Uma espirituosa pessoa do meu conhecimento costumava dizer que deve-mos começar, sempre que possível, qualquer coisa, pelo começo. Então vadeve-mos começar pelo começo. Em 1961, servia no Estado-Maior da 10a RM, em Fortaleza. Desde aquela época, com o desdobramento da renúncia de Jânio Quadros e os acontecimentos que levaram ao desgoverno João Goulart, admiti que teria de violentar os meus próprios princípios, teria que violentar minha consciência de-mocrática e participar de alguma coisa para salvar o nosso País, que estava seria-mente ameaçado em sua estabilidade. E me preocupava em preservar, nessa ação, objetivos nobres, que se enquadrassem no espírito do meu juramento perante a Bandeira, quando ingressei no Exército.
Em 1962, vi-me transferido, inicialmente, para Salvador, Bahia. Essa movi-mentação já se deu por motivos políticos, pois que, servindo em Fortaleza, fui deslocado por ordem do então Presidente João Goulart. Mas, em seguida, com a intervenção de amigos, a minha transferência foi retificada, da Bahia para a Aca-demia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Lá chegando, no início de 1962, encon-trei, como Comandante, o então General Pedro Geraldo de Almeida que, um mês e meio depois, foi substituído pelo General Emílio Garrastazu Médici, um grande chefe, ao qual devotei profunda admiração e amizade; mais tarde iria tornar-se um notável Presidente da República. Alguns elementos, principalmente da mídia, procuram caracterizá-lo com um ditador impiedoso, carrasco, torturador. Muito ao contrário, era um homem afável, de boníssimo coração e que prestou inestimá-vel serviço ao País. Sua popularidade era tão grande que um fato ocorrido com ele jamais aconteceu com outra autoridade no Brasil. Ao assistir a um jogo de futebol entre o Vasco e o Flamengo, no Rio de Janeiro, por dificuldades no trânsito, chegou uns dez minutos depois de iniciado o jogo. Quando entrou no estádio, na Tribuna de Honra, ao anunciarem o seu nome, todo o estádio se levantou e, de pé, o aplaudiu entusiasticamente.
Em Resende, em face da evolução dos acontecimentos e ao desdobramento da situação política no País, as nossas preocupações eram as mesmas do General Médici, o Comandante da Academia. As dele, entretanto, eram agravadas pela grande responsabilidade de comandar um efetivo numeroso, mais de mil cadetes, além de oficiais, praças e civis funcionários. Essas preocupações levaram-no a realizar minucioso trabalho preparatório, numa objetiva visão do futuro, e assim preparar-se para o que viesse acontecer. Resolveu aprestar a AMAN, sem alarde: era uma conspiração silenciosa. No Estado-Maior da Academia, eu era o chefe da Seção Técnica de Ensino e tinha chegado a ser o Subdiretor de Ensino. Então, o Comandante encarregou-me de fazer uma palestra, inicialmente, para oficiais e
cadetes e, depois, pelo bom resultado obtido, também para subtenentes e sargen-tos. O assunto era Democracia: seu conceito, virtudes, vantagens, como o único regime compatível com a história e a tradição do Brasil. Esta introdução foi se-guida de uma vasta explicação sobre a ameaça que pairava sobre o País, de tor-nar-se uma república sindicalista, sob a orientação de Moscou, a exemplo do que já acontecera com Cuba.
