A manutenção da esterilidade é preocupação fundamental, qualquer que seja o método de conservação (SLATTER, 1998).
PIGOSSI (1964) efetuou estudo experimental de implante ortotópico de dura-máter homógena, conservada em glicerina. Segundo esse autor a glicerina desidrata o tecido substituindo a maior parte de água intracelular. Entretanto, não altera a concentração iônica das células, atuando como eficaz protetor da integridade celular. Pela avaliação histológica do implante, o pesquisador constatou ausência de processo inflamatório agudo, o que assegura a esterilidade do produto e a ausência de antigenicidade. No atual estudo utilizando caninos a glicerina isoladamente como meio conservante, foi semeada em Agar Sangue e não houve crescimento bacteriano, porém não pode ser afirmado que se encontrou estéril, pois poderia haver a presença de outros agentes microscópicos.
Foi possível verificar no presente estudo que das 35 amostras analisadas no exame bacteriológico 16 apresentaram contaminação quando avaliadas no momento da coleta e a glicerina foi capaz de inibir o crescimento bacteriano em 14 espécimes. PIGOSSI (1967) realizou pesquisa sobre a ação anti-séptica e antigênica da glicerina na conservação de dura- máter humana e de caninos. Concluiu que a glicerina reduz a antigenicidade de peças nela conservadas e, que além de outras propriedades, ela é um agente desidratante de atuação rápida e age como poderoso anti-séptico de amplo espectro de ação.
PINTO JUNIOR et al. (1996) comentaram que a glicerina, mesmo sem ser processada ou esterilizada apresenta atividade antifúngica. No atual estudo micológico foi verificado que das 35 amostras obtidas e analisadas no momento da coleta, oito apresentaram contaminação por fungos e que a glicerina foi eficiente em eliminar todos esses agentes.
Os resultados das avaliações bacteriológicas e micológicas da glicerina podem ser visualizados nos Quadros 1 e 2.
PIGOSSI et al. (1971) pesquisaram a ação bactericida da glicerina, realizando testes em peças de dura-máter espontaneamente contaminadas e testes in vitro, adicionando à glicerina, a mais ou menos 98%, inóculos de colônias de diversos microorganismos escolhidos principalmente entre os patógenos mais prevalentes na rotina médica como
Escherichia coli, Klebsiella spp., Proteus mirabilis, Micrococcus spp, Staphylococcus aureus
entre muitos outros. Entretanto no atual estudo realizado com segmentos ósseos os agentes encontrados na maior parte foram contaminantes ambientais, tal como Bacillus spp. e Coccus spp..
MELO et al., (1998) avaliaram de forma bacteriológica aloenxertos ósseos conservados em glicerina e observaram o crescimento de microorganismos em 21,4% das amostras de segmentos ósseos. Staphyloccocus intermedius e Staphyloccocus spp. foram os agentes encontrados. O resultado sugere que a glicerina não permitiu o crescimento, mas também não eliminou as bactérias presentes nos ossos. Os achados deste autor não concordam com o que foi encontrado no presente estudo com diáfises femorais, pois em 45,71% das amostras recém coletadas houve presença de contaminação e após os 30 dias de conservação somente 5,71% permaneceram contaminadas, demonstrando a ação bactericida da glicerina.
Uma grande vantagem encontrada foi que para todo o experimento realizado foi necessário somente um litro de glicerina e o processo de armazenagem foi bastante simples, concordando com CAVASSANI et al., (2001), os quais comentaram que a evidência da preservação da atividade osteogênica de fragmentos ósseos pela glicerina possibilita que bancos de ossos destinados à enxertia estoquem fragmentos de matriz óssea mineralizada ou matriz óssea desmineralizada em lugar de peças íntegras e grandes, otimizando a utilização de espaço de armazenamento e a quantidade de glicerina.
Foram realizados experimentos com um banco de ossos preservados em glicerina, confirmando ser este um método de preservação simples, barato e bactericida, pois é possível armazenar os ossos imersos em glicerina à temperatura ambiente, não sendo necessário o congelamento e outros métodos lesivos (SCHENA & MCURNING, 1983; BLOOMBERG et al., 1984; HART et al., 1984); esta é outra vantagem da utilização da glicerina, pois armazenando-se à temperatura ambiente não há formação de cristais intra e extracelulares, além de alterações eletrolíticas deletérias às células e potencialmente destrutivas à matriz óssea. Seu efeito asséptico na conservação de tecido ósseo deve-se particularmente às suas propriedades físicas (SCHENEIDER & MAZUR, 1984), e, portanto não há problema quanto ao fenômeno da resistência bacteriana, assim como ocorre com o tiomersal.
Os ossos conservados em glicerina foram mantidos por um período de 30 dias, porém alguns autores avaliaram este e outros métodos por maior tempo, tal como o óxido de etileno como meio de conservação de fragmentos ósseos (PHILLIPS et al, 1988; ROE et al., 1988; JOHNSON et al., 1992; TSCHAMALA et al., 1994; WAGNER et al., 1994; PINTO JÚNIOR, 1995). Porém sua viabilidade é questionável após 32 semanas de estocagem, sendo que o período máximo de estocagem aceitável é de seis a 18 meses.
GIOSO et al. (2002) inferiram que a glicerina também é um meio de preservação simples, barato e asséptico, tal como o tiomersal, e o substitui com sucesso. Pelo trabalho anteriormente citado pôde-se constatar que a glicerina é capaz de conservar o tecido ósseo
por um prazo de nove anos de armazenamento (108 meses aproximadamente), superando o óxido de etileno neste aspecto. Levando-se em consideração que o número de amostras positivas para crescimento microbiano foi estatisticamente muito pequeno em comparação com as amostras negativas, deve-se considerar, portanto, a glicerina como um excelente meio de conservação de tecido ósseo, mantendo o tecido isento de microorganismos por um período de até nove anos.
Algumas formas esporuladas dos agentes apresentados foram encontradas no presente estudo. GIOSO et al. (2002) trabalharam com ossos conservados em glicerina a 98%, por nove anos. Através de testes microbiológicos foram pesquisadas bactérias, nas epífises e no canal medular e não foi encontrado um número estatisticamente significativo para que interferissem na enxertia óssea. A flora bacteriana presente no implante biológico de tendão calcâneo comum após a ação da glicerina a 98% foi avaliada e este meio segundo KRAUSPENHAR (2003) previne a proliferação bacteriana.
Para PIGOSSI et al. (1971) embora a glicerina seja um poderoso anti-séptico ela não atua sobre algumas formas esporuladas mais resistentes. Apesar da glicerina ter apresentado bom efeito bactericida, algumas bactérias permaneceram viáveis, porém a maior parte dos agentes encontrados não eram de caráter patogênico. Isso explica porque, em estudos experimentais, a glicerina mostrou ser um meio adequado para a conservação de implantes ósseos, obtendo altos índices de incorporação, tal como quando foram reconstruídas com sucesso as porções diafisárias de ossos longos substituídas por segmentos corticais conservados em glicerina, sendo todos os procedimentos realizados em caninos (PINTO JÚNIOR et al., 1996; COSTA, 1996; MELO et al., 1998).