• Nenhum resultado encontrado

A CONSTRUÇÃO DA SOBERANIA NO ESTADO AUTORITÁRIO E NO ESTADO TOTALITÁRIO E A LIMITAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO

2. A Soberania Absoluta e a Negação da Participação no Estado Totalitário

3.2. O Estado de Direito e o princípio da legalidade

2.1.4. Friederich Nietzche e a vontade do «super-homem»

Friederich NIETZCHE (1844 – 1900), viveu num tempo de profundas mutações sociais, políticas e científicas em que o racionalismo religioso e metafísico da modernidade parecia ter desabado ao longo da segunda metade do século XIX, quer a partir das novas descobertas científicas quer quanto à «guerrilha» permanente entre capitalismo e proletariado, quer quanto ao surgimento de novas ciências, de cuja ideologia positivista nascia a «inecessidade» da religião.

Como sugere Jurgen HABERMAS (2000: 91), foi o paradigma da filosofia moderna que entrou em crise obrigando à procura de um novo modelo de razão, de liberdade e de cidadania» 93 :

«Com o ingresso de F. NIETZSCHE no discurso da modernidade, a argumentação altera-se pela base. Inicialmente, a razão fora concebida como autoconhecimento conciliador, depois como apropriação libertadora e, finalmente como recordação compensatória, para que pudesse aparecer como equivalente ao poder unificador da religião e superar as bipartições da modernidade a partir das suas próprias forças motrizes. Fracassou por três vezes esta tentativa de talhar o conceito de razão à medida do programa de um iluminismo em si mesmo dialéctico.».

93 Escreve Habermas: «Com o ingresso de Nietzsche no discurso da modernidade, a

argumentação altera-se pela base. Inicialmente, a razão fora concebida como autoconhecimento conciliador, depois como apropriação libertadora e, finalmente como recordação compensatória, para que pudesse aparecer como equivalente ao poder unificador da religião e superar as bipartições da modernidade a partir das suas próprias forças motrizes. Fracassou por três vezes esta tentativa de talhar o conceito de razão à medida do programa de um iluminismo em si mesmo dialéctico.».

Nestes termos, a saída para um novo modelo de homem e de cidadania será encontrada, não em Cristo mas em «Dioniso» (contra «Apolo») como desregulação social, política e emocional face aos discursos e ideologias positivistas das ciências emergentes na segunda metade do século XIX.

Neste contexto, F. NIETZSCHE prefere um corte radical com a modernidade «porque nós, os modernos, nada temos que venha de nós mesmos, absolutamente nada» (Frederich F. NIETZSCHE, in Jurgen HABERMAS, 2000: 91), tratando de criar um tempo novo, um homem novo, uma civilização nova, através da morte de Deus e do Cristianismo 94 e da proclamação do super-homem 95, que o

«bismarckismo» e o nacional-socialismo alemães verão encarnado na raça alemã. Como diz Paulo OTERO (2001: 45), F. NIETZSCHE impregnou-se de um forte ateísmo e o seu pensamento está

«(...) directamente relacionado com o surgimento do totalitarismo de direita, tendo em relação a este uma posição semelhante àquela que Rousseau ocupou face à Revolução Francesa: em F. NIETZSCHE, tal como em Rousseau, ecoa «o grito desesperado da consciência do autêntico homem europeu perante o descalabro da cultura espiritual do seu tempo e das chamadas «ideias modernas»96.

94 «Deus morreu: agora nós queremos que o super-homem viva» (Cf. Nietzsche, Assim falava

Zaratustra, IV, 13, citado por Crhistophe BARONI, 1977, Conhecer Nietzsche e o que ele realmente disse, Mem Martins, Edições Ática, p. 63. Original, 1975, Ce que Nietzsche a vraiment dit, Verviers

(Bélgica), Marabout S.A.. Tradução de Bertha Mendes.

95 Cuja teorização maior ocorre em «Assim Falava Zaratustra – Livro para Todos e para Ninguém», 1978,

Lisboa, Editorial Editorial Presença e Livraria Martins Fontes, 4ª edição, tradução de Carlos Grifo Babo. No fundo, a obra de Nietzsche é uma contestação da cultura e da racionalidade ocidentais e, sobretudo, alemãs, propondo a libertação do homem relativamente ao cristianismo e à sublimação dos seus instintos naturais. É uma contestação da harmonia apolínia em favor da criação dionisíaca. Em termos políticos, ela é uma apelo ao direito natural: «O super-homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga: Possa o super-homem tornar-se o sentido da terra.

Eu vos conjuro, ó meus irmãos, mantede-vos fiéis à terra e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças supra-terrenas. Cientes disso ou não, são envenenadores.

São desprezadores da vida, moribundos, intoxicados, de quem a terra está cansada: que pereçam pois!

Blasfemar de Deus era, outrora, a pior das blasfémias, mas Deus está morto e com ele morreram tais blasfemadores. De hoje em diante, o crime mais horrendo é balsfemar da terra e conceder maior valor às entranhas do insondável que ao sentido da terra.» (Nietzsche, 1976,

Assim Falava Zaratustra, op. cit., pp. 12-13.