Como chegamos, na AMAN, ao 31 de março de 1964? Sabíamos e acompa-nhávamos, todos os dias, pelo noticiário da imprensa e pelo teor das conversas e discussões, que a Nação estava mesmo seriamente ameaçada: ocorria desordem em toda parte; o País estava fora da lei. Tudo dentro da filosofia bolchevista do “quanto pior, melhor”. Começávamos a observar a quebra da disciplina e da hie-rarquia, importantes pilares de sustentação das Forças Armadas, como de qual-quer Força Armada, tanto nos quartéis quanto nas bases e navios. A população, diziam os jornais, estava, em toda parte, atemorizada e, a grande maioria, revol-tada. A inflação, galopante. Vivia-se num regime de insegurança. O resultado disso foi um crescente clamor público, um angustiado apelo que, incontido, esta-va prestes a explodir. E as motiesta-vações vieram com o comício do dia 13 de março, na Central do Brasil, a que estiveram presentes o Presidente e todos os seus minis-tros, inclusive o Ministro da Guerra. Depois, no dia 30 de março, houve uma reunião, que se tornou famosa, do Presidente com graduados, no Automóvel Clu-be do Brasil, no Rio de Janeiro. Aí, deu-se a explosão da revolta popular, esse desespero da massa que levou à grande Marcha da Família com Deus, pela Liberda-de, mais de 500 mil pessoas reunidas nas ruas de São Paulo. Marcha esta que, depois de eclodida a Revolução, foi repetida no Rio de Janeiro. A marcha contou com a participação de todas as camadas da população, particularmente da classe média que, àquela época, esteve sempre muito sacrificada. Queriam um basta na baderna. Alguma coisa tinha que mudar, ou melhor, tudo tinha que mudar. E por que tudo isso vinha acontecendo? Tudo isso era decorrência de quê? Da incompe-tência de um comandante fraco, demagogo, deslumbrado com o Poder, joguete incapaz nas mãos dos comunistas e dos corruptos, pois havia muita corrupção, a corrupção já estava generalizada no País. Acrescida da impunidade, haveria de provocar, como desfecho natural, uma rebelião, um movimento para terminar aquele descalabro. Ou melhor falando, uma Revolução, para mudar, acertar as coisas, botar o País nos eixos, novamente. E o que se queria era isso, uma Revolu-ção, e não, simplesmente, um golpe militar para tomar o Poder pela força, como de resto sempre vinha acontecendo em nosso continente. Foi um movimento re-volucionário natural, não teve nenhum plano meticuloso, não teve uma
organiza-ção perfeita, não havia, mesmo, nenhuma coordenaorganiza-ção. Tanto que o seu eclodir se deu de surpresa, para muitos dos próprios revolucionários. Mas foi o resultado da vontade do povo e de sua disposição para a luta. Foi o povo, a vontade nacional mobilizada que, praticamente, ordenou às Forças Armadas que defendessem o País, usando as armas que, afinal, são do próprio povo. E veio a Revolução, que eclodiu num rompante de valentia e decisão do General Mourão, ao descer com as tropas de Minas Gerais, em direção ao Rio de Janeiro, com uma vitória surpreen-dentemente rápida, pois o Governo estava podre.
Na AMAN, não esperávamos a Revolução para 31 de março. Sabíamos que ela viria, mas quando, não. Estávamos todos, no dia 31 de março, à tarde, na Matriz, numa cerimônia de casamento da filha de um professor muito querido. Praticamen-te toda a oficialidade estava lá, quando alguém trouxe a notícia de que as tropas de Minas se deslocavam para o Rio e que a Revolução tinha “arrebentado”. Acorremos todos à AMAN, onde já encontramos, em seu gabinete, o General Médici. Lá, ao contrário da Revolução como um todo, havíamos realizado uma preparação, pode-se dizer, meticulosa. Não só com esclarecimentos, palestras, mas com outras ações, atividades e conversas do nosso General e dos seus subordinados imediatos. Tanto que, na Revolução, a AMAN participou com, praticamente, 100% de seus integran-tes. Havia um tenente em quem não depositávamos muita confiança, por algumas opiniões que ele externava, mas, no dia, ele estava lá firme conosco e sem qualquer discussão. Em dois sargentos, também, não confiávamos muito. Por coincidência, tinham pedido, na véspera, uma licença para ir às suas residências, tratar de proble-mas de doença na família. Entretanto, no dia 2 de abril, pela manhã, os dois se apresentaram e participaram de todos os trabalhos que se seguiram, ligados à Revo-lução. Tudo isso se deveu a essa figura extraordinária de homem, de chefe e de líder carismático, que era o General Médici.
