• Nenhum resultado encontrado

Guyra ypy: a origem e a ancestralidade dos pássaros

Ára ypy, A origem do tempo-espaço Guarani e Kaiowá

4. Guyra ypy: a origem e a ancestralidade dos pássaros

4. Guyra ypy: a origem e a ancestralidade dos pássaros

Despertar este olhar sobre o guyra ypy261 (pássaro original) foi devido ao diálogo realizado com ñanderu Lídio Sanches, especialista em batismo de crianças, sobre a origem da alma e de todos os seres existentes. A partir desse diálogo, tive oportunidade de me aproximar da ideia de Descola (1997, p. 256) sobre “animismo”:

[...] o animismo é a crença de que os seres naturais são dotados de um princípio espiritual próprio, e de que os homens podem, então, estabelecer com estas entidades relações de um tipo particular e geralmente individual:

relações de proteção, de sedução, de hostilidade, de aliança ou de troca de serviços.

Neste diálogo, os princípios do animismo foram o ponto de partida para clarear o mundo dos guardiões que o Sr. Lídio expõe, demostrando que a parte física que os corpos/seres do tekoha representam é instrumento mediador para os guardiões efetivarem as relações com os ñanderu. Trazemos este princípio como referência para descrever, aqui, o processo das relações dos pássaros (como almas), para entender a sua origem, ypy, criada por Ñanderuvusu. O objetivo, então, é descrever o processo da criação do guyra ypy e seu teko, que fundamenta a sua “espécie” no mundo terreno.

A diversidade dos pássaros atuais é resultado da transformação efetivada através do verávy262 (poder relampejante) do Ñanderuvusu, correspondendo a determinado tipo de teko implementado por cada ser ypy (primordial), quando andavam no tempo originário, no contexto da criação do cosmos. Os seres ypy ainda estão presentes, mas em outros patamares, reinando no seu mundo, como guardiões do seu modo de ser, do teko, como ocorreu com o guasu vira (p. 98). A cada ser encontrado no momento da criação do ára, Ñanderuvusu definiu como deve ser o seu modo de ser, caracterizando o seu corpo para se tornar o guardião deste teko; assim criou os teko jára, e com os pássaros não foi diferente.

A diversidade dos pássaros, na ótica dos mais velhos, se organiza da seguinte maneira: 1) os pássaros que representam o teko vai, a maldade, são as classes que compõem o

261 Ver glossário.

262 Ver glossário.

131 guyra vai ou guyra mbora’u263 (pássaro de mau agouro), o anunciador dos maus presságios;

no geral, os pássaros noturnos; 2) os pássaros que representam o sagrado, o teko araguyje, são guyra ñe’ẽgatu (pássaros de belas palavras) ou guyra marangatu264 (pássaro sagrado), que vivem diurnamente. Em seu trabalho, Aquino (2017, p. 08) explica o que seria o guyra porã e o guyra vai:

Guyra porã são todos os pássaros que têm bons comportamentos e têm um hábito alimentar que não o caracteriza como predador. Estes pássaros foram dados pelo nosso deus Ñanderungusu (nosso grande pai), para alimentar-nos dele, assim podemos fortalecer o nosso corpo e a nossa alma. Por exemplo, as aves são: papagaio - parakáu, arara - gua’a, codorna – ynambu’i, nambu guaçu - ynambu guasu, nambu - ynambu ka’aguy ou ynambu chirikuakua,

(deixar doente, se consumidas podem deixar com ânsia de vômito, por isso, os pássaros ruins não devem ser consumidos). A característica do guyra vai, ou seja, do pássaro ruim, em geral, [...] se caracteriza como: predador - Guyra pochy, como caburé - kavure, gavião – taguato, e aqueles que comem a cobra como caracará - karancho. Podemos comer, mas a questão é que o jeito de ser predador passa para o corpo humano quando é consumido, assim ficamos muito agressivos. E a agressividade não é bem vista pelos Guarani e Kaiowá (p.14).

O tekoha dos humanos faz a mediação entre todos os tipos de pássaros, tanto o guyra porã, como guyra vai, mas os principais guardiões estão nos patamares superiores, nos lugares onde vivem os guyra ypy. Quando o tekoha caminha para a direção do tekoha araguyje, as espécies de pássaros mais sagrados repousam no tekoha, enriquecendo a biodiversidade com os seres mais sensíveis e sagrados. Como consequência, estabelece um rico ecossistema com variedade dos seres, objetivando o fluxo das energias entre a morada dos guyra ypy e também do tekoha humano. Os ypy foram transformados pelo Ñanderuvusu, conforme o seu modo de ser na origem do tempo, ficando sempre no modo que ele mesmo criou. Esta é a ideis de ojejogua265.

