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Gênese do debate sobre mal-estar e adoecimento docente

2 ESCOLA E TRABALHO DOCENTE SOB PRESSÃO: DAS IMPOSIÇÕES

3.2 Saúde do/a educador/a? O adoecimento na docência

3.2.2 Gênese do debate sobre mal-estar e adoecimento docente

Não se pode negar haver diferentes queixas formuladas pelo/a professor/a no que se refere às suas condições de trabalho e saúde, o que nos perguntamos é: já existe um debate contínuo e consistente em relação às mesmas? Se há uma consideração à temática, desde quando se faz presente e se evidencia?

Na verdade, o processo de debate sobre a saúde do/a educador/a começa a tomar vulto somente a partir da década de setenta, segundo pesquisas de Esteve (1999) e Martinez (2003), quando países como França, Inglaterra e Alemanha apresentaram os primeiros registros epidemiológicos do padecimento docente; na Suécia, apenas em 1983 iniciou-se a discussão sobre o tema, em face de uma assustadora deserção dos professores em relação às suas atividades.

Vasconcellos (1996) alertava para o que referia a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em relação à saúde docente: já em 1983, a OIT considerava os professores como a segunda categoria profissional, em nível mundial, a portar doenças de caráter ocupacional, aquelas adquiridas em função do trabalho, incluindo desde reações alérgicas a giz, distúrbios vocais, gastrite até esquizofrenia. Com base em informações do serviço de atendimento médico e hospitalar do Estado de São Paulo, especifica as ocorrências em relação aos professores, demonstrando que a neurose e a depressão afastavam, em média, 33 professores por dia letivo sendo que, nos últimos quinze meses anteriores ao seu estudo, foram homologadas 8.868 licenças por tratamento de doenças mentais: 6.271 casos de neurose, 807 de dificuldades de ajustamento, 599 por estresse e 284 por depressão.

Em 2006, na Rede Pública Municipal de Ensino de São Luís, o quadro de adoecimento dos/as professores/as não se mostra tão díspar daquela situação; de acordo com os dados da Coordenação de Perícia Médica, as ocorrências de licenças para tratamento de saúde, ocasionadas por transtornos mentais e comportamentais, são responsáveis por elevado índice de afastamento de trabalho.

Em 1984, há a publicação de dois livros alertando para essa problemática na França, onde a profissão de educador já não apresentava mais tantos atrativos e o país começava a se ressentir da falta desses profissionais. Rapidamente essa preocupação se alastra por outros países da Europa.

Na Espanha, com a publicação do seu livro em 1987, Esteve resgata a expressão mal-estar docente, usada desde a década de cinqüenta, por ela designando o que vai muito além da dor ou do adoecimento, buscando uma compreensão da crise que atinge o professor na contemporaneidade e dos incômodos ou sintomatologias que se apresentam quando “[...]

sabemos que algo não vai bem, mas não somos capazes de definir o que não funciona e por quê.” (ESTEVE, 1999, p. 12)

O autor destaca que este fenômeno não deve ser percebido como exclusivo de um determinado sistema educacional, mas apontado como de caráter internacional, sobretudo porque o padecimento manifestado pelos professores nada tem de falso, mas profundamente real, fazendo aparecer um mundo até então ignorado de padecimento e dor. Em sua análise, o mal-estar deriva, sobretudo, das mudanças e exigências sobre o trabalho do professor e alguns fatores são identificados como indicadores desse mal-estar docente, tais como as modificações no papel do professor e dos agentes de socialização, da falta de apoio do contexto social até a escassez dos recursos materiais, limitações institucionais (condições de trabalho), o aumento da violência nas escolas e o esgotamento docente (burnout), dentre outros geradores (ESTEVE, 1999).

Em relação à América Latina, particularmente no Brasil e outros países como Argentina e Chile, a preocupação vem se manifestar mais recentemente, a partir de meados da década de oitenta; inclusive, ao referir-se que “A saúde do trabalho abre um capítulo tardio com o setor docente e suas enfermidades profissionais, riscos e acidentalismo típico [...]”, Martinez (2003, p. 77, destaque da autora) chama a atenção para um fenômeno que, embora não discutido, há muito se faz presente no cotidiano do professor e começa a interferir nos resultados do seu trabalho.

Reportando-se à existência ou não de uma preocupação institucional quanto às diferentes queixas formuladas pelo/a professor/a e relacionadas às suas condições de trabalho e saúde, Martinez (2003, p. 79) destaca que “A saúde do trabalho docente e saúde escolar, ambas tão relacionadas com a vida cotidiana na escola, suas regulações e exigências, não aparecem no interesse dos governos nas áreas de educação e saúde públicas.” Nesse sentido, é preciso que percebamos, também, que o alcance dessa saúde ou sua falta extrapola os muros da escola e afeta igualmente a vida fora dela.

