4. DO FIXO AO FLUIDO: SUBJETIVIDADES DIASPORIZADAS EM BRAZIL-

4.3 Rousseau e Stuart Hall: descentrando o sujeito em Brazil-Maru

4.3.5 Guilherme, um “brasileiro”

Dentre os narradores de Brazil-Maru, Guilherme é o que possui o menor espaço narrativo, já que seu relato está restrito a apenas quatro páginas. Isso não implica, entretanto, que sua narrativa seja menos relevante que as demais: afinal, é por meio de Guilherme que a autora encerra o romance. Analisaremos a personagem por dois ângulos. No primeiro, investigamos Guilherme como a representação de um sujeito diaspórico, ilustrando uma geração nascida no Brasil, constituída por um conjunto de identificações distinto de seus pais. Além disso, Guilherme nos permite discutir o processo de identificação do sujeito diaspórico no ambiente urbano, já que é o único personagem-narrador que não vive no meio rural. Guilherme está, assim como os outros, em constante formação e mudança, mas seu processo é, por assim dizer, feito de fragmentos adquiridos na diversidade da metrópole que, quando moldados, produzem um sujeito com particularidades não vistas nos demais. No segundo parâmetro analítico, discutimos sua função de narrador, em que Guilherme estabelece ligações e fornece explicações para uma série de fatos e situações que vinham sendo contados no decorrer do romance.

Guilherme é um nisei nascido e criado em São Paulo, a maior metrópole brasileira, um espaço que contrasta com a interiorana Esperança. Nesse ambiente, Guilherme tem maiores oportunidades, ao contrário de seus contemporâneos nascidos e criados em isolamento. Entre os narradores de Brazil-Maru, Guilherme é o único a receber um nome

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brasileiro. Além disso, ele nunca ressalta seu sobrenome japonês como o fazem Kantaro e Genji. A forma como a autora nomeia a personagem, bem como o uso que ela faz de seu próprio nome, sugerem um sujeito diaspórico em maior grau de desapego ao passado e às origens japonesas.

Seu pai é um jornalista japonês que não lhe nega o direito a uma educação formal. Guilherme cresce falando português fluentemente. Na universidade, sua experiência permite que ele tenha uma noção de mundo mais ampla. Assim, Guilherme representa um sujeito diaspórico em maior nível de integração com a cultura do país hospedeiro: “Eu morava na cidade e fui criado como brasileiro. Meus amigos eram misturados, muitos deles não eram japoneses” (YAMASHITA, 1992, p. 245).259 É no contato com os gaijin que Guilherme conhece a brasileira Jacira, com quem se casa e tem dois filhos.

O relacionamento com Jacira é um aspecto relevante na composição da personagem Guilherme. Na infância, Jacira convive com os japoneses de Esperança, a quem considera parte de sua família. Somando-se à afetividade, Jacira aprende a admirar o estilo de vida comunitário japonês, o que influencia sua opinião política socialista e talvez explique porque veio a se casar com um nipo-brasileiro: “Eu te disse que sou japonesa” (YAMASHITA, 1992, p. 247), brinca Jacira com o marido. Nesta passagem, Yamashita também é lúdica ao abordar a questão da identificação, pois a personagem Jacira revela que sua identidade cultural é, pelo menos em parte, fruto da escolha de “ser japonesa.” Como pondera Stuart Hall, (1990), “as identidades culturais são os pontos de identificação, os pontos instáveis de identificação ou sutura, que são formulados dentro de discursos históricos e culturais. Não são uma essência, mas um posicionamento” (HALL, 1990, p. 226).260 Enquanto Jacira se posiciona a partir do contato e da afinidade pela cultura japonesa, o marido “japonês” tem uma busca que é exatamente oposta, desejando afirmar-se como brasileiro.

A tendência de Guilherme por identificar-se com aspectos culturais brasileiros é retratada por meio de diversos fatores que favorecem sua integração social: estar em São Paulo, ter um nome brasileiro, falar português, ter acesso à educação, ter amigos gaijin e, por fim, casar-se com Jacira. Este conjunto de fatores, porém, não significa que o processo ocorre sem conflitos, que no romance são realçados por meio do contexto histórico. A juventude de Guilherme é marcada pela ditadura militar brasileira. Na universidade, ele se alia a outros jovens que questionam o regime e querem libertar o Brasil do domínio militar. Nesse

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“I lived in the cited and was raised a Brazilian. My friends were mixed, many of them non-Japanese.”

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“Cultural identities are the points of identification, the unstable points of identification or suture, which are made, within the discourses of history and culture. Not an essence but a positioning.”

contexto, um nipo-brasileiro como Guilherme precisa, mais que os outros, provar que é brasileiro e lutar pelo país que considera seu. Assim, ele prioriza sua identificação com o Brasil e as questões brasileiras, o que o distingue dos demais personagens analisados.261

A busca pela brasilidade se funde à demanda por liberdade, o que leva Guilherme a tomar parte em atividades consideradas ilegais pelo governo. Seu pai, que no Japão havia lutado pela liberdade de expressão, reconhece a causa do filho e não o impede de prosseguir, apesar dos riscos que Guilherme corre.

