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Ao realizarmos a análise da categoria articulação envolvida num conjunto conceitual mais amplo, utilizamos, várias vezes, o conceito de discurso. Em razão de sua especificidade analítica, apropriamo-nos, agora, de maneira mais sistemática, da teoria do discurso, de Laclau e Mouffe, relacionando-a à concepção de discurso de Foucault. Iniciaremos a análise pelo que nos apresenta este último autor.

Os estudos de Foucault, nas ciências sociais, têm assumido expressiva relevância no âmbito da análise de discurso, destacando-se parte de sua obra que, mesmo não sendo pensada especificamente para formular uma teoria do discurso, tem auxiliado muitos estudos nesse aspecto. No conjunto da obra do autor, o tema “discurso” se destaca8. Uma característica mais geral do empreendimento de Foucault é que sua perspectiva central se concentra no domínio do conhecimento das ciências sociais, na relação entre discurso e poder, na produção discursiva dos sujeitos sociais e no funcionamento do discurso na mudança social. Sua produção sobre o discurso é mais específica quanto ao discurso das ciências humanas – como a “medicina”, a “psiquiatria”, a “economia” e a “gramática” (FOUCAULT, 2008), de que se ocupa a análise n'A arqueologia do saber (que, como se sabe, condensa o trabalho de Foucault em obras anteriores, como O nascimento da clínica, História da loucura e As palavras e as coisas). Os estudos de Foucault sobre discurso não se enquadram totalmente na análise de discurso linguístico que se preocupa com a estrutura, a forma, as regras da língua, seja ela textual ou verbal. A sua contribuição dá-se mais quanto às “condições de possibilidade do discurso” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 63) com enfoque sobre as regras de formação, os enunciados, o objeto de estudo, o sujeito do discurso, os conceitos, as estratégias e os tipos de discurso. O discurso, em Foucault, relaciona-se ao “conjunto dos enunciados, na medida em que se apóiem na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento ou utilização poderíamos assinalar (...) na história; é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência” (FOUCAULT, 2008, p. 132-3) das regras do discurso.

Segundo Foucault, discurso “não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apropriar” (FOUCAULT, 2005, p. 10). O discurso, nessa concepção, não se coloca somente

8 Principalmente nas seguintes publicações: A arqueologia do saber (2008 [1969]); A ordem do

no campo da linguística, situa-se também no campo da busca incessante do poder, o que implica, para Foucault, numa distinção entre lingüístico e extralinguístico. Não sendo o discurso apenas operação linguística, tampouco a tradução das lutas, ou sistema de dominação, apontar-se-ia para a articulação de “práticas discursivas”, no âmbito dos enunciados, conjunto de elementos de descrições e inferências. Por práticas discursivas, o mesmo autor entende “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, economia, geografia ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa”. (FOUCAULT, 2008, p. 133). Isso não se confunde com expressões da fala dos indivíduos em relação a determinado objeto; também não se assemelha à atividade racional de construção de um sistema de inferência sobre os objetos; mas antes, como o autor mesmo afirma, trata-se de regras que regem as atividades enunciativas em determinado período socio-histórico, relacionadas a distintos campos de atuação na sociedade; enfim, são feixes de fórmulas que indicam o modo como o discurso se constrói em determinada área da sociedade.

Conforme se observa, a noção de práticas discursivas de Foucault difere daquela apresentada por Laclau, anteriormente discutida. Assim, embora a teorização de Laclau e Mouffe tenha sido feita também com as elaborações de Foucault, aqueles avançaram mais, na noção de práticas discursivas, relacionando-as à perspectiva articulatória hegemônica de atores, enquanto este último se limitou a situá-las no campo das regras do discurso.

Na “Ordem do discurso” (2005), Foucault identificou o que denominou de “sistema de exclusão”: a “palavra proibida”, a “segregação da loucura” e a “vontade de verdade” (FOUCAULT, 2005, p. 8-21). Tal sistema é formado pelo discurso a serviço da exclusão, da segregação, da interdição de indivíduos ou grupos de indivíduos na sociedade. Na verdade, cada uma dessas proposições constitui um sistema de exclusão que, embora surja nos tempos antigos com a segregação da loucura, segundo o autor, passa a coexistir também na sociedade moderna.

