5. CIRCLE K CYCLES: O SUJEITO DIASPÓRICO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO

5.1 Caminhos teóricos complementares para o sujeito em Circle K Cycles

5.1.1 Globalização e disjunções

Delimitar e problematizar o conceito de globalização requer um discernimento das variadas conotações que o termo adquiriu no debate acadêmico. Em “Spatial Criticism: Critical Geography, Space, Place and Textuality”, por exemplo, Wegner (2002) dá início ao debate afirmando que “qualquer conceito como ‘globalização’ é, desde já, profundamente ideológico, obstruindo os interesses e a agência específicos envolvidos em tal processo de reterritorialização espacial” (WEGNER, 2002, p. 189).289 King (1997) também leva em consideração os perigos das formulações simplificadas em relação ao conceito de globalização, partindo das definições de mundo e globo encontradas no Oxford English

Dictionary. Para definir mundo, são necessárias quatro páginas, ao passo que o conceito de

globo ocupa apenas meia página no dicionário: “Globo [...] tem uma conotação mais limitada, se referindo, mais especificamente, à terra ou ao globo terrestre” (KING, 1997, p. 11),290 afirma o autor. Se a palavra globo não é elucidada de maneira satisfatória, o uso do termo globalização também necessita ser amadurecido ou, no mínimo, delimitado, a fim de amenizar a ambiguidade que o caracteriza.

Robertson (1987), em “Globalization and Societal Modernization: a Note on Japan and Japanese Religion”, oferece alguns possíveis pontos de partida para o debate sobre o tema: o surgimento da condição humana global, a consciência do global em si e a globalização vista como “a cristalização do mundo inteiro como um espaço único,” (ROBERTSON, 1987, p. 38).291 O termo cristallization sugere, em inglês, pelo menos dois sentidos aplicáveis ao contexto teórico da globalização. No The American Heritage

Dictionary of the English Language, o verbo crystallize é o mesmo que “dar uma forma

definida, precisa e, geralmente, permanente” (HERITAGE, 2004, p. 1).292 Em português, o verbete “cristalização” é explicado de forma semelhante, mas com o acréscimo das noções de fixidez e imobilização. Entretanto, o Macmillan English Dictionary for Advanced Learners sugere outro sentido para o ato de cristalizar-se: “tornar-se definido ou compreendido facilmente” (MACMILLAN, 2007, p. 358),293 associando o verbo à expressão adjetivada

crystal clear, que se refere ao que é “extremamente óbvio ou fácil de entender”

289

“any concept like ‘globalization’ is always already a deeply ideological one, occluding the particular agency and interests involved in such a process of spatial reterritorialization.”

290

“Globe [...] has a more limited connotation, referring more specifically to the earth or terrestrial globe.”

291

“the crystallization of the entire world as a single space.”

292

“To give a definite, precise, and usually permanent form to.”

293

(MACMILLAN, 2007, p. 358).294 A noção de obviedade e entendimento destoa da ideia de estagnação ou fixidez. Assim, a globalização vista como a cristalização do mundo em um único espaço, nos termos de Robertson (1987), está mais compatível com a evidência de que, cada vez mais, o homem contemporâneo adquire consciência do mundo como um todo.

A conscientização acerca do globo parece ser uma premissa no debate em que se pretende definir globalização. No entanto, como ocorre tal processo? Fatores como a mobilidade global e uma de suas consequências principais, a interconectividade, são os motores da globalização. Tomemos como base o conceito de conectividade complexa de Tomlinson (1999a). Para o autor, a expressão é utilizada para se referir a múltiplas articulações em escala mundial, “variando, desde as relações sócioinstitucionais que estão proliferando entre indivíduos e coletividades em todo o mundo, até a ideia de ‘fluxo’ crescente de mercadorias, informações, pessoas e práticas, através de fronteiras nacionais” (TOMLINSON, 1999a, p. 2).295 Tomlinson (1999a) assinala ainda que a conectividade complexa se realiza por modalidades mais concretas de conexão, como o sistema de transporte aéreo internacional ou, de forma mais abstrata, via sistemas eletrônicos de comunicação. Assim, o autor define que “globalização se refere à rede de interconexões e interdependências, continuamente densa e rapidamente em desenvolvimento, que caracterizam a vida social moderna” (TOMLINSON, 1999a, p. 2).296 Em “A Global Society?”, Anthony McGrew (1992) afirma que a globalização é “simplesmente a intensificação da interconectividade global” (MCGREW, 1992, p. 63).297 A discussão de McGrew (1992) é exemplificada por situações de política internacional, mas sua formulação pode ser reaplicada em uma perspectiva sociocultural, como avalia Tomlinson (1999a).298

A constatação de uma crescente interconectividade no mundo contemporâneo pode ser inequívoca, como observamos em McGrew (1992), mas o estudo de suas implicações demonstra complexidade. Appadurai299 (1999) é quem melhor identifica a dinâmica da globalização no seminal ensaio “Disjuncture and Difference in the Global Cultural Economy”. O autor propõe que pensemos o mundo contemporâneo como resultado de

294

“Extremely obvious or easy to understand.”

295

“varying from the social-institutional relationships that are proliferating between individuals and collectivities worldwide, to the idea of increasing ‘flow’ of goods, information, people and practices across national borders.”

296

“globalization refers to the rapidly developing and ever-densening network of interconnections and interdependences that characterize modern social life.”

