2.2 Identidade e Caos
2.2.4 Fractais
2.2.4.1 Fractais e identidades fractalizadas
Qual é a relação estabelecida entre as questões de identidade e as formas fractais? Para iniciar esta reflexão, tomemos o significado das próprias palavras envolvidas nessa relação. Tanto a palavra “fractal” como a palavra “fragmento” têm a mesma etimologia. Ambas vêm do latim
fractus, do verbo frangere que significa “romper, criar fragmentos irregulares”. No entanto, a resposta à pergunta imposta ultrapassa a etimologia lexical. As propriedades dos fractais descritas acima não apenas se aplicam perfeitamente às questões de identidade da sociedade atual, como também contribuem para o entendimento mais profundo dessas questões.
A expressão “identidades fragmentadas”, conforme já visto, tem sido amplamente
utilizada por teóricos da contemporaneidade para descrever o deslocamento e conseqüente processo de fragmentação identitária causado pelas rápidas e constantes mudanças da era global. No entanto, gostaria de propor que essa expressão seja substituída por “identidades
fractalizadas”57, para que possa incorporar toda a complexidade do que traduz.
Para iniciar a argumentação, voltemos às características básicas de um fractal: infinitas possibilidades de fragmentação interna, delimitadas pela área externa e auto-similaridade. Comecemos pelas possibilidades de fragmentação interna. A esta altura deste trabalho, já deve ter
ficado claro para o leitor que a identidade na contemporaneidade não é fixa e estável, mas se ramifica e emerge a cada encontro social. Tantos quantos forem estes encontros e tantos quantos forem os discursos associados a esses encontros, tantas serão as identidades sociais que poderão emergir na vida de um indivíduo. Essa possibilidade de fractalização é infinita, no entanto, é ao
mesmo tempo delimitada tanto pelo fechamento biológico do indivíduo quanto pela sua condição
57 O termo “identidades fractalizadas” foi proposto pela minha orientadora – Dra. Vera Lúcia Menezes de Oliveira e
Paiva – em uma sessão de orientação na qual discutíamos o conceito de fractal. Gostaria de prestar a ela meu tributo de gratidão por esse importante insight que tanto contribuiu para o desenvolvimento posterior deste trabalho.
social. Com relação a esta última, o posicionamento social do indivíduo o limita a determinadas escolhas que, conforme Giddens (2002, p. 84), “são usadas para reforçar a distribuição das
oportunidades de vida”. Por exemplo, as possibilidades negadas pela privação econômica delimitam o acesso a determinados discursos e podem causar a exclusão social e, no caso da identidade, a não emergência de determinados fractais identitários.
Outro fator com relação ao limite externo do sistema é que, ainda que haja inúmeras e
infinitas subdivisões identitárias internas, o ser continua sendo único, ou seja, o indivíduo é apenas um. No exemplo já mencionado anteriormente, ainda que haja as identidades de mãe, filha, professora, pesquisadora, e outras tantas, continuo sendo uma única pessoa, vivendo em uma coordenada de tempo e espaço que, ao mesmo tempo em que me torna única, possibilita a
emergência das minhas várias identidades.
Tomando novamente a primeira propriedade do fractal, vejamos as figuras 7 e 8 abaixo, para visualizarmos os argumentos propostos. O triângulo apresentado é delimitado pela área
externa. Assim também, o nosso eu é delimitado por nosso fechamento biológico e pela nossa situação social. No entanto, dentro deste limite externo, há infinitas possibilidades de subdivisões internas (novos triângulos, auto-similares ao todo). Também a identidade individual externa é composta pela interação entre as diversas possibilidades de subdivisões internas.
FIGURA 7: Triângulo conhecido FIGURA 8: representação das como “Sierpinski gasket” – uma das múltiplas identidades humanas. formas de representação da geometria
Passemos agora para a segunda característica dos fractais – auto-similaridade. Esta característica se refere ao fato de um fractal ser semelhante em diversas escalas e implica que o
todo contém todas as propriedades da parte, assim como as partes contêm todas as propriedades do todo. Com relação às questões de identidade, a identidade social é composta pela interação das múltiplas identidades que emergem na vida do indivíduo. Porém, cada identidade que emerge, influencia e é influenciada pelas outras. A forma como penso e ajo enquanto mãe é condicionada
pela forma como vivi e vivo minha identidade de filha, professora, e as demais que emergiram em minha trajetória de vida. Cada uma dessas identidades se desenvolve de determinada maneira em face das outras. E qual delas alinha todas? Hall (2001, p. 20) responde a essa pergunta ao afirmar que “nenhuma identidade singular pode alinhar todas as diferentes identidades com uma
identidade mestra, única, abrangente”.
Para melhor entender essa questão, voltemos à Psicologia Gestáltica e tomemos a noção de figura/fundo. A emergência da figura só é possível tendo o fundo que faz parte da mesma
imagem. Conforme o ângulo de que se vê, novas figuras se formam, mas todas elas ao virem “para frente”, colocam as outras possibilidades de visualização ao fundo. Também a emergência identitária assim ocorre. Cada encontro social faz com que uma identidade emerja, mas essa identidade que emerge possui todas as propriedades das outras e quando ela emerge, as demais
não desaparecem, apenas se mantêm como fundo. É interessante observar ainda que, em um mesmo encontro social, múltiplas identidades podem emergir, dependendo dos atores e discursos sociais envolvidos. Assim, um aluno assistindo a uma aula, ao receber um telefonema no celular da namorada, passa o fractal identitário de aluno para o fundo e assume o de namorado por
alguns minutos; após desligar o telefone, volta para sua identidade de aluno e coloca a de namorado ao fundo. Outras vezes, é possível observar em aula que, embora a situação social concorra para a emergência da identidade de aluno, o indivíduo está pensando em seus problemas
pessoais e deixa que suas outras identidades se façam presentes ali, colocando a identidade de aluno ao fundo. Estes exemplos foram dados para explicar como não podemos dizer que uma
única identidade pode alinhar as outras e como todas elas se auto-influenciam e condicionam. Voltemos agora ao termo identidade fragmentada. Fragmentos são pedaços e o uso deste termo nos leva a imaginar que a contemporaneidade, ao causar o deslocamento das identidades estáveis, transforma o ser humano em pedaços de si mesmo. Mas conforme já foi dito, este
processo não concorre apenas para a fragmentação, mas também para a unificação e a identidade social é única justamente porque é composta por estas diferentes partes.
