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3. A ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO CONFLITO

3.2 A TEORIA DO CONFLITO EM SIMMEL

3.2.3 Grupos e conflitos

Apesar desta complexidade na forma como as empresas se organizam, Simmel, ao contrário, generalizou a questão ao reduzir o problema quase a uma situação normativa, pois, de fato, analisa o problema com a finalidade de regular ações com o objetivo de contornar situações limites, aquelas que poderiam colapsar o grupo, e superar o conflito dissociativo interno, a partir dos conceitos de separação e isolamento, associados à noção de organicidade das organizações, que para Simmel estava relacionada à sua complexidade, se bem que ele não detalha o que seria essa complexidade.

Isto ocorre porque, provavelmente, sua sociologia histórica tratava do tema a partir de realidades muito distintas e distantes da industrial e, portanto, não lidava com a rotina do interior de uma empresa no mundo contemporâneo.

À semelhança do que ocorre em um casco de um navio, que por ser todo separado em diversos compartimentos independentes, impedindo que o navio se afunde caso um desses compartimentos se rompa para o exterior, a organização pode suportar a ausência de um dos porões, dividindo a carga para os demais setores (porões), demonstrando que a solidariedade orgânica (o conceito de solidariedade orgânica para Simmel remete à noção de trabalho coletivo) supriria o ponto de ruptura localizado (SIMMEL, 1983b). Trazendo isso para a ótica do conflito, o todo seria capaz de suportar a existência dos conflitos internos localizados.

conexões com o porão afetado, deixando-o isolado (SIMMEL, 1983b). Isso sugere que a solução adotada, independentemente se a primeira ou segunda, só foi possível por meio da

complexidade das estruturas. N ! " % !* " "

organização capitalista, quaisquer possibilidades, desde departamentalização, estrutura burocrática, estrutura de cargos, capital, etc.

Quanto ao isolamento da área, entende-se pela analogia proposta, que o grupo estaria protegido deste desgaste por meio da separação do foco de atrito das demais áreas. O risco, segundo Simmel (1983b), se relaciona à incapacidade da organização em superar o conflito interno localizado e se extinguir. Neste tipo de situação, um grupo menor está mais sujeito a risco, por causa do nível de proximidade elevada entre seus membros, indicando que quanto maior o nível de intimidade, maior a dificuldade de superação do conflito.

A explicação de Simmel sugere que essas soluções se caracterizam como tipos ideais, e o que ditará a utilização de um ou outro método, ou qualquer ponto intermediário entre os dois, é a forma como a realidade dos agrupamentos se apresenta (SIMMEL, 1983b).

De maneira curiosa, e quase contraditória com sua teoria, Simmel (1983b) indica que, em geral, os grupos tentam limitar o nível de conflito interno. Isso é realizado ou por meio de uma estrutura que faça esse controle, inclusive com a proibição se necessário, ou por determinação de fronteiras possíveis de conflito, ou o evitam deliberadamente.

No nosso caso vale uma observação: qual seria o grupo, afinal? A unidade produtiva, isto é, a fábrica toda, com seus departamentos, ou cada departamento em particular? Para efeito desta pesquisa, os dois casos estão sob observação. Entretanto, o foco está sobre a unidade maior, isto é, o todo, entendendo que um conflito ou competição interna ocorre entre essas subunidades, os departamentos, ou entre seus representantes. Em um dos casos apresentados no Capítulo 5, a reunião de calibração do sistema de avaliação de desempenho, o conflito é tanto entre departamentos – em que os diversos gerentes lutam para valorizar seus subordinados, quanto no interior do departamento, em que cada um dos supervisores tenta pontuar melhor seus liderados, quando comparados com os dos demais supervisores.

Neste tipo de situação, quando a quantidade de reconhecimento é suficiente para cada uma das partes, a discussão não é tão complicada. Porém, como a quantidade é restrita, e apenas os considerados como os melhores dos melhores estariam merecedores da premiação, há uma negociação para decisão. Vale salientar que é uma decisão coletiva, e que poderá trazer benefícios a apenas uma parte pequena dos membros.

Mas ainda há uma proximidade relativa entre cada uma dessas partes. O grupo (neste caso, um departamento observado) não possui muitas áreas. Na indústria observada, um

número máximo de subdivisões que havia sido sugerido por um antigo Site Manager era de 8 divisões por gerente, ou seja, essa reunião estaria sendo representada por no máximo 8 pessoas. O que se aproxima de uma família.

Entretanto, ao contrário de uma família, que conforme aponta Simmel (1983b) não admite antipatia pelo simples fato de representar uma oposição forte à harmonia, que poderia causar problemas à continuidade da família como grupo coeso, uma relação entre supervisores ou gerentes do mesmo departamento pode estar alicerçada na antipatia.

Algumas particularidades das famílias a fazem um grupo social único. Simmel cita a forma de propagação do conflito para fora de suas fronteiras e a forma de reconciliação entre os membros (SIMMEL, 1983b). Fica subentendido no texto de Simmel que em família as coisas são resolvidas de forma diferente. Pode-se pensar que o caráter afetivo das relações familiares possibilita soluções que não seriam possíveis em um grupo não familiar. Prevalece na família o que Simmel chama de unidade orgânica, voltada sobretudo à sua sobrevivência.

