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General-de-Brigada Geraldo Luiz Nery da Silva

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 196-200)

Entrevista realizada pelo Coronel Aurelio Cordeiro da Fonseca, no dia 21 de fevereiro de 2002.

Com grande satisfação aqui estamos para falar, sobretudo, do 2o RO 105 – Re-gimento Deodoro – e da nossa Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN – na Revolução de 31 de Março de 1964, passando primeiramente pelos pródromos do nos-so movimento revolucionário, desde a renúncia de Jânio Quadros, ocorrida em 1961. O nosso escopo, portanto, é apresentar os fatos reais vividos nos pródromos, na eclosão e durante o desenvolvimento da Revolução de 31 de Março, totalmente deturpados pelos revanchistas – esquerdistas internacionalistas – derrotados fragorosamente no campo militar pela Revolução, para que o Brasil permanecesse democrático, crescesse e prosperasse, com ordem e segurança.

Poderia precisar quais foram as raízes do Movimento revolucionário desencadeado em 31 de março de 1964?

Alguns estudiosos da História do Brasil entendem que as raízes da Revolução de 31 de Março de 1964 estejam em 1922, nas idéias do tenentismo, idéias de um Brasil grande, como suas dimensões geográficas (8.500 mil km2), onde o dinamismo viesse substituir o marasmo da década de 1910 e 1920 do Brasil República, idéias que geraram as Revoluções de 1922, 1924, 1926 e 1930.

A maioria dos que se dedicam ao assunto crê, no entanto, que o Movimento de 1964 vem do repúdio ao comunismo no meio militar, nascido em 1935, pelos crimes perpetrados pelos marxistas-leninistas, na Intentona Comunista, levante ar-mado que irrompeu em Natal, Recife e no Rio de Janeiro, financiado e determinado pelo Comintern – a Internacional Comunista –, fundada, em 1919, por Lênin, para propagar o comunismo, e aproveitada por Stalin para promover os interesses da política exterior da União Soviética.

A Intentona, conduzida por Luís Carlos Prestes, que entrou no País com passa-porte falso para chefiá-la, contou com 23 estrangeiros para a sua preparação e execu-ção, dos quais apenas nove foram presos no Brasil após o fracasso do movimento. Ficou, no seio do Exército e das Forças Armadas, a revolta contra aquela infame Intentona, na qual os comunistas mataram covardemente seus companheiros de farda enquanto dormiam.

Acredito, todavia, que as raízes mais fortes da Revolução de 31 de Março de 1964 estejam, verdadeiramente, no início da década de 1960. Vou me ater, portanto, a causas da Revolução de 1964 mais próximas, ou seja, ao ano de 1961, quando se deu a renúncia do Presidente Jânio Quadros, período em que eu servia no 2o RO 105 – Regi-mento Deodoro –, após ter sido declarado Aspirante-a-Oficial, em 4 de dezembro de 1960. Nessa época, o 2o RO 105 possuía dois Grupos e uma Bateria Comando do Regimento (BCR). Contudo, só um dos Grupos e a BCR possuíam efetivo completo em

pessoal. No outro Grupo, só havia os obuseiros e uma Guarda do Material – comandada por um graduado – o Sargento Barconi – que contava com cerca de dez soldados – para realizar a sua manutenção, a qual era muito bem-feita.

Ao Regimento Deodoro, chegaram comigo mais dois Aspirantes – Roberto Coimbra do Prado e Armindo da Luz Matheus, classificados na 2a Bateria de Obuses, enquanto fui designado para a 1a Bateria.

O ambiente no Regimento era o melhor possível, tanto entre Oficiais, onde a camaradagem merece destaque, como entre oficiais e sargentos, caracterizado por uma forte união, parecendo vir de longe, pela sua expressão, pela solidez que apresentava, e que foi mantida pelos integrantes da Unidade naquela época, o que se mostrou extremamente importante nos momentos decisivos, vividos nesse pri-meiro lustro da década de 1960.