96 Porque «os verdadeiros filósofos são dominadores e legisladores: dizem «como deve ser»,

preestabelecem a meta do homem e para isso utilizam os trabalhos preparatórios de todos os obreiros da filosofia e de todos os dominadores do passado.» Cf. Nicola ABBAGNANO, 1970:

História da Filosofia, vol. XI. Lisboa, Editorial Editorial Presença, p.113. «Impulsionam para o futuro

a mão criadora (...). O seu conhecer equivale a criar, o seu criar a legiferar, o seu querer a verdade a desejo de poder.» (Nietzsche, Jenseits § 211, in Abbagnano, Idem, p. 113. Por conseguinte, nem Kant nem Hegel foram filósofos, dirá Nietzsche, nas palavras de Abbagnano, (idem, ibidem)

Em consequência, o iniciador do irracionalismo na filosofia e nas ciências sociais, será defensor de concepções políticas extremistas, elogiando a crueldade e condenando a piedade, com reflexões de cariz racista, com apelos à extinção dos povos e das raças inferiores, sublinhando-se que ninguém tem mais talento do que ele para fazer de uma opinião extremista algo de atractivo.

Ainda nas palavras de Paulo OTERO (2001:46),

«Neste sentido, poder-se-á mesmo afirmar que em F. NIETZSCHE se encontram reunidos todos os elementos que forneceram a retórica da grandeza germânica, fazendo dele o apóstolo do nacional-socialismo.».

Segundo o autor que vimos citando, os defensores do totalitarismo centraram- se nos seguintes aspectos da obra de F. NIETZSCHE:

a) anti-cristianismo primário, com elogio de todos os valores opostos à doutrina e tradição cristãs;

1) o cristianismo representa o triunfo da moral dos escravos e dos fracos sobre a moral dos senhores e dos fortes - o Deus dos fracos, o Deus dos miseráveis, o Deus dos pecadores e o Deus dos doentes, enquanto «divindade da décadence» (Frederich F. NIETZSCHE, 1997: 35-36) ; a ideia do amor ao próximo é «mais uma estupidez e animalidade» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 73);

2) F. NIETZSCHE acusa a religião cristã de tomar «o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 19), tendo feito «da oposição aos instintos de conservação da vida forte um ideal» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 19);

3) o cristianismo incrementa o desenvolvimento dos homens «falhados», defeituosos, degenerados, decrépitos e enfermos, conservando «muito daquilo que devia perecer» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 75-76), trabalhando «de facto e verdadeiramente para a degeneração da raça europeia» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 75-76);

4) os fracos, os incapazes, ou seja, aqueles a quem o cristianismo dá a sua compaixão, «esses que pereçam (...) e que se os ajude mesmo a desaparecer» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 17).

b) Em segundo lugar, F. NIETZSCHE expressa um anti-judaísmo ou anti- semitismo primários (Hannah ARENDT, 1978: 13):

1) o cristianismo não é uma reacção contra os judeus, antes é «um avanço na sua lógica terrível» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 46), porque os judeus são «o povo mais singular da história» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 46), verdadeira «antítese dos seus valores naturais» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 47) e, por isso mesmo, «o povo mais funesto da história universal» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 47);

2 os judeus representaram ao longo da História o papel de decadência, desnaturalizando todos os valores naturais e no seu interesse visam «tornar a humanidade doente e perverter as noções de "bem" e de "mal", de "verdadeiro" e de "falso" num sentido mortal para a vida e infamante para o mundo» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 49);

3) depois de afirmar não ter encontrado «um só alemão que goste dos judeus» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 173), F. NIETZSCHE considera-os como «a raça mais forte, mais rija, mais pura» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 174) que vive na Europa, afirmando que «os judeus, se quisessem [...], poderiam ter desde já a preponderância e, muito literalmente, o domínio sobre a Europa» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 174).

c) Contestando o princípio oriundo da cultura judaico- cristã da igualdade dos homens perante Deus (F. F. NIETZSCHE, 1998: 174), F. NIETZSCHE proclama a «existência de diferentes tipos de homem» (F. F. NIETZSCHE, 1998: 174), encontrando na ideia de igualdade subjacente ao cristianismo e à democracia a raiz da mediocridade, isto é, o domínio dos fortes pelos fracos (F. F. NIETZSCHE, 1998: 174). No entanto, é na noção de super-homem, enquanto tipo superior relativamente ao conjunto da humanidade e contra o qual o cristianismo travou uma «guerra de morte» (F. F. NIETZSCHE, 1997: 18) que F. NIETZSCHE idealiza o seu modelo para o futuro do homem, traduzindo a solução para a crise da sociedade moderna:

1) é em homens «fortes e independentes, preparados e predestinados para o comando» (F. NIETZSCHE, 1998: 74) que «encarna a razão e a arte de uma raça dominante» (F. NIETZSCHE, 1998: 74), falando F. NIETZSCHE numa alma aristocrática relativamente à qual «outros seres têm por natureza sujeitar-se e sacrificar-se-lhe» (F. NIETZSCHE, 1998: 74); 2) por isso, diz F. NIETZSCHE, «um homem que aspira a coisas

grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como retardamento e impedimento – ou como um leito de repouso passageiro» (F. NIETZSCHE, 1998: 204)

