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SUMÁRIO

2 REVISÃO DA LITERATURA

2.5.2 Gene PPARG e polimorfismo rs1801282 (g.68777C>G)

O gene PPARG, conhecido por receptor ativado por proliferadores de peroxissoma gama, está localizado no cromossomo 3p25.2 e codifica um dos membros da subfamília dos receptores nucleares PPAR: o PPARγ. A subfamília de receptores PPAR formam heterodímeros com receptores retinóides X (do inglês retinoid X receptors – RXRs) e essa ligação é importante na regulação da transcrição de vários genes (Figura 5). Além do subtipo PPARγ, a subfamília PPAR é formada por PPARα e PPARΔ. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/gene/5468, acesso em 10 fevereiro de 2019).

Figura 5: Regulação molecular da transcrição da família PPAR e o papel dos RXR. A

heterodimerização com RXR é primordial para o recrutamento de coativadores, necessários para iniciar o processo de transcrição ou correpressores que inibem o processo.

Legenda: RXR: Retinoid X receptors ou receptores retinóides X Fonte: Adaptado de GLASS & OGAWA, 2006

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49 O PPARα tem a função de captar e oxidar moléculas de ácidos graxos no fígado. No músculo esquelético todos os PPARs agem na regulação da oxidação e transporte de ácidos graxos e no tecido adiposo tem envolvimento com o aumento da sensibilidade à insulina, termogênese e diferenciação celular, o que lhes confere participação importante na prevenção da obesidade. Além disso, todos os PPARs também podem diminuir a produção de citocinas pró-inflamatórias e aumentar a produção e secreção de adiponectina nos adipócitos por se ligar diretamente ao elemento de resposta a PPAR (PPRE) no promotor do gene APM1. Nas artérias podem aumentar o fluxo de HDL-c e queda nas concentrações de TAG (IWAKI et al., 2003, BARISH et al., 2006). Devido a essa gama de funções dos PPARs é apontado que perturbações do seu funcionamento normal podem implicar no desenvolvimento de numerosos fatores de risco para a DCV incluindo obesidade, DMT2 e aterosclerose. A figura 6 destaca as importantes funções metabólicas do PPARγ.

Figura 6:Ilustração das funções metabólicas do PAPARγ.

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50 Existem três isoformas do gene PPARG que são geradas através de splicing alternativo:

PPARG1, PPARG2 e PPARG3 (https://www.genenames.org/data/gene-symbol-

report/#!/hgnc_id/HGNC:9236, acesso em fevereiro de 2019). O PPARG1 é expresso em vários tecidos, o PPARG2 é expresso predominantemente no tecido adiposo e o PPARG3 é restrito aos macrófagos e intestino (BARISH et al., 2006).

Em 1997 foi identificada uma mutação no códon 12 no éxon B do gene PPARG2, caracterizada pela substituição de uma citosina (C) por uma guanina (G) no nucleotídeo 34 [PPARG rs1801282 - C/G (FWD)], resultando na substituição de prolina (Pro) por alanina (Ala) no resíduo 12 da proteína (Pro12Ala). A presença do alelo ‘Ala’ tem sido associada com baixa atividade da proteína devido à redução de sua afinidade com o DNA e pela transativação in vitro (DEEB et al., 1998). A partir dessas importantes descobertas, estudos observacionais e experimentais começaram a investigar o papel no SNP PPARG rs1801282 ou Pro12Ala nos distúrbios metabólicos como a obesidade e DMT2 (TAVARES et al., 2005; GOUDA et al., 2010; PASSARO et al., 2011; QUEIROZ et al., 2015; ROCHA et al., 2015).

Os resultados dos estudos de associação com a obesidade e DMT2 têm sido controversos. Algumas meta-análises têm indicado uma associação positiva entre este SNP e o DMT2, sendo que diferentes riscos foram atribuídos a variados grupos étnicos (LUDOVICO et al., 2007; GOUDA et al., 2010). Outras indicaram associação positiva deste SNP com IMC superior a 27kg/m² (MASUD et al., 2003) e com DCV em homens (DALLONGEVILLE et al., 2009). Porém os resultados de associação deste SNP com colesterol total, TAG, HDL-c, insulina e HOMA-IR têm sido controversos (SÁNCHEZ et al., 2002; LINDI et al., 2002; MASUD et al., 2003; HANSEN et al., 2005; FORNAGE et al., 2005; TAVARES et al., 2005). O polimorfismo PPARG rs1801282 apresenta uma frequência na população que varia de acordo com a etnia. Segundo o Consórcio HapMap, a presença do alelo C deste polimorfismo tem sido maior que a do alelo G tanto em descendentes de africanos e africanos (ambos 98%) quanto em europeus (> 90%) (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/snp /rs1801282, acesso em fevereiro de 2009). A presença do alelo G pode estar associada a um estado saudável. Gouda e cols. (2010) observaram que nos controles caucasianos a frequência do alelo G variou de 5,9% a 21,6%, o que foi acima do esperado para europeus (em torno de 10%). Porém, contestando esse achado, um estudo com a população infanto juvenil da área urbana de Ouro Preto apontou que a presença do alelo variante G conferiu alto risco de concentração plasmática alterada de

