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Ganhar a vida

No documento Capitalismo e surdez (páginas 69-74)

O modo como os surdos apoiavam a si mesmos e as suas famílias, bem como o sucesso em fazer isso, também é significativo. Assim como em outros aspectos da vida em Vineyard, não havia distinção aparente entre surdos e ouvintes, mesmo para o primeiro surdo da ilha.

Antes e depois de vir para Vineyard em 1692, Jonathan Lambert trabalhava como carpinteiro, fazendeiro e, possivelmente, como tanoeiro (ferramentas de tanoaria e marcenaria foram listadas em seu testamento). Um Jonathan Lambert, quase certamente o mesmo homem, foi listado servindo como “capitão” do bergantim6 Tyral

quando ele zarpou para o Quebec para devolver prisioneiros da famosa expedição ao Quebec iniciada em 1690 (Banks, 1966:297). Esse mesmo Jonathan Lambert foi reconhecido pelos serviços militares prestados e recebeu condecoração, dada a todos que serviram.

Em 17 de maio de 1694, Lambert comprou um trecho de terra em Vineyard, pagando 7 libras, para o cacique local, em troca de sessenta acres irrigados em Tisbury (Banks, 1966). Desde então, essa área tem sido conhecida como Enseada Lambert (Mayhew, 1956:131).

Encontra-se pouca coisa nos registros oficiais sobre esse tranquilo e próspero recém-chegado. Em um período em que a maioria dos registros da cidade e do condado consistiam em processos judiciais, esse carpinteiro se destacou por sua habilidade em evitar contendas com seus vizinhos. Lambert morreu aos 80 anos e seu testamento

6 Embarcação do tipo galé, de um ou dois mastros. Eram comuns para exploração e armadas, além de escolha comum para reis e cerimonias (NT).

foi legitimado no outono seguinte. Pelos padrões da ilha, ele morreu consideravelmente rico. Além de uma propriedade e de terra, detinha artigos de vestuário e ferramentas. O testamento dele listava: três camas confortáveis de penas, três bois, cinco vacas, cavalos, porcos, ovelhas, cordeiros, uma espada e uma arma de fogo, linho e objetos de ferro e latão. Livros também aparecem no inventário, indicando que Lambert pode ter sido alfabetizado7. Ele deu metade de sua

casa para dois de seus filhos, e a outra metade reservou para seus filhos surdos solteiros, Beulah e Ebenezer, até que “morram e tudo se acabe” (essas medidas eram comuns em se tratando de filhos adultos solteiros). Não há indicativos, seja no testamento de Lambert ou em qualquer um dos documentos anexos, da interfência de sua surdez na execução de seus direitos legais. Servir como capitão de um barco, casar, constituir uma família numerosa e ascender a uma posição respeitável na comunidade, indica que Lambert atuou efetivamente na sociedade de Barnstable e Vineyard.

A carreira de Lambert não destoava da de muitos outros ilhéus, surdos e ouvintes, pelos dois séculos seguintes. A economia de Martha’s Vineyard, sobretudo nas cidades da parte superior da ilha, era baseada na pesca e agricultura. Dados do censo de Tisbury e Chilmark possibilitam uma visão geral dos ofícios dentro dessas comunidades. No censo de Tisbury de 1840, a maior parte dos homens adultos (acima dos 15 anos) são listados como trabalhadores na navegação ou agricultura. Várias dúzias são listadas em diversas atividades de manufatura e mercado. (Apenas 3 dos 320 homens na cidade trabalhavam no comércio; eles administravam armazéns. Um censo federal realizado em Chilmark uma década mais tarde mostrou dados praticamente iguais, porém, dessa vez o número de fazendeiros superava ligeiramente o número de marinheiros.

