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2.1 Trabalho, valor e mercadoria

2.1.3 Forma de valor

Na terceira seção do capítulo 1, Marx apresenta a forma de valor35 ou o valor de troca. Então, dá início à síntese ou exposição, retornando da categoria mais abstrata, simples e

34 No entanto, como se viu, o trabalho abstrato não se caracteriza apenas por ser trabalho fisiologicamente igual.

Nessa passagem, onde Marx escreve “todo trabalho”, deve-se ler “todo trabalho que é executado no capitalismo ou todo trabalho produtor de mercadorias”.

35 Convém esclarecer a diferença existente entre as expressões “forma-valor” e “forma de valor”, tais como

empregadas neste trabalho. “Forma-valor” é um sinônimo para a categoria de valor, e “forma de valor” é um sinônimo para a categoria de valor de troca. Tem-se assim que a “forma-valor” (o valor) é expressa por meio da “forma de valor” (o valor de troca), ou, equivalentemente, que a “forma de valor” (o valor de troca) expressa a “forma-valor” (o valor). Em geral, no inglês, as expressões “value-form” e “form of value” assumem o mesmo sentido aqui atribuído, respectivamente, a “forma-valor” e “forma de valor”. Embora para Marx seja clara a distinção existente entre as determinações dessas duas categorias, ele refere-se a ambas invariavelmente, em alemão, por “wertform”. Ademais, há autores que, ao contrário do entendimento aqui adotado, empregam a expressão “forma de valor” com o sentido de “forma-valor” ou valor; por exemplo, de acordo com Rubin: “Por

forma de valor entendemos não as várias formas assumidas pelo valor no curso de seu desenvolvimento (por

exemplo, forma simples, forma desenvolvida, e assim por diante), mas o valor concebido do ponto de vista de suas formas sociais, isto é, o valor enquanto forma.” (RUBIN, 1987, p. 83, grifo nosso).

essencial de valor para a categoria mais concreta, complexa e aparente de valor de troca e obtendo a categoria de dinheiro ou a forma-dinheiro como a forma necessária de expressão dos valores das mercadorias.

Qualquer um sabe, mesmo que não saiba mais nada além disso, que as mercadorias possuem uma forma de valor em comum que contrasta do modo mais evidente com as variegadas formas naturais que apresentam seus valores de uso: a forma-dinheiro.

Cabe, aqui, realizar o que jamais foi tentado pela economia burguesa, a saber, provar a gênese dessa forma-dinheiro, portanto, seguir de perto o desenvolvimento

da expressão do valor contida na relação de valor das mercadorias, desde sua forma mais simples e opaca até a ofuscante forma-dinheiro. Com isso, desaparece, ao mesmo tempo, o enigma do dinheiro. (MARX, CI, p. 125).

O valor de troca pode apresentar-se por meio de três diferentes formas de valor: a forma

de valor simples, individual ou ocasional, a forma de valor total ou desdobrada e a forma de valor universal. Esta última, por sua vez, assume a forma-dinheiro, a qual, por sua vez, assume

a forma-preço. Marx introduz cada uma dessas formas de valor a partir da necessidade de superação das insuficiências da forma imediatamente anterior, de maneira a obter, por fim, uma forma adequada de expressão do valor.

A forma de valor simples, individual ou ocasional consiste na relação de valor entre uma mercadoria A e uma outra mercadoria B. Tem-se assim que uma mercadoria expressa seu valor por meio de uma outra mercadoria. Trata-se do momento de singularidade do valor de troca, em que o valor é expresso de maneira singular, mas não de maneira geral. Por exemplo:

(A) 20 braças de linho = 1 casaco (B)

Trata-se da mais simples expressão de valor para uma mercadoria. A e B devem ser necessariamente valores de uso diferentes. A assume a forma de valor relativa, e B assume a

forma de equivalente. A é a mercadoria que expressa seu valor, assumindo um papel ativo nessa

relação, e B é a mercadoria que serve de material para a expressão do valor, assumindo um papel passivo. O valor da mercadoria A é expresso por meio do valor de uso da mercadoria B; assim, a forma natural ou o corpo da mercadoria B converte-se na forma de valor da mercadoria A. A igualdade 20 braças de linho = 1 casaco indica que ambas essas quantidades de mercadorias foram produzidas mediante o dispêndio do mesmo tempo de trabalho socialmente necessário e contêm a mesma quantidade de trabalho abstrato. Assim, alterações da força produtiva do trabalho, modificando as quantidades de valores de uso associadas aos mesmos valores, devem alterar a relação de troca entre as mercadorias. Conforme Marx, a forma de

equivalente possui três propriedades peculiares: o valor de uso como forma de manifestação do

valor; o trabalho útil ou concreto como forma de manifestação do trabalho abstrato ou igual; e o trabalho privado como forma de manifestação do trabalho social. Por meio da forma de valor, a oposição interna entre valor de uso e valor contida na mercadoria é representada por meio de uma oposição externa entre duas mercadorias:

A análise mais detalhada da expressão de valor da mercadoria A, contida em sua relação de valor com a mercadoria B, mostrou que, no interior dessa mesma expressão de valor, a forma natural da mercadoria A é considerada apenas figura de valor de uso, e a forma natural da mercadoria B apenas como forma de valor ou figura de valor [Wertgestalt]. A oposição interna entre valor de uso e valor, contida na

mercadoria, é representada, assim, por meio de uma oposição externa, isto é, pela relação entre duas mercadorias, sendo a primeira – cujo valor deve ser expresso – considerada imediata e exclusivamente valor de uso, e a segunda – na qual o valor é expresso – imediata e exclusivamente como valor de troca. A forma de

valor simples de uma mercadoria é, portanto, a forma simples de manifestação da oposição nela contida entre valor de uso e valor. (MARX, CI, p. 137, grifo nosso).