Entretanto, mesmo isso não sendo tão forte em um grupo departamental, não impede que ocorram alianças entre seus membros, e mesmo compensações futuras. Por exemplo, pode ocorrer que um membro não consiga um aumento salarial para seu funcionário, em benefício a funcionários de outros setores. Nesta situação, ele pode garantir que seu funcionário seja o primeiro da fila na próxima rodada de aumento salarial, o que de certa forma atenua o conflito, impedindo que haja alguém que tenha sido totalmente derrotado.

Uma forma de diminuir esse tipo de conflito ou competição no interior dos grupos é tornando a premiação ou o reconhecimento coletivo, isto é, fazendo com que todos recebam o mesmo prêmio em vez de haver recompensas individuais. Se assemelharia a uma organização religiosa que segue a doutrina da graça8, pois, segundo Simmel (1983b), sendo a meta comum a todos, (como no caso de vários departamentos sob a mesma chefia, não deveria ocorrer competição, já que todos atingiriam um objetivo maior coletivo, por fazerem parte de uma superorganização – a unidade industrial total), o conflito não teria utilidade, pois o resultado é de todos.

O resultado deste tipo de competição (envolvimento coletivo para atingir um fim específico comum) no relacionamento entre os contendores é que desenvolvem um distanciamento entre si, ao mesmo tempo em que se acalmam ao perceber que o resultado final

8 Conforme detalhamento elaborado por Weber (2004), se entende que doutrinas de formação calvinista não se

enquadram nesta situação dado que, apesar de não haver uma disputa aberta, a quantidade de vagas no céu é restrita a um certo número de pessoas. Para compensar isso, Simmel aponta a noção de competição passiva que, apesar de indicar a existência de um prêmio ao vencedor, escapa do conceito básico da competição por não conter em sua essência a noção de disputa (SIMMEL, 1983b).

é derivado de seus esforços, independentemente de terem ou não alcançado êxito, pois Simmel (1983b) deixa subentendido que o que se mede é o esforço individual para se atingir o objetivo coletivo.

Como em um jogo de cartas movido pela fortuna, o eventual perdedor não chega a odiar o vitorioso (caso alguém tenha, de maneira plenamente reconhecida, atingido a graça que todos buscam), mas desenvolve um sentimento de inveja, já que não há esforço nesta situação, apenas sorte. Já em uma competição normal, Simmel julga o derrotado como merecedor, e o ódio se relaciona ao sentimento de inferioridade, isto é, da incapacidade em vencer a disputa (SIMMEL, 1983b).

Entretanto, a luta por reconhecimento está presente mesmo em um grupo religioso e pode ser visto na forma de disputa pela execução de atividades que carregam maior valor simbólico, por exemplo, na entrega de donativos. Neste caso, o jogo é do tipo ganha-perde, pois o reconhecimento se concentra mais em um(ns) que em outro(s) (SIMMEL, 1983b).

Esse exemplo traz uma discussão interessante que se relaciona às diferenças entre as abordagens de Simmel e Marx. Ao elencar as características de cada uma das abordagens, Turner (1975) aponta que, apesar de Simmel (como Marx havia feito), ter percebido o conflito como um elemento presente nos sistemas sociais, não percebeu que no fundo, seria conflito por interesses, visando o desenvolvimento de relações de dominação e sujeição. Em vez disso, trabalha com as noções de processos associativos e dissociativos como os aqui apresentados. Em outras palavras, percebe-se que Simmel menospreza a luta por poder.

Simmel (1983b) aponta que, de certa forma, enquanto no conflito religioso cada um é medido pelo seu sucesso, nas demais competições, cada um é medido em relação ao sucesso que foi obtido pelo outro. Além disso, para Simmel, quanto maior a possibilidade do sucesso coletivo ser alcançado, e isso pode ser observado tanto na área religiosa quanto em qualquer grupo social caracterizado por atividades comunitárias, como um colegiado científico, menor é a probabilidade de competição.

Novamente Simmel se mostra incapaz de perceber a luta pelo poder, afinal, mesmo as religiões se estabeleceram a partir de disputas internas, como por exemplo, no advento do protestantismo como resultado de um conflito de ideias no interior do cristianismo.

Além disso, ao entender que os valores de determinados campos, como o religioso e o científico, estão voltados ao atendimento de demandas sociais ou coletivas, aponta para a ideia de que o individualismo se apresenta como uma causa da competição e que, como consequência disso, agrupamentos sociais que se caracterizam pelas formas socialista de divisão do trabalho ou comunista de igualdade, estariam imunes à competição. O predomínio da vontade do

indivíduo faz com ele subordine os objetivos sociais aos seus, pois, ao se separar do grupo, “o concorrente isolado persegue seu próprio objetivo” (SIMMEL, 1983b, p. 147).

Entretanto, segundo Simmel, o próprio interesse social é capaz de ser o fomentador de conflitos, quando estiver na busca de seu objetivo maior. Logo, o conflito está associado tanto à individualidade quanto à coletividade, sendo, como única exceção social, o socialismo, que por estar voltado à concentração metódica, centralizada e racional dos esforços individuais para atingir um resultado coletivo, elimina as perdas, sendo o conflito, uma delas (SIMMEL, 1983b).

É possível contemporizar uma crítica a Simmel a respeito de suas premissas sobre o socialismo, particularmente quanto as noções de racionalidade e interesse comum, mas convém entender melhor a noção de socialismo de Simmel.