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B) FUNDAMENTOS E PRINCÍPIOS DO DIREITO DO MAR

1. FUNDAMENTOS DO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

O Direito Internacional Público tem por objeto a solução das questões de relações que envolvem os Estados e, em certas circunstâncias, as organizações internacionais. Pode ainda ser definido como o conjunto de princípios e regras concernentes aos interesses da sociedade humana na interdependência dos Estados. Convém realçar que além dos Estados existem hoje outros sujeitos internacionais como as Organizações Internacionais (OI) e as Organizações Não Governamentais (ONG´s).

Torna-se difícil apresentar uma definição do Direito Internacional, uma vez que para definir o Direito Internacional Público (DIP) depende-se das teorias defendidas pelos diversos estudiosos, principalmente quanto ao seu fundamento, fontes e evolução histórica.

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Alfred Verdross, citado por Celso Mello, assinala que o melhor critério é o da “comunidade de que as normas emanam” uma vez que ele “tem por objeto ordenações jurídicas concretas”.

Segundo Pierre-Marie Dupuy

O direito internacional é constituído pelo conjunto das normas e das instituições destinadas a regulamentar a sociedade internacional. Por oposição ao direito internacional privado, que se aplica igualmente no quadro internacional, mas se dirige às relações entre pessoas privadas, o direito internacional público, mesmo que tenha múltiplas ligações com o direito privado, notadamente no domínio econômico, não se aplica em princípio senão aos Estados e, por extensão, aos grupos funcionais de um certo número dentre eles, dotado de personalidade autônoma, as organizações internacionais intergovernamentais (OIG)31. (tradução livre do autor)

Celso Mello, por sua vez, constata que a denominação International Law foi introduzida no último quartel do século XVIII por Jeremias Bentham, em sua obra An

Introduction to the Principles of Moral and Legislation, com a intenção de dar uma

denominação mais precisa ao então denominado Law of nations.32 A palavra público foi acrescentada a fim de distinguir a matéria do direito internacional privado (conflict of laws dos países de língua inglesa), embora o qualificativo seja dispensável”, assinala Accioly.33

A maior parte dos autores como Verdross defende que o Direito Internacional Público ou direito das gentes repousa sobre o consentimento. Um dos princípios fundamentais do DIP é a norma Pacta sunt servanda, segundo a qual o que foi pactuado deve ser cumprido. Accioly, depois de defender que o estudo do fundamento do DIP busca explicar sua obrigatoriedade, constata que são inúmeras as doutrinas que procuram explicar a razão de ser do DIP, mas verifica-se que todas podem ser filiadas a duas correntes, ou seja, a voluntarista e a positivista34.

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DUPUY, Pierre-Marie. Droit international public. Paris:Editions Dalloz, 1998. 684 p.

Le droit international est constitué par l’ensemble des normes et des institutions destinées à régir la société internationale. Par opposition au droit international privé, qui s’applique également dans le cadre international mais s’adresse aux rapports entre personnes privées, le droit international public, dont il sera question ici, même s’il entretient de multiples liens avec le droit privé, notamment dans le domaine économique, ne s’applique en principe qu’aux Etats, et, par extension, aux groupements fonctionnels d’un certain nombre d’entre eux, dotés de personnalité autonome, les organisations internationales intergouvernementales (OIG).

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MELLO, Celso Duvier de Albuquerque. Curso de Direito Internacional Público. Rio de Janeiro: Renovar,1997

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ACCIOLY, Hildebrando. Manual de direito internacional público. 14ª ed. São Paulo: Saraiva, 2000. 34

Vejamos algumas considerações de ordem geral que informam o DIP ao longo dos tempos.

1.2 Considerações Gerais

A noção de direito internacional varia de autor para autor. Para uns só se pode falar em direito internacional a partir de Hugo Grótius ou dos Tratados de Vestefália (1648), enquanto que para outros “a diplomacia é tão antiga como as nações” e “é tão antiga como o mundo e só desaparecerá com ele”. Para Accioly,

seja como for, o estudo da evolução histórica é indispensável para um correto conhecimento dos princípios fundamentais do direito internacional, bem como a sua evolução através dos tempos. Outrossim, não mais se pode ignorar, principalmente depois da Segunda guerra mundial, que, dentre todos os ramos jurídicos, o direito internacional é o que mais tem evoluído, influenciando todos os aspectos da vida humana. Se até o início do século XX o direito internacional era bidimensional, versando apenas sobre a terra e o mar, a partir de então, graças principalmente às façanhas de Santos Dumont, passou a ser tridimensional e, após a Segunda guerra mundial, a abarcar ainda o espaço ultraterrestre e os fundos marinhos35.

