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4. Linguagem e funcionalidade

4.1 Funções da linguagem

Recentemente, a pedagogia da linguagem se tem voltado para o problema das “funções da linguagem” e a primazia que se der a esta ou àquela função tem orientado as ações pedagógicas.

Supondo já haver algum conhecimento a respeitos das várias teorias das funções da linguagem, apresentaremos apenas um resumo delas. Interessa-nos, sobretudo, uma avaliação crítica e pedagógica dessas teorias.

4.1.1 Visão externa

Entre nós, o nome clássico é Mattoso. Lendo sua Contribuição à estilística portuguesa (1977), ali aparecem, na esteira de Bally, a teoria das três funções, segundo Bühler.

a) Função representativa ou informativa.

Segundo o autor (idem, p.11) “a representação mental, mais de que uma função, [é] também a própria essência da linguagem”. Como se percebe, o autor se coloca, também aqui, dentro da tradição clássica da linguagem como expressão do pensamento. Nada a estranhar sobre essa posição do mestre, pois era também a de Saussure que, tendo essa compreensão epistemológica como base, nos forneceu a conhecida dicotomia entre língua e fala.

Percebe-se aqui como é forte a tradição da teoria clássica da linguagem como representação do “discurso mental”. Linguagem como uma espécie de ‘dupla tradução’: alguém traduz seu discurso mental em palavras, e o outro escuta e traduz de volta em discurso mental. O estudo dessa função pertence à Lingüística da língua.

Mesmo que aparecesse mais ou menos como um apêndice incômodo, uma espécie de ‘primo pobre’ não houve como ignorar que a linguagem ia muito além e não se definia pela função representativa. Tanto essa “língua individual” insistiu que se abriu a porta para duas novas funções da linguagem.

b) Função emotiva.

É a linguagem usada para a manifestação dos estados emotivos desse indivíduo adâmico. Esta função seria a essência da linguagem para a corrente do “subjetivismo idealista” para o qual as leis da linguagem são as da psicologia individual.

c) Função apelativa.

É a linguagem usada para a manifestação da vontade do individuo sobre outros.

Estas duas funções seriam objeto de uma Lingüística da fala ou de uma Estilística, entendidas tanto num sentido restrito de estudo dos recursos empregados por um indivíduo específico (estilística literária), como num sentido mais amplo do estudo dos recursos expressivos da própria língua. Uma espécie de ‘tesouro’ à disposição dos falantes, cujo único trabalho era ir lá e escolher os recursos expressivos do ‘depósito’. Entenda-se: o falante é um usuário e não um criador.

Esse quadro das três funções foi, depois, reformulado por Jakobson (1970) que, inspirado na teoria da comunicação, nos elementos da comunicação, ampliou para seis as funções: a referencial, a emotiva, a apelativa, a fática, a poética e a metalingüística.

Enquanto o ‘posto de observação’ de Bühler se afigura como externo à linguagem (é mais um observador filosófico), Jakobson, não se pode negar, observa como lingüista que recorre à Teoria da comunicação.

Infelizmente, subordinou-se a teoria lingüística à da comunicação, e a prática pedagógica incidiu sobre esta última. De tal forma que, na esteira de Jakobson, ensinar português era ensinar a se comunicar dentro das várias funções. Tanto assim que a disciplina “Língua Portuguesa” passou a denominar-se “Comunicação e expressão” e o foco do ensino foi sobre os elementos da comunicação (emissor, receptor, contexto, mensagem, contato e código). Não havia uma distinção clara entre o lingüístico e o extralingüístico. As categorias de “emissor”, “receptor” e “contexto” eram, claramente, extralingüísticas. E, ao se falar em “código”, a língua era vista como instrumento de comunicação.

Apesar dessa visão externa, ainda bastante instrumental, o Reino do Sentido ia se abrindo, e os limites já não eram tão definidos. Quem estava fora começou a entrar.

4.1.2 Visão interna

Corrigindo visão externa de Bühler, chegamos aos estudos de Halliday. A diferença deste para aquele é, segundo Neves (2001: 12), o fato de Halliday “insistir em uma teoria não apenas extrínseca, mas também intrínseca das funções da linguagem”.

Logo no início de Estrutura e função da linguagem (1985: 135), Halliday firma sua posição em relação aos filósofos, antropólogos, psicólogos e aos estruturalistas formais. Os primeiros, representados por Bühler, têm uma “descrição puramente exterior das funções da língua”, e os resultados acabam não esclarecendo a natureza da estrutura lingüística. Os formalistas, fechados nos limites do reino, não oferecem (idem, ibidem.) “princípios para explicar por que a estrutura da linguagem está organizada de um modo e não de outro”.

E, da mesma forma que Coseriu (1977), Halliday propõe um “estruturalismo funcional”, na esteira da Escola lingüística de Praga, tendo como base o fato de que o “sistema gramatical da linguagem está relacionado de perto com as necessidades sociais e pessoais que ela é chamada a atender”.

Mesmo sendo óbvio que a linguagem seja usada para servir a uma gama imensa de necessidades e mesmo que estas variem de cultura para cultura, portanto de língua para língua, há funções mais gerais, básicas, relativamente independentes, comuns a todas as culturas. São três, segundo Halliday, as funções estruturais funcionais da linguagem que respondem à pergunta “por que a linguagem é como é?”.

a) Função ideacional.