A “palavra proibida” são as interdições da fala, o silenciamento, o não-pronunciável sobre assuntos diversos em razão de “um tabu, ritual de circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala” (IDEM: 9). No sistema de exclusão, não é qualquer pessoa que pode falar sobre qualquer coisa, porque as interdições formam um jogo que regula a palavra em áreas, como, por exemplo, da sexualidade, da medicina, da religião, da política, do discurso acadêmico, as quais exigem determinadas condições de conhecimento do sujeito que fala.

A “segregação da loucura”, por vezes, consiste em separar a loucura da razão. Esse debate ocorre, com mais força, no século XVIII. O “discurso” do louco é colocado do outro lado da razão, do lado da desconfiança, do descrédito, da desvalorização. Ainda nos tempos atuais, segue a segregação da loucura mesmo “por linhas distintas [e] por novas instituições” (IDEM: 13). Mais abrangente do que a segregação da loucura, há, nos dias atuais, a segregação dos indivíduos em relação à fala, ao espaço geográfico, ao mundo do trabalho, o centro da cidade. A separação nos tempos pós-modernos se faz de forma sutil ou às claras: povo sem casa; favelado separado (afastado) do centro da cidade; analfabeto sem acesso ao mundo das letras, dos signos, dos livros, trabalhador “desqualificado”, isolado do mercado dinâmico de trabalho e muitas outras formas (estratégias) de separação.

A “vontade de verdade”, ou vontade de saber, configura o que podemos chamar de discurso verdadeiro, que se distingue do discurso falso. Um conhecimento que se impõe sobre o sujeito cognoscente. Ela se apoia em suporte institucional reforçado por “um conjunto de práticas pedagógicas (...), com o sistema de livros, de edições, das bibliotecas, dos laboratórios de hoje” (IDEM: 17). Todas essas exclusões agem também no exterior do discurso, no âmbito das relações sociais, pondo em jogo o “poder e o desejo” (FOUCAULT, 2005, p. 21). Próximo à vontade de saber de Foucault, mas de forma diferente, Pêcheux propôs as “coisas-a-saber”, o “conhecimento a gerir e a transmitir socialmente, isto é, descrição de situações”. Mais que isso: “um projeto de saber que unifica a multiplicidades das coisas-a-saber (...), uma idéia de uma possível ciência da ‘estrutura’ do real” (PÊCHEUX, 2002, p. 34-5). O poder e o desejo, segundo o autor, estariam na base da vontade de coisas-a- saber.

O discurso, subliminarmente, para Foucault, constitui um processo de disputa entre atores, em que determinado ator ou grupo de atores tenta sobrepor-se ao outro, gerando uma “luta” de desreconhecimento, onde aquele que domina o discurso submete ao seu discurso (controle) o outro. Se, por um lado, o sistema da exclusão é exercido efetivamente na alçada das relações sociais, por outro, no aspecto formal e procedimental, ganham relevância os procedimentos internos do discurso, como o “comentário”, a referência ao “autor do discurso” e as “disciplinas” (FOUCAULT, p. 2005, p. 21-45). O comentário consiste das narrativas, das coisas ditas, repetidas que contam e articulam o discurso conforme as circunstâncias. O autor do discurso produz o agrupamento, a unidade e a origem de suas significações como foco de sua coerência. As disciplinas são ordenadas e sistematizadas na produção do conhecimento que funcionam como princípio de controle da produção discursiva. O discurso, portanto, exige certas condições e domínio de conhecimento; do contrário, o indivíduo não

“entrará na ordem do discurso se não satisfazer (sic) a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo”. (IDEM: 37).