Para ilustrar melhor a transformação dos ypy, mergulhemos na história contada por Lídio Sanches, o rezador especialista em batismo de criança (mitã rechaha). Ele conta a

263 Ver glossário.

264 Ver glossário.

265 Ver glossário.

132 história do urubu e do curicaca. Segundo este ñanderu, no início dos tempos, o Ñanderuvusu mandou descer na terra o pássaro yryvu ypy266 (ancestral do urubu) para averiguar a Terra após o dilúvio, e deram ao urubu apenas uma penca de banana. Depois de anos vivendo aqui na Terra, Ñanderuvusu indagou ao yryvu ypy que tipo de alimento estava comendo para viver e ele respondeu que estava vivendo com uma banana apenas. Mas o Ñanderuvusu já sabia que ele estava vivendo da carne em decomposição, porque não havia nada para comer aqui na Terra. Por essa razão, o transformou no pássaro urubu.

Da mesma forma, o pássaro kurukáu ypy267 (curicaca) veio para averiguar a Terra após a grande queimada, e ficou doze dias para encontrar os sobreviventes; e o Ñanderuvusu forneceu a ele apenas algumas vagens de amendoim para se alimentar durante a sua viagem.

Ñanderuvusu desceu na Terra para acompanhar o trabalho do kurukáu ypy, quando o viu andando e comendo nas cinzas da terra. Da mesma maneira, perguntou-lhe o que estava comendo e ele disse que estava sobrevivendo devido ao amendoim, mas, na verdade, eram as brasas apagadas (os indígenas acreditam que estes pássaros andam comendo as brasas apagadas). Por isso, o transformou em kurukáu ypy, como o conhecemos na atualidade.

Todos os pássaros, os insetos e as árvores têm o seu ypy. Este ypy dá origem aos seres que conhecemos; a ideia próxima é o exemplo da formiga com a sua rainha. O ypy dos seres não está no “passado”, mas em outra dimensão, na morada dos chiru. Ñanderuvusu os transformou em seres, como são conhecidos no mundo atual, conforme as características do seu teko, no momento em que encontrou o criador. Por exemplo, o yryvu ypy porque comia a carne em decomposição; e o kurukáu ypy porque gostava de vasculhar lugares onde havia sido queimado. Estes jeitos de ser ainda podemos ver nos animais atuais.

Estes seres levam e trazem as mensagens do Ñanderuvusu em todas as dimensões e mundos, levando e trazendo novidades e também o ayvu. Os jeruti268 (pássaro juriti), mainoju269 (pássaro beija-flor), parakáu270 (papagaio), jaku271 (jacu) são considerados como guyra ñe’ẽgatu272 (pássaro de boas palavras), porque são mensageiros de Ñanderuvusu. Cada pássaro tem o seu canto e sua linguagem própria, podendo o techakára comunicar-se com esses seres, como se mandasse recado a Ñanderuvusu.

266 Ver glossário.

267 Ver glossário.

268 Ver glossário.

269 Ver glossário.

270 Ver glossário.

271 Ver glossário.

272 Ver glossário.

133 Chiru Yryvera e Chiru Guyra Pepotĩ compõem a imensidão dos ára, que são povoados pelos outros e diversos chiru kuéra e cada um deles obtém um papel bem específico para efetivar a mecânica do universo e dinamizar o equilíbrio, proporcionando a existência da vida. O céu é como uma aldeia e os guardiões são grandes famílias, como afirma Florêncio, mas uma família de potência superior, aquela que alcançou o teko araguyje. A vida no tempo presente é uma parte do organismo em funcionamento, que compõe a totalidade do corpo perfeito de Ñanderuvusu, incluindo nela o tekoyma e o teko na atualidade (tempo de hoje).

O tekoha edificado nessa perspectiva é o momento perfeito vivido no teko joja, entre todos os guardiões e corpos existentes no cosmos, e a tentativa de sua reprodução em múltiplas direções, impulsionada pela busca do teko araguyje, estende esse tempo primário até os dias de hoje. Esta busca incessante produz e reproduz as paisagens, os objetos e as danças comportamentais dos humanos, que marcam diferentes tempos na dimensão humana.

Por isso os antigos Guarani e Kaiowá afirmam que cada indivíduo produzido em contexto específico são seus mensageiros, porque levam consigo os lugares e os sentidos, nos quais ele foi gerado, como uma planta na floresta.

134

Capítulo III

Cartografia Guarani e Kaiowá 05

Representação do tekoha na visão dos mais velhos de Te’yikue. (BENITES, 2020, p.30)

Tekoha ára