Ainda no 1o de abril, tivemos momentos de preocupação quando chegou a notícia de que o Regimento-Escola de Infantaria (REI), vindo da Vila Militar, subia a Serra e estava se aproximando de Resende, em direção a São Paulo, como força legal em defesa do Governo. O Regimento-Escola vinha integrado ao Grupo-Escola de Artilharia, formando um Grupamento Tático (GT). Então, o General Médici, tendo a informação de que o GT se aproximava de Barra Mansa, tomou a decisão histórica: com o material humano de que dispunha na AMAN, especialmente cadetes, aproxi-madamente 800 cadetes, jovens de 18, 19 e 20 anos, o General barrou a passagem do REI, nas alturas de Barra Mansa. Mas o Grupo-Escola de Artilharia, que vinha atrás do REI, passou, rompeu as próprias linhas do REI, a linha de contato, e todos os oficiais e sargentos, acenando lenços brancos, passaram para o nosso lado.
Fo-ram recebidos e acolhidos festivamente na AMAN e nossos meios ficaFo-ram reforçados. Não tínhamos notícias muito precisas de São Paulo. Ainda não sabíamos, por exem-plo, como iria comportar-se o General Kruel, que era Comandante do II Exército. Sabíamos que mantinha ligações com o Presidente João Goulart. De repente, ele aparece em Resende. Ao mesmo tempo, no gabinete do Comandante da AMAN, onde me encontrava, assisti ao General Armando de Morais Âncora, representando o Mi-nistro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro, que estava muito doente, acamado em casa, apresentar a rendição das forças legais à Revolução. As forças que subiram do Rio para combater o General Mourão, que vinha de Minas também, já haviam aderi-do à Revolução. Não houve nenhum problema, mas na região de Resende/Barra Mansa ocorria o inusitado: o REI, parado, em face das forças da AMAN, numa situa-ção estática. Então – é preciso que se registre – nunca vi nada escrito sobre isso, ali se concretizou a vitória da Revolução.
Da AMAN, fui transferido para Fortaleza, para comandar o 10o GO 105, o atual 10o GAC. O Grupo tinha sido uma das peças mais importantes da Revolução, no Ceará, e para ele vim com uma missão intuída pelos “sopros” que recebi. Missão com dupla finalidade: dar continuidade ao processo revolucionário e fazer com que a Unidade retornasse ao trabalho profissional, ao seu preparo para o cumprimento da missão constitucional. Assim foi feito. Foram dois anos de intensa atividade, de muita instrução, de muitos inquéritos, de muitas sindicâncias, de muitas participa-ções, sempre com todo respeito à dignidade da pessoa humana e aos direitos huma-nos. Durante esse período, o episódio que registro e quero mencionar foi o da prisão de seis deputados estaduais, que estavam passando dos limites, ao reagirem à Revolução. Três ficaram no quartel do 10o GAC e três ficaram no 23o BC. Só os liberamos depois que foram cassados pelos seus próprios pares. Devo registrar que, mais tarde, já general da reserva, vindo a Fortaleza, encontrei dois dos meus ex-prisioneiros. Um, numa entrevista, se não me engano na TV Ceará, sendo eu um dos entrevistadores. Depois da entrevista, veio abraçar-me e agradecer-me pelo modo digno e respeitoso com que foi tratado. O outro era um grande jornalista e escritor, falecido recentemente, que, nas escadarias do Náutico, quando me viu, abriu os braços, enlaçou-me, agradecendo o tratamento que lhe foi dispensado. Todos esses ex-prisioneiros eram homens de curso superior e foram alojados em quartos de oficiais, com alimentação de oficiais. Aliás, na minha Unidade, a alimentação dos oficiais era a mesma das praças.
Do 10o GO, cumpridos os meus dois anos de comando, fui transferido para o Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro, onde passei pouco mais de um mês, um mês e meio. Certa manhã, o General Médici, que era o Chefe da 1a Subchefia do
Estado-Maior, como General-de-Divisão, mandou-me chamar e me convidou para servir nova-mente com ele. Foi curioso o que me disse:
“Eu ontem fui chamado pelo Costa e Silva” – o General Costa e Silva ia assumir a Presidência da República em substituição ao General Castello Branco – “que me convidou para ser o presidente da Petrobrás. Disse a ele que não aceitava, a menos que fosse ordem para cumprir missão. Não aceitava porque muito pouco entendia de petróleo. Mas, hoje, ele me chamou de novo e me convidou para ser o Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), dizendo-me logo que não podia deixar de aceitar, porque todo oficial estuda, aprende, desenvolve e produz informações, não só infor-mações de combate, mas inforinfor-mações sobre a situação de modo geral”.
