2. RODAS DE CHORO
2.7 Frases de Baixo – Baixarias – Linhas de Baixo
As baixarias são os fraseados melódicos executados na região médio-grave dos violões de seis e de sete cordas, característicos da linguagem brasileira de acompanhamento. Essas frases melódicas, produzidas e tradicionalizadas na música brasileira, são construídas harmonicamente por notas do acorde, de passagem, cromáticas ou de aproximação. Na linguagem tonal, os acordes gerados a partir dos graus das escalas modelos constituem o chamado campo harmônico18. Esses mesmos acordes geram as suas próprias escalas — “escalas dos acordes” —, que servem de orientação para a escolha das notas que fazem parte das frases de baixo e de improvisação. Segundo Borges (2008, p. 67): “As ‘baixarias’ do choro geralmente são improvisadas, mas podem ser preconcebidas e elaboradas sob inúmeras variações.” Luiz Otávio Braga (2004) sugere o termo polimelódico, em vez de contrapontístico, para o estilo do Choro. Os chamados contrapontos são melodias simultâneas, sobrepostas e organizadas por regras rígidas de combinações polifônicas. Apesar da existência da improvisação na música erudita, a característica marcante do Choro é a espontânea criatividade de inúmeras frases, que, com o tempo, se tornam modelos. Essa improvisação gerada sem a rigidez das regras contrapontísticas universais se adapta à linguagem dos instrumentos com base nas sequências harmônicas. As baixarias são concebidas, em sua maioria, em tempo real, ou seja, no exato momento da execução.
A criatividade que os músicos violonistas de sete cordas possuem ao executar e gravar o choro é assim relatada pelo músico Rogério Caetano:
Nessas músicas, o Choro, o Samba, a minha parte principalmente, como violonista de 7 cordas, é a da linguagem completamente improvisada, de muita criatividade. Então, quando o músico faz uma gravação como essa, ela é o retrato de um momento que ele fez ali, mas, se você pegar 10 gravações com o mesmo músico, que tem grande qualidade, vai ver que ele fará 10 gravações diferentes. (CAETANO, 2019).
18 Chama-se campo harmônico de uma determinada tonalidade ao conjunto de acordes gerados pela superposição de terças sobre cada um dos graus da escala dessa tonalidade. (CARRASQUEIRA, 2011, p. 124).
As linhas de baixo são linhas melódicas, cantáveis, formadas na passagem entre dois acordes, conforme define Ian Guest (2006, p. 56-57). Guest ressalta a importância da linha de baixo, criada, muitas vezes, como ponto de partida, e, quando completada pela sequência dos acordes, resulta em inversão. A linha de baixo soa bem em alguns casos, mesmo sem o recheio do acorde. (GUEST, op. cit.).
No caso do Choro, pode-se afirmar que é usual a combinação de duas ou três linhas de baixo simultâneas, quando se tem a possibilidade de arregimentar um grupo de choro com três violões. Esse efeito característico é produzido com os três baixos em linhas descendentes, por graus conjuntos ou cromáticos, dispostos em forma paralela, executados com as notas graves dos três instrumentos apoiadas com os polegares das mãos direitas e as levadas preenchendo o ritmo dos compassos com o anular, o médio e o indicador.
Muitos termos foram adotados no meio popular para designar os tipos de baixarias ou frases que se transformaram em clichês melódicos que são utilizados em diversas músicas compostas por melodias diferentes e mesma harmonia. Esses termos são definidos de acordo com a função exercida pelo violão de acompanhamento no contexto do arranjo ou agrupamento musical.
O violonista e professor Marco Bertaglia define cinco tipos de baixaria: baixo de preparação, baixo de contraponto, baixo invertido, baixo pedal e baixo de finalização. “O baixo de preparação é aquele que define (prepara) para onde vai a harmonia do trecho musical.” (BERTAGLIA, 2010, p. 38). Segundo Bertaglia, “geralmente aparecem nas modulações, [...] onde não há melodia principal, nas introduções ou finais de música.” (BERTAGLIA, loc. cit.). Quando definidas pelo próprio autor, as baixarias se denominam de obrigações, significando que não podem ser excluídas na execução da peça. Já Luiz Otávio Braga (2004) chama de baixo
de obrigação ou chamada o baixo que preenche os espaços vazios da melodia interligando
partes ou trechos musicais. Esse autor afirma ainda que “há baixarias que nascem com a composição e dela não devem ser sacadas.” (BRAGA, 2004, p. 34), pois poderiam soar estranhas ou ruins. Segundo Braga (2002), a técnica de pergunta e resposta é encontrada nos baixos de Dino Sete Cordas.