Curiosamente, a luta que Guilherme inicia pela liberdade política é um aspecto que o diferencia dos niseis de Esperança, que estão na mesma faixa etária, mas o desejo de ser livre é na verdade um ponto de identificação entre eles. Se em Esperança jovens como Tsuneo e Yae tentam se libertar de líderes que os aprisionam em uma estrutura rígida e tradicional, ao estilo japonês, os nipo-brasileiros da cidade grande se engajam em um combate contra o regime político totalitário, uma realidade nos países latino-americanos, nas décadas de 60 e 70. O engajamento dos nipo-brasileiros de São Paulo é uma opção drástica demais para ser compreendida pelos habitantes de Esperança:

O povo na colônia falava pelas costas de meu pai, dizendo que era azar de Shigeshi Kasai ter um filho radical, mas eu não era como o Masafumi que assaltava bancos ou como a Sueli que lutava nas guerrilhas no Araguaia. Estes niseis aderiram a uma revolta armada, enquanto eu acreditava que uma ditadura militar poderia ser derrubada com uma caneta. (YAMASHITA, 1992, p. 245)262

Essa passagem demonstra que os caminhos percorridos pelos nipo-brasileiros urbanos não são apenas diferentes em relação aos seus pares interioranos, mas também distintos entre si. Ao se comparar com Masafumi e Sueli, Guilherme retrata a si mesmo destacando a ingenuidade de seus propósitos de jovem, frente à violência da ditadura militar brasileira. A epígrafe de Rousseau, no Epílogo de Brazil-Maru, pode ser relacionada ao narrador Guilherme, pois também faz menção à juventude: “Vi esta condição prazerosa, porém passageira, em que o amor e a inocência habitam o mesmo coração” (ROUSSEAU

apud YAMASHITA, 1992, p. 244).263 Contrastada com a juventude de Guilherme, a

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Publicado em 2007 e traduzido para o português no ano seguinte, o livro Uma diáspora descontente: os nipo- brasileiros e os significados da militância étnica -1960-1980, de Jeffrey Lesser, reúne uma pesquisa do autor nas décadas de 60 e 70, em que demonstra, entre outros fatos, a necessidade dos nipo-brasileiros de afirmarem sua brasilidade, sendo a luta contra a ditadura militar brasileira uma de suas principais estratégias. O trabalho de Lesser é relevante por abordar uma questão da minoria nipo-brasileira que é pouco discutida no contexto histórico do país.

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“People in the colônia talked behind my father’s back, saying it was Shigeshi Kasai’s luck to have a radical for a son, but I wasn’t like Masafumi who assaulted banks or Sueli, who fought with guerrillas in Araguaia. These nisei joined an armed revolt, while I thought a military dictatorship could be brought down with a pen.”

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descrição idealizada no texto de Rousseau é, assim como as demais, marcada pela ironia: o Guilherme adulto se refere ao jovem como um idealista tolo, que deseja encarar as armas e a tortura de uma ditadura militar com panfletos mimeografados. Sua ingenuidade põe em risco sua própria vida e tem, como consequência, um exílio de mais de doze anos.264

Ao voltar do exílio, Guilherme está mudado: “Eu era jovem, cheio de idealismo, preparado feito um bobo para lutar pelo meu país. Muitos dos meus amigos foram torturados, desapareceram” (YAMASHITA, 1992, p. 245).265 Sua descrença sugere que a brasilidade almejada na juventude não é mais importante e a liberdade que buscava era uma ilusão. É este Guilherme, mais maduro, casado e pai que narra os fatos que compõem o desfecho de Brazil-Maru.

Guilherme não é um morador de Esperança, o cenário predominante em Brazil-

Maru, ao mesmo tempo em que não faz parte da trama central do romance. Estas são

distinções importantes entre ele e os demais personagens-narradores. É como se Yamashita quisesse concluir a narrativa com a visão de conjunto e a opinião imparcial de um outsider. De fato, o ponto de vista de Guilherme extrapola os limites do mundo de Ichiro, Haru, Kantaro e Genji, essencialmente construído no interior da colônia. Mas será que realmente faz uma apreciação neutra dos fatos? De que forma Guilherme acessa as informações que relata?