E, assim, fui para Brasília com ele, sendo nomeado Chefe da Agência Brasília do SNI. Naquele tempo não havia Agência Central e a Agência Brasília do SNI fazia a cobertura nacional, principalmente dos poderes Legislativo e Judiciário, produzin-do informações para as decisões produzin-do Governo.
Do SNI, depois de quatro anos e meio, fui nomeado adido do Exército na República Federal da Alemanha, de onde continuei a cooperar com a Revolução. Tenho a consciência tranqüila – digo até com certo orgulho – de que estávamos no caminho certo, a despeito do que dizem hoje os frustrados de então. Os resultados foram muito mais positivos que negativos, tanto no plano econômico quanto no social. Foi durante a Revolução que se criou o Sistema Financeiro da Habitação, que se fez o Estatuto da Terra (que não foi cumprido), que houve um grande desenvolvimento no parque industrial do Brasil e o progresso notável das teleco-municações. Como todos podem recordar, antes, o nosso serviço de correio era péssimo. Hoje, temos um serviço postal igual aos melhores do mundo, e as teleco-municações estão aí para confirmar o elevado índice de desenvolvimento que obtivemos. Mas, reunidos todos os esforços e as incontáveis realizações decorren-tes, o maior feito da Revolução foi ter guindado o Brasil de 48a à oitava economia do mundo, no Governo Médici.
Houve falhas e houve desacertos. Falhas: primeiro, porque os militares não são preparados para o Poder político, e sim para a guerra, para cumprir a sua nobre missão de defesa da Pátria; segundo, porque os governos revolucionários não se constituíram só de militares, já que a grande maioria dos seus componentes era de civis, inclusive de políticos aderentes que se passaram para a Revolução, muitos deles não merecedores de inteiro respeito, pois tratavam mais dos seus interesses pessoais. Mas o desacerto maior da Revolução, a meu ver, foi ter entregue o Poder político aos civis, antes do tempo, sem que tivesse concretizado todos os seus objetivos, pois teve que desviar parte de sua atenção e esforço para neutralizar a
luta armada comunista – que praticava o terrorismo e fomentava as guerrilhas de Xambioá, de Registro e de Caparaó – bem como suplantar reações e muitas outras dificuldades encontradas. Essa entrega antecipada do Poder ainda teve a agravante de ter propiciado o retorno de todos os cassados à atividade política, prematura-mente. Muitos deles voltaram, criando novos e graves problemas para o País. Tive-mos uma grande infelicidade no acidente que vitimou o Marechal Castello Branco, o impecável Marechal Castello Branco, cearense que muito honra o Ceará e este País. Ele, na certa, teria voltado ao Governo ou, pelo menos, teria continuado como um mentor, orientando os seus companheiros para a recuperação total do País.
Hoje, depois de 16 anos de Nova República, o que se vê no Brasil? O esqueci-mento mesquinho de todos os bens morais deixados pela Revolução; a estagnação de todas as iniciativas de desenvolvimento por ela empreendidas, hoje negadas pelo complô formado por dirigentes, políticos e pela mídia; o desmando, a corrupção, o entreguismo e a mentira, em todos os setores da vida nacional; e a depreciação das instituições sérias. O povo, alienado, de nada participa. Mas as pesquisas indicam uma rejeição crescente aos dirigentes atuais e, tudo isto junto, mostra que a situ-ação de hoje é pior do que aquela vivida antes da Revolução de 1964. Naquela época, os comunistas estavam apenas no Governo, como dizia o comunista maior, Luís Carlos Prestes, ainda não tinham o Poder. Hoje em dia, pode-se assegurar que os comunistas estão no Governo e detêm o Poder, mascarados de neoliberais. Embo-ra digam que os comunistas acabaEmbo-ram, com a queda do Muro de Berlim e com o desmoronamento da União Soviética, eles se mimetizaram de “bonzinhos”. São os “bonzinhos” dos “direitos humanos”, só de esquerda; da “ecologia”, contra os na-cionais; da “caridade”, a serviço da demagogia política. O certo é que estão aí mais vivos do que nunca, desnacionalizando o patrimônio nacional e infernizando a vida do povo brasileiro.
