* Comandante da 5a Companhia de Fuzileiros do II Batalhão do 11o Regimento de Infantaria, entrevistado em 10 de maio de 2001.
Iniciando minha entrevista quero destacar que estamos tratando de um acon-tecimento passado há 56 anos, pedindo, então, que compreendam se a memória falhar em determinados momentos.
O ambiente no Brasil, com relação à Segunda Guerra Mundial, no ano de 1939 e no início da década de 1940, pode ser dividido em dois períodos: antes e após o ataque dos submarinos alemães aos nossos navios mercantes. Após esse fato, a opi-nião pública manifestou-se com muita intensidade, forçando as autoridades a uma solução que já se fazia necessária. Houve uma pressão popular, no sentido de que deixássemos a neutralidade. Iniciou-se então a organização da FEB, que foi compos-ta de três Regimentos de Infancompos-taria: um do Rio de Janeiro, um de São Paulo e um de Minas Gerais; por tropas de Artilharia, Cavalaria, Engenharia e demais órgãos.
Não foi possível reunir esses regimentos, o que dificultou muito a organiza-ção da FEB. Tivemos problemas de falta de local, para receber os regimentos que vinham de fora, como o 6o RI e o próprio 11o RI de São João Del Rei, do qual eu fazia parte, comandando a 5a Companhia; enfrentamos muitas dificuldades.
Junto com o 6o RI, embarcou grande parte da minha Companhia, que foi posta à disposição na Vila Militar, onde se encontrava uma composição, para levar os ele-mentos que completariam a capacidade do navio-transporte. Ela ficou quase que esfa-celada, de tantos elementos que foram necessários para embarcar com o 6o RI, que era o 1o escalão.
Um fato interessante das dificuldades que enfrentamos aconteceu comigo. Pediam para embarque um capelão e entendia-se, na Vila Militar, um Capitão. Che-guei a colocar as malas no trem, mas a confusão foi desfeita a tempo. Daí em diante, fiquei conhecido pelo apelido de “pároco”, colocado pelo Klécius Caldas.
Numa visita do General Zenóbio da Costa ao 6o RI, na Vila Militar, num sábado, não havia quase ninguém do efetivo. Era comum o pessoal do 6o RI embarcar para São Paulo às sextas-feiras e voltar no domingo à noite, daí surgiu o dito: “A cobra vai fumar”. A locomotiva do trem que o pessoal saía do Rio de Janeiro, para visitar os parentes em São Paulo, era à carvão. Então, “a cobra vai fumar” era a fuga do pessoal, antes do embarque para a Itália.
Dirigindo-se ao Morro do Capistrano para visitar o 11o RI, o General mandou reunir o Regimento e subindo na escada que havia no pavilhão de madeira do aloja-mento, como um desabafo, fez uma proposta ao Regimento.
Primeiro, elogiou o soldado mineiro por sua disposição de cumprir o dever; segundo, declarou que dava a palavra de General do Exército Brasileiro, de que não aconteceria nada a quem, naquele momento, se apresentasse dizendo que não dese-jaria ir para a guerra. Saíram três elementos do Regimento.
Com o Regimento todo formado, as companhias das extremidades avançaram, para ver quem estava saindo, dando a impressão ao General de que a Unidade estava saindo quase toda de forma. Estabelecido o controle das companhias nos seus locais, o General mandou que cada um dos apresentados, como não desejavam ir à guerra, dessem os seus motivos.
Um declarou que não desejava ir, porque já tinha ido um irmão e achava que as missões deveriam ser divididas. Um outro deu uma desculpa que não me recordo e um cabo declarou que não desejava ir, porque era contra o Brasil participar de guerras externas.
O General mandou que o cabo subisse as escadas, falasse em voz alta a todo o Regimento, declarando que não desejava servir na Força Expedicionária Brasileira porque era contra os seus princípios o Brasil participar de guerras externas.
Os elementos foram recolhidos presos, mas o Estado-Maior mostrou ao Gene-ral que não poderia prendê-los. Os demais integrantes do Regimento foram dispensa-dos, com a promessa da oferta de oito dias de dispensa para visitar as suas famílias, o que não faziam desde que vieram para o Rio de Janeiro, e daí para a frente, tudo correu bem.
