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A FORMA DAS VERTENTES

No documento Fundamentos de GeomorFoloGia e BioGeoGraFia (páginas 42-48)

TÓPICO 2 – ANÁLISE DE VERTENTES E OS MOVIMENTOS DE MASSA

2.3 A FORMA DAS VERTENTES

No que se refere à evolução dos conhecimentos geomorfológicos, cabe destacar que o desenvolvimento do perfil das vertentes talvez tenha sido um dos temas mais difíceis de serem interpretados.

Apesar dos conhecimentos adquiridos desde o início do século XX, até pouco depois da metade deste mesmo século, as concepções sobre o perfil das vertentes ainda não eram conclusivas. No intuito de discutir esta problemática foram seguidas duas metodologias distintas. Segundo Bigarella (2003, p. 973), uma das metodologias procurou dar “um tratamento geométrico, muitas vezes matemático, para deduzir o que poderia resultar numa vertente inicial, a partir de uma sequência de condições estipuladas”. A outra metodologia, utilizada desde os tempos de Gilbert e Davis, corresponde à análise de inúmeras observações, ou seja, o uso do método empírico. É evidente que esta metodologia não tem a mesma precisão que a geométrica.

Existe uma diversificação de tipos de vertentes que abarcam desde superfícies suavemente inclinadas, bem como superfícies muito íngremes, escarpadas, quase verticais. Contudo, antes de verificarmos os tipos básicos de vertentes é importante destacar os principais termos utilizados para descrever as parcelas componentes das mesmas. Vejamos, segundo Christofoletti (1980, p. 39):

Unidade de vertente → consiste em um segmento ou em um elemento. Segmento → é a porção do perfil da vertente na qual os ângulos

Elemento → é a porção da vertente na qual a curvatura permanece

aproximadamente constante. Pode ser dividido em elemento convexo, com curvatura positiva, quando os ângulos aumentam continuadamente para baixo, e elemento côncavo, com curvatura negativa, quando os ângulos decrescem continuadamente para baixo.

Convexidade → consiste no conjunto de todas as partes de um perfil de

vertente no qual não há diminuição dos ângulos em direção à jusante.

Concavidade → consiste no conjunto de todas as partes de um perfil de

vertente no qual não há aumento dos ângulos em direção à jusante.

Sequência de vertente → é uma porção do perfil consistindo

sucessivamente de uma convexidade, de um segmento com declividade maior que as unidades superior e inferior, e de concavidade.

Ruptura de declive → consiste no ponto de passagem de uma unidade

à outra.

A maior parte das vertentes é composta por vários segmentos. Para Bigarella (2003), as vertentes, por sua vez, geralmente apresentam um perfil formado por um segmento superior convexo, no qual a declividade aumenta para a jusante, seguido por um segmento inferior côncavo com redução de declive encosta abaixo. Pode-se encontrar também um segmento retilíneo com uma declividade constante, bem como, segmento escarpado marcado pela presença de rochas mais resistentes, no qual os detritos intemperizados deslizam livremente. Você deve estar imaginando ou tentando imaginar, diante do que foi exposto, o perfil dos vários segmentos das vertentes. Para facilitar sua compreensão, atente para as figuras que seguem.

FONTE: Adaptado de Bigarella (2003)

FIGURA 13 – DESIGNAÇÃO DOS VÁRIOS SEGMENTOS DA VERTENTE. A FIGURA A1 REPRESENTA UMA VERTENTE CONVEXO-[RETILÍNEA]-CÔNCAVA-CONVEXA. A FIGURA A2

CORRESPONDE A UMA VERTENTE CONVEXO-CÔNCAVA. A FIGURA B REPRESENTA UMA VERTENTE FORMADA PELO RECUO DA ESCARPA

O perfil típico de uma vertente, conforme Max Derruau (em 1965), geralmente apresenta uma convexidade no topo e uma concavidade na parte inferior, sendo que ambas estão separadas por um simples ponto de curvatura e/ou desvio ou por segmento. (DERRUAU, 1965 apud CHRISTOFOLETTI, 2005). Conforme Christofoletti (2005, p. 39), “quando tais vertentes se encontram recobertas por um manto de detritos, com superfície lisa e sem ravinamentos, são denominadas de regular ou normal”. É importante salientar que a declividade de uma vertente para outra varia muito. Contudo, a declividade nas vertentes normais é sempre inferior à dos taludes de gravidade dos materiais. (CHRISTOFOLETTI, 2005).

Observe na figura a seguir a composição de uma vertente normal ou regular, conforme a concepção de Max Derruau. A área pontilhada indica o regolito.

