FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 186-197)

A produção historiográfica que apresentaremos servirá como suporte e embasamento para a pesquisa, pois não há um projeto específico so-bre o assunto. Por este motivo, o trabalho vai ser desenvolvido através de pesquisas e entrevista, ou seja, história e memória, história oral, as pes-soas que vivenciaram aquele tempo relacionada. De acordo do autor Ales-sandro Portelli, a utilização da história oral, como método de pesquisa é muito importante, pois é através da pesquisa de campo e entrevista que iremos desenvolver este trabalho, resgatando as experiências e memórias de trabalhadores que existiram na cidade de Uruçuí quando o rio Par-naíba era navegável. Portelli enfatiza a importância da história oral como uma ferramenta baseada na memória para questionar interpretações que, atualmente, estão empenhadas em retratar o século XX como “horrores”.

Como o autor afirma, “século dos horrores” é o que realmente percebe-mos quando conversapercebe-mos com os trabalhadores, estivadores, contramestre de balsas, quando eles afirmam a difícil situação e condições de trabalho, as relações com seus patrões, uma espécie de exploração da mão-de-obra em meados do século XX. (PORTELLI, 1998, p. 65).

Thiago Cedrez (2016), em sua pesquisa sobre os trabalhadores por-tuários de Porto Alegre, permeou os mesmos aspectos da análise feita dos trabalhadores rio-grandenses. “A arte de estivar, ou melhor, carregar e organizar cargas nos porões de navios e embarcações é de certo antiga”.

Desde o surgimento das primeiras embarcações, temos a presença de pes-soas que se incumbiram dessa função. O autor enfatizou a história e me-mória dos estivadores do Cais do Porto do Rio Grande do Sul. Assim,

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também iremos pesquisar sobre a história, memória e experiências dos estivadores, mestres de balsas e contramestres do cais de Uruçuí-PI nas décadas de 1950 a 1964. Não era um porto para o mar, mais a importância destes trabalhadores deste cais era semelhante à dos estivadores do cais de Uruçuí; era carregar e descarregar barcos, movidos a vapor, nas primei-ras décadas de 1930, mas naquela data já existiam as lanchas de pequeno porte.

O importante é que as estivas das regiões portuárias de Porto Ale-gre constituíram uma organização, pois a atividade foi reconhecida como profissão e os trabalhadores organizaram associações e sindicatos. Já os estivadores e mestre de balsas do cais de Uruçuí não chegaram a ter sua profissão regulamentada e foram esquecidos com o tempo, até porque eram pessoas pobres e negras que, na maioria das vezes, sem instruções, não sabiam ler ou escrever.

Lima relata em sua dissertação a importância da barragem de Boa Esperança:

Juntamente a esse cenário piauiense e brasileiro, tão comum e ao mesmo tempo tão único para nosso personagem, revelava-se ain-da aos seus olhos e para além deles, os movimentos matinais de todo aquele povo naquela sua cidadezinha. Este foi um simples e marcante retrato do despertar da vida na Guadalupe Velha (LIMA, 2007, p. 18).

Seu trabalho pontua algo muito importante na época, o incentivo a construção da barragem de Boa Esperança no rio Parnaíba, que causou a inviabilidade da navegação, deixando vários trabalhadores da cidade de Uruçuí e outras cidades ribeirinhas sem emprego, período em que o Bra-sil passava por uma fase dos governos populistas, que queria estimular a indústria nacional. Neste caso, para estimular indústria, precisava-se de energia, e a solução foi a construção de uma barragem para abastecer as indústrias e cidades com a energia elétrica.

De acordo com Gandara (2008), “A vida se espalha nas suas águas e beiras. Segue-se o rio adoçando suas formas encantadoras. Paralelo ao seu curso a vida... Um rio assim lento por vezes violenta que leva ao esqueci-mento de nós mesmos, tem que ter história”. (2008, p. 16). Como diz a

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autora, ao longo do curso do rio Parnaíba com suas vilas e comunidades ribeirinhas, mesmo com tanta gente que se utiliza das águas deste rio e, muitos dos nossos jovens não conhecem sua história e importância. Por este motivo, iremos analisar as histórias e memórias de trabalhadores que vivenciaram, trabalharam e criaram suas famílias se servindo deste rio, que matou a fome de muitos através de seus peixes, plantação agrícola de vazante, entre outros.