Corresponde à função representativa ou simbólica em que organizamos nossas experiências de mundo. É a “linguagem intrapessoal”, a função “interpessoal” quando depois de interiorizada, de que fala Vygotsky. Essa organização simbólica constitui nossas “memorizações cognitivas”. É neste sentido que se pode definir o homem como um “animal simbólico” (Cassirer) em que entre ele e a realidade há a linguagem. Vemos através das palavras.

Vemos Vygotsky e Cassirer como fios teóricos que se entrelaçam com Halliday quando este afirma (idem, p. 136) que essa função é a manifestação do “‘conteúdo’ [...] da experiência que o falante tem do mundo real, inclusive do mundo interior de sua própria consciência”. E, apesar da advertência de Hacking (1999: 189) a respeito do idealismo lingüístico, isto é, a tendência em reduzir a realidade à linguagem, em que “ser é ser dito”, ficamos com Halliday quando diz (idem, ibidem) que “a linguagem também estrutura a experiência e ajuda a determinar nossa maneira de ver as coisas”.

Mais à frente (idem, p. 139), o autor observa que “para o adulto – embora não para a criança – a exigência que fazemos para a nossa língua [...] é que nos permita comunicar-nos acerca de alguma coisa”. Isso (e a ordem em que aparecem as funções) pode significar que Halliday privilegia, à moda clássica, esta função sobre a interpessoal.

Imitando a metodologia de Vogt (1980: 98) do entrelaçamento (não justaposição) de teorias, podemos dizer, como ele, que a função ideacional de Halliday corresponde ao ato locucional de Austin, isto é, à competência gramatical de um falante em dizer, denotar, fazer referência a alguma coisa.

b) Função interpessoal.

Numa voz em que estão ‘tecidos’ Bakhtin e Vygotsky, Azeredo (2000: 12) nos diz que “como a mais óbvia utilidade da língua é a comunicação entre as pessoas” a língua é o meio de que se valem os usuários para conseguir a adesão e até mesmo “dirigir” os interlocutores nas diferentes situações discursivas.

Mesmo que soe como um excesso de teorias, como o propósito é entrelaçar e detectar cruzamentos de vozes, integraremos mais um fio nessa teia teórica. Plantin (1998) informa que Popper acrescentou às funções de Bühler uma quarta: a função argumentativa que teria como papel reorganizar as três funções às exigências de uma situação polêmica.

Tecendo Plantin com Adam (200l: 103), este último também fala numa quarta função de Bühler ou numa sétima de Jakobson, pois que “argumentar é superposto ao valor descritivo-informativo da língua”.

Cremos que tal denominação de Popper pode estar contemplada na denominação de função interpessoal de Halliday. De qualquer forma, é interessante observar a adequação da denominação de Popper, tendo em vista que em textos e situações discursivas em que predomina a interação social, esta se fundamenta essencialmente, na argumentatividade. Tal função argumentativa é, na verdade, a que Ducrot apresenta na sua Semântica argumentativa que postula, segundo Koch (1996) uma macrossintaxe do discurso, isto é, uma integração da Pragmática com a Semântica e a Sintaxe.

Esta é também a orientação de Ducrot (1987: 104) quando diz, com todas as letras, que “a função primeira da língua [...] é oferecer aos interlocutores um conjunto de modos de ações estereotipados que lhes permitam representar e se impor mutuamente papéis”. Além da função de representar, as línguas têm a função de fazer com que os interlocutores se apresentem ou se representem. Entre esses modos de ações, Ducrot privilegia a argumentação. Se a função básica da linguagem é apresentar-se e representar-se, então uma descrição lingüística deveria ser feita a partir do nível pragmático da frase. Ducrot (idem, ibidem) chega a dizer que tal descrição se faça “de um modo puramente pragmático”.

Tal função interpessoal ou argumentativa mostra que é na interação, por meio da linguagem, que se estabelecem não só as posições discursivas, como também os processos de referenciação (a linguagem como atividade criadora de uma imagem do mundo).

Aliás, Neves (idem, p. 13) diz, a respeito disso, quase a mesma coisa. Essa função constitui “um componente da linguagem que serve para organizar e expressar tanto o mundo interno como o mundo externo do indivíduo”. Isso significa, salvo melhor interpretação, que a função ideacional se constitui a partir da interacional.

Mesmo que pareça ter havido em Halliday uma primazia da função ideacional sobre a interpessoal, novamente, puxando pelos ‘fios da teia’, vamos encontrar Vygotsky e Bakhtin no mestre inglês quando este diz, (idem, p. 137), a respeito dessa última função, que “a linguagem, além da capacitá-lo [o indivíduo] a interagir com as outras pessoas, serve também para manifestação e desenvolvimento de sua própria personalidade”.

Tal função corresponderia, conforme Vogt (1980: 98), ao chamado ato ilocucional de Austin. Além de fazer tudo o que faz a função ideacional, além de dizer alguma coisa, pratica, realiza o que diz.

Por fim, e esta é a grande contribuição de Halliday, há uma terceira função que serve de instrumental para as duas outras.

c)Função textual.

Esta diz respeito aos recursos que a língua possui para ‘amarrar’ enunciados e situá-los num contexto. Por meio dela, criam-se textos em que as unidades lingüísticas operam no co- texto e na situação. É essa função que, diz (idem, p.137), “capacita o ouvinte ou o leitor a distinguir um texto de um conjunto aleatório de orações”.

Se abordamos e interligamos teorias, não o fazemos como um fim em si mesmas, mas com o objetivo de aplicá-las ao discurso político e religioso e traçar direções para a prática da pedagogia da Língua Portuguesa.