Em “A Arqueologia do Saber”, Foucault se insurgiu contra o que chamara de “jogo de noções” (FOUCAULT, 2008, p. 23), que permite um sentido de continuidade e ou unidade de fenômenos e situações, presente em termos como “tradição, influência, desenvolvimento, evolução, ‘mentalidade’ ou de espírito’” (IDEM: 23-4). A noção de tradição, por exemplo, indica a continuidade de fenômenos ou situações nos quais a novidade se subordina e se ofusca na permanência da ação dos indivíduos. Assim também ocorre com a noção de “influência”, que se relaciona à capacidade de transmissão e comunicação dos fatos, de modo a alterar o posicionamento dos indivíduos em relação aos fenômenos. De igual modo, acontece com as noções de “desenvolvimento e de evolução”, as quais permitem reunir fatos dispersos e submetê-los à noção de um único princípio organizador para o desenho (esboço) de unidade futura. O mesmo ainda se dá com as noções de “mentalidade” ou de “espírito”, que permitem agrupar um conjunto de sentido sobre os fenômenos de determinada época. O autor questiona todas essas noções, porque para ele, “é preciso desalojar essas formas e essas forças obscuras pelas quais se tem o hábito de interligar os discursos dos homens”. (FOUCAULT, 2008, p. 24). Tais noções, segundo Foucault, funcionam como unidades, sínteses dos discursos, que, na forma de se expressarem (como blocos de sentidos), pouco o traduzem; por isso mesmo o autor propõe desnaturalizá-las, desalojando seu sentido.

Na sequência, ainda questiona dois aspectos intrinsecamente relacionados. O primeiro é a ideia de que, em tempo algum, é possível, “na ordem do discurso, assinalar a irrupção de um acontecimento verdadeiro” (IDEM: 27), ou seja, o discurso se apresenta aos indivíduos com uma “origem” quase “secreta”, um vazio do qual não nos podemos apoderar. E “desta forma seríamos fatalmente reconduzidos, através da ingenuidade das cronologias, a um ponto indefinidamente recuado (...), [em que] todos os começos jamais poderiam deixar de ser recomeço” (IDEM: 27). O segundo é a ideia de que “todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um ‘já-dito”’ (IDEM: 28), pois o que o discurso formula já está previamente articulado num “meio-silencio”. O discurso, portanto, repousa sobre “um já-mais dito”, que não se expressa nos textos escritos nem na fala, mas, no âmbito da subjetividade.

Com essa análise, na verdade, Foucault procede à desconstrução de noções homogêneas, agrupamentos e sínteses concluídas no discurso. Como o autor mesmo diz, “é preciso renunciar a todos esses temas que têm por função garantir a infinita continuidade do discurso (...). [Por outro lado], é preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso

em sua irruptura de acontecimento” (IBIDEM). Uma vez rejeitadas tais formas agrupadas do discurso, surge todo um conjunto dos enunciados do discurso em amplo campo discursivo.

O campo discursivo é o macroambiente da produção do discurso; nele se pode “determinar as contradições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que pode estar ligado” (FOUCAULT, 2008, p. 31). Na apropriação do discurso, torna-se significativa a categoria formação discursiva. Para Foucault, a formação discursiva articula a confluência de elementos que ordena a regularidade da dispersão e posiciona o discurso. Isso quer dizer que os discursos são construídos e se posicionam no âmbito da formação discursiva. Assim, nenhum discurso estaria livre da influência das formações discursivas que, nas palavras do autor:

No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações) diríamos, por convicção, que se trata de uma formação discursiva. (FOUCAULT, 2008, p. 43).

Com base nessa compreensão de Foucault, a categoria formação discursiva foi mais bem entendida com Pêcheux, Orlandi e Fairclough, os quais designam o sentido de formação discursiva: “aquilo que em uma dada formação ideológica... determina ‘o que pode e deve ser dito’” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 52; ORLANDI, 2007, p. 43). Conforme tais autores, o conjunto dos enunciados, conceitos, temáticas de determinado objeto está envolvido de tal maneira num processo ideológico, que tudo aquilo que os indivíduos falam, escrevem e leem é regulado pelas formações discursivas. Assim, a ideologia9 constitui-se na “condição para a