As condições de alojamento no Morro do Capistrano eram péssimas. Era co-mum ouvir o soldado de manhã, ao acordar, dizer: “Vamos levantar para descansar”. A umidade passava do chão, malfeito de cimento, para os colchões.
Após o embarque do 6o RI, recebemos uma quantidade de camas-patentes para completar as falhas no Regimento; as que foram para a minha Companhia estavam tomadas de percevejos. Procurei o Comando do Regimento e declarei que não podíamos usar aquelas camas, porque embora tivéssemos muitos problemas, não havia percevejos no alojamento. O Coronel retrucou: “Capitão, aqui estamos acostumados a fazer o possível e o impossível.” Ao que eu lhe respondi: “Coronel, entre os meus impossíveis não está tirar percevejo de cama-patente. Se o senhor me permitir colocar água fervendo, vou tomar essa providência.” Foi permitido, então demos um banho de água fervendo em todas as camas, para que pudéssemos usá-las, nos alojamentos.
Foi pena que o embarque da FEB não tivesse sido feito em conjunto, toda a Divisão de uma vez, mas não havia navio para todos. O tempo de espera no Rio de Janeiro não foi bom.
Meu ingresso na Força Expedicionária Brasileira teve um particular. Servia como Instrutor da Escola Militar do Realengo quando, num determinado dia, recebi um mensageiro que portava uma folha de papel almaço com o seguinte cabeçalho: “Deveis declarar ao pé deste, se desejais ser comissionado para servir na Força
Expe-dicionária Brasileira. Se declarado negativamente, nenhuma conseqüência podereis reclamar advinda deste ato.”
Foi um verdadeiro voluntariado. Quis retrucar:“Não se pergunta ao soldado se é com capote ou sem capote, determina-se.” Mas fiquei com medo, receoso de que isso fosse tomado como uma recusa e, servindo na Escola Militar, seria inad-missível uma atitude dessas. Declarei sim e fui comissionado no posto de Capitão, para servir na FEB.
Segui para a Itália no Comando da 5a Companhia de Fuzileiros do 11o RI, onde fiquei durante quase toda a campanha, só me afastando durante quinze dias, baixa-do ao hospital. Não foi nenhum ferimento, foi uma febre que precisava ser verificada, porque se manifestava em horários certos, o que me preocupou muito, mas voltei e reassumi o Comando da minha Companhia. Aliás, quero destacar que era uma coisa notável o sentimento de amor e de segurança que o soldado tinha à sua Companhia. O soldado, quando baixava ao hospital ou era afastado por qualquer motivo para o Depósito de Pessoal, na primeira oportunidade que tivesse, fugia e vinha se apresentar na Companhia em que servia, porque se sentia mais amparado no conví-vio dos companheiros.
Ainda no Brasil, não me recordo de ter participado de exercícios preparatórios para enfrentar a campanha na Itália, no âmbito da Divisão. Os regimentos integran-tes fizeram muitos exercícios, principalmente com manobras no Recreio dos Bandei-rantes. Mas no âmbito do conjunto da Divisão, não tivemos um exercício sequer.
E esse treinamento não foi proveitoso, porque o armamento era completa-mente diferente. O campo de batalha também era diferente das condições do Recreio dos Bandeirantes mas, em todo o caso, eram exercícios. Havia uma demonstração das autoridades militares de que queriam fazer o possível, para que fôssemos à guerra com um certo treinamento.
O transporte da tropa para o Teatro de Operações fez-se com muita regulari-dade. Fui no Destacamento precursor, que embarcou um dia antes, para fazer um reconhecimento e orientar a tropa ao chegar. A viagem foi feita sem anormalidade, tivemos uma vez, a notícia de que os navios teriam alterado o sentido da rota, porque havia a presença de submarinos alemães na região.
Fizemos alguns exercícios de utilização dos botes de salvamento. Havia uma escala de serviço, porém tive uma participação muito pequena porque, inicialmente, fui designado para a direção de um alojamento abaixo da linha d’água mas, como enjoei horrivelmente durante a viagem, só me levantava para pegar os mantimentos que estivessem em cima da mesa e voltava para o camarote. Não pude cumprir a missão e fui substituído.
