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O Gêmeo Mexicano de Viracocha

No documento Graham Hancock - As Digitais Dos Deuses (páginas 120-123)

O leitor certamente se lembra que Viracocha, em suas jornadas pelos Andes, era conhecido por diversos nomes. O mesmo aconteceu com Quetzalcoatl. Em algumas partes da América Central (notamente entre os maias quiche) era chamado de Gucumatz. Em outros locais, como, por exemplo, em Chichen Itza, tinha o nome de Kukulkan. Quando as duas palavras foram traduzidas para o inglês, descobriu-se que significavam exatamente a mesma coisa: Serpente Emplumada (ou de Penas). Este era também o significado da palavra Quetzalcoatl.

Havia outras divindades, especialmente entre os maias, cuja identidade parecia fundir-se estreitamente com a de Quetzalcoatl. Uma delas, Votan, um grande civilizador, era descrito também como de pele clara, barbudo e vestido com um longo manto. Os estudiosos não conseguiram descobrir uma tradução para seu nome, embora seu símbolo principal, tal como o de Quetzalcoatl, fosse uma serpente. Outra figura muito parecida atendia pelo nome de lzamana, o deus maia da cura, um indivíduo barbudo, vestido com um manto e cujo símbolo também era a cascavel.

O que emergiu de tudo isso, como concordaram as principais autoridades nesse particular, foi que as lendas mexicanas compiladas e passadas adiante pelos historiadores espanhóis à época da conquista eram, com freqüência, produtos confusos e fundidos de

tradições orais extremamente antigas. Por trás de todas elas, contudo, parecia que teria que haver alguma sólida realidade histórica. Na opinião de Sylvanus Griswold Morley, decano dos estudos sobre os maias:

O grande deus Kukulkan, a Serpente Emplumada, foi a contrapartida maia do Quetzalcoatl asteca, o deus mexicano da luz, dos conhecimentos e da cultura. No panteão maia, ele era considerado como tendo sido o grande organizador, o fundador de cidades, o elaborador de leis e o criador do calendário. Na verdade, seus atributos e biografia são tão humanos que não é improvável que ele possa ter sido um personagem histórico real, algum grande legislador e organizador, persistindo, após sua morte, as recordações de seus atos de benemerência, e cuja personalidade acabou por ser divinizada.

Todas as lendas diziam inequivocamente que Quetzalcoatl/Kukulkan/Gucumatz/Votan/Izamana chegara à América Central procedente de algum lugar muito distante (do outro lado do "Mar Oriental") e que, em meio a grande tristeza, ele viajara novamente na direção de onde viera. As lendas acrescentavam que ele prometera solenemente que voltaria um dia - uma clara reedição da história de Viracocha que seria quase uma maldade atribuir à coincidência. Além disso, vale a pena lembrar que a partida de Viracocha através das ondas do oceano Pacífico era descrita nas tradições andinas como um fato milagroso. A partida de Quetzalcoatl, ao deixar o México, teve também uma estranha conotação, dizendo as lendas que ele se fora em "uma jangada feita de serpentes".

Tudo bem pesado, acho que Morley teve razão ao procurar um ambiente histórico factual subjacente aos mitos maia e mexicano. O que as tradições pareciam indicar era que o estrangeiro de pele clara chamado Quetzalcoatl (ou Kukulkan, ou o que quer que fosse) não fora uma única pessoa, mas provavelmente várias, ali chegadas procedentes do mesmo lugar e pertencentes a um tipo étnico que evidentemente nada tinha de índio (barbudo, pele branca, etc.). Esse faro foi sugerido não só pela existência de uma "família" de deuses

obviamente aparentados, embora ligeiramente diferentes, que compartilhavam o símbolo da serpente. Quetzalcoatl/ Kukulkan/Izamana era claramente descrito em numerosas histórias mexicanas e maias como tendo chegado acompanhado de "atendentes", ou "assistentes".

Alguns mitos mencionados nos textos maias religiosos antigos conhecidos como Livros de Chilam Balam, por exemplo, diziam que "os primeiros habitantes de Yucatán constituíam o 'Povo da Serpente', que chegara em barcos, do outro lado do mar, encabeçados por Izamana, a 'Serpente do Leste', um curador que podia salvar vidas com imposição das mãos e ressuscitar os mortos".

"Kukulkan", dizia outra tradição, "chegou com dezenove companheiros, dois dos quais eram deuses dos peixes, dois outros, deuses da agricultura, e, um, deus do trovão... Eles permaneceram dez anos no Yucatán. Kukulkan elaborou leis sábias, fez-se ao mar em seguida e desapareceu na direção do sol nascente...".

De acordo com Las Casas, historiador espanhol, "os nativos afirmavam que, nos tempos antigos, chegaram ao México vinte homens, cujo chefe era chamado Kukulkan (...) Eles usavam mantos ondulantes e sandálias, tinham longas barbas e cabeças calvas... Kukulkan instruiu o povo nas artes da paz e foi responsável pela construção de vários edifícios importantes...".

Entrementes, Juan de Torquemada registrava a tradição seguinte, muito específica e anterior à conquista, a respeito dos estrangeiros imponentes que haviam chegado ao México em companhia de Quetzalcoatl:

Eles eram homens de boa presença, bem vestidos, usavam mantos de linho preto, abertos no peito, sem pelerine, gola baixa no pescoço, com mangas curtas que não chegavam aos cotovelos. (...) Esses seguidores de Quetzalcoatl eram homens de grande saber e artistas hábeis em todos os tipos de obras finas.

Como se fosse algum gêmeo, há longo tempo perdido, de Viracocha, a divindade andina branca e barbuda, Quetzalcoatl era descrito como tendo trazido para o México todas as perícias e ciências necessárias para criar uma vida civilizada, dando assim início a uma idade áurea. Acreditava-se, por exemplo, que ele tivesse introduzido a arte da escrita na América Central, inventado o calendário e sido o mestre- construtor que ensinou ao povo os segredos da cantaria e da arquitetura. Foi o pai da matemática, da metalurgia, da astronomia e se dizia que havia "medido a terra". Fundou ainda a agricultura produtiva e descobriu e introduziu o milho - literalmente a cultura alimentar básica nessas antigas terras. Grande médico e mestre no uso de remédios, foi o patrono dos curadores e adivinhos "e revelou ao povo os mistérios das propriedades das plantas". Além disso, era reverenciado como legislador, protetor dos artesãos e patrono de todas as artes.

Como se poderia esperar de indivíduo tão refinado e culto, ele proibiu o horrendo costume dos sacrifícios humanos durante o período de sua ascendência no México. Após sua partida, os sanguinolentos rituais voltaram com redobrada fúria. Não obstante, até os astecas, os cultores mais ferrenhos de sacrifícios que jamais existiram na longa história da América Central, lembravam-se "com uma espécie de nostalgia" dos tempos de Quetzalcoatl. "Ele foi um mestre", lembrava uma lenda, "que ensinou que nenhuma coisa viva devia ser prejudicada e que não deviam ser feitos sacrifícios de seres humanos, mas apenas de aves e borboletas."

No documento Graham Hancock - As Digitais Dos Deuses (páginas 120-123)