Quatro anos depois, em novembro de 1889, em uma transição tranquila de Império para República, encabeçada por militares de alta patente e civis (principalmente, com formação jurídica), o “Governo Provisório da Republica dos Estados Unidos do Brazil”, se estabeleceria com o Marechal Deodoro da Fonseca e, com um dos seus principais Ministros, Benjamin Constant Botelho de Magalhães (FAUSTO, 2006, p. 245-247).
dos Negócios de Instrução Pública, Correios e Telégrafos, e que nos permitirá adentrar em uma nova fase curricular e do ensino jurídico do Brasil, com a autorização para funcionamento das Faculdades Livres do Rio de Janeiro e da Bahia, em 1891, acabando com a hegemonia paulista e pernambucana do Direito nacional, é importante mencionar o Decreto n° 1.036-A de 14 novembro de 1890.
Quase no aniversário de um ano do novo regime republicano, a reforma educacional de Constant que, influenciado pelo Positivismo - uma filosofia que não tinha base apenas em Comte (NISKIER, 2011, p. 209-210) - já afetava os setores primários e secundários de Ensino, começando a se voltar para o Ensino Superior. Este Decreto, especificamente, era a oficialização da separação entre o Estado brasileiro e a Igreja Católica, que trazia consigo a explicação para a retirada dos estudos referentes ao Direito Eclesiástico das Faculdades de Direito de São Paulo e Recife pelo Marechal Deodoro.
No início do ano de 1891, o Decreto n° 1.232-H abriria uma nova fase do ensino jurídico nacional e, como sempre, o currículo tem lugar de destaque, agora nos três cursos que as Faculdades de Direito iriam possuir: “o de sciencias juridicas, o de sciencias sociaes, o de notariado”:
Art. 3º O curso de sciencias juridicas comprehenderá o ensino das seguintes materias:
Philosophia e historia do direito; Direito publico e constitucional; Direito romano; Direito criminal, incluindo o direito militar; Direito civil; Direito commercial, incluindo o direito maritimo; Medicina legal; Processo criminal, civil e commercial; Pratica forense; Historia do direito nacional; Noções de economia politica e direito administrativo.
(...);
Art. 5º O curso de sciencias sociaes constará das seguintes:
Philosophia e historia do direito; Direito publico; Direito constitucional; Direito das gentes; Diplomacia e historia dos tratados; Sciencia da administração e direito administrativo; Economia politica; Sciencia das finanças e contabilidade do Estado; Hygiene publica; Legislação comparada sobre o direito privado (noções). (...);
Art. 7º As materias do curso do notariado constituirão objecto das duas seguintes series de exames:
1ª serie
1ª cadeira. Explicação succinta do direito patrio constitucional e administrativo. 2ª cadeira. Explicação succinta do direito patrio criminal, civil e commercial.
2ª serie
1ª cadeira. Explicação succinta do direito patrio processual.
2ª cadeira. A quarta cadeira da quarta serie do curso de sciencias juridicas. Art. 8º Para o ensino das materias que formam o programma dos tres cursos haverá as seguintes cadeiras:
Uma de philosophia e historia do direito; Uma de direito publico e constitucional; Uma de direito romano; Uma de direito criminal; Duas de direito civil; Duas de direito commercial; Uma de historia do direito nacional; Uma de medicina legal;
Uma de processo criminal, civil e commercial; Uma de pratica forense; Uma de direito das gentes, diplomacia e historia dos tratados; Uma de sciencia da administração e direito administrativo; Uma de economia politica; Uma de sciencia das finanças e contabilidade do Estado; Uma de hygiene publica; Uma de legislação comparada sobre o direito privado (noções); Uma de explicação succinta de direito patrio e civil, commercial e criminal; Uma de explicação succinta de direito patrio constitucional e administrativo; Uma de explicação succinta do direito patrio processual; Uma de noções de economia politica e direito administrativo (BRASIL, 1891, online).
Como é possível notar, o legislador determinou apenas dois anos de formação para o curso de notário, sendo as disciplinas: “Explicação succinta do direito patrio constitucional e administrativo; Explicação succinta do direito patrio criminal, civil e commercial; Explicação succinta do direito patrio processual e; Pratica forense” as necessárias para conseguir se formar. Essa é uma das principais novidades que a Reforma traz, pois reflete e confirma a questão, desenvolvida anteriormente, acerca da especialização que as carreiras de Estado iriam ter com o passar do tempo, assim:
Art. 366. O gráo de bacharel em sciencias juridicas habilita para advocacia, magistratura e officios de justiça; o de bacharel em sciencias sociaes, para os logares do corpo diplomatico e consular e para os cargos de director, sub-director e official das secretarias do Governo e administração.
