3 LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA E A IDENTIDADE NACIONAL
3.3 Os livros didáticos e o discurso racista na narração do outro: o ensino de geografia
3.3.4 Geographia Secundária e o trecho 3.2.1/06
desenvolvimento, portanto, estava para além do “trabalho” e do “esforço” do colono, também contava com o empenho do negro e do indígena, o segundo tipo, como o autor realata, hostil a tal interação, deixava como caminho possível aos portugueses a necessidade do “tráfico” de negros. Mais uma vez o peso da escravidão recai com acentuada martirização e angústica sobre os corpos negros, naturalizando, a ideia da exploração, assim como, incutindo na vítima todas as explicativas acerca da violência sofrida. Com contornos ainda mais penosos, o autor cita que o negro se torna, portanto, “o mais fiel aliado dos portugueses na terrível luta contra os jesuítas”, fundamental instrumento para a nação, assim como, para os interesses de domínio e controle do território pelos portugueses. Todas as ressalvas retroalimentam esse panorama acerca da nação que manipula a representação do corpo negro como aliado, quando interessante a branquitude, e também como principal inimigo, como apresenta Scrosoppi (1911).
Figura 34 – Trecho 3.2.1/06
Fonte: Novaes (1928).
Após uma compreensão prévia acerca dos “estados sociais” que se subdividem em três:
selvagem, bárbaro e civilizado, o autor dá sequência com a exposição dos aspectos mais específicos das divisões humanas, com o conteúdo “raças humanas”, que segundo Scrosoppi, estão fundamentadas de acordo com estudos etnológicos e etnográficos, entendo o primeiro enquanto “a simples discripção dos differentes povos tomando-se de preferencia por base a língua, a religião, os costumes, etc”, já o segundo, “olha sobretudo para os caracteres physicos (côr da pelle, fórmas do craneo e do nariz, estatura, etc)” (NOVAES, 1928, p. 181). Não irei entrar na discussão que, por vezes, ao longo do século XIX e XX distanciou ambos os estudos, contudo, se faz pertinente destacar uma citação de Schwarcz (1993, p. 57) que se referenciando à etnografia diz que a mesma era caracterizada “como prática pouco científica que se ocupava apenas da descrição dos povos”.
Assim, com essa introdução, exposta, no Capítulo II, o autor dá um direcionamento do modelo de compreensão e apresentação dos conteúdos que circunscreve raça, e consequentemente, suas descrições, em um modelo comparativo. Entre o tipo caucásico e o negro há, no primeiro, uma observação que não foi apresentada no segundo, é referente a
inteligência, citando que a mesma é “bastante desenvolvida”. A comparação está presente na descrição dos traços, assim como, na avaliação de um aspecto que é mais significativo em um desses “typos”, sendo este, o aspecto intelectivo. Através da apresentação de características específicas, de cada raça, o autor dá destaque as definições que convém construir e citar acerca de cada uma delas, tendo em vista, que menciona a imprecisão acerca da classificação das raças. Portanto, a enunciação se dá no transcorrer do caucásico, mongólico, americano, maláio ao negro, sustentados em ordem evolutiva, partindo do primeiro que possui inteligência mais desenvolvida e corpo “bem proporcionado” ao último que possui cabelos “encarapinhados, fronte achatada e pernas finas”. Mais uma vez a forma hierárquica em modelo de exposição do conteúdo e de avaliação das qualidades é perceptível no livro didático, conforme exposto no Quadro 13, a seguir.
Quadro 13 – Composição comparativa das características físicas entre o branco e o negro segundo Novaes.
CARACTERÍSTICAS BRANCO › › NEGRO
Pele Cor branca Cor negra
Cabelos Finos e macios Pretos e encarapinhados
Lábios Delgados e roseos Grossos
Dentes Finos e implantados
verticalmente -
Nariz Fino e saliente Chato
Ângulo facial Muito aberto Pouco aberto
Corpo Bem proporcionado Pernas arqueadas e finas
Inteligência Bastante desenvolvida -
Fonte: Organização da autora (2022) com base em Novaes (1938).
Não somente a apresentação das raças, partindo da mais desenvolvida à atrasada, dá sentido a lógica hierárquica, a representação das características reflete precisamente qualidades que compõem um grupo, e defeitos que compõem o outro, ao acrescentar os símbolos de “maior que” e “menor que” no título do Quadro 12 (p. 172) dou destaque justamente ao grau apreciativo e depreciativo dos caracteres enunciados. No transcorrer da exposição dos conteúdos, a partir do “estado civilizatório” (Quadro 05, p. 136), os atributos mais nobres alimentam o imperativo da raça branca, subsequentemente, Novaes apresenta destaque as
características fenotípicas salientando nesse corpo e/ou grupo atributos virtuosos, lábios, pele, cabelos e dentes, todos são apreciados de adjetivos graciosos e delicados, além de acentuar inteligência somente à esta raça. As virtudes não estão, assim, fincadas somente em um terreno de expressão individual, não há uma exposição de uma raça unitária, neste caso compreendendo o comparativo que é configurado, há, no entanto, uma formulação de um campo de disputa que propõe sentidos positivos à uma e negativos à outra, em uma dualidade que permeia o processo de leitura da raça, mas através dos conteúdos mas, mais precisamente, do progresso e desenvolvimento da nação. Esse modelo de leitura e afirmação foi comum ao período republicano, tendo em vista as bases evolucionistas que permeavam o pensamento dos intelectuais do período, salientando, portanto, uma simetria com o pensamento racialista, como indica Schwarcz
Civilização e progresso, termos privilegiados da época, eram entendidos não enquanto conceitos específicos de uma determinada sociedade, mas como modelos universais. Segundo os evolucionistas sociais, em todas as partes do mundo a cultura teria se desenvolvido em estados sucessivos, caracterizados por organizações econômicas e sociais específicas. Esses estágios, entendidos como únicos e obrigatórios — já que toda a humanidade deveria passar por eles —, seguiam determinada direção, que ia sempre do mais simples ao mais complexo e diferenciado. O método comparativo, por outro lado, funcionava como princípio orientador dos trabalhos, já que se supunha que cada elemento poderia ser separado de seu contexto original, e dessa maneira inserido em uma determinada fase ou estágio da humanidade (SCHWARCZ, 1993, p. 45).