FONTE: Christofoletti (1980)

FIGURA 14 – A COMPOSIÇÃO DA VERTENTE NORMAL OU REGULAR, CONFORME A CONCEPÇÃO DE DERRUAU (1965)

Não podemos deixar de ressaltar também a importante contribuição de Frederick R. Troeh, que utilizou equações matemáticas para explicar as formas das vertentes. Atente para os quatro tipos básicos de vertentes, combinando a concavidade e convexidade, conforme a concepção de Troeh, em 1965.

FONTE: Adaptado de Christofoletti (1980)

FIGURA 15 – OS QUATRO TIPOS BÁSICOS DE VERTENTES, COMBINANDO A CONCAVIDADE E CONVEXIDADE, CONFORME TROEH (1965)

Diferentemente do perfil típico de vertente apresentado anteriormente por Max Derruau e Frederick R. Troeh (ambos em 1965), vale a pena relembrar que Lester C. King (em 1953) propôs um modelo universal, no qual a vertente típica apresenta quatro partes: convexidade no topo; face livre ou escarpa retilínea; parte reta com detritos da porção superior da vertente e pedimento suavemente côncavo. Observe essas quatro partes na ilustração a seguir.

FONTE: Adaptado de Christofoletti (1980)

FIGURA 16 – AS QUATRO PARTES COMPONENTES DA VERTENTE, CONFORME O MODELO APRESENTADO POR KING, EM 1953

Contudo, anterior à proposta de King (em 1953), Arthur N. Strahler (em 1950) divide as vertentes erosivas em três tipos básicos considerando o ângulo de repouso dos materiais não coesivos. O primeiro corresponde às vertentes em repouso, dentro dos limites do ângulo de repouso. O segundo refere-se às vertentes de alta coesão, elaborada comumente em material rochoso, apresentando uma declividade maior. E o terceiro diz respeito às vertentes reduzidas pelo escoamento difuso e rastejamento, ou seja, declividades suaves.

Não podemos deixar de destacar as contribuições de Dalrymple, Blong e Conacher (em 1968). Estes propuseram nove unidades hipotéticas no modelo de perfil das vertentes, baseando-se nos estudos em áreas temperadas úmidas. Para eles, a vertente é um sistema complexo tridimensional que se “estende do interflúvio ao meio do leito fluvial e da superfície do solo ao limite superior da rocha não intemperizada”. (CHRISTOFOLETTI, 1980, p. 40). Nesta concepção, a vertente é dividida em nove unidades, cada uma sendo definida em função da forma e dos processos morfogenéticos dominantes e normalmente atuantes sobre ela. Observe atentamente na figura a seguir as nove unidades hipotéticas no modelo de vertente.

FONTE: Adaptado de Christofoletti (1980)

Para ampliar a discussão quanto à feição tridimensional de uma vertente, Ruhe (em 1975-1979) apresenta nove aspectos geométricos dependentes do perfil e da forma. As várias feições compõem segmentos que estão associados de diversas maneiras, sem que isso implique na presença de todos numa determinada vertente. (RUHE e WALKER, 1968 apud BIGARELLA, 2003). Vejamos então os nove tipos de feições tridimensionais eventualmente presentes numa vertente.

FIGURA 17 – AS NOVE UNIDADES HIPOTÉTICAS NO MODELO DE VERTENTE APRESENTADO POR DALRYMPLE, BLONG E CONACHER (EM 1968)

FONTE: Bigarella (2003)

FIGURA 18 – GEOMETRIA DAS FORMAS DE VERTENTES CONFORME RUHE (1975, 1979)

LINEAR - LINEAR CONVEXO - LINEAR CONCAVO - LINEAR LINEAR - CONVEXO CONVEXO - CONVEXO CONCAVO - CONVEXO LINEAR - CONCAVO CONVEXO - CONCAVO CONCAVO - CONCAVO

Como você pôde perceber, os métodos de analisar, bem como determinar as formas de vertente, são numerosos. Neste contexto, iremos encontrar pesquisadores que procuram efetuar seus estudos em função de levantamentos dos perfis reais, bem como autores que estudam as formas das vertentes através de equações matemáticas. De modo geral, o emprego de perfis tornou-se uma técnica descritiva com uma ampla aceitação na análise das vertentes. Pode-se dizer que esta técnica foi inicialmente proposta por Savigear (em 1952-1956) e estruturada pelo mesmo autor (1967) e também ampliada por Young (em 1964- 1971). Para eles, o método usado com maior frequência na análise dos perfis de vertentes é dividir as unidades em retilíneas, convexas e côncavas.

No documento Fundamentos de GeomorFoloGia e BioGeoGraFia (páginas 42-48)