297

“…simply the intensification of global interconnectedness.”

298

Assim como Tomlinson (1999a, 1999b), Hall (1990) e Cohen (1997) também reforçam suas discussões sobre globalização citando o trabalho de Anthony McGrew (1992).

299

Mishra, S. (2006) considera Appadurai um dos mais importantes teóricos da diáspora. Nesta tese, entretanto, a teoria da disjunção e das paisagens culturais globais – scapes – somente são aproveitadas neste capítulo, por se referirem a um contexto mais condizente com Circle K Cycles.

fluxos globais que se cruzam, representados por meio de cinco cenas ou paisagens:

ethnoscapes, mediascapes, technoscapes, finanscapes e ideoscapes.Cunhados por Appadurai (1999), esses termos se referem, respectivamente, aos fluxos de pessoas, de informação e imagens midiáticas, de tecnologia, de capital e de ideologias, sempre em escala global. A diáspora está entre as entidades que protagonizam o emaranhado constituído por esses fluxos:

Uso os termos com o sufixo comum -scape para indicar, primeiramente, que não implicam relações pré-determinadas objetivamente, que parecem o mesmo de todos os ângulos de visão, mas são, mais propriamente, construtos profundamente perspectivais, muito flexionados por situabilidades linguísticas e políticas, de diferentes tipos de atores: estados-nações, multinacionais, comunidades diaspóricas, bem como agrupamentos sub-nacionais e movimentos (quer sejam religiosos, políticos ou econômicos), e até grupos íntimos e presenciais como vilas, vizinhanças e famílias. (APPADURAI, 1999, p. 221-22, grifo nosso)300

As paisagens identificadas por Appadurai (1999), cujos detalhes apresentamos mais adiante, retratam um mundo de “disjunções entre economia, cultura e política” (APPADURAI, 1999, p. 221).301 Por ser específica para cada contexto, a disjunção é dotada, como relata Appadurai (1999), de perspectivismo, flexibilidade e situacionismo, não podendo ser simplificada por meio de oposições binárias como centro e periferia, ocidente e oriente ou norte e sul. Em outras palavras, tais paisagens fluem por superfícies irregulares ou, conforme King (1997) assinala, constituem “fluxos não-isomórficos” (KING, 1997, p. 11).302 Mishra (2006), ao discutir o pensamento de Appadurai (1999), concorda que as paisagens se “relacionam umas com as outras de formas profundamente disjuntivas e fortuitas” (MISHRA, 2006, p 157).303 A fim de fortalecer tal constatação, Mishra (2006) toma o exemplo do Japão mencionado em Appadurai (1999) e o desdobra, interpretando-o segundo a própria teoria dos fluxos culturais globais:

A receptividade do Japão às ideias e valores importados (ideoscapes) e sua habilidade para exportar bens de consumo (incluindo technoscapes) para diversas culturas e mercados raramente possui qualquer relação, determinista ou outra, com sua intransigência lendária em assuntos de imigração (ethnoscapes). (MISHRA, 2006, p. 157)304

300

“I use terms with the common suffix scape to indicate first of all that these are not objectively given relations which look the same from every angle of vision, but rather that they are deeply perspectival constructs, inflected very much by the historical, linguistic and political situatedness of different sorts of actors: nation-states, multinationals, diasporic communities, as well as sub-national grouping and movements (whether religious, political or economic), and even intimate face-to-face groups, such as villages, neighborhoods and families.”

301

“disjunctures between economy, culture and politics”

302

“non-isomorphic flows”

303

“relate to one another in profoundly disjunctive and fortuitous ways”

304

Japan’s receptivity to imported ideas and values (ideoscapes) and ability to export commodities (including technoscapes) to a diversity of cultures and markets bears scarcely any relation, deterministic or otherwise, to its legendary intransigence on matters of immigrations (ethnoscapes) (MISHRA, S. 2006, p. 157)

Ao relacionar, nesse exemplo, os fluxos de pessoas, informações e imagens midiáticas, tecnologia, capital e ideologias entre si, Mishra (2006) confirma que a noção de disjunção talvez seja a principal contribuição do ensaio de Appadurai (1999). Afinal, como demonstra o exemplo do Japão, cada caso estudado deve constituir um emaranhado peculiar e heterogêneo, podendo apresentar resultados imprevisíveis. Devido a isso, a teoria de Appadurai (1999) é aplicável a diferentes conjunturas, sendo útil, como conclui Mishra (2006), aos propósitos de estudo da diáspora.

Também podemos relacionar o exemplo japonês aos objetivos específicos deste capítulo. A disjunção que ocorre no Japão pode e deve ser relacionada à Circle K Cycles, obra em que a construção do sujeito diaspórico é claramente influenciada pela forma como os fluxos culturais ocorrem no contexto japonês. A resistência do cidadão japonês ao imigrante provoca um sentimento de rejeição no sujeito diaspórico nipo-brasileiro, um ingrediente que faz parte de seu processo de identificação. Por fim, é preciso deixar claro que nosso foco em

Circle K Cycles não é a análise da incidência dos fluxos culturais globais na sociedade

japonesa como um todo, mas somente em relação à comunidade diaspórica brasileira instalada naquele país. Portanto, na investigação de personagens neste capítulo, um dos objetivos é averiguar como os fluxos culturais característicos da globalização se articulam ao sujeito diaspórico em seu processo de construção.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 135-138)