A autora manifesta ainda forte inquietação com essa desatenção que permeia as políticas públicas, dada a seriedade da questão, pois, mais e mais, os professores têm apresentado sofrimento e, de forma significativa, recorrido a consultas com médicos psiquiatras e psicólogos; assim, alerta para o fato de que o eixo das análises investigativas deve levar em consideração que “O docente chama a atenção sobre si com um grito de dor / loucura.” (MARTINEZ, 2003, p. 77).

Na realidade brasileira, a atenção em relação às condições de trabalho e saúde do/a educador/a também não se manifesta em termos de políticas educacionais, como comprovam

Marchiori, Barros e Oliveira (2005, p. 156) a partir do estudo que desenvolveram em Vitória, com 607 professores, e cujos resultados iniciais “[...] sinalizavam o descaso das políticas públicas no que se refere à atenção à saúde dos docentes [...]” naquele município.

Quando perguntamos aos sujeitos da pesquisa (gestores/as, coordenadores/as e professores/as) acerca da existência de algum programa institucional de atenção à saúde docente, elaborado e encaminhado pela Rede Pública Municipal de Ensino às escolas, no sentido de evitar ou amenizar problemas de saúde dos/as professores/as, 100% dos/as entrevistados/as afirmaram desconhecer qualquer programa dessa natureza voltado para os/as docentes; essa discussão também não integra a pauta dos encontros, reuniões e formações continuadas que acontecem na escola e nem constitui elemento de documentos importantes e norteadores, como o Projeto Político-Pedagógico da Escola.

Silvany-Neto et al. (2000) identificam uma grande incidência de adoecimento em professores da rede particular de ensino da Bahia, numa população tida como relativamente jovem, entretanto com uma freqüência significativa de queixas relativas a cansaço mental, nervosismo e distúrbios psíquicos menores (DPM)7.

Importante estudo sobre saúde mental e trabalho, relacionado aos profissionais da educação, foi coordenado por Codo (2002) em 1999, em cerca de 1440 escolas em todo o Brasil, cujos resultados apontam um percentual de 48% dos sujeitos da pesquisa como apresentando os componentes da síndrome de burnout 8.

Noronha (2001), ao desenvolver um estudo sobre os reflexos das condições de trabalho na saúde docente, no norte de Minas Gerais, destaca a presença de sentimentos de insatisfação, frustração e ansiedade que as professoras teriam apontado em função da sobrecarga de trabalho a que se vêem expostas.

Parece-nos, assim, que essa atenção à relação trabalho e saúde docente se faz mais presente em estudos desenvolvidos por pesquisadores/as que revelam inquietação com esse fenômeno e no conjunto das preocupações dos movimentos de trabalhadores/as da educação; ao longo deste trabalho tentamos evocar algumas dessas pesquisas que contribuem para uma análise de tal relação e se referem à organização do trabalho na escola, os processos da saúde- doença e as subjetividades, na perspectiva de fundamentação das discussões empreendidas.

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7 Reis et al (2005) citam como principais ocorrências de distúrbios psíquicos menores (DPM) em professores: nervosismo, tensão, cansaço excessivo, preocupação, tristeza e sustos repentinos.

8 Codo e Vasques-Menezes (2002) explicam que a síndrome de burnout implica a perda do sentido da relação do trabalhador com o trabalho, de tal modo que as coisas já não importam mais e qualquer esforço parece inútil, sendo caracterizada por três componentes: a exaustão emocional, a despersonalização e a falta de envolvimento pessoal no trabalho. Entre a clientela de risco estão os profissionais da educação, pelo contato direto e excessivo com outros seres humanos, o que gera forte tensão emocional e à qual precisam reagir.

4 O ESPELHO DA DOR: NA FALA E NA PRÁTICA, SINAIS DO ADOECER

Inserir-se numa dada realidade e dela tentar captar elementos que nos permitissem compreender a tensão que impulsionou esta pesquisa não se constituiu algo fácil, ao contrário, nos pareceu que quanto mais nos adentrávamos, mais os elementos nos iam fazendo perceber o quão os desconhecíamos. Este capítulo é, assim, uma tentativa de dialogar com os sujeitos a partir do que nos expuseram em seu desnudar, na quebra das reservas e dos temores, na esperança de se verem valorizados em seu adoecer, na perspectiva de novas possibilidades.

Apresentamos singularidades, limites que caracterizam o ser/estar docente na educação pública municipal, as interveniências ao seu trabalho e à sua saúde-doença, o contexto em que se situam, as implicações em termos de exigências, as respostas que tentam elaborar.

Os sinais do adoecer aparecem na sua fala e na sua atividade e são legitimados por um saber e um poder médico, que os sanciona (e também pode negá-los) em forma de licenças médicas, daí derivando um perfil de adoecimento, do qual não se encontra isolada a prática pedagógica, mas penetrando-a, macula seus componentes.

A submissão se faz presente? Movimentos de reação também podem ser elaborados e uma luta se trava entre o que é imposto e a forma como podem se contrapor, subjetivação que se produz.