Essas listagens podem em algum ponto levar a conclusões equivoca- das. Isso porque muitos dos fazendeiros também pescavam de alguma

7 Não era incomum que um kentiano, filho de fazendeiro, frequentasse o ensino primário local por um ano ou dois (Chalkins, 1970). A ênfase tradicional na escola- rização foi mantida no continente americano.

forma, e todo pescador tinha ao menos uma plantação suficiente para sua subsistência. As famílias agricultoras da ilha produziam a maior parte do seu alimento. Ao se casarem, os homens jovens, surdos e ouvintes, normalmente compravam ou arrendavam uma fazenda para si. Todos os homens surdos que se casaram aparentemente tinham suas próprias fazendas. Uns poucos se especializavam: Nathaniel Mann possuía uma grande manada leiteira e vendia leite para todos os seus vizinhos; Silas Brewer cultivava vegetais para venda. A maioria mantinha fazendas similares as descritas em um artigo publicado na Vineyard Gazette (1931) sobre o Sr. North, que era surdo.

O Sr. North nasceu em uma fazenda, a mesma onde reside hoje, e ali morou ao longo da sua vida. Sua sabedoria consistia em aumentar o estoque e a agricultura, e ao longo de seus vigorosos anos de vida sempre cultivou seus campos e cuidou do seu gado e ovelha. Enquanto fazendeiro, seus esforços se provaram frutíferos, e grandes colheitas encheram o velho celeiro a cada outono.

Diversos informantes citaram a fazenda do maneta Jedidiah, que nasceu surdo.

Bem, tudo que sei sobre eles é que eles plantavam, cultivaram muito. Naqueles tempos, sabe, plantavam praticamente tudo que comiam. Tinham fazendas grandes onde cultivavam muitas coisas... ele sempre teve uma grande fazenda e trabalhava nela e tinha gado e cavalos.

O maneta Jedidiah... tinha um pasto... era um pasto lindo e ele tinha um cavalo. Todo mundo naquela época tinha um cavalo e uma vaca e alguns tinham uma junta de bois, ainda por cima. E de tardinha, no início da noite, se a vaca não voltasse para o celeiro ele saia e gritava para ela. Dava para ouvi-lo em toda Quitsa.

Esse homem, Jedidiah, que tinha a reputação de ser um dos melhores barqueiros e o melhor atirador de Chilmark, também era lembrado como o inventor de uma armadilha para Rato-almiscarado tão efetiva, que foi proibida.

Para os habitantes da parte superior da ilha, a pesca era feita em dóris. Os dóris são grandes e belamente desenhados barcos a remo abertos e individuais. As águas de Vineyard eram excepcionalmente abundantes de peixes e com fácil acesso aos mercados costeiros, de modo que os ilhéus locais no século XIX conseguiam viver bem através da pesca. Muitos dos homens surdos são lembrados como pescadores ou envolvidos com transações similares. Meus informantes não pontuavam qualquer distinção entre eles e seus contemporâneos ouvintes. Um capitão idoso narrou – “Pelo que me lembro, Jonathan North manejava um conjunto de armadilhas ou redes de pesca em Menemsha Bight, logo ao norte do riacho e era o mais bem-sucedido nisso”. E, um pescador aposentado recordou:

Josiah Brewer tinha um barquinho, um bom barquinho, e caçava enguias nos lagos. Enguias eram peixes caros naqueles tempos, eram vendidas em Nova York. Os compradores vinham no outono para adquiri-las... e ele era um ótimo pesguia – pescador de enguia. Ele também saia da praia em Squibnocket em um dóri, assim como os demais pescadores faziam, e caçava bacalhau. Mas ele não era pescador em tempo integral, ele tinha uma fazenda.