(...);
Art. 368. Aos que tiverem sido approvados em todas as materias do curso de notariado será conferido o titulo de notario, que habilita para os officios de justiça (BRASIL, 1891, online).
Tal grau, contudo, não era suficiente para pleitear o título de doutor, que ainda manteve os requisitos anteriormente expostos do Decreto de 1885. Nem mesmo a simbologia do anel de ouro era possível aos notários, sendo exclusiva dos outros dois cursos (art. 369).
A novidade curricular vem em conjunto com a disciplina de história do Direito. Para suprir a lacuna deixada pelos ensinamentos do Direito eclesiástico, a “philosophia” surge pela primeira vez nos currículos, concretizando assim o ciclo de transição de um direito pautado em questões provenientes da ideologia cristã, para discussões e reflexões que fossem além dos doutores da Igreja, sem se preocupar com censuras provenientes do Estado neste campo de estudo em específico.
Saindo da seara curricular das Faculdades de Direito agora associadas ao Governo Federal, os quase 500 artigos do referido Decreto não trazem consigo tantas mudanças estruturais em relação ao texto de 1885, aqui sendo ressaltados apenas quatro artigos.
primeiros Decretos que versavam sobre as Faculdades de Direito, que é a concessão do grau de doutor, automático, quando o bacharel fosse nomeado ou passasse em concurso para “lente”. Depois, ressalta-se no artigo 176 a mesma nomenclatura utilizada no Império, para aqueles que desejavam acesso às bibliotecas: “pessoas decentes”, aspecto que demonstra ainda preconceitos arraigados por parte dos republicanos.
Outras mudanças são relativas aos requisitos para se matricular nos cursos das Faculdades de Direito, que agora dialogavam sistematicamente com a reforma no ensino básico, promovido por Constant anteriormente:
Art. 265. Para matricula nos cursos de sciencias sociaes e juridicas é necessario exhibir certificado de estudos secundarios ou titulo de bacharel, de accordo com os arts. 38 e 39 do decreto n. 981 de 8 de novembro de 1890.
Art. 266. Para os cursos de notariado deverá o matriculando exhibir certidão de haver sido approvado em portuguez, arithmetica, historia do Brazil e geographia em exames feitos no Gymnasio Nacional ou noutros estabelecimentos a este equiparados (BRASIL, 1891, online).
As alterações, contudo, que ensejam a mudança de paradigma que influenciará o início da nova fase do ensino do Direito nacional, começam no segundo Título (Instituições
de ensino juridico fundadas pelos Estados ou por particulares), iniciando-se no artigo 418,
do Decreto em análise, que descentralizou a possibilidade de serem criadas novas Faculdades de Direito aos Estados federados:
Art. 418. E' licito aos poderes dos Estados federados fundarem Faculdades de Direito; mas para que os gráos por ellas conferidos tenham os mesmos effeitos legaes que os das Faculdades federaes, é de mister:
1º, que as habilitações para matriculas e exames e os cursos sejam identicos aos das Faculdades federaes;
2º, que se sujeitem á inspecção do Conselho de Instrucção Superior (BRASIL, 1891, online).
Com esse artigo, os governos que se interessassem, poderiam fundar seus próprios cursos, desde que aos moldes das Faculdades federais, ou seja, com as mesmas obrigações para as matrículas e currículos idênticos.
Estabelece-se, contudo, a concretização da possibilidade das Faculdades (estabelecimentos) serem criadas por iniciativa particular (ideia que não obteve aderência na Reforma de 1879), com base nos artigos que seguem:
Art. 419. E' permittido a qualquer individuo ou associação de particulares a fundação de cursos ou estabelecimentos, onde se ensinem as materias que constituem o programma de qualquer curso ou Faculdade federal, salva a inspecção necessaria para garantir as condições de moralidade e hygiene.
Art. 420. Aos estabelecimentos particulares que funccionarem regularmente poderá o Governo, com audiencia do Conselho de Instrucção Superior, conceder o
titulo de Faculdade livre, com todos os privilegios e garantias de que gozarem as Faculdades federaes.
As Faculdades livres terão o direito de conferir aos seus alumnos os gráos academicos que concedem as Faculdades federaes, uma vez que elles tenham obtido as approvações exigidas pelos estatutos destas para a collação dos mesmos gráos.
