Histórias da Visa R eal - V. 2 - O modo de fazer em VISA

Mesmo acolhido em um estabelecimento que caminha mui- to lentamente em direção ao que se espera minimamente de uma ILPI, Alfinin sempre me pareceu feliz! Gosta de nos ver, aliás, afir- ma que nossas visitas são para ele “dias de festa” e diz isto enchen- do de beleza, com um sorriso amplo, seu rosto tão marcado pela vida.

Inúmeras vezes me pego com saudade daquele sorriso, ao mesmo tempo em que me angustio com os múltiplos problemas que o administrador “de seu lar” vem enfrentando para mantê-lo. Como consolo, apego-me ao reconhecimento público pelo traba- lho que ele desenvolve e que as tantas desconformidades pare- cem diminuir sensivelmente diante da ternura que solidifica aque- la instituição.

Autêntico ainda, minhas deficiências técnicas, quando me deixo me levar por emoções tanto quanto pela lógica de meus ins- trumentos legais, reconheço que meu envolvimento com uma ILPI ultrapassa muiiiiiiito seus muros ou os termos sanitários que preencho.

Na última visita que fiz à ILPI onde vive meu doce Alfinin, no ano de 2008, bem na hora de nossa saída percebi que ele chorava copiosamente. Acostumada com seu sorriso, fui pega de surpresa e quis logo um motivo que justificasse o choro tão doído...

Meu amigo Alfinin, entre soluços entrecortados, disse que queria me pedir algo; e eu supondo mil situações, já me compro-

metia com todos os anjos e arcanjos, que fosse o que fosse eu ten- taria realizar...

Num fiozinho de voz, Alfinin me pediu, finalmente: – “Uma professora”. E ouvir isso foi desconcertante e ao mesmo tempo doloroso, pois bem compreendo que o que meu Alfinin realmente desejava era alguém que pudesse lhe dar diariamente aquela quantidade de carinho que nossa equipe oferecia por tão poucos minutos, em nossas breves passagens.

Procurei, então, a Secretaria de Ação Social de seu muni- cípio e existe uma pequena possibilidade de que o sonho de Alfinin se realize, mas justo no meio da dor que partilhamos, em um dos raros momentos em que nos faltou um sorriso, nasceu um projeto que está se concretizando e que se alicerça na coleta das histórias de vida de nossos idosos que vivem nas ILPIs do interior de meu estado.

Tenho buscado e encontrado ótimas parceiros... Meus objetivos são claros, desejo voltar o olhar sensível das pessoas da comunidade sobre ILPI, onde ela estiver inserida. Quero levar ruí- dos de afetividade e alegria para dentro de suas dependências físi- cas, fazer interagir diferentes gerações, possibilitando uma dese- jável e enriquecedora troca de saberes.

Do material coletado pinçarei conteúdo para formatar uma “contação de histórias” que seja o retrato de nossos idosos acolhidos nas ILPIs do interior de meu estado, fazendo uso de um

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ofício que também vivencio e me apaixona: contadora de histó- rias. Paralelamente, em manhãs ou tardes ensolaradas, voltarei às nossas instituições para realizar o que venho denominando de “festa afetiva” em que contarei uma historinha composta das in- formações sobre os residentes de cada instituição, esperando ter a presença dos envolvidos no projeto e de muitos outros seguimen- tos do município.

Por uma feliz coincidência, amanhã, dia 30 de setembro de 2009, estarei fazendo minha inspeção de rotina na instituição onde vive o tão querido Alfinin. Estou superansiosa para dizer a ele como está caminhando nosso projeto. Por certo estarei vivendo mais um delicioso momento! Mais um presente que receberei da minha VIDA-VISA!

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Foi em 2005, um dia comum, ralando muito, eu de- senvolvia minhas atividades de fiscal sanitário, quando uma amiga ACS chegou à VISA perguntando por mim e meu saudoso “Bigode” (coordenador VISA). Queria con- tar sobre uma família de sua área, três pessoas (uma mu- lher de aproximadamente 50 anos, seu marido e seu filho de uns 30 anos, mãe e filho com problemas mentais). Pensei... o que será que ela quer? A senhora tinha com- pulsão em guardar dentro de casa lixo... lixo mesmo. Os vizinhos reclamavam do mau cheiro, que não podiam co- locar o lixo para fora antes que o caminhão passasse, por- que ela pegava! Pegava tudo... Marcamos um mutirão, reunimo-nos com outros setores (Obras, Saúde, ACS, PCFAD, Polícia Militar, voluntários). Dias antes do muti- rão fomos a casa, eu e minha amiga M. Mutirão. A senho- ra com ar de desconfiança olhava para nós... sabíamos que ela era difícil, então chegamos admirando as plantas que ela tinha em seu quintal. Com muito custo e muita conversa entramos na casa. O quarto defronte a cozinha tinha cerca de 1 tonelada de lixo, restos de comida em sacolas, roupas novas e roupas velhas sujas, papel, papel higiênico, panelas... nem precisa contar o resto. Compro- vamos as reclamações; dois dias depois o mutirão. Então aquela interrogação ficou na cabeça: A senhora é brava e muito apegada ao lixo, como iríamos entrar e tirar aquilo

tudo?!!! Então programamos um passeio de ambulância com a se- nhora... que chique! O motorista ficou rodando com ela umas ho- rinhas... levaram para almoçar no restaurante... quando chegou ao posto, ela deu no pé e subiu para sua casa... Que susto quando ela chegou e viu que sua casa tinha sido invadida. Começou a xin- gar todo mundo de tudo quanto é tipo de nome. Assim mesmo continuamos a realizar a limpeza... sacos e sacos de lixo, pets e mais pets, até um ninho de gambá achamos no quarto junto à montoeira de coisas... Vigilância Sanitária e você, construindo uma saúde melhor para todos! Esse é nosso lema. Nunca mais vou me esquecer dessa ação, saúde junto com dever moral e social cumprido. Nesse momento pude ver que a VISA nos dá o poder de realizar coisas impressionantes, jamais vistas ou imaginadas...

O mutirao

No documento Histórias da VISA real: o modo de fazer em VISA [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 99-102)