Diversos ilhéus surdos perderam suas vidas no mar. Em um artigo publicado no Cottage City Star de setembro de 1881, o seguinte acidente foi relatado:

Na sexta passada, ocorreu em Gay Head um dos mais tristes naufrágios em muitos anos. Dois irmãos, Zeno e Samuel E. zarparam do riacho Menemsha para Nomans Land, por volta do meio dia, em um dos nossos fiéis barcos de pesca de Vineyard. Sábado de manhã o senhor Clarence Cleveland estava transportando cestos de lagostas quando avistou um barco revirado flutuando próximo a barragem de cação. Ele imediatamente retornou a Lobsterville e convocou um time de investigação, que visitou o local do acidente. Um grupo encontrou o barco do sr. E próximo à barragem, enquanto o grupo terrestre encontrou os cadáveres dos irmãos repuxados pelas ondas na praia próximo ao Sandy Point.

O sr. Zeno E., era um surdo-mudo de 59 anos, e deixou uma esposa e um filho. O sr. Samuel E. tinha 54 anos, e deixou uma esposa e dois filhos. Por muitos anos, esse foi um dos casos mais

tristes de mortes repentinas acontecido na ilha, e os aflitos em luto terão a simpatia calorosa de toda a localidade, em sua súbita e triste aflição.

O reverendo Joseph Thaxter escreveu em seu diário, em setembro de 1801: “George Corliss Potter, o surdo e mudo filho de William P., caiu no mar e se afogou no Canal da Mancha, aos 32 anos”. Benjamin E., que era surdo, e seu irmão ouvinte perderam-se buscando madeira para a ilha em uma balsa que partiu de New Bedford na primavera de 1805. Ele morreu e deixou sua esposa e dois filhos, todos surdos.

A única atividade marítima da qual os surdos aparentemente não participaram foi a caça baleeira. Embora Edgartown fosse um porto referência de atividade baleeira, muitos jovens escolhiam não partir nesse tipo de viagem, mas não há qualquer evidência de que a surdez era uma restrição.

Quase todos os homens de Vineyard também realizaram, oca- sionalmente, bicos como cortar madeira, construir muros de pedra ou preparar feno, para ajudar a pagar as contas. Os ilhéus surdos não eram exceção. Jonathan Lambert era agricultor e carpinteiro; William Everett, no século XIX, é lembrado por ter sido pescador e construtor naval; Roy North é reconhecido “por ter tido uma pequena fazenda e vender lenha para metade de Chilmark.” O maneta Jedidiah complementava sua renda fornecendo aves de caça para os vizinhos.

Em Nomans Land, onde os barcos tinham que ser rebocados da água toda noite, Ezra Brewer fazia a vida rebocando barcos usando seu par de bois. Cada proprietário de barco pagava a ele cinco dólares por temporada e isso, somado à sua plantação de subsistência, era o seu sustento. Brewer também atuava como vigia para náuticos de Nomans Land. Os pilotos que guiavam os barcos ao porto ficavam aguardando em cabanas na ilha. Ezra era pago para se sentar no topo da colina e manter um olhar atento à chegada de barcos baleeiros. Assim que avistasse um, devia correr até o piloto que o empregava. O piloto então corria para lançar seu bote na esperança de chegar até a embarcação antes dos outros.

As mulheres normalmente não trabalhavam fora de casa e da fazenda, mas muitas, especialmente as solteironas e viúvas, assumiam trabalhos como costureiras, domésticas, babás ou passadeiras para ajudar a pagar as contas. As surdas são conhecidas por assumirem todos esses tipos de trabalho; duas, uma no século XVIII e outra no século XIX, são referidas, especificamente, como costureiras. Uma pode ter tido uma pequena alfaiataria em um galpão atrás de sua casa.

Um antigo veranista mencionou: “Disseram-me uma vez que tanto o pastor quanto o lojista eram surdos e mudos,”, mas esse informante não se lembrava de ter ouvido nomes específicos. Nenhum registro oral ou escrito menciona um pastor ou lojista surdo. Pode ser que os veranistas tenham contado essa história para ilustrar o quão comum era a surdez e como de fato era tratada pela população local.

No documento Capitalismo e surdez (páginas 69-74)