudo, o tipo de pesquisa e os instrumentos de coleta de dados, o local e os sujeitos participantes, bem como sobre a organização e sistematização dos dados para posterior análise.