Art. 421. Os exames das Faculdades livres serão feitos de conformidade com as leis, decretos e instrucções que regularem os das Faculdades federaes e valerão para a matricula nos cursos destes.
O Conselho de Instrucção Superior nomeará annualmente commissarios que assistam a esses exames e informem sobre a sua regularidade.
Art. 422. Em cada Faculdade livre ensinar-se-hão pelo menos todas as materias que constituirem o programma da Faculdade federal (BRASIL, 1891, online).
As “Faculdades Livres” seriam fiscalizadas pelo “Conselho de Instrucção Superior”, vinculado ao “Ministro de Estado dos Negocios da Instrucção Publica, Correios e Telegraphos”, sendo elas capazes de conferir os mesmos títulos que as Faculdades associadas ao Poder Federal.
Um aspecto que merece destaque, no que se refere a construção curricular daquele Decreto, é que pela primeira vez ao longo desta análise descritiva, conforme o artigo 422 deixa claro, passou a existir o estabelecimento de um currículo mínimo para as Faculdades Livres, que “ensinar-se-hão pelo menos todas as materias que constituirem o programma da Faculdade federal” (BRASIL, 1891, online).
Dessa maneira, ao contrário dos estabelecimentos que fossem criados pelo Estado, que obrigatoriamente estariam vinculadas ao currículo das Faculdades federais, as instituições particulares não teriam essa limitação, sendo viável que acrescentassem disciplinas ao currículo mínimo exigido pelo governo federal.
Nasce, assim, uma nova fase do Ensino Jurídico brasileiro. Aos estados federados foi concedida não apenas a possibilidade de criar Faculdades de Direito, mas passou a se permitir que os particulares elaborassem currículos, sendo o Decreto n. 599, de 18 de outubro de 1891 e o Decreto n° 639, de 31 de outubro de 1891, os que iriam inaugurar essa possibilidade. O primeiro desses Decretos referente ao estado da Bahia, cujo curso já tinha entrado em funcionamento desde abril daquele ano:
Concede á Faculdade de Direito da Bahia, na fórma do art. 420 do decreto n. 1232 H de 2 de janeiro deste anno, o titulo de Faculdade Livre com todos os privilegios e garantias de que gozam as Faculdades federaes.
O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil,
Considerando: que a Faculdade de Direito da Bahia se acha regularmente funccionando, desde sua installação (15 de abril de 1891), com um corpo docente idoneo, em edificio apropriado, com uma frequencia de 93 alumnos matriculados e ensinando as materias que constituem o programma das Faculdades de Direito
federaes, e nas condições de moralidade e hygiene exigidas pelo art. 19 do regulamento approvado pelo decreto n. 1232 H de 2 de janeiro do corrente anno; que a creação dessas Faculdades livres é mais um incentivo para o desenvolvimento do ensino superior na Republica: Resolve, de accordo com o parecer do Conselho de instrucção superior, conceder, na fórma do art. 420 do citado regulamento, á mesma Faculdade de Direito da Bahia o titulo de Faculdade Livre, com todos os privilegios e garantias de que gozam as Faculdades federaes, ficando, porém, sujeita ás disposições do mesmo decreto n. 1232 H de 2 de janeiro (BRASIL, 1891a, online).
E duas concessões sendo autorizadas no Rio de Janeiro, que abrigava também a Capital da nova República:
Concede á Faculdade Livre de Sciencias Juridicas e Sociaes do Rio de Janeiro e a Faculdade Livre de Direito desta Capital, na fórma do art. 420 do decreto n. 1232 H de 2 de janeiro deste anno, o titulo de Faculdades Livres, com todos os privilegios e garantias de que gozam as Faculdades federaes.
O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brazil, tendo em vista o parecer do Conselho da Instrucção Superior, resolve conceder, na fórma do art. 420 do decreto n. 1232 H de 2 de janeiro deste anno, á Faculdade Livre de Sciencias Juridicas e Sociaes do Rio de Janeiro e á Faculdade Livre de Direito desta Capital, o titulo de Faculdades Livres, com todos os privilegios e garantias de que gozam as Faculdades federaes; ficando, porém, sujeitas ás disposições do mesmo decreto n.1232 H de 2 de janeiro (BRASIL, 1891b, online).
O próximo capítulo tratará sobre a implementação das Faculdades Livres de Direito no território nacional e seus currículos, a Fundação do primeiro curso de Direito do Ceará e prosseguirá até a fundação da UFC, instituição escolhida para auxiliar na compreensão do objeto desse estudo.
3 DAS FACULDADES LIVRES DE DIREITO ATÉ A FUNDAÇÃO DA