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51 insulina (OR:12,21; p=0,0003) e HOMA-IR (OR=7,47, p=0,005) no grupo com sobrepeso (QUEIROZ et al., 2015).

2.5.3 Gene NOS3 e o polimorfismo rs1799983 (g.12965T>G ou Glu298Asp)

O gene NOS3 está localizado no cromossomo 7q36.1 e é um dos principais genes envolvidos na regulação da função endotelial, através da codificação eNOS, principal enzima responsável pela síntese de NO no endotélio vascular (PALMER et al., 1988). O NO promove o relaxamento do músculo liso vascular, através de uma via de transdução de sinal mediada por GMPc, medeia a angiogênese induzida pelo fator de crescimento endotelial vascular (do inglês Vascular endothelial growth factor -VEGF) em vasos coronários e promove a coagulação do sangue através da ativação de plaquetas e, portanto, todas estas ações vão culminar na regulação da pressão arterial (JEREMY et al., 1999).

O polimorfismo NOS3 rs1799983 está localizado no éxon 7 (G/T - FWD) na posição 894 do cDNA do gene NOS3 que resulta na troca de um aminoácido glutamato (Glu) por um aspartato (Asp) na posição 298 da eNOS (Glu298Asp), o que compromete a sua funcionalidade (JOSHI et al., 2007). Estudos in vitro revelaram que o alelo ‘Asp’ reduz a ligação da eNOS à caveolina-1, diminuindo assim a biodisponibilidade da enzima na sua fração caveolar nas células endoteliais (JOSHI et al, 2007; OLIVEIRA-PAULA et al., 2017). Sendo assim, uma reduzida quantidade de eNOS fica disponível para ativação mediada pelo complexo cálcio- calmodulina, resultando em menor atividade enzimática em relação ao alelo ‘Glu’. Esses dados parecem ser também relevantes in vivo, uma vez que indivíduos portadores do alelo ‘Asp’ apresentaram reduzida formação plaquetária mediada por ON comparados aos carreadores do alelo ‘Glu’ (TANUS-SANTOS et al., 2002; GODFREY et al., 2007). A figura 7 ilustra esse mecanismo:

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52 Figura 7: Funcionalidade do polimorfismo NOS3 rs1799983 (Glu298Asp).

Legenda: Asp: Aspartato; Cav: Caveolina; Ca2+: Cálcio; CaM: Calmodulina; G: Guanina; Glu: Glutamato;

NOS3 Nitric oxide synthase 3 ou óxido nítrico sintase 3; ON: Óxido nítrico; T: Timina Fonte: Adaptado de OLIVEIRA-PAULA et al., 2017

Estudos sugerem que este polimorfismo está associado com o desenvolvimento da HAS e doenças coronarianas, além das frações alteradas de LDL-c e HDL-c (PEREIRA et al., 2006; CHANG et al., 2010; KINGAH et al., 2010). Li e cols. (2004) mostraram que um alelo raro no íntron 4 do gene NOS3, o qual é frequentemente encontrado em afro-americanos, associado a presença do alelo ancestral G do polimorfismo NOS3 rs1799983, poderia constituir um marcador de variação na pressão arterial em afrodescendentes. Vários estudos em grupos étnicos específicos, inclusive em populações miscigenadas como a brasileira, corroboram com a evidência da relação entre este polimorfismo com a HAS e as dislipidemias. (TANUS- SANTOS et al., 2002; MARRONI et al., 2005; PEREIRA et al., 2006; LUIZON et al., 2009, CHANG et al., 2010; KIMURA et al., 2012).

Segundo o Consórcio HapMap, a frequência do alelo ancestral G (Glu) no polimorfismo NOS3 rs1799983 é maior e apresenta-se mais elevada em africanos (93%), seguida de

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53 afroamericanos (85%) e em menor proporção em europeus (65%) (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/snp/rs1799983, acesso em fevereiro de 2019).