9 Para Althusser, ideologia é “uma ‘representação’ da relação imaginária dos indivíduos com suas

condições reais de existência” (ALTHUSSER, 2007, p. 85). Em Marx, “os homens são os produtores de suas representações, ideias, etc. e precisamente os homens condicionados pelo modo de produção da sua vida material, pelo seu intercâmbio material e seu desenvolvimento posterior na estrutura social e política” (MARX, 1984, p. 22). Com o apoio dessas definições, melhor dizendo, das leituras de tais autores sobre a “problemática” da ideologia, a começar por Marx, vasta gama de estudos se disseminou. Um dos mais recentes e consistentes é o “Espectro da Ideologia” de Zizek. A noção de ideologia para este autor é mais abrangente que as anteriormente citadas, configura “doutrina, conjunto de idéias, crenças, conceitos (...) destinada a nos convencer de sua ‘veracidade’, mas, na verdade, servindo a algum inconfesso interesse particular do poder” (ZIZEK, 1996, p. 15). Outros autores, no rastro do marxismo mais ortodoxo, falam da ideologia das classes sociais (trabalhadora, empresarial, política) e, ainda, da ideologia da burguesia, da pequena burguesia, dos operários, dos movimentos sociais, da religião. De modo geral, a ideologia é assimilada pelo prisma marxista como sendo o “cimento” da

sociedade. A ideologia, como afirma Zizek, é um mecanismo que garante a reprodução social, a formação dos

sujeitos por meio das relações sociais. Nesse sentido, não há sociedade humana sem ideologia; para as pessoas, é como fala a canção de Cazuza: “ideologia, eu quero uma prá viver”. Na ideologia, o que realmente importa não é o “conteúdo afirmado como tal, mas o modo como esse conteúdo se relaciona com a postura subjetiva envolvida

constituição do sujeito e do sentido [do discurso]” (ORLANDI, 2007, p. 46). Acrescenta a autora: as “formações discursivas, por sua vez, representam no discurso as formações ideológicas” (IDEM: 43). E não existe apenas uma formação discursiva, tampouco uma única formação ideológica, mas várias formações discursivas que representam, pelo discurso, formação ideológica distinta a atuar na formação do sujeito social, colocando-o na “relação imaginária com suas condições materiais [e imateriais] de existência” (IDEM: 46). Nesse sentido, conforme Fairclough, os sujeitos são mais “vítimas” que agentes das formações discursivas, o que não quer dizer que não existem sujeitos das formações discursivas. Eles são vítimas no sentido de que sofrem as consequências daquele processo. Mesmo assim, não são meros agentes passivos delas; eles tornam-se sujeitos pela interpretação dos sentidos em dada formação ideológica. Em tal perspectiva, “as formações discursivas são posicionadas em complexos de formações discursivas relacionadas referidas como ‘interdiscurso10’” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 53). Todavia, no campo da formação discursiva, as palavras não têm sentido em si mesmas, elas expressam o sentido que a formação discursiva lhe atribui – como se o sujeito do discurso estivesse controlado pela formação discursiva em que está envolvido. Mas toda essa linguagem pressupõe uma distinção entre palavras e ação, discurso e prática, que Laclau e Mouffe rejeitarão; o discurso não é um ente que domine ou vitimize; é uma prática – Foucault mesmo concordaria até aqui – que, envolvendo diferentes atores e posições de sujeito, delimita uma “região” do ser social.

Complexos de formações discursivas dominam, pelo envolvimento dos sujeitos, o sentido do discurso e das palavras deles. Na concepção de Orlandi, a partir de Pêcheux, “as palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam. Elas ‘tiram’ seu sentido dessas posições, isto é, em relação às formações ideológicas (grifo nosso) nas quais essas posições se inscrevem” (ORLANDI, 2007, p. 42-3). Por exemplo, a palavra “casa” não tem o mesmo sentido para o empresário da construção civil, para o morador de favela (um sem-teto, que luta pela casa) e para o gestor público. Os três atores estão em formações discursivas distintas. Para o suposto empresário, do campo de formação ideológica capitalista, a palavra “casa” ou “habitação” pode significar oportunidade de negócios, ampliação de margens de lucro, estabelecimento de relações comerciais etc. Entretanto, para o sem-teto, encontrado na obra de Laclau intitulada Misticismo, retórica e política (2002). Para ele, “há ideologia quando um conteúdo particular se apresenta como mais que si mesmo”. (LACLAU, 2002, p. 21).