3) considerando como bom «tudo aquilo que desperta no homem o sentimento de poder, a vontade do poder, o próprio poder» (F. NIETZSCHE, 1997: 16), é na vontade de poder que Nietzche encontra a explicação de toda a actividade do homem: a verdadeira vontade de poder é a própria vida (F. NIETZSCHE, 1997: 20; 1998: 187), assumindo-se a autoconservação como a vontade de poder; 4) a própria felicidade mais não representa do que «a sensação de

que o poder cresce - de que uma resistência foi vencida» (F. NIETZSCHE, 1997: 16), proclamando-se a guerra acima de tudo e

não a paz, tal como a virtude, desprovida de moralismos (F. NIETZSCHE, 1997: 17), pois «quando alguém se compadece, enfraquece-se» (F. NIETZSCHE, 1997: 20); neste sentido,

«o que serve de alimento ou de tónico para a classe dos homens superiores deve ser quase um veneno para uma classe muito diferente e inferior» (F. NIETZSCHE, 1998: 30);

5) num outro sentido, a piedade, contradizendo a lei da evolução - identificada com a selecção (F. NIETZSCHE, 1998: 21) -, além de exercer uma acção depressiva e conduzir ao nada, representa «uma ameaça contra a vida» (F. NIETZSCHE, 1998: 21) e, na medida exacta em que a vida é instinto do poder (F. NIETZSCHE, 1998: 20), pode-se concluir que o poder não pode ser piedoso.

Em conclusão, o pensamento de F. NIETZSCHE veio pôr em causa toda a ordem axiológica construída pela modernidade: o Estado enquanto entidade ética, o direito enquanto realidade objectiva, o Estado liberal democrático como estado da liberdade individual e da conciliação desta com a Lei, o cristianismo como religião subjacente à salvaguarda dos direitos individuais no contexto da democracia emergente, a organização do poder como organização dividida, partilhada e com exercício vigiado.

F. NIETZSCHE é, além disso, juntamente com Hegel, o introdutor da teoria das elites. A igualdade é impossível nas relações entre os homens e entre estes e o poder. As pessoas pobres, fracas e deprimidas não são titulares nem de direitos subjectivos nem de direitos objectivos. Só os predestinados terão êxito, poder e glória (uma certa analogia com Hegel). Por isso, os mais fracos, leia-se também os adversários que se metem no caminho (caso dos judeus) devem ser eliminados.

A igualdade entre os homens, portanto, deve ser banida. Ela é fonte de mediocridade e de perda de capacidade de força, de luta e de património genético.

Não há limites morais para a actuação política. F. NIETZSCHE ultrapassa em muito Maquiavel e destrói toda a ordem ético-jurídica construída pelos teóricos da modernidade, sobretudo Kant, Hegel, Montesquieu, Constant e Stuart Mill, baseada na crença de que há, no mínimo, um bem comum, um interesse geral que deve ser o paradigma da actuação política. Neste sentido, F. NIETZSCHE destrói também todos os esforços, desde Hobbes, para instituir o Estado Soberano, baseado no direito, impondo o regresso da cultura e da civilização ao «estado de natureza» anterior ao estado civil Hobbesiano 97.

97 Veja-se este excerto de A Genealogia da Moral, 1976: 51-52, criticando a «domesticação» do ser

humano pela moral tradicional:

«Ponhamo-nos, pelo contrário, no termo do enorme processus, na árvore que amadurece os frutos, quando a sociedade e a moralidade apresentam à luz do dia o fim para que eram meios e acharemos que o fruto mais maduro é o indivíduo soberano, o indivíduo próximo de si mesmo, o indivíduo livre da moralidade dos costumes, o indivíduo autónomo e super-moral (porque «autónomo» e «moral» exluem-se), numa palavra, o indivíduo de vontade própria, independente e persistente, o homem que pode prometer, o que possui em si mesmo a

Assim, F. NIETZSCHE é um dos autores que melhor criam as condições para a barbárie que assolou a Europa entre 1870 e 1945, na sequência da primeira guerra franco-prussiana (1870). Os nacionalismos, os totalitarismos, os fascismos, os nacionais-socialismos, os liberalismos exacerbados, as agressões entre os Estados são praticadas também em nome da superioridade da cultura, da civilização, da raça, do cientismo positivista e contra os mais fracos e contra a ideologia do proletariado.

No entanto, a doutrina social da Igreja Católica, nos finais do século XIX, adoptou posição inversa. Condenando embora o marxismo-leninismo, defendeu os direitos dos trabalhadores e dos mais fracos face ao uso da teoria «nietzscheana» pelos mais poderosos, sobretudo no domínio das relações económicas (Jesus IRIBARREN e José Luís GARCIA, 1999), pressionando assim a civilização ocidental rumo ao Estado Providência.

Outline

Documentos relacionados