De acordo com (KALUME,2012, p. 6):

Embora a UHE de Boa Esperança não tenha implicado remoções nesta região, sua instalação alterou substancialmente o curso das águas e os ciclos naturais das cheias, provocando intensa erosão de suas margens e transformações abruptas nos modos de vida das po-pulações à sua jusante, como a supressão da prática de agricultura de vazante.

A cidade de Uruçuí foi uma das prejudicadas neste sentido com rela-ção às pessoas que viviam da utilizarela-ção da navegarela-ção do rio, pela constru-ção da barragem de Boa Esperança. Além de prejudicar a agricultura de vazante, muitas das pessoas que morava a beira rio, tive suas casas evacua-das. A cidade baixa foi toda desapropriada, algumas casas foram indeniza-das outra não, pois foram tomaindeniza-das pelas águas do rio Parnaíba.

Edmar Leite de Oliveira,35 filho de um comerciante daquele tempo, afirma que na cidade baixa, as pessoas mais entendidas tiveram seus em-preendimentos, como casas e lojas e receberam uma boa indenização pela empresa responsável da construção da barragem. De acordo com as ideias de (BENJAMIN, 1940, p. 5), demostrando a situação das classes excluí-das do processo de inclusão e consequentemente, melhorias de viexcluí-das para os trabalhadores que fazem o progresso acontecer, afirma:

Mas a ideias de Benjamin tem uma significação mais ampla: na medida em que a alta cultura é produzida pelos privilégios advin-dos da labuta viva das massas, em que ela não poderia existir sob a forma histórica sem o trabalho anônimo (escravos, camponeses ou 35 Entrevista ao Edmar Leite de Oliveira concedida a Maria dos Anjos Gomes Leite em Uru-çuí-PI, no dia 23 de setembro de 2017.

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operários), em que os bens culturais são “produtos de luxo” fora do alcance dos pobres (BENJAMIN, 1940, p. 5).

Afirma Edmar Leite sobre a situação dos moradores e trabalhadores pobres de Uruçuí, que foram enganados por uma assistente social, falando em nome do governo, dizendo que seria perda de tempo lutar para receber alguma indenização por suas simples casas e barracas, onde vendiam suas poucas mercadorias, como: abóbora, batata doce, fava, tomates de vazan-tes, feijão verde, entre outros produtos. Kalume (2012, p. 14) afirma sobre as consequências da construção de uma usina hidrelétrica nos habitantes ribeirinhos, assim como relatou Edmar Leite. “No tocante às remoções, resistência e desconfiança quanto às propostas de reassentamento se sobre-põem: deixar as antigas casas, a nova configuração da vila e a insatisfação com a solução das indenizações geram uma enorme sensação de insegu-rança entre os habitantes locais”.

Ainda afirma o comerciante Edmar Leite que, na data, a cidade de Uruçuí tinha poucas ruas; a principal era a rua que ficavam os comércios, duas praças, uma da Igreja católica e a outra perto da beira-rio, conhecida como Praça do Coreto, a casa do prefeito, farmácia, mais poucas edifica-ções, tudo foi tomada pelas águas. Como se pode observar, todo movi-mento neste tempo era voltado para o Rio Parnaíba e seus afluentes Rio Balsas e Rio Uruçuí Preto, de onde vinham as mercadorias para atracar no Cais de Uruçuí.

Segundo Cedrez (2016, p. 21):

No que se refere ao conceito de memória, dentro do debate in-tenso e da complexidade sobre o conceito, Maurice Halbwachs (2003) destaca que a memória seria um processo coletivo fruto da interação individual com os outros (o fenômeno social), possibi-litando, assim, que as pessoas se lembrem de determinados fatos.