10 Na formação discursiva, o interdiscurso coloca-se no domínio da memória como “instância de

construção de um discurso transverso que regula, tanto o modo de doação dos objetos de que fala o discurso

para um sujeito enunciador, quanto o modo de articulação destes objetos” (MAINGUENEAU, 1997, p. 115). Dito de modo mais simples, o interdiscurso é “aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente”. (ORLANDI, 2007, p. 31).

também envolvido na formação ideológica de luta social, a palavra “casa” pode significar algo como luta por bem-estar, superação de uma carência social, da intranquilidade, da ausência de referência fixa, mas, também, pode ser sinônimo de luta social, organização e expectativa de vida melhor. Já para o gestor público, de acordo com sua configuração ideológica partidária, a mencionada palavra pode significar pressão social, efetivação de política social, quitação de promessa política, ou, ainda, sinônimo de baderna, de agitação, de bagunça, de desordem. Assim, como cada ator está imerso em formação discursiva diferente, a formação ideológica apresentada no discurso também apresenta diferenciação.

Está claro, portanto, que a diferenciação dos sentidos da palavra se define ideologicamente, ou seja, a palavra apresenta intrínseca relação com as distintas formações discursivas dos atores; pode, inclusive, vir a significar coisas diferentes. Os sentidos não estão predeterminados, porque dependem dos enlaces das formações discursivas, as quais, por vezes, não são blocos homogêneos que funcionam automaticamente (ORLANDI, 2007). O exame da cadeia de diferenciação dos sentidos, dos enunciados sobre o objeto, dos distintos campos discursivos ou “comunidades discursivas” (MAINGUENEAU, 1997), seus detalhamentos são tarefas que cabem ao pesquisador quando do aprofundamento da compreensão do seu objeto, no desvelamento das evidências dos distintos sentidos das palavras.

Se, para Foucault, como vimos acima, o discurso não é totalmente linguístico, para Laclau e Mouffe, ele representa mais que uma ferramenta metodológica de análise – uma análise de discurso, geralmente situada no campo da linguística – ou uma regularidade dispersa de enunciados discursivos que, pelos procedimentos internos, regula o discurso por meio da classificação, da seleção, da ordenação e da distribuição. A teoria do discurso dessa dupla de autores se inscreve em duas perspectivas distintas e complementares: primeira, tomam o discurso como a utilização de instrumentos linguísticos no sentido da fala, do texto escrito, de uma mensagem de líder político, gestor público, liderança comunitária, o que implica dizer que tal recurso pode ser a representação discursiva de determinada instituição, de certo grupo, de um partido político; segunda, sua noção de discurso também se insere no campo disciplinar da linguística com base nas contribuições de Saussure e Wittgenstein – aquele, linguista suíço que ofereceu expressiva contribuição ao projeto linguístico no século XX; este, filósofo que ofereceu importante aporte teórico à linguagem. Consideradas tais perspectivas, a noção de discurso de Laclau e Mouffe situa-se no campo da política, como análise que busca dar sentido à ação social. Assim, o conceito de discurso, na teoria do discurso desses autores, coloca-se no terreno do linguístico e do extralinguístico, afirmando

uma unidade entre ambas as dimensões e, diferentemente de Foucault, inextricavelmente se relaciona às práticas articulatórias que ocorrem em diversos âmbitos da sociedade. O discurso é então, “a totalidade estruturada resultante desta prática articulatória” (LACLAU; MOUFFE, 2004, p. 143 – grifo nosso).

O discurso, nessa concepção, conforma um todo estruturado, dando sentido político ao social, ou seja, não é uma mensagem vazia, um dado objetivo, uma fala descontextualizada, ao contrário, expressa sentido ao social pelas distintas práticas discursivas de distintos atores sociais. Aqui é preciso assinalar mais uma diferença entre Foucault e