Lista de Tabelas
3.3 - GEOLOGIA ESTRUTURAL
O mapa geológico, o acervo de estruturas e as seções litoestruturais (figuras 3.2 e 3.16) mostram que o pacote de rochas metassedimentares e metamáficas da região de Capelinha se configura como um cinturão de dobramentos com vergência para o Bloco de Guanhães que a limita a sul através de uma falha normal-destral atestada por uma gama de indicadores cinemáticos. Mostrando um traço bastante sinuoso em planta, a superfície de falha é marcada por milonitos finamente bandados ou por hidrotermalitos que ultrapassam poucas dezenas de metros, localizados na lapa dos gnaisses do Bloco de Guanhães. Para efeito descritivo desse sistema de dobramentos (figura 3.17-A), será utilizado, informalmente, o termo Faixa de Dobramentos Capelinha (FDC).
A evolução estrutural da FDC resulta da sucessão de três fases de deformação. Em raras exposições, as rochas da Formação Capelinha exibem estruturas de caráter sin-sedimentar dentre as quais se destaca o acamamento (S0) (figura 3.14-A), feição que aparece principalmente nos quartzitos da região cuja estratificação é destacada pela presença de lâminas compostas por micas e/ou minerais opacos.
Nas unidades de origem pelítica o acamamento se apresenta, pontualmente, na forma de intercalações de bandas mais claras, compostas majoritariamente por quartzo e bandas escuras compostas por micas. Nessas exposições, a variação composicional e granulométrica, se torna referência na caracterização da estrutura primária (S0).
Estratificações cruzadas acanaladas e plano paralelas são outros tipos de estruturas observadas na região que auxiliaram no entendimento do arcabouço estratigráfico.
A primeira fase deformacional (Fn) se manifesta em todos os litotipos, com exceção dos pegmatitos da Suíte Mangabeiras, e foi responsável pela geração da foliação (Sn) (figuras 3.14-C, 3.14-D e 3.15-A) de direção E-W e mergulhos suaves para norte ou sul, ou de direção predominantemente NW-SE, com mergulhos de 20° a 45° para NE, como ocorre na região a oeste de Capelinha, nas imediações do rio Itamarandiba. A foliação é uma estrutura penetrativa que se manifesta por meio da orientação preferencial de micas, hornblenda, granada, clorita, estaurolita, hematita e cianita. Nos quartzitos homogêneos e mais puros a xistosidade é pouco pronunciada, já nos xistos peraluminosos ela é muito bem desenvolvida sendo caracterizada pela orientação preferencial de micas, quartzo, granada, estaurolita e cianita. Nos anfibolitos a hornblenda é o mineral que caracteriza essa estrutura (figura 3.14-H).
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Lineação mineral (Lm) dada pela orientação preferencial de anfibólios, cianitas, feldspatos e micas, (figura 3.15-B) de direção E-W e atitude média de 100/15, subparalelas a eixos de dobras (Bn) caracterizam lineações do tipo “b”.
Na região do rio Itamarandiba a lineação mineral (Lm) possui caimentos suaves para norte, fazendo altos ângulos com o eixos de dobras (Bn) e é aqui interpretada como lineação do tipo “a”.
Esta hipótese baseia-se no fato de que ocorrem dois conjuntos de lineações de naturezas e orientações ortogonais, com predominância para lineações do tipo “b” de baixo rake e orientação similar aos eixos de dobras (Bn) (figura 3.17-B). As lineações do tipo “a”, de alto rake (down dip) indicaria a direção do encurtamento tectônico (NNW-SSE).
A lineação mineral (Lm) é aproximadamente paralela à direção do eixo máximo do elipsóide de deformação finita que, na área estudada, encontra-se materializado em um elemento de geometria prolata: boudins, os quais apresentam direção NNW-SSE. A geometria dos elementos sugere o sítio deformacional deste evento num campo constritivo, característico de zonas de charneira de um sistema dobrado de escala regional.