De acordo com o autor, a pesquisa demostra que a memória será um recurso bastante utilizada para analisar as experiências históricas dos traba-lhadores estivadores e mestre de balsas do cais de Uruçuí. Local onde eram realizadas as relações de categorias sociais, com os comerciantes, fazen-deiros e vendedores ambulantes, como afirma Edmar Leite, filho de um

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comerciante que vivenciou na época, diz: a Igreja foi construída de outra forma, pois diz que o bispo da época não aceitava que a frente da Igreja fosse virada para o rio, tinha que ser construída paralela ao curso das águas.

Com a nova construção, mudou a sua frente e aumentou também seu tamanho, hoje em dia é voltada para as ruas principais. Nessa data, o pa-dre Manoel de Carvalho – falecido em 1991, inclusive seus restos mortais estão enterrado dentro da Igreja de São Sebastião (Igreja Mãe) – gostava muito de ajudar e orientar as pessoas mais humildes da cidade.

Outro testemunho daquele tempo é do senhor Gilberto Manoel Messias, conhecido por um apelido (seu Gilo). Nasceu em 1935 na cidade de Aparecida, hoje Bertolínia, e veio morar em Uruçuí em 1947 com seus pais. Trabalhou com seu pai muitos anos no rio Parnaíba, como estivador, carregador e descarregador de balsas e barcos, também trabalhou como contramestre de balsas.

A pesquisa trata da importância da memória, e como podemos obser-var, os relatos registrados são de uma entrevista realizada com um estiva-dor e contramestre de balsas. Este exerceu as duas funções, relatando suas experiências e lembranças da época que trabalhava no rio Parnaíba.

Como afirma Alessandro Portelli:

Mas o realmente importante é não ser a memória apenas um depo-sitário passivo de fatos, mas também um processo ativo de criação de significações. Assim, a utilidade específica das fontes orais para o historiador repousa não tanto em suas habilidades de preservar o passado quanto nas mudanças forjadas pela memória. (PORTEL-LI, 1997, p. 9).

É utilizando a memória de trabalhadores da data que podemos regis-trar e analisar a maneira que essas pessoas viviam e se relacionavam com as elites locais. Afirma seu Gilo, que trabalhou na construção das balsas, no seu carregamento, principalmente de bois, as famílias ricas da época que tinham fazendas e chamavam estes trabalhadores para realizar o serviço, com muito esforço e pouco dinheiro, caracterizando, uma verdadeira ex-ploração.

Gilberto Manoel Messias, Gilo, afirma que levavam as balsas até Te-resina, e lá descarregavam os animais e colocavam os para alimentar em

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uma quinta. Depois carregava nos vagões de trens que levavam esse gado até São Luís, só voltavam quando fazia a última entrega. Era uma viagem muito longa, demoravam a voltar à sua cidade. Voltavam até Teresina de trem, de Teresina até Uruçuí a pé. Era muito difícil a vida dos menos fa-vorecidos, e como já falado, o dinheiro para pagar estes trabalhadores era muito pouco, pois não havia um salário fixo; realizava-se um acordo entre o dono das mercadorias e os trabalhadores.

Seu Gilo ainda relata que ajudou a construir o primeiro cais de Uruçuí, que ficava localizado na rua principal, e que hoje está soterra-do a mais ou menos quatro metros na beira rio. Explica que o material para sua construção era extraído de um morro, que fica hoje no bairro Água Branca e do outro lado, em um morro do São Gregório, de onde foram extraídos bastante pedras para sua construção.Também ajudou na construção da Igreja de São Sebastião, porque o bispo daquele tem-po não aceitava mais a tem-posição da Igreja e também o seu tamanho, com a frente voltada para o rio. O Bispo deveria saber que o rio deixaria de ser navegável, pois a mudança e construção da Igreja e suaposição aconteceu antes da construção da barragem. Seu Gilo trabalhou em sua construção até o final, em 1951, quando a Igreja foi construída.

Afirmou que quando vinham avião para Uruçuí, também utilizava o rio Parnaíba para realizar seu pouso. Era um verdadeiro espetáculo, todos corriam para a beira rio.

