2.5. Micotoxinas
2.5.8. Formas de controle de micotoxinas em alimentos
Evitar a contaminação pela adoção de medidas de controle de pontos críticos no plantio, colheita e armazenamento dos grãos deve ser o principal objetivo dos profissionais da área. Inúmeras tecnologias foram desenvolvidas para auxiliar neste processo que incluem, a seleção de genótipos mais resis- tentes de grãos às infestações fúngicas, o controle de insetos nas lavouras e no armazenamento e o desenvolvimento de equipamentos que durante a co- lheita, secagem e armazenamento provoquem mínimos danos aos grãos.
Genótipos de milho mais resistente a Aspergillus flavus e aflatoxinas estão diretamente correlacionados com elevadas concentrações de ácido linoléico no grão.
O uso de ácidos orgânicos, de ambientes pobres em oxigênio, no armazenamento e a utilização de métodos fermentativos de armazenamento de grãos tem sido utilizados como forma de se evitar o crescimento de fungos.
Ácidos orgânicos ou seus sais são normalmente recomendados para uso em lotes com elevada umidade que precisam ser armazenados por longos
períodos. Atuam, provavelmente, pela ação sobre a membrana celular, alte- rando sua permeabilidade, e por difundirem-se com facilidade para o interior da célula fúngica acidificando-a. Se nos lembrarmos de que a explicação da existência de micotoxinas pode ser a de que é uma arma do fungo para impedir que as bactérias possam competir com ele pelo substrato, devemos nos lem- brar que as bactérias também possuem suas armas, sendo a acidificação do meio, uma delas. Entretanto, a toda ação provoca-se uma reação, em caso de uso inadequado dos ácidos, o fungo pode interpretar o ácido orgânico adicio- nado como uma invasão bacteriana ao seu substrato, situação na qual a evolução levou a seleção de uma resposta de contra-ataque com substâncias nocivas as bactérias, ou seja, micotoxinas.
No Brasil, o período da colheita coincide com grandes precipitações pluviométricas, favorecendo o desenvolvimento de fungos. Além disso, os pequenos produtores quase sempre deixam o produto na lavoura após ter pas- sado o ponto de colheita sendo, o que favorece o ataque por carunchos e ainda, armazenam o grão sob condições extremamente deficientes. Assim, é praticamente impossível evitar a contaminação de parte de nossa produção.
Os métodos de detoxificação podem ser: através de remoção física de grãos ardidos, remoção de aflatoxina por solventes polares, destruição através do calor ou degradação de aflatoxinas por substâncias químicas ou microor- ganismos. Todos estes métodos podem ou não ser efetivos, mas, com certeza, são extremamente caros e economicamente inviáveis.
Outro método para colaborar no controle de aflatoxicoses em aves, é a utilização de argilas e aluminossilicatos na dieta para reduzir a absorção de aflatoxinas pelo trato gastrointestinal. O uso de carvão ativado na dieta, obteve resultados pouco expressivos (KUBENA et al., 1986) mas substâncias que obtiveram maior sucesso na tarefa de absorver aflatoxinas, quando adicio- nadas na dieta, são argilas de origem vulcânica: os aluminossilicatos e as bentonitas. PHILLIPS et al. (1988) demonstram que um composto, o aluminossilicato de sódio e cálcio (ASSCA), tem alta afinidade, in vitro, por aflatoxina B1.
Experimentos in vitro e in vivo, demonstraram que a bentonita sódica, originalmente utilizada como aglutinante no processo de peletização de dieta, é um ótimo adsorvente de aflatoxinas (APPLEBAUM & MARTH 1982;
ARABA, 1992; MASIMANGO et al., 1979; SANTURIO, 1994; SANTURIO et al., 1996). Os resultados destes trabalhos demonstram que bentonita sódica reduz os efeitos adversos das aflatoxinas em frangos de corte, da mesma maneira que os ASSCA .