A segunda fase (Fn+1) possui uma assembleia de estruturas onde se destaca uma clivagem de crenulação (Sn+1) (figuras 3.14-D, 3.14-E, 3.14-G e 3.15-C) bastante recorrente nos xistos peraluminosos, possui direção NW-SE com mergulhos que variam de 25°-80° para SW, posicionada no plano-axial de dobras (Bn+1). A clivagem de crenulação nas rochas máficas é de carácter zonal, perturba a foliação penetrativa (Sn) e possui mergulhos para WSW, contudo variações para ENE são comuns. Quando observada em esacala microscópica, a clivagem (Sn+1) apresenta-se em bandas discretas de espessura milimétrica (de 0,5 a 3,5 mm) e espaçamento variável entre 1 mm e 3 cm. São formadas pela rotação passiva de micas e dissolução por pressão.
A lineação de crenulação (Lc) (figura 3.15-D) é bastante pronunciada nos xistos peraluminosos (figura 3.14-D) e se associa as cristas das microdobras (Bn+1) e possui rumo WNW-ESE ou NW-SE com caimentos de 15° para SE ou E, raramente para NW. É subparalela à lineação mineral (Lm) da fase Fn. As dobras geradas nessa fase exibem geometria aberta ou cerrada e aparecem em padrões “M”, “S” e “Z” (figura 3.14-F), resultantes da amplificação de dobras preexistentes ou encurtamento e dissolução por pressão. As dobras isoclinais ocorrem com maior frequência no mica xisto e grafita xisto.
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Figura 3.14: A) Estratificação cruzada acanalada de pequeno porte mostrando polaridade sedimentar invertida (tangenciamento de topo). B) Dobras fechadas mostrando dobras da fase Fn e a posição plano axial da foliação Sn. C) Sn+1 em posição plano axial às dobras da fase Fn+1. D) Relação entre a clivagem de crenulação (Sn+1) e as dobras da fase Fn+1. E) Clivagem de crenulação (Sn+1) muito bem formada em xisto peraluminoso da Formação Capelinha. F) Veio de quartzo paralelo à foliação Sn. A clivagem de crenulação Sn+1 se encontra em posição plano axial em relação aos veios. G) Fotomicrofia de xisto aluminoso da unidade metapelítica da Formação Capelinha evidenciando estruturas da fase Fn (Sn) e Fn+1 (Sn+1). H) Fotomicrografia de anfibolito da Formação Capelinha. A foliação (Sn) é marcada por grandes critais de hornblenda (Hbl).
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Figura 3.15: Estereogramas das estruturas de pequena escala relacionadas as fases de deformação Fn e Fn + 1: A) Estereograma sinóptico de contornos de igual área para a foliação(Sn). B) Estereograma sinóptico de contornos de igual área plotado para a lineação mineral (Lm). C) Estereograma sinóptico de contornos de igual área plotado para a clivagem de crenulação (Sn+1). D) Estereograma sinóptico de contornos de igual área plotado para a lineação de crenulação (Lc).
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Figura 3.16: Seções litoestruturais da Faixa de Dobramentos Capelinha (CFB); vide mapa geológico da figura 3.2 para localização dos perfis.
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Figura 3.17: A) Bloco diagrama representando as fases deformacionais Fn e Fn+1, as estruturas relacionadas e o estilo estrutural. B) Estereograma plotado para as estruturas lineares de pequena escala relacionadas às fases de deformação Fn e Fn + 1.
A terceira fase (Fn+2), de carácter dúctil-rúptil, tem ocorrência restrita, sendo marcada por uma assembleia incipiente de estruturas mesoscópicas, e se manifesta principalmente como uma clivagem espaçada (Sn+2) de direção NE com mergulhos suaves para NW ou ainda como dobras abertas de dimensões métricas que apresentam eixo na direção N30E com caimentos em torno de 15º. O sistema de descontinuidades rúpteis é constituído pelas direções N-S, E-W, NE-SW e subordinadamente NW-SE. Esta última direção caracteriza-se por constituir fraturas de cisalhamento do tipo direcional com cinemática dextral. Além disso, as direções N30W, NS e N40E exercem forte influência sobre o modelado do relevo atual.
A Faixa de Dobramentos Capelinha configura elementos lineares e planares de direção EW com vergência tectônica dirigida para sul, ortogonal ao movimento global do orógeno Araçuaí.
Possivelmente o movimento para sul se deve ao escape de massas devido ao fechamento da península Araçuaí ou a um evento tectônico sincrônico de encurtamento NS que se desenvolveu na região de Capelinha sob a influência de dois blocos, o de Guanhães a sul e o Porteirinha a norte (figuras 2.2 e 2.5).