A forma de valor total ou desdobrada consiste na relação de valor entre uma mercadoria A e todas as outras mercadorias B, C, D etc. Tem-se assim que uma mercadoria expressa seu valor por meio de todas as outras mercadorias. Trata-se do momento de

generalidade do valor de troca, em que o valor é expresso de maneira geral, mas não de maneira

singular. Por exemplo:

(A) 20 braças de linho = 1 casaco (B)

= 10 libras de chá (C) = 40 libras de café (D) = 1 quarter de trigo (E) = 2 onças de ouro (F) = ½ tonelada de ferro (G)

O valor da mercadoria A é agora expresso por meio dos valores de uso de todas as outras mercadorias B, C, D etc. existentes, de maneira que a mercadoria A agora se encontra em relação social com o mundo das mercadorias. Por meio dessa forma de valor, evidenciam-se o caráter abstrato do trabalho produtor de mercadorias e o valor como regulador de suas relações de troca, ficando claro que estas possuem um fundamento e não são acidentais:

Na primeira forma – 20 braças de linho = 1 casaco –, pode ser acidental que essas duas mercadorias sejam permutáveis numa determinada relação quantitativa. Na segunda forma, ao contrário, evidencia-se imediatamente um fundamento

essencialmente distinto da manifestação acidental e que a determina. O valor do linho permanece da mesma grandeza, seja ele representado no casaco, ou café, ou ferro etc., em inúmeras mercadorias diferentes que pertencem aos mais diferentes possuidores. A relação acidental entre dois possuidores individuais de mercadorias desaparece.

Torna-se evidente que não é a troca que regula a grandeza de valor da mercadoria, mas, inversamente, é a grandeza de valor da mercadoria que regula suas relações de troca. (MARX, CI, p. 139, grifo nosso).

Nessa forma de valor, a série de formas de equivalente da mercadoria A tem o tamanho da quantidade das demais mercadorias existentes: havendo n mercadorias, tem-se que n-1 devem assumir a forma de equivalente. Assim, cada uma das formas de equivalente é uma forma limitada, sendo todas elas mutuamente excludentes entre si.

A forma de valor universal consiste na relação de valor entre todas as outras mercadorias B, C, D etc. e uma mercadoria A. Tem-se assim que todas as mercadorias, com exceção de uma, expressam seus valores por meio de uma outra mercadoria. Trata-se do momento de universalidade do valor de troca, em que o valor é expresso tanto de maneira singular como de maneira geral; essa forma constitui, portanto, uma unidade das duas formas opostas anteriores. Por exemplo:

(B) 1 casaco =

(C) 10 libras de chá =

(D) 40 libras de café = 20 braças de linho (A) (E) 1 quarter de trigo =

(F) 2 onças de ouro = (G) ½ tonelada de ferro =

Essa forma é obtida invertendo-se a forma anterior. Assim, A assume a forma de

equivalente universal, sendo simultaneamente uma forma de equivalente singular e geral.

Agora, todas as mercadorias expressam seus valores de maneira simples e unitária, por meio de uma única forma de equivalente, de maneira que a expressão do valor torna-se comum a todas as mercadorias ou universal. A posição da forma de valor universal corresponde à gênese lógica do dinheiro.

A forma de valor relativa simples ou isolada de uma mercadoria transforma outra mercadoria em equivalente individual. A forma desdobrada do valor relativo, essa expressão do valor de uma mercadoria em todas as outras mercadorias, imprime nestas últimas a forma de equivalentes particulares de diferentes tipos. Por fim, um tipo

particular de mercadoria recebe a forma de equivalente universal porque todas as outras mercadorias fazem dela o material de sua forma de valor unitária, universal. (MARX, CI, p. 143, grifo nosso).

A forma-dinheiro consiste na relação de valor entre todas as outras mercadorias e a mercadoria-dinheiro. Por exemplo:

(A) 20 braças de linho = (B) 1 casaco =

(C) 10 libras de chá = 2 onças de ouro (F) (D) 40 libras de café =

(E) 1 quarter de trigo = (G) ½ tonelada de ferro =

Essa forma não se diferencia formalmente da forma anterior. Ela surge quando o ouro é socialmente eleito como equivalente universal, sendo escolhido por meio do hábito social como a mercadoria que possui o monopólio de desempenhar esse papel. Tem-se assim que o dinheiro, enquanto ouro, é a mercadoria específica cuja forma natural assume a forma de equivalente universal e que a forma-dinheiro é a forma de valor comum a todas as mercadorias. A posição da forma-dinheiro corresponde à gênese histórica do dinheiro existente à época de Marx: o ouro e a prata metálicos.

Por fim, a forma-preço consiste na relação de valor entre uma mercadoria e a mercadoria-dinheiro, expressa por meio de uma denominação monetária. Por exemplo:

20 braças de linho = £2

Essa forma surge quando os pesos de ouro recebem suas denominações monetárias. Trata-se da expressão de valor relativa simples de uma mercadoria na mercadoria-dinheiro, expressa por meio de uma denominação monetária. Nesse exemplo, 2 onças de ouro recebem a denominação monetária de £2.