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2.1 Uma leitura em Gramsci sobre a dinâmica da

2.1.1 Hegemonia e ideologia: função educativa e

Assim, ideologias não aparecem por geração espontânea. São construções sociais e, acima de tudo, são engenharias políticas. Apreender o movimento do real, reapresentá-lo e reconceituá-lo consiste em cercá-lo por detrás de um arcabouço ideológico. Isto é trabalho de transformação que, por sua vez, provoca ainda mais transformações. Estas, se por um lado configuram-se intrinsecamente boas para aqueles que se encontram às margens da sociedade e de suas benesses e, por se entenderem assim, lutam por visibilidade social, por outro lado, para os que detêm o domínio desse mesmo processo, o que inclui dizer o controle do ponto de vista de onde se impostam e se colocam as “verdades”, é preciso mudar para que tudo permaneça exatamente como está. Este movimento de queda de braço ganha mais sentido quando se sabe que, em meio ao grande embate, está uma massa informe e gelatinosa, cuja consciência não ultrapassa o nível de classe em si.

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De qualquer forma, como já apontado acima, do ponto de vista da forma, a hegemonia se manifesta de duas maneiras: de dominação e de consenso. Via de regra, o grupo hegemônico procura viabilizar-se pelo consenso, mas é também comum utilizar-se das duas formas de expressão. Mais tarde, ao verificarmos a natureza do Estado e as relações sociedade civil-sociedade política, especialmente no Brasil, se poderá constatar uma história marcada por claro predomínio do Estado autoritário, onde a forma de hegemonia por domínio quase sempre prevaleceu, diríamos quase numa constante histórica.

No entanto, qualquer que seja a forma, se afigura aqui um dos papéis destinados aos meios de comunicação de massa, genericamente falando, e aos veículos de comunicação, especificamente, numa estrutura capitalista, proprietária desses meios que, assim, via de regra aparecem como instrumentos das classes dominantes: propor ou impor formas e mecanismos de “negação da divisão de classes, através de um discurso pretensamente universal, igualitário, e, portanto, falsamente idêntico e homogêneo” (CURY, 1992:47).

Hegemonia define-se, assim, como

“...a capacidade de direção cultural e ideológica que é apropriada por uma classe, exercida sobre o conjunto da sociedade civil, articulando os seus interesses particulares com os das demais classes de modo a que eles

venham a se constituir em interesse geral. Referida aos grupos e facções sociais que agem na totalidade das classes e no interior de uma mesma classe, ela busca também o consenso nas alianças de classe, tentando obter o consentimento ativo de todos, segundo os padrões de sua direção”. (Cury, 1992: 48).

É aqui que entra a chamada função educativa da ideologia, cujo instrumento privilegiado, nos dias de hoje, e no âmbito do nosso objeto de pesquisa, são os meios de comunicação de massa. É quando uma classe social, investida ou não de poder para tal, esforça-se para implantar uma certa representação do mundo e do real ou mantê-la.

No caso da sociedade capitalista, entrelaçam-se ou entremeiam-se dois momentos da força ideológica ou hegemônica: o momento de implantação de novos conceitos, visto que estão sempre se reciclando para reproduzir-se e permanecer, e o de manutenção das idéias implantadas. Um momento inovador e um conservador, mesmo na perspectiva dos dominantes, como já visto. Para eles, no entanto, inovar sempre será um risco bem calculado para garantir a permanência do essencial, que é a hegemonia, ou o controle do processo social.

Da mesma forma,para as classes subalternas, a função educativa se manifesta também em dois momentos distintos, mas imbricados: a problematização do real, quando aflora a

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consciência da exploração e o momento revolucionário, quando se impõe a necessidade de transformação do panorama social.

Aqui impõe-se de novo o papel articulador da comunicação de massa e seus instrumentos. Aparelhados com recursos tecnológicos de última geração, de largo alcance, freqüência ilimitada, continuidade, capacidade de atingir em tempo real um número enorme de pessoas, eles são a mão armada da classe que deseja interpor o seu pensamento para toda uma sociedade. Eles transportam o conteúdo programático,identificam os objetivos, apontam ou escondem as estratégias, conforme as necessidades.

Mais transcendente fica ainda esta função da luta por hegemonia quando se sabe que ela envolve o estabelecimento de alianças, primeiro intra-classes e depois entre classes, fato que torna imprescindíveis instrumentos que transportem rapidamente os discursos unificadores e articuladores.

“... hegemonia não é só aliança entre grupos de classe dominante, mas funciona a nível de relações entre dirigentes e dirigidos, o que permite à classe subalterna reivindicar seus objetivos mediante mecanismos estabelecidos pela burguesia. Isso se faz possível porque a ideologia dominante articula, inclusive satisfaz, certos interesses das classes subalternas. Através desse mecanismo, a classe dominante desarticula o projeto dominado e o rearticula em torno do seu. Contudo,

este mecanismo é contraditório, porque na defesa de seus interesses as classes subalternas se permitem reelaborar o discurso dominante, rearticulando-o em face de suas necessidades (CURY, 1992: 48).

É interessante aqui, ao ensejo das análises dos papéis e funções da comunicação de massa e de seus veículos a serviço de classe e de lutas por hegemonia - que propositalmente estamos entremeando aos aportes teóricos -, ainda uma configuração preferencial, segundo GRAMSCI, da palavra hegemonia, no nosso entendimento muito mais - embora contraditória e paradoxalmente - ao sabor e ao gosto das classes dominantes e do instrumental utilizado para homogeneizar os conflitos sociais e adocicar o discurso simulador. É quando Gramsci busca o sentido original de hegemonia nas raízes gregas.

“A palavra hegemonia vem de um verbo grego que significa dirigir, guiar, conduzir. Gramsci usa esse termo não só no sentido tradicional que salienta principalmente a dominação, mas no sentido originário da etimologia grega (“direção”, “guia”). (GRUPPI, 1980:78).

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2.1.2 A noção de intelectual: organicidade e