Mas a viagem foi normal, chegamos a Nápoles com absoluta tranqüilidade, onde fomos transferidos em barcaças de desembarque, as célebres LCI, para Livorno, sendo mais uma vez transferidos, dessa feita para San Rossore, a Oeste de Pisa, onde acampamos e ficamos aguardando o recebimento do armamento.
Na Itália, a tropa se adaptou bem, embora o alojamento fosse precário. Come-çamos com os exercícios e aprendizado com o armamento recebido, que, em relação aos fuzis, não eram tão diferentes dos nossos, embora mais modernos.
A 5a Companhia que eu comandava pertencia ao II Batalhão, comandado pelo Major Orlando Gomes Ramagem, catarinense como eu e um grande companheiro.
Ao chegarmos a San Rossore, já aguardando o recebimento de armamento, fui imediatamente mandado para a frente, junto a uma Companhia do 6o RI que já se encontrava em combate, para me ambientar. Ao voltar, três dias depois, a Compa-nhia foi deslocada para ocupar posição no Monte Castelo, onde o alemão atirava com artilharia e morteiro. Houve uma noite em que recebemos mais de cem tiros de Artilharia sobre Monte Castelo; era uma posição muito batida. Evidentemente está-vamos no sopé de Monte Castelo, tendo o alemão lá em cima na crista.
Como missão, em conseqüência dessa minha entrada em linha, recebi a ordem de participar com o Regimento que atacaria Monte Castelo, deslocando um Pelotão para a região e, se o ataque fosse coroado de sucesso, eu deveria investir sobre Mazzancana com o meu Pelotão. Felizmente, fomos salvos desse desastre, pela che-gada do segundo mensageiro, com a ordem de suspender o ataque. O primeiro men-sageiro com a ordem do ataque, se protegeu mais do bombardeio do que o segundo que, encontrando melhores condições, pôde chegar mais depressa. Mantivemo-nos na linha de partida, aguardando a recomposição do Regimento que estava atacando e que não conseguiu sucesso.
Mazzancana foi tomada pela 10a Divisão de Montanha americana, que teve perdas enormes. Tivemos sorte realmente do segundo mensageiro não gostar muito da vida e chegar na frente. Na verdade, era um objetivo que precisava ser conquista-do por um escalão mais alto, para que a FEB pudesse ter sucesso em Monte Castelo, que era um dos pontos mais atingidos pelos bombardeios inimigos.
Todas as missões que nos foram confiadas foram cumpridas e de acordo com determinação de meus superiores.
Depois desse ataque, ficamos em Gaggio Montano durante uns dez dias, sain-do para um períosain-do de reserva em Silla, até receber uma nova missão.
Em Castelnuovo, participei de uma missão muito grata. Tinha terminado o ataque a Monte Castelo, com sucesso, pelo 1o Regimento de Infantaria, que nós apoiamos pelo flanco. Num cair da tarde, os comandantes de Companhia foram
re-crutados para fazer um reconhecimento na região e em seguida voltamos, para trans-portar as companhias ao amanhecer do dia seguinte para o local.
Partimos para a investida. Minha missão não era de ataque direto a Castelnuovo; era de flanquear a posição. Ocupamos a base de partida, através de um pasto, isto é, terreno completamente limpo. A Companhia toda se deslocando batida pelo fogo ale-mão, com artilharia e morteiros. As nossas armas de apoio não tinham entrado ainda em posição, não recebíamos qualquer apoio de cobertura e fomos assim, até a base de partida. Tivemos mais de 14 baixas. Não havia apoio de Artilharia nem de aviação, só contamos com o apoio de uma seção de morteiros comandada pelo Capitão Thorio Benedro de Souza Lima. Ficamos inteiramente visados pelo alemão, que nos bateu de uma maneira incessante, inclusive à noite, por várias horas, por um tanque amigo que não tinha sido avisado e atirava em cima de nós, um tanque americano.
Felizmente tivemos sucesso, Castelnuovo foi conquistada. Cumprimos a nossa missão de flanco de chegada até lá em cima, foi o ataque em que eu tive o maior número de perdas, 14 homens feridos; felizmente não houve mortes.