Quando as lanchas vinham faziam um apito de muito longe e as pes-soas iam todas para o cais para ver a chegada das balsas puxadas pelas lan-chas, e os barcos que traziam mercadorias e pessoas. Mas o que chamou mais a atenção dos moradores que na época não passava de 3 mil habi-tantes, foi um helicóptero, pousou em um espaço largo da praça da Igreja matriz. Muitas das pessoas ficaram com medo, porque nunca tinham visto um objeto como aquele.

Phelippe Joutard (1998, p. 32) faz uma afirmação muito importante, que vem ao encontro da pesquisa realizada neste artigo, sobre registrar e resgatar a história dos excluídos:

Neste segundo desafio é preciso saber respeitar três fidelidades à inspiração original: ouvir a voz dos excluídos e dos esquecidos;

trazer à luz as realidades "indescritíveis", quer dizer, aquelas que a

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escrita não consegue transmitir; testemunhar as situações de ex-tremo abandono.

De acordo autor, realmente faltam registros sobre as experiências de vidas dessas pessoas aqui analisadas. Ainda afirma, Gilberto Messias que ajudou na construção da primeira estrada de Uruçuí em direção a Sebas-tião Leal, com seu pai. O primeiro caminhão chegou a Uruçuí em 1951, e para ele era como uma espécie de marcação da estrada, colocação dos picos para realizar a estrada, e também chamou bastante atenção, pois as pessoas não conheciam carros pessoalmente só de ouvir falar pelo rádio, meio de comunicação utilizado à época, observação, por quem tinha con-dições de tê-los. Depois, com tudo isso veio a construção da barragem em 1964, e o senhor Gilberto ficou sem trabalho, porque seu trabalho mais importante era no rio Parnaíba, passou mais ou menos um ano, fazendo bico para os ricos da cidade, como os Coelho e outras famílias tradicionais e políticos por muitos anos exerceram sua influência na política da cidade de Uruçuí.

Neste trabalho, vamos realizar pesquisas com muitas pessoas que viveram e trabalharam durante um tempo no rio Parnaíba, cabe citar Gandara (2008, p.23), em cidades-beira: “Uma das realidades de-finidas pelo rio é a “cidade-beira”. Sabe-se, contudo, que a cidade enquanto produto histórico e social tem relações com a sociedade e seu conjunto, seus elementos constitutivos e sua história particular”.

Como podemos observar nos relatos de um trabalhador, estivador, da época vivenciada.

De acordo com Marieta Fereira (p. 8), em seu artigo “História, tem-po presente e história oral”, a relação da história e a memória tem-possibilitou uma nova abertura para a história social:

Essa perspectiva que explora as relações entre memória e história possibilitou uma abertura para a aceitação do valor dos testemu-nhos diretos, ao neutralizar as tradicionais críticas e reconhecer que a subjetividade, as distorções dos depoimentos e a falta de ve-racidade a eles imputada podem ser encaradas de uma nova manei-ra, não como uma desqualificação, mas como uma fonte adicional para a pesquisa.

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Concordo com a autora: o registro de fatos sociais passados precisa ser analisado com cuidado, mas é através destas memórias, que na maioria das vezes estão esquecidas no passado, é que se faz necessária esta busca.

Os estudantes do século XXI não sabem a História de sua própria cidade natal e a forma de trazer este passado é através de relatos orais de pessoas que viveram à época e também ouviram de seus pais ou parentes sobre estes assuntos.

Gilo ainda relata que sua história de vida foi entorno da navegação do rio Parnaíba, desde 1947 quando chegou a cidade de Uruçuí, cidade ribeirinha, até o momento que o rio deixa de ser navegável.

A história dos mestres de balsas e Estiva do cais de Uruçuí-PI, cida-de pequena nas décadas cida-de 1950 até 1964, o rio Parnaíba era a única via de transportar pessoas e de comercializar os produtos, até o período que iniciou em 1964 a construção Usina Hidrelétrica barragem de Boa Espe-rança, localizada na cidade de Guadalupe-PI.

O presente trabalho busca analisar e relatar as memórias dos traba-lhadores mestres, contramestre de balsas e estivadores, que faziam e con-duziam as balsas que transportavam cargas desde o Alto Parnaíba até Te-resina com destaque a parada no Cais de Uruçuí (PI), considerada um entreposto comercial a época.