Por ser, ao mesmo tempo, um instrumento narrativo e uma personagem, Guilherme precisa apresentar laços com as pessoas e os fatos que conta, o que Yamashita faz de três formas. A primeira é sua amizade com Genji, constituída durante o período em que moraram juntos em São Paulo. A segunda é a amizade entre seu pai e Kantaro Uno, e a terceira é seu casamento com Jacira, que é, coincidentemente, filha de Floriano Raimundo, o Bahiano, vizinho e amigo dos japoneses de Esperança. Tais conexões dão a entender que Guilherme é um narrador com subsídios para amarrar os fatos até então não esclarecidos, permitindo assim a conclusão da história. É por meio de Guilherme que o leitor conhece o destino de várias personagens, como o do arqueólogo e professor Shuhei Mizuoka, o de Ichiro Terada, que agora tem 76 anos de idade, o de Bahiano e o de Kantaro Uno, que “morreu em um acidente de avião na floresta do Mato Grosso em 1976” (YAMASHITA, 1992, p. 245).266

Guilherme também conta os últimos dias de Genji, único sobrevivente do acidente aéreo. Genji passa a viver isolado na floresta, eventualmente roubando cigarros e comida em vilarejos do interior do Mato Grosso, onde “sempre deixava sua marca de desenhos estranhos,

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A experiência de Guilherme no exílio não é descrita no romance, mas certamente contribui para a formação de seu ponto de vista cético, explícito no tom de sua narrativa.

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“I was young, full of idealism, foolishly prepared to struggle for my country. Many of my friends were tortured, disappeared.”

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em fuligem, nas paredes, em pedaços de papel ou riscados no chão por algum instrumento pontiagudo” (YAMASHITA, 1992, p. 246).267 Seus cabelos agora longos e suas feições orientais levam a população local a apelidá-lo de “Índio da tribo perdida,” que fala uma língua desconhecida, sempre armado com uma velha espingarda. A notícia de sua morte, publicada em um jornal do Mato Grosso, fecha o romance:

Há três dias, o chamado Índio da tribo perdida foi encontrado morto, assassinado provavelmente enquanto se servia da comida de alguém ou de mercadorias guardadas. Era descrito como um homem muito frágil, de pernas tortas, despenteado, com um cabelo preto, longo e sujo, fios finos caindo de seu rosto em uma barba emaranhada. (YAMASHITA, 1992, p. 248)268

O trecho de notícia que descreve as circunstâncias do assassinato de Genji não aparenta ser uma conclusão ideal para Brazil-Maru, já que trata de um fato isolado, sem relação direta com o enredo principal. No entanto, a morte de Genji está intimamente relacionada a Guilherme, para quem Genji é particularmente importante, por ter lhe salvado a vida, anos antes, durante uma manifestação estudantil em São Paulo. Assim, o destaque dado a uma questão pessoal reforça a tese de que a narrativa de Guilherme, embora apresente uma visão de conjunto e amarre fatos deixados em aberto pelos narradores anteriores, é, no fundo, uma perspectiva individual. Além disso, o fragmento de notícia utilizado como recurso narrativo sugere uma forma contemporânea de aquisição de informações, que não foi utilizada anteriormente no romance. Por fim, o uso desse recurso narrativo pode ser entendido como uma prévia a Circle K Cycles, obra em que trechos de notícias são utilizados com abundância.

Portanto, se a princípio a narrativa de Guilherme se apresenta como se fosse munida de um ponto de vista onisciente, sua análise possibilita verificar que ele é como os demais narradores, dono apenas de sua própria perspectiva: ela se caracteriza por um distanciamento que os outros não têm, mas também é desprovida de detalhes. Como exemplo positivo de sua percepção global, destaca-se a diferenciação entre as duas comunidades formadas após a divisão ocorrida em 1956, que somente Guilherme poderia fazer:

…a comuna original liderada por Kantaro Uno parece, fora sua incursão na avicultura, estar envolvida em metas artísticas, ao passo que a segunda comuna se

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“…always left his mark with strange drawings in soot on the walls or on pieces of paper or scratched in the dirt by some sharp implement.”

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“Three days ago, the so-called Indian of the Lost Tribe was found dead, killed probably while helping himself to someone else’s food or store of hidden goods. He was described as a very slight, bowlegged, unkempt man with long dirty black hair, thin strands falling in a tangled beard from his face.”

considera um experimento amplamente pragmático, social e econômico, buscando um objetivo agrícola de diversificar sua produção. (YAMASHITA, 1992, p. 247)269

Ao mesmo tempo em que proporciona uma visão comparativa entre os dois grupos, Guilherme emite sua opinião sobre os colonos no campo: “Surpreendia-me a possibilidade de haver muitos milhares de nós por todo o Brasil, envolvidos em tantos tipos de atividades e ainda assim sermos tão provincianos, tão pequenos” (YAMASHITA, 1992, p. 245).270 O tom de superioridade de Guilherme confirma, mais uma vez, que sua opinião não é isenta, mas uma perspectiva pessoal e, portanto, sujeita a erros de avaliação.

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 120-125)