Diversos trabalhos demonstram que o pH da argila influencia signifi- cativamente em sua capacidade de seqüestrarem aflatoxinas. Em geral, quanto mais ácida for a argila, maior será o seu poder seqüestrante.
Em um experimento, ARABA & WYATT (1991) compararam a eficiên- cia adsortiva entre bentonita sódica, aluminossilicato de sódio e cálcio hidratado em concentrações de 0,5 e 1,0% na dieta de frangos de corte com ou sem 5 ppm de aflatoxinas e observaram ser a bentonita sódica um adsorvente mais eficaz que o aluminossilicato de cálcio e sódio hidratado, que provocou pequena redução no consumo das dieta isentas de aflatoxinas.
Outra classe de adsorventes, os mananooligossacarídeos, também são usados para detoxificar dietas, por serem capazes de se complexarem a aflatoxinas e zearelenonas. Também é atribuída a esta classe de adsorvente a capacidade de melhorar a resposta imune de frangos de corte (DEVEWGODA, 1998). Títulos de inibição da hemaglutinação consideravelmente reduzidos nas aves alimentadas apenas com dietas contaminadas por aflatoxinas, voltaram ao normal quando se introduziu suplementação de Sacharomyces cerevisae à dieta.
Em 1988, sete empresas norte americanas realizaram um monito- ramento de micotoxinas em 1018 rações. 38, 12, 40 e 4% foram positivas para aflatoxinas, zearelenona, vomitoxinas e toxina T2, respectivamente. (MUIRHEAD, 1989).
Entretanto, minha experiência pessoal poucas vezes me confrontou com situações onde micotoxinas pudessem estar envolvidas. Dados de duas grandes empresas do setor de Nutrição Animal, indicam a ocorrência extre- mamente baixa de pontos fluorescentes sob a lâmpada de ultravioleta e de amostras com resultados positivos para contaminação por aflatoxinas em concentração superior a 20 ppb. Segundo informações do LAMIC (1999), apenas 2,47% das amostras analisadas obtiveram valores de aflatoxinas superiores a 100 ppb.
Em um surto de aflatoxicose em suínos, relatado por NASCIMENTO et al. (1999), a análise indicou a concentração de 4 ppm de aflatoxinas em uma condição de milho estocado com alta umidade em sacaria visivelmente mofada, com presença de alta quantidade de carunchos e placas de mofo visíveis, condição absurda de armazenamento de grãos em uma pequena granja de 20 matrizes.
O conhecimento de micotoxinas e seus efeitos tornou-se indispensável aos profissionais do campo de Avicultura e Suinocultura. Quanto maior a utili- zação de grãos na composição das rações, maior será a possibilidade de ocorrência de problemas relativos a micotoxinas.
Estudos acerca das micotoxinas são, em geral, caros e necessitam de cooperação entre diferentes áreas do conhecimento, o que dificulta os tra- balhos ou pelo menos minimiza os avanços no conhecimento nesta área. Problemas de produção sem causa aparente são geralmente atribuídos às micotoxinas, mesmo quando de laudos negativos de análise de micotoxinas em rações. Tal fato se deve a ampla quantidade de micotoxinas conhecida, com os mais diversos efeitos sobre a saúde e produção animal, à enorme possibilidade de erro na coleta de amostras representativas para análise de micotoxinas, visto que estas estão presentes em focos de infestação de fungos nos armazéns e sacarias. Assim, como nos primórdios da humanidade em que ao desconhecido eram atribuídos causas divinas, nos casos de queda de produ- tividade ou de falhas em programas de vacinação e de aparecimento de surto de doenças, estes são geralmente, atribuídos às micotoxinas, denominado de “o mal invisível” por alguns pesquisadores.
Tal fato se deve, em parte, ao exagero na real ocorrência de problemas relativos às micotoxinas levantados pelos pesquisadores da área e empresas de venda de produtos relativos à análise de micotoxinas e adsorventes de micotoxinas, o que faz crescer o consumo destes produtos e aumentar as verbas disponíveis para pesquisa nesta área.