De acordo com Marco Antônio Bertaglia:
Os “Baixos de Contraponto” permitem ao violonista mostrar toda a sua capacidade de criação. São os contrapontos executados por repetição de frases iguais a ela ou mesmo usando notas de escala do acorde ou contrapondo pequenas melodias simultaneamente às principais.”(BERTAGLIA, 2010, p. 38).
Entende-se aqui que os baixos constituídos pelas notas do próprio acorde, em estado fundamental e em suas respectivas possibilidades de inversão, se apresentam como pilares de referência ou pontos de apoio para o desenvolvimento das frases ou baixarias.
Já os baixos repetidos, mesmo com a mudança de harmonia (composta por diferentes acordes), caracterizam o “Baixo Pedal”.
Os “Baixos de Finalização” são constituídos de frases ascendentes, descendentes ou mistas que, em combinação, devem seguir critérios importantes para a sua escolha, como, por exemplo, o tom da música para não fugir da tessitura adequada para a realização da frase e prejudicar o efeito final. (BERTAGLIA, 2010, p. 38).
O pesquisador Fernando Duarte (2002), na introdução do seu trabalho sobre o músico Valter Silva, descreve o uso dos baixos como contrapontos característicos da linguagem do instrumento de 7 cordas:
Seu uso como instrumento de contracanto, desenvolvendo frases na região grave (as chamadas baixarias) em diálogo com a melodia solista, é encontrado apenas no Brasil – muito embora o sete cordas também tenha aparecido em outros países, ao longo de várias épocas.” (DUARTE, 2002, p. 7).
Todo o violonista que pretende estudar a linguagem do violão brasileiro tradicional se obriga a conhecer as gravações antológicas de Horondino Silva “Dino”. Dino Sete Cordas se apresenta como uma das maiores referências do instrumento em todos os tempos, responsável pelo desenvolvimento da linguagem do acompanhamento e das baixarias criadas a partir dos instrumentos de sopro, contrapondo a uma melodia executada por um solista. O professor e violonista de sete cordas Luiz Otávio Braga expressa os vários aspectos sobre a importância funcional do violão de sete cordas, relacionando as baixarias ao baixo contínuo do barroco que impulsiona a música para a frente:
Pode-se entender a baixaria como uma contrapartida melódica feita nos graves do violão, ou de um instrumento outro qualquer, em relação à melodia principal. O principal caráter da baixaria e do violão de baixaria é manter, por assim dizer, o movimento da peça, que nem o baixo contínuo no barroco. Se você observar bem o papel do violonista de sete cordas num grupo de Choro, sua preocupação consiste em manter sempre certa mobilidade melódica na região grave da tessitura, o que implica [...] impulsionar a música, como um todo, sempre para a frente. O violão de sete cordas ou o de seis, normalmente no conjunto de Choro, [...] preenchem espaços vazios de melodia, fazendo ligacões melódicas, soldaduras, fazendo aquilo que a gente chama de ‘obrigações’ ou as ‘chamadas’, que funcionam para manter esse movimento total da composição. (BRAGA, 2002, p. 7 apud DUARTE, p. 21). Na prática do choro tradicional, há dois aspectos importantes a observar. Nos casos em que o violão se apresentar sem o apoio de outros instrumentos da base, tais como o cavaquinho ou o violão de seis cordas, o instrumentista necessita apoiar o solista pela progressão harmônica, tocando os acordes por meio do preenchimento rítmico-harmônico, chamado de “levada”, em paralelo às baixarias. Por outro lado, com a presença de um ou dois violões, as baixarias são
trabalhadas por intervalos de terças ou sextas a partir de uma ideia de frase. Quando o conjunto se apresenta constituído por três violões, estabelecem-se as três vozes clássicas distintas por intervalos de terças, sextas ou até mesmo décimas na voz aguda.
O professor Luiz Otávio Braga, ao orientar a respeito da elaboração de uma boa baixaria, sugere como referência a observação aos critérios que devem ser adotados a partir das “cópias” e “obrigações” constantes do repertório tradicional e, de modo geral, acionadas nos momentos em que se encerra uma parte ou a peça toda; nos pontos de retorno, viradas ou chamadas; nos momentos em que a melodia principal faz pausa ou se mantém pouco ativa constituindo-se por notas longas; nas obrigações que são baixarias corriqueiras e consagradas por arranjos ou inerentes à composição original. (BRAGA, 2002, p. 35).