O expediente da Unidade começava diariamente após o Bom Dia de todos os oficiais reunidos ao Comandante do Regimento, Coronel Oswaldo de Mello Loureiro, chefe ríspido e enigmático, de difícil trato, a única pessoa que não contribuía para o clima amistoso e de sadia camaradagem vivenciado naquele quartel de nossa Artilharia de Campanha.

A maneira de ser do comandante – é bom que se diga – não conseguia afetar, de modo algum, o excepcional ambiente que se desfrutava no Regimento. Para se ter uma idéia da integração reinante, lembro-me de que, nas ativi-dades esportivas do meio-expediente de sábado, eu e alguns outros oficiais jogá-vamos futebol de campo com os sargentos, para obtermos o quorum necessário, impossível de se conseguir só com os oficiais, que se dividiam entre o futebol de campo, muito poucos, futebol de salão, voleibol e o tênis, esporte que nascia no Regimento, naquela época.

Nunca houve o menor problema no nosso futebol. Ao contrário, disputamos partidas inesquecíveis que também contribuíam para aproximar oficiais e sargentos. Com os graduados e soldados, participávamos, ainda e oficialmente, dos Exer-cícios de Orientação, chamados, na época, de ExerExer-cícios de Patrulha, onde o comando cabia aos Aspirantes e Tenentes, havendo nas patrulhas obrigatoriamente sargentos, cabos e soldados. Enfrentamos competições acirradas, representando as nossas Bate-rias, e que sempre resultavam numa união crescente entre oficiais e graduados em cada subunidade e entre as mesmas, até porque, no dia seguinte ao embate, vinha o almoço de confraternização do Grupo, com as premiações dos vencedores.

De segunda a sexta-feira, as minhas atividades eram gratificantes à frente da Linha de Fogo da 1a Bateria de Obuses (1a Bia O), naquela época a quatro peças. Os meus Chefes de Peças – Sargentos Queiroz (CP1), Pezuto (CP2), Hermes (CP3) e Rego

Barros (CP4) – eram, antes de tudo, excelentes profissionais: leais, sinceros, dedica-dos e competentes. Não posso esquecer do Sargento Stefanuto, da manutenção de viaturas, que se desdobrava e tudo saía bem, e do 1o Sargento Armando – Sargen-teante – disciplinador duríssimo com ele mesmo e com todos os subordinados.

Posso afirmar que o padrão de oficiais e sargentos do Regimento não diferia do de minha subunidade. Nas demais Baterias, os graduados mostravam-se também muito disciplinados e capazes, informação que me chegava através dos outros te-nentes e de minhas observações pessoais, principalmente no período em que acu-mulei a função de CLF (Comandante da Linha de Fogo) com a de Oficial de Reconheci-mento, trabalhando também na Topografia, integrado a oficiais e sargentos da Bateria Comando (BC) e da 2a Bateria, sob a coordenação do Adjunto do S/2, 1o-Tenente Salazar, com quem muito aprendi. A nossa Bateria fazia a Área de Alvos, a 2a, a Área de Posições, e a BC, a Conexão.

Fora do quartel, durante a noite, os tenentes solteiros continuavam juntos nos dois principais clubes da cidade. Esta nossa união merece ser ressaltada.

Durante os dias, inteiramente dedicados às nossas funções, vivíamos felizes, apesar de muito mal remunerados, quando fomos surpreendidos com a renúncia de Jânio. O 2o RO entrou inicialmente de Sobreaviso e o Comandante da Unidade, que saíra para buscar informações junto ao Escalão Superior, retornou sem obtê-las.

Aqui, cabe um parêntese para dizer que, nesse momento, os oficiais do Regimento desconheciam, realmente, a posição política e ideológica do Coman-dante, embora tivesse ele, em rápida reunião feita conosco ao retornar a Itu, criticado a falta de informações proveniente do Escalão Superior, configurando, segundo ele, uma inadequada condução da situação no meio militar. Chegou a nos perguntar se sabíamos de algo através dos noticiários para transmitir-lhe, porque ele nada tinha a nos dizer, o que pareceu muito estranho para todos os capitães e tenentes com quem conversei.