No Vale do Rio Pó as missões já estavam-se repetindo com muita freqüência, porque já se sentia o alemão recuando. Mal se recebia ordem para uma determinada atitude, quando era alterada para outra, porque as condições da frente de combate tinham-se modificado. A progressão era mais rápida, não era a mesma dos Apeninos. De sucesso em sucesso a progressão foi contínua, a ponto de em pouco tempo se chegar ao combate final de Collecchio – Fornovo, onde houve a rendição da 148a
Divisão Alemã, em que o Batalhão tomou parte. Nesse momento eu não estava no Comando da minha Companhia, porque me encontrava no hospital, onde fiquei quinze dias; fui substituído por um companheiro. Quando regressei, não reassumi o Coman-do da Companhia, fiquei à disposição Coman-do Batalhão estabelecenComan-do ligações, que eram muito necessárias naquela situação de fluidez da frente de combate.
Foi nesse final, que o nosso grande companheiro Capitão Ernani Ayrosa foi ferido, pelo seu ímpeto, porque a tropa já esperava a rendição dos alemães, mas ele se lançou, foi ferido e ficou prisioneiro. Nesse momento, os acontecimentos se suce-diam muito rápidos, não se chegava nem a tomar posição e já mudava para a posição seguinte, porque ficou uma guerra de movimento, de verdadeira perseguição.
Só deixei o comando da minha Companhia ao chegarmos a Nápoles, na volta, quando meu Subcomandante Joaquim de Quadros Magalhães foi promovido a Capi-tão. Pedi ao Comando permissão para que ele assumisse o meu lugar. E eu, então viajei para o Brasil até Recife, no avião do Mascarenhas de Moraes, que pousou em Dacar, na África e, como os americanos não deixavam qualquer avião passar com vagas, mandaram-me completar.
A minha Companhia voltou ao Brasil sob o Comando do Capitão Joaquim de Quadros Magalhães, que foi meu Subcomandante na 5a Companhia durante a guerra, como 1o Tenente.
Gostaria de falar sobre o inverno rigoroso passado lá na Itália; chegamos a experimentar temperaturas de 17 graus abaixo de zero no exterior. Mas o Comando da Companhia sempre ocupava casas e se procurava fazer aquecimento, por meio de fogo e a tropa era substituída constantemente.
No primeiro dia em que caiu neve, na frente da minha Companhia, em Gaggio Montano, os alemães fizeram uma patrulha sobre uma das minhas posições e foram rechaçados. O Sargento-Comandante foi preso e, quando transportado para a reta-guarda, a fim de ser socorrido, o sargento Matsuk, Comandante do posto atacado, que falava alemão e onde havia uns dois ou três catarinenses padioleiros que tam-bém falavam alemão, então aproveitaram para fazer uma propaganda do Brasil, di-zendo que toda a tropa brasileira falava alemão, que era uma tropa selecionada, tudo para enganarem o pobre do prisioneiro.
Os alemães usavam uns lençóis brancos para se confundir na neve. Nós rece-bemos muitos capotes que, quando chegaram, eu convidei o meu sargento, que não era propriamente combatente, o sargento Furriel, para visitarmos umas posições e inaugurarmos os capotes brancos, bonitos. Ao voltarmos, já de noite, verificamos que na casa do PC da Companhia não havia vestígio de luz, parecia que todas as janelas estavam fechadas. Então eu chamei a atenção do sargento: “Olha que perigo! Poderíamos ser apanhados de surpresa.”
Como a senha era sempre em inglês, difícil de guardar, nós adotamos na Com-panhia o seguinte: “Quem vem lá?” Se falasse em português podia se aproximar, quem não falasse levava tiros. Como o sargento Furriel não tomava parte nas ações de com-bate, não sabia dessa ordem que eu tinha dado e mais, tinha ordenado que, se a pessoa estivesse andando normalmente, deixasse chegar mais perto e para fazermos a pergun-ta: “Quem vem lá?” Se vier progredindo, aproveitando o terreno e não respondendo, não conversa, atira. Eu então disse ao sargento: “Vamos ver até onde nós chegamos sem que eles percebam.” Eu vim andando normalmente, mas não vi que, atrás de mim, o sargento vinha-se abaixando. Quando havia uma escadinha para atingir o PC, ao botar o pé no primeiro degrau, senti que tinham jogado uma granada. O soldado que estava de serviço jogou uma granada de mão, ouvi quando a granada fez “tec”; eu disse: “sargento, deita!” e joguei-me para o lado, ao mesmo tempo que dei um grito. O soldado, apavorado, reconhecendo minha voz, gritou: “Matei o Capitão!”
