4.2 Transformações da estrutura econômica brasileira: de Dutra à Café Filho (1945 – 1955)
4.3.2 Formas de financiamento do Plano de Metas
O Plano de Metas para sua implementação e execução precisaria de vultosas fontes de receitas para sua consecução. Não só os capitais internos, mas também externos foram necessários para se atingir as metas propostas. Dessa forma, nessa seção será tratado as formas que se deu o financiamento, as agências financiadoras do Plano, tanto externas quanto interna e como Kubitschek articulou as suas estratégias e políticas desenvolvimentistas para criar um ambiente propício e atrativo para os investidores e financiadores do Plano. O Plano em si, segundo Orenstein e Sochaczewski (1990), em matérias de planejamento não tinha em si uma proposta de elaboração de financiamento, verificando-se que
O imediato que se percebe na sua elaboração é a total ausência de definição dos mecanismos de financiamento que seriam utilizados para viabilizar um conjunto tão ambicioso de objetivos, com exceção de declarações triviais inseridas mais para aplacar a crítica de seus opositores do que para configurar, efetivamente, uma diretriz de atuação. (ORENSTEIN E SOCHACZEWSKI, 1990, pág. 181).
Corroborando com Orenstein e Sochaczewski (1990), Lessa (1982) afirma que o governo Kubitschek não elaborou, em simultâneo, um plano de financiamento do Plano de Metas, preferindo procurar sua solução ao longo da execução do programa, pois a simples formulação de um esquema de financiamento poderia induzir resistências por parte desta área (LESSA, 1982). No entanto, segundo Maranhão (1981), Kubitschek dispunha de dois tipos de
recursos para financiar o Plano: emissões governamentais e financiamentos externos. Segundo Leopoldi (2002) tanto Juscelino quanto os coordenadores do Plano julgavam ser possível a captação de boa parte do financiamento através de empréstimos públicos externos, combinando com investimentos privados de risco, com a busca das mesmas agências financiadoras e dos técnicos planejadores do BNDE. (LEOPOLDI, 2002).
Claramente, verificou-se que pelos argumentos já expostos, que o governo Kubitschek tinha preferência pelos investimentos estrangeiros, e também pelo fato que, as premissas, diagnóstico e estudos da CMBEU em Vargas já tinham elaborado projetos concretos que tinham o Eximbank e o BIRD como financiadores para assegurar a superação dos gargalos na infraestrutura, e essa seria uma forma viável de financiamento. (VIANNA, 1990). Para tanto, segundo o Conselho de Desenvolvimento apud Benevides (1979), o levantamento de recursos em moedas estrangeiras procurou ser feito através de:
Criação de clima propício a investimentos estrangeiros diretos, através da política de incentivos à implantação de indústrias específicas;
Recursos de entidades de crédito internacional, como o Eximbank (Export – Import Bank) e o BIRD;
Recursos a financiamentos de entidades oficiais estrangeiras (Istituto Mobiliare Italiano, Assunrance Crédit, etc.), através da abertura de créditos bancários a favor do BNDE ou garantidos por avais dessa instituição;
Créditos a curto e médio prazo de fornecedores de equipamentos.
O governo Kubitschek articulou os interesses e objetivos do capital nacional à entrada do capital estrangeiro. Segundo Lessa (1982), além de estímulos permitidos pela legislação de capital estrangeiro, detinha o governo outra fonte de favores nesta matéria. Para isso fortificou agências como o Banco do Brasil e BNDE introduzindo mudanças e aperfeiçoando-os para modificarem o perfil existente, alterando o que concerne a mecanismos tributários, creditícios e cambiais. (DRAIBE, 1985). O Fundo de Reaparelhamento Econômico, criado em Vargas e já examinado anteriormente, criou o BNDE, que constituído inicialmente de recursos adicionais sobre o imposto de renda e depósitos obrigatórios de parte das reservas técnicas das companhias de seguro e capitalização, foi o órgão que se tornou fundamental na viabilidade do Plano de Metas, pelo fato de coordenar as operações financeiras dos investimentos para o cumprimento das
metas, assegurando acessos a crédito no exterior aos empresários via corresponsabilidade com liquidação do débito externo, sendo também responsável assim pelas inversões privadas, preenchendo em grande parte, a lacuna do inexistente mercado de capitais. (LESSA, 1982).
Segundo Draibe (1985), o BNDE se estabeleceu como provedor de recursos à longo prazo – função essencial para o avanço da industrialização, dada a conhecida “atrofia” do sistema bancário privado, incapaz de sobrepujar os estreitos limites do crédito comercial. Complementa a autora que este, fixou-se como órgão centralizador dos recursos públicos exigidos pelos novos investimentos em infraestrutura e indústria de base, sendo o articulador do investimento global, atrelando investimentos privados interno e externo às metas definidas como prioritárias. (DRAIBE, 1985). Para resolver os problemas referentes a incerteza interna Kubitschek lançou mão de um recurso já existente, adaptando-o aos seus objetivos para facilitar a cooperação financeira entre a União, estados e municípios, os Fundos da administração, novos e existentes compuseram as alternativas para contornar os problemas orçamentários. (LAFER, 2002). O mesmo autor destaca os principais Fundos que integraram a pauta de financiamento do Plano de Metas:
Fundo Rodoviário Nacional, criado em 1945, destinava-se à construção, conservação e melhoramento de rodovias, tendo como fonte de recursos a quota da União no imposto único sobre combustíveis e lubrificantes. (Metas 4 e 5 )
Fundo Nacional de Pavimentação, criado em 1953, seus recursos provinham de quota de 30% das sobretaxas arrecadadas pelas importações de petróleo e seus derivados, exemplo de vínculo e a diversificação interna da economia. Destinava-se 80% para a pavimentação de estradas e 20% para a substituição dos ramais ferroviários deficitários por rodovias. (Metas 6,7)
Fundo de Renovação e Melhoramento das Ferrovias, criado em 1945 e reorganizado em 1955, formado com o adicional das tarifas.