O que à primeira vista parece ser um paradoxo é perfeitamente compreendido se tomarmos a propriedade de auto-semelhança dos fractais: as partes possuem as propriedades do
todo e o todo contém todas as propriedades das partes. Essa noção é essencial para formar um senso de “inteireza” do ser humano. As múltiplas identidades do indivíduo não são “pedaços” do todo que é a identidade social do mesmo. Elas contêm em si todas as características do “eu”
inteiro e ao mesmo tempo, de cada uma das outras partes. O “eu” social emerge a partir da interação das múltiplas identidades que o compõem e, sendo assim, possui todas as propriedades e características de cada uma delas. Por outro lado, cada fractal de identidade ao emergir, não desconstrói os outros, mas é influenciado por eles e possui em si, as características deles.
É devido a esse processo descrito que podemos dizer que os processos de (re)construção identititária e aprendizagem de línguas guardam entre si uma inteiração, muito mais que uma interação. O engajamento de determinado indivíduo no processo de aprendizagem de línguas faz com que um novo fractal identitário emerja: o de aprendiz de língua estrangeira. Como esse
fractal está em interação com os demais e com o todo, isso faz com que a emergência do primeiro cause a reconstrução dos demais e, em última instância, da noção de todo identitária emergente, que agora é, também, influenciada pelo fractal identitário de aluno de língua estrangeira. Nesse
sentido, a emergência do fractal identitário de aprendiz de línguas estrangeiras atua sobre o processo de construção da identidade social, influenciando-o e agindo sobre ele. Por outro lado,
esse fractal emergente de aprendiz passa a interagir com os demais fractais identitários daquele indivíduo. Da interação entre eles, resultará uma negociação, algumas vezes harmônica, outras vezes conflituosa, desses fractais. Essas negociações estabelecidas, por sua vez, influenciam o processo de aprendizagem de línguas, podendo contribuir para sua maximização (no caso das
negociações harmônicas e bem estabelecidas), ou para seu fracasso (no caso das negociações conflituosas e mal sucedidas). É com base nesse argumento, que proponho, nesta reflexão, que haja uma inteiração, muito mais que uma interação entre os processos de aprendizagem e construção identitária.
Mais uma vez, a visão trazida pela Teoria da Complexidade possibilita uma nova perspectiva para as questões relativas à identidade social. Uma vez que em um sistema “as conexões entre os componentes criam uma espécie de unidade ou todo sobre o sistema”58
(LARSEN-FREEMAN e CAMERON, 2008, p. 26), assim também o olhar da complexidade sobre as questões de identidade social requer que resgatemos a noção de todo, ausente do termo “identidades fragmentadas” e evocada no termo “identidades fractalizadas”. Assim como Wenger (1991, p. 53) observa,
É através do processo teórico de descentramento em termos relacionais que alguém pode construir uma noção robusta da “pessoa como um todo”59que faça justiça às
múltiplas relações através das quais as pessoas se definem na prática60.
58 The connections among components create a kind of unity or wholeness about the system (LARSEN-FREEMAN
e CAMERON, 2008, p. 26).
59 Aspas do autor.
60 “It is by the theoretical process of decentering in relational terms that one can construct a robust notion of ‘whole
person’ which does justice to the multiple relations through which persons define themselves in practice” (Wenger, 1991, p. 54).
Por essa visão, as múltiplas identidades não “partem o ser em pedaços”, ao contrário, corroboram a construção da visão de um ser inteiro e complexo, que não pode ser estudado,
tomando-se apenas as partes isoladas e fragmentadas, mas tomando-as como em constante interação entre si, com o todo e com o ambiente social que determina sua emergência.
Evocando, então, as duas propriedades dos fractais, proponho que o termo identidade
fractalizada seja usado para se refirir ao caráter dinâmico e emergente do processo de
(re)construção identitária, o qual ocorre infinitamente de acordo com as também infinitas possibilidades de pertencimento às e vivência nas práticas sociais, porém é delimitado pelo fechamento biológico e posicionamento sócio-histórico do indivíduo. Este conceito de identidade fractalizada requer, ainda, que entendamos o “eu” social como constituído pelos diversos fractais
identititários que emergiram nos encontros sociais vividos, estando esses em constante interação, se auto-influenciando e auto-constituindo e corroborando uma noção de todo identitário que não é único, estável e pré-determinado, mas que é diverso, emergente e reconstruído continuamente em
face das experiências e transformações vividas por cada fractal identitário que o compõe.
Tendo em vista essa argumentação, passo a partir de agora a usar o termo “identidade fractalizada” (e não identidade fragmentada) para evocar as propriedades dos fractais que melhor representam a identidade como um sistema complexo e caótico e para o entendimento de como os
efeitos da contemporaneidade não despedaçam o ser humano, simplesmente, o tornam mais complexo.