No dia seguinte pela manhã, o Regimento recebeu a visita do General Ulhoa Cintra, que veio na qualidade de Comandante do Grupamento Tático 4, que en-quadrava parte da tropa de São Paulo e com o qual deveríamos partir contra o Rio Grande do Sul, pois o III Exército se posicionara favorável à posse de João Goulart na Presidência, com o que os ministros militares não concordavam, por conhecê-lo bem no desempenho de outros cargos públicos, inclusive como Ministro do Traba-lho no Governo Getúlio Vargas.

No salão de reuniões, o General Ulhoa Cintra dirigiu a palavra aos oficiais, concitando a todos para marchar contra o III Exército, de modo a impedir a assunção de João Goulart, atendendo às ordens do Ministro da Guerra, General Odylio Denys.

Penso que, se aí ele encerrasse as suas palavras, o Regimento sairia tran-qüilamente, apesar da posição contrária do Comandante, que nós desconhecía-mos, mas que o General conhecia muito bem, motivo pelo qual ele continuou a falar, dando um recado ao Coronel Loureiro, mas que acabou gerando uma crise, como mostraremos.

Assim, o General, ao concluir, afirmou que as tropas que se deslocariam para o Sul, como as sob seu comando, eram muito mais fortes e muito melhor apoiadas do que as oponentes, o que nos levaria a entrar triunfantes em Porto Alegre e que “não admitiria, em nenhuma hipótese, demonstrações de tibieza”.

Após essas últimas palavras, perguntou se alguém tinha alguma coisa a dizer. E, nesse exato momento, o Major Nelson Lucas, S/3 do Grupo, disse que não estava preocupado se o GT/4 era forte ou não; estava, sim, preocupado com a sua consci-ência ao participar de uma luta fratricida. Que iria armado de cacetete contra o Sul, sem nenhum problema, se a sua consciência o mandasse e não porque ele se sentisse forte. Que embora não fosse tíbio, sentia-se fraco por não ter como explicar aos seus filhos o porquê do seu ato de ir contra aqueles que, por acaso, estavam servin-do no III Exército. O Major Lucas era um oficial muito correto, família muito bem constituída e a sua posição tinha peso. Diante dessa intervenção, o General Ulhoa Cintra determinou que aqueles que estivessem solidários com o Major Lucas que dessem um passo à frente. Os oficiais superiores primeiro, seguidos dos capitães e, posteriormente, os tenentes e aspirantes, todos deram um passo à frente. Por fim, o Comandante, muito esperto, que só depois passamos a conhecer, declarou-se soli-dário a seus oficiais. Para ele, caiu a sopa no mel!...

O General, extremamente irado, chamou o seu Estado-Maior e retirou-se do Regimento. A partir daí e por um bom tempo, a paz de espírito, que sempre reinara na Unidade, transformou-se em desassossego, caracterizado por dúvidas e incertezas, em face dos fatos que passaremos a narrar.

Soubemos, logo depois, hora do almoço, que todos os oficiais se encontra-vam presos e, portanto, impedidos de sair do quartel.

Por coincidência, os três Aspirantes da Turma de 1960 estavam sendo pre-sos e, ao mesmo tempo, promovidos a 2o Tenente pela Portaria de 25 de Agosto do Ministro da Guerra. Então, eu fui promovido e preso no mesmo dia.

Horas depois, saíram presos de Itu para Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, todos os oficiais superiores do 2o RO 105 (Coronel Loureiro – Comandante; Coronel Roberto – Subcomandante; Tenente-Coronel Arsonval – Comandante do I Grupo; Majores Jayme e Lucas, respectivamente Oficiais de Operações do Regimento e do I Grupo). Ficou no comando da Unidade o Major Eduardo de Paula Carvalho

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 196-200)