Este povo tem que saber que foi enganado, já que, em nome da democracia, os comunistas e seus aliados neoliberais usurparam o Poder. É preciso que não nos esqueçamos da traição comunista de 1935, da Intentona Comunista, pois a Intentona deixou uma marca profunda no peito e na alma dos brasileiros, em especial, dos militares. Não só dos contemporâneos daquela época, mas também dos que vieram depois, porquanto todos tomamos conhecimento daquela selvageria e do holocausto que representou, com a morte traiçoeira de muitos de nossos companheiros na calada da noite. Esse conhecimento tem-se repetido todos os anos; as vítimas da Intentona sempre são lembradas e homenageadas na data fatídica de 27 de no-vembro. Agora, com os comunistas no Poder, mesmo assim, se rememora o 27 de novembro, na Praia Vermelha em frente ao monumento, e nos quartéis.
Dizem que o Sr. João Goulart era comunista. Não creio. O Sr. João Goulart não era bem um comunista. Ele era um fazendeiro simplório, inculto, medianamente inte-ligente, mas muito esperto, deslumbrado pelo Poder que lhe tinha sido doado pelo seu padrinho, Getúlio Vargas, facilmente influenciado pelas esquerdas, pensando, de certo, que continuaria no Poder e se tornaria, como o seu padrinho, um futuro e próximo ditador. Entretanto, o maior crime do Sr. João Goulart, no meu entender, foi o conluio com os comunistas para transformar o Brasil numa “república popular sindicalista”, escravizada à União Soviética. Daí, as agressões à ordem interna, sub-vertida por inúmeros movimentos, todos impulsionados por comunistas.
Acompanhei, naquela época, pelos noticiários dos meios de comunicação – jornais, rádio, TV – a criação e o desenvolvimento das “Ligas Camponesas” do Sr. Francisco Julião. Cresceram assustadoramente e partiram para provocar a intran-qüilidade no campo, pois pretendiam implantar no Brasil a reforma agrária, inclu-sive pela força. Já os “grupos dos onze”, que foram criados pelo Sr. Leonel Brizola, visavam, indisfarçavelmente, a tomada do Poder, em guerra de guerrilha. Outros muitos movimentos subversivos foram criados e desenvolvidos e deram muito tra-balho às forças legais.
No curso desses movimentos ocorreram alguns fatos que foram fundamen-tais para o desencadeamento da Revolução: o comício da Central do Brasil, do dia 13 de março de 1964 e a reunião do Automóvel Clube do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 30 subseqüente. Realizou-se, também, a grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, onde, no meu entender, na voz e no clamor do povo, estava a ordem às Forças Armadas para tomarem uma posição. Agora, o que as Forças Armadas fizeram foi uma repetição do seu comportamento histórico: atender aos anseios do povo. As Forças Armadas agem assim, desde o tempo do Império, ao se contraporem a interesses oligárquicos, como outrora pretendiam fazer dos militares caçadores de escravos fugitivos. As Forças Armadas sempre atenderam aos anseios maiores da nacionalidade. Pois elas são constituídas de membros que vêm da classe humilde. Nossos soldados, sargentos, oficiais, todos são povo, principalmente da classe média. Encarnamos, pois, o braço armado do País, que atende ao desejo da Nação como um todo. As Forças Armadas, portanto, responderam aos anseios do povo, naquela época.
O General Castello Branco, em sua célebre Nota Reservada de 20 de março, dizia que a insurreição é um recurso legítimo do povo. Assim pensavam os demais líderes civis e militares da Revolução, que não queriam um movimento faccioso. Dentre esses líderes, que foram muitos, citarei os que considero os principais: os governadores Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, respectivamente da Guanabara e de
Minas Gerais; o Marechal Castello Branco, pelo trabalho fantástico que realizou, principalmente com aquele manifesto, ainda como Chefe do Estado-Maior do