Neste sentido, em contraposição à primeira raça está a última, a negra, com suas especifidades, que ao serem descritas se assemelham a defeitos através das palavras destacadas no Quadro 12 (p. 172), tendo em vista que, cabelos “encarapinhados” podendo ser entendidos enquanto crespos e duros, lábios grossos, pernas “defeituosas”, não é um repertório de atributos simétricos, harmoniosos e proporcionais, entre tantos outros que expressam beleza e desenvolvimento. Ou seja, à negação das boas proporções está na exposição dos defeitos e imperfeições, que são as características da raça negra, esta, por sua vez, novamente localizada geograficamente no continente africano e relacionada historicamente à escravidão, esta última, sendo uma nova característica neste compêndio de Novaes, que não está presente, por exemplo, no livro Geographia Primária, do mesmo autor. Com essa correlação entre ambos os compêndio de Novaes, percebo enquanto relevante, tendo em vista, que o texto que descreve a raça negra é quase o mesmo no primeiro livro didático analisado, entretanto, no segundo são acrescidas duas características, a primeira é referente a exposição da escravidão relacionada à
raça negra, e a segunda a figura que o autor insere para representação fenotípica dos tipos raciais (Figura 35).
Figura 35 – Tipos raciais em Geographia Secundária.
Fonte: Organização da autora (2022) com base em Novaes (1928).
Na imagem, um dos aspectos que pode ser notado è acerca da exposição dos perfis dos fenotípicos expostos, uns com a face inclinada à esquerda, do observador, e outros à direita, uma provável leitura seja à respeito da análise mais detalhada dos caracteres enunciados ao longo do texto, contudo não pude fazer mais interpretações. Outro aspecto interessante é referente a proposta de exibição dos perfis raciais que não sequenciam a ordem proposta pelo texto, este que apresenta do branco ao negro; na imagem, contida no compêndio de Novaes, evidencia do branco ao vermelho. Intercalando essas duas observações, compreendo enquanto uma possível leitura, que a interpretação, a partir das representações, entre as diferenças fenotípicas se dá a partir de uma centralidade identitária, sendo, portanto, o perfil branco, todos os outros diferem expressivamente desse primeiro, além de enclausurar o modo de representação em fenótipos simplistas e essencialistas (Figura 36) a seguir.
Figura 36 – Compreensão dos tipos raciais centralizada na representação fenotípica branca.
Fonte: Organização da autora (2022) com base em Novaes (1928).
Essas representações, sendo fixadas no texto e na imagem trazem implicações ainda mais demarcadas, tendo em vista que a composição imagética constrói, através de aspectos mais explícitos, as configurações de diferenciações, que no caso desse trabalho, são entendidas enquanto fundamentais na construção da identidade, seja essa identidade, negra, branca, e em recorte mais específico, a identidade nacional, que estava sendo formulada no período republicano. Acentuo que com a particularidade da fusão de raças que ocorreu no Brasil, principalmente, através de dolorosos processos de violências sexuais, muitas vezes impostos por senhores brancos à mulheres escravizadas, a ideia de interpretar a classificação racial ainda em espectros tão lineares e estereotipados, referindo-se ao recorte de 1928, parece, em muitas leituras, representação tão distante da expressão social brasileira. Mesmo com o imperativo dos discursos higienistas a realidade miscigenada já imperava, assim, reafirmar e reproduzir tais caracteres, é também uma estratégia de disciplinar o olhar para enxergar e compreender dualidades através do discurso. Desta forma, reafirmar é mais um modo de naturalizar essa compreensão tacanha e reducionista sobre a diversidade já existente no território brasileiro, distanciando, mais uma vez, a formação de uma identidade nacional que contemplasse verdadeiramente a identidade negra para além dos estereótipos, como comenta Munanga (1999, p. 18)
O que significaria ser "branco", ser "negro", ser "amarelo" e ser "mestiço" ou
"homem de cor'? Para o senso comum, estas denominações parecem resultar da evidência e recobrir realidades biológicas que se impõem por si mesmas. No entanto, trata-se, de fato, de categorias cognitivas largamente herdadas da história da colonização, apesar da nossa percepção da diferença situar-se no campo do visível.
É através dessas categorias cognitivas, cujo conteúdo é mais ideológico do que biológico, que adquirimos o hábito de pensar nossas identidades sem nos darmos conta da manipulação do biológico pelo ideológico.
Compreendo, portanto, que a imagem apresentada pelo autor em sua obra não enuncia para o grupo de estudantes apenas o que está intrinsecamente exposto, visualmente sensível, mas convida à nível consciente e inconsciente à movimentar imagens sociais, representações social e historicamente construídas, a emergir com sentimentos, sensações, desejos, medos, que, por vezes, são inscritas no campo do normalidade, da ordem do comum e do natural. Nesse contexto, imagens são objetos complexos que geralmente nos apresentam possibilidades amplas para realizar leituras e elaborar compreensões, como dito anteriormente, pois não mobilizam apenas o que se “é” mas, enquanto linguagem, nos faz navegar em campos de entendimento que permitem aos leitores realizar conexões culturalmente construídas à nível dos signos, construções complexas e que percorre inferências por meio de referências.