Fundo Federal de Eletrificação, criado em 1954, tinha como fonte recursos a percentagem da União no imposto sobre energia elétrica e a partir do exercício fiscal de 1955 passou a contar com 4% do rendimento do imposto sobre o consumo federal, cabia-lhe a função de financiar a eletrificação do país e a instalação de indústrias de equipamento elétrico. (Meta 1)
Fundo Aeronáutico, criado em 1956 e visava ao financiamento da construção ou melhoramento dos aeroportos, em 1957 contava com 15% da taxa de despacho aduaneiro. Foram concedidas subvenções financeiras às empresas de aviação brasileiras. (Meta 12)
Fundo portuário nacional visava ao financiamento de portos e projetos portuários. Seus recursos provinham de uma percentagem de 60% na taxa de melhoramento dos portos e de 8% dos direitos alfandegários. (Meta 10)
Fundo da Marinha Mercante foi criado em 1958 para elevar a tonelagem da Marinha Mercante e garantir mercado para a incipiente indústria da construção naval. (Meta 11)
A criação ou reorganização dos fundos acima mencionados, segundo Lafer (2002), foram decisivas para implementação do Programa, uma vez que estes reduziram ou removeram as fontes de incerteza interna (avais) quanto ao financiamento das metas específicas. Vale ressaltar que os fundos tinham suas reservas depositadas no BNDE, mesmo quando não submetidos aos poderes regulamentados, estando este autorizado a recebê-los em caução quando eles se destinassem a projetos de desenvolvimento econômico. (LAFER, 2002). Das metas que tiveram recursos oriundos do BNDE, a meta 15 (frigoríficos) foi a que teve resultados insatisfatórios, tendo o insucesso atribuído a falha do plano na elaboração das estimativas. (LAFER, 2002).
Quadro 9 – Capacidade de investimento do BNDE a preços correntes de 1952-61 e, em 1962, a preços de 1957-61
Capacidade de investimento do BNDE
Ano A preços correntes de 1952-61 (Cr$ milhões) A preços de 1962 (Cr$ milhões) Índice 1962= 100 1952-1956 6.153 42.926 1957 6.129 27.859 77 1958 8.288 28.579 70 1959 12.651 30.856 85 1960 18.407 40.904 113 1961 32.732 51.955 142 1957-1961 78.207 180.153
Fonte: BNDE, 1962:84, apud LAFER, 2002, pág. 95.
A partir do quadro 9, denota-se assim, a importância do BNDE como fiador indispensável para implementação do Plano de Metas no âmbito da política econômica. Ao
fazer-se um paralelo com as medidas administrativas e políticas econômicas nas implementa de política econômica temos que
Se os Grupos Executivos resultaram na viabilidade administrativa para execução do Programa de Metas em relação ao setor privado, o BNDE representou a principal fonte de controle sobre os mecanismos de financiamento do setor público ligados às metas de infraestrutura. Esses recursos eram, principalmente, avais e garantias indispensáveis para a obtenção de financiamento externo. (BENEVIDES, 1979, pág. 232).
O Plano de Metas conforme examinado no início da seção não tinha uma concepção definida sobre as fontes de financiamento do Plano. Isso de toda forma impactou fortemente nos níveis de endividamento externo pelas políticas de financiamentos adotadas ao longo do plano. Brasília, não estava na proposta inicial de implementação do Plano, todavia foi a sustentação da ideologia desenvolvimentista de Juscelino. Ao que diz respeito ao seu financiamento, muitos autores se referem como um dos fatores que levaram o aprofundamento dos déficits públicos por não fazer parte do orçamento inicial do Plano. Os custos para construção de Brasília variam na ordem de Cr$ 250 milhões e Cr$ 300 milhões a preços de 1961, o que representa de 2 a 3% do PNB do período. (LAFER, 2002). Segundo Skidmore (2010) não houve contabilidade sobre o projeto, o que deu origem a boatos desvairados. Lafer (2002) complementa que os recursos para a construção foram advindos do orçamento anual, devido à insuficiência tributária para financiar despesas correntes do governo, recorrendo assim a um tipo de financiamento inflacionário. Esse foi um dos encalços do período de crescimento econômico do governo Kubitschek, pois conforme será analisado esse crescimento impôs limites e esgotou as formas de financiamento do Plano de Metas, fazendo assim o governo adotar outras estratégias para concluir a implementação do Programa.