Cançado Trindade acrescenta que

A emergência dos novos Estados, em meio ao processo histórico de descolonização, vem marcar profundamente a evolução do direito internacional nas décadas de cinquenta e sessenta, com grande impacto no seio das Nações Unidas. Nesta ingressam, somente de 1962 até o final da década de sessenta, mais de 20 Estados, ex-territórios emancipados, com algum grau de apoio do Comitê da Descolonização (estabelecido pelas Nações Unidas em 1961). Revitaliza-se o princípio da igualdade jurídica dos Estados, afirma-se o direito de autodeterminação dos povos, e intensifica-se a democratização do direito internacional36.

As Nações Unidas gradualmente voltam sua atenção também para o domínio econômico e social, sem prejuízo de sua preocupação inicial com a manutenção da paz e segurança internacionais. Nas palavras de André Pereira e Fausto Quadros “O direito internacional, ao transcender os antigos parâmetros do direito clássico da paz e da guerra, equipa-se para responder às novas demandas e desafios da vida internacional, com maior

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ênfase na cooperação e na solidariedade”37. Já a partir dos anos sessenta, várias organizações internacionais, particularmente as Nações Unidas, engajam-se em um processo quase-legislativo, promovendo o direito internacional geral ou consuetudinário mediante a adoção de sucessivas resoluções declaratórias de princípios, em áreas distintas como as do espaço exterior e dos fundos oceânicos. Em 1982 foi adotada a Convenção de Montego Bay que dá testemunho da aplicação da técnica do consenso, na busca de soluções comuns a todos. Com a entrada em vigor da Convenção em novembro de 1994, sua Parte XI torna-se objeto de renegociação38.

Em junho de 1992 realiza-se, no Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que avança a concepção do desenvolvimento sustentável de modo a satisfazer necessidades humanas básicas, preocupação expressa na Agenda 21e melhorar as condições sócio-econômicas de vida. Desde a realização das Conferências do Rio e de Viena, quatro outras Conferências Mundiais de grande transcendência têm lugar: a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (Cairo, setembro de 1994) que aprovou o Programa de Ação sobre População e Desenvolvimento, a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social (Copenhagen, março de 1995) que aprovou a Declaração e Programa de Ação da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social, a IV Conferência sobre a Mulher ( Beijing, setembro de 1995) que aprovou a Plataforma de Ação de Beijing e a IIª Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Habitat II, Istambul, junho de 1996).

1.3 Fontes do Direito Internacional

As Fontes do Direito Internacional são fundamentais e são consideradas os elementos básicos do regime jurídico do Direito Internacional Público. Segundo Ian Browlie:

É comum os autores distinguirem entre fontes formais e fontes materiais do Direito. As primeiras constituem processos jurídicos e métodos de criação de normas de aplicação geral, as quais são juridicamente vinculativas para os seus 36

TRINDADE, Antônio Augusto Cançado.in Princípios de direito internacional público do titulo original Principle of Public International Law de Ian Brownlie. Apresentação à edição em Língua Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. P.18

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PEREIRA, André Gonçalves e QUADROS, Fausto de. Manual de Direito Internacional Público. 3. ed. Coimbra: Livr. Almedina, 1993, pp.660-661.

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destinatários. As fontes materiais, por outro lado, fazem prova da existência de regras que, quando reveladas, têm o estatuto de normas de aplicação geral juridicamente vinculativas. Nas ordens jurídicas internas, o conceito de fonte formal refere-se ao mecanismo constitucional de elaboração das leis, sendo o estatuto da norma estabelecido pelo Direito Constitucional39.

Ainda no que diz respeito às fontes do direito internacional, o art. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Haia apresenta como tais: os tratados, os costumes e os princípios gerais do direito. Faz referência à jurisprudência e à doutrina como meios auxiliares na determinação das regras jurídicas e faculta, sob certas condições, o emprego da eqüidade.

O costume desempenha um papel importante no Direito Internacional, particularmente no Direito do Mar. O art. 38 do Estatuto da CIJ refere-se ao “costume internacional como prova de uma prática geral aceita como de direito”.

O D1P, e em particular, a Convenção de Montego Bay, ocupa-se hodiernamente das áreas do domínio marítimo do Estado que abrange as águas interiores, o mar territorial, a zona contígua, a zona econômica exclusiva e a plataforma continental.