Felizmente, a granada explodiu dentro da proteção da escada e não me atingiu, isso provou que o pessoal estava atento, tinham deixado só uma frestinha, para
acom-panhar o movimento e deixaram chegar perto para atirar a granada, felizmente não levei uma rajada de metralhadora, que aí eu não escapava, o soldado teria me matado. Então, quando eu escrevi para a minha mulher, comentei o fato que aconte-ceu em Gaggio Montano, dizendo: “Fui ver se tinha gasolina... e tinha.”
Aliás, a minha opinião sobre os oficiais, graduados e praças com quem lidei na guerra, é de elogio, eu não posso deixar de elogiar o comportamento da tropa em geral, com grande capacidade de adaptação, não só no manuseio de todo o equipa-mento, como também na mudança de alimentação, nas constantes mudanças de posição que a tropa fez e em todas as dificuldades que foram vencidas.
O soldado adaptou-se de uma maneira fabulosa e tomou um apreço enorme ao âmbito da Companhia, nunca desejando ser transferido para o Depósito, para não ter que mudar de comando.
O relacionamento com a população local foi muito bom. É verdade que nas frentes de combate, durante o inverno, ocupávamos as casas que não eram habitadas. Estas ficavam só com as tropas, mas quando íamos para a posição de reserva, mais à retaguarda, eram escolhidas determinadas residências em que as famílias ficavam afas-tadas para as partes dos fundos, enquanto nós ocupávamos todo o restante da casa, mas num relacionamento muito bom. O povo italiano compreendeu muito bem a mis-são que cumpríamos; estávamos lá em mismis-são de cooperação e não de ataque.
O apoio de saúde foi ótimo, embora, felizmente, não tivemos necessidade. Foi um apoio admirável, não só no âmbito da tropa em combate como no hospital, que era inclusive provido de todos os recursos, com tudo o que era preciso. Quem che-gasse vivo ao hospital dificilmente não seria salvo.
Tivemos também um apoio religioso muito bom e, infelizmente, o desprazer da morte do Frei Orlando. Ele ia visitar a minha Companhia e o jipe onde ele se encontrava atolou e alguém usou o fuzil como um soquete que, ao bater, disparou e pegou no peito do Capelão e o matou instantaneamente.
O nosso Frei Orlando era um homem talhado para Capelão Militar, ele tinha a qualidade especial de ser bem recebido, participava das brincadeiras, enfim, ele se adaptou perfeitamente, foi um Capelão perfeito, perdemos um grande companheiro. Quanto ao soldado inimigo, era uma tropa já tarimbada, com grande experi-ência de combate, cumpria a sua missão muito bem, era aguerrida, mas quando se sentia em situação de grande desvantagem, rendia-se... Oriundo de outras frentes, era uma tropa já cansada do combate. Foi deslocada para aquela frente secundária, em relação ao que estava acontecendo.
No início, quando o I/11o RI entrou em combate, o alemão fez uma finta com muita argúcia. O Batalhão iniciou o deslocamento à tarde, era uma região
monta-nhosa, subiu o morro e instalou-se; o alemão assistiu a tudo, mas ficou quieto. Tudo estava tão calmo que o Capitão Cotrim – Carlos Frederico Cotrim Rodrigues Pereira – chegou a dizer ao Observador Avançado de Artilharia, que pedisse alguns tiros na frente, para movimentar, porque “isto aqui está muito calado”.
Mas o Observador Avançado, que era do 6o RI, tropa com experiência anterior, disse: “Olha, eles estão preparados, nós vamos pedir fogo, a nossa Artilharia vai atirar, eles vão responder, mas eles estão respondendo com morteiros, não vão atin-gir a Artilharia, vão atinatin-gir em cima de nós, que estamos aqui sem necessidade.”
Depois das ponderações do observador, o Capitão Cotrim voltou atrás. Mas lá pelas dez horas da noite, os alemães fizeram uma finta com as armas automáticas,