Os estivadores eram pessoas que realizavam o trabalho de carregar e descarregar balsas e os barcos. Também havia as lanchas que puxavam as balsas grande carregadas de sal e outras mercadorias na data menciona-da, quando o rio Parnaíba ainda era navegável. Cabe aqui a citação sobre história e memória que iremos utilizar neste trabalho de analisar as ex-periências vividas por trabalhadores daquele tempo. Segundo Nogueira (2006, p. 5), “Relacionando-se com a história de forma dinâmica, histó-ria e memóhistó-ria são, segundo a autora, suportes na formação de identidades individuais e coletivas, formadas no processo das vidas em sociedade”.

Faz-se necessário e relevante escrever as memórias vivenciadas pelos trabalhadores mestre de balsas, contramestre e estivadores, devido à im-portância do seu trabalho para a economia e população da cidade de Uru-çuí, como era essencial e indispensável o trabalho desenvolvido por esses trabalhadores. Na época, todo o movimento comercial era desenvolvido em torno do rio Parnaíba, lembrando que a cidade de Uruçuí fica loca-lizada na ponta do lago que se formou com a construção da hidrelétrica,

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barragem de Boa Esperança, que além de prejudicar a navegação, vários moradores da beira rio tiveram que procurar outro local para morar.

A cidade de Uruçuí nessa data era uma muito pequena, de poucas ruas, os comércios se contavam, farmacêutico apenas um, posto de saúde precário, uma Igreja no centro da praça, local mais importante da cidade.

Mas passaram os anos, a forma de transportar mercadoria mudou, agora é através das estradas e sobre carretas e caminhões. As rodovias foram cons-truídas e melhoradas ao longo dos anos, e esse pessoal foi praticamente es-quecido, pois o rio deixou de ser o meio de transporte de pessoas e merca-dorias; automaticamente, esses trabalhadores ficaram sem seus empregos.

Segundo o minidicionário da língua portuguesa de Soares Amora,

“balsa significa barco ou jangada que se usa para o transporte de pessoas, automóveis e cargas para fazer a travessia de rios e mares [...]”. Neste caso, vou analisar o trabalho desenvolvido por trabalhadores que utilizavam o rio e as embarcações para transportar pessoas das comunidades ribeirinhas e mercadorias através das balsas, embarcações feitas de madeiras, talos de buriti e amarradas por cipós e “embira”, uma seda retirada da palha do buriti, todo material encontrado na natureza e na mesma região. A via-gem era longa, no curso do rio Parnaíba, segundo relato de um traba-lhador Basílio Moreira Lima, que conduzia estas balsas, dependendo da viagem eles percorriam longas distâncias, como o percurso feito de Santa Filomena Piauí, na época Alto Parnaíba e do outro lado do rio, Vitória, cidade pertencente ao Estado do Maranhão até a cidade de Uruçuí. O grande percurso, hoje feito através da condução ônibus, é de 451 Km, mais ou menos sete horas de viagem.

Os condutores de balsas passavam dias ou até meses para chegar ao destino. Uma viagem com balsas cheias de bois até a Teresina duraria em torno de dez dias, caso não acontecesse nenhum imprevisto, pois em um rio como este existem muitos perigos, como: remanso, tocos de paus den-tro d´água, e barranco de areia e correnteza forte; se o mestre de balsas não fosse bastante experiente, as balsas virariam às vezes, tinha que ter bastante cuidado e um contramestre forte para ajudar a colocar a balsa no curso do rio novamente.

De acordo com a pesquisadora Kalume (2012), ficaram claras as cau-sas de tais trabalhadores terem suas funções extintas. Iremos analisar as memórias dos mestres de balsas, contramestre e os estivadores, estes

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balhadores que ficaram sem as suas funções porque o rio Parnaíba deixou de ser navegável por conta da construção da barragem de Boa Esperança.

Era pouca a importância dada a estes trabalhadores, o desenvolvimento, como sempre, está acima de quaisquer pessoas, sem pensar que aqueles

Era pouca a importância dada a estes trabalhadores, o desenvolvimento, como sempre, está acima de quaisquer pessoas, sem pensar que aqueles

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