3. ENTRECRUZANDO VIDAS E OBRAS DE HENRI BERGSON E MARCEL MAUSS
3.1. HENRI BERGSON: BREVES APONTAMENTOS DA VIDA E OBRA
O filósofo Henri Bergson, filho de mãe oriunda da Inglaterra e de pai polonês, passou a maior parte da sua vida na sua cidade natal, Paris. No que se refere à sua vida acadêmica, podemos dizer que, no ano de 1888, defendeu suas duas teses: uma sobre A noção de lugar
em Aristóteles e a outra sobre Os dados imediatos da consciência. Em 1900, começou a
lecionar no Colégio de França, e, no ano de 1928, ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Ao vivenciar a primeira e a segunda guerra mundial, Bergson procurou manter um posicionamento político pacifista. De acordo com Huisman (2001, p. 136), Bergson não titubeou em colocar a sua pessoa a serviço da França e da Sociedade das Nações30 – foi membro da Comissão Internacional de Cooperação Intelectual. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Vieillard-Baron (2007, p. 10), afirma que após a primeira guerra mundial Bergson está ―convencido de que o filósofo não deve isolar-se nos seus estudos, mas deve trabalhar pela paz e pelo bem‖. Em conformidade com esses autores, podemos dizer ainda que as obras desse teórico, bem como suas atitudes enquanto cidadão, refletem esse seu pensamento.
Vale ressaltar que, se o contexto histórico em que Bergson está inserido é marcado por vários conflitos, o contexto de produção acadêmica pauta-se na tendência cientificista e positivista. Conforme afirma Pessanha na introdução da coletânea das obras bergsonianas
Cartas, conferências e outros escritos,
Somente seria legítimo o conhecimento construído à semelhança das ciências consideradas positivas; científicos seriam apenas os dados empírica e diretamente observáveis, passíveis de mensuração e capazes de serem situados numa cadeia rigorosa de causas e efeitos. O edifício todo da ciência aparecia regido por férreo determinismo, não dando margem a qualquer arbítrio (divino ou humano) ou ao imponderável (BERGSON, 1984, p. 09).
Notamos que a filosofia bergsoniana rompe com a estrutura vigente de fazer ciência, e vai procurar explicar os fenômenos a partir da vida interior do homem. Sendo assim, Bergson é considerado um filósofo vitalista. Nas palavras de Vieillard-Baron (2007, p.27), ―a sua filosofia tem a vida como princípio primeiro‖. Essa percepção de filosofia e de fazer ciência está presente em todas as suas obras, dentre as quais destacamos quatro, uma vez que, segundo Huisman (2001), essas obras marcam a existência desse teórico. São elas: Dados
Imediatos da Consciência (1888); Matéria e Memória (1896); A Evolução Criadora (1907); e As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932).
Para uma primeira compreensão dessas obras, tomamos como aporte a leitura que Nicola Abbagnano (1994) faz das mesmas, pois, por hora, não temos a pretensão de aprofundá-las, mas, tão somente, dizer do que elas tratam e de sua relevância31. Segundo Abbagnano (Ibid.), na obra Dados Imediatos da Consciência, Bergson busca libertar dos
30
―Era uma espécie de fórum internacional com interesse na paz mundial‖. VICENTINO, Cláudio. História para o ensino médio: história geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2005, p. 324.
arcabouços fictícios a vida original da consciência para atingi-la na sua pureza. Desse modo, percebemos que, nessa primeira obra, Bergson já foge da lógica positivista e nos mostra que pode existir outro modo de apreender a realidade, que não esteja baseado meramente nos condicionamentos externos.
Já na obra Matéria e Memória, Abbagnano (1994, p.7) afirma que Bergson ―reporta a essência do espírito à memória e atribui ao corpo a função de limitar e escolher as recordações para os fins da ação‖. Sendo assim, notamos que nessa obra o filósofo faz um estudo relacionando o corpo ao espírito, o que naquela época era algo irreverente, uma vez que, para os positivistas, esse tipo de pensamento era inconcebível, já que não podia ser mensurado.
Segundo Abbagnano (Ibid., p.7), na obra A Evolução Criadora, Bergson ―apresenta a vida como uma corrente de consciência (Impulso vital) que se insinua na matéria subjugando- a, mas mantendo-se ao mesmo tempo limitada e condicionada por ela‖. Em outras palavras, podemos dizer que, nessa obra, Bergson coloca em questão a dualidade entre os movimentos do espírito e os da matéria e compreende que esses movimentos afetam um ao outro, de forma que eles não se excluem, mas se complementam.
Ainda conforme Abbagnano (Ibid.), na obra As Duas Fontes da Moral e da Religião, Bergson mostra o significado ético e religioso de sua filosofia. Vale salientar que, para esse filósofo, a moral é onde se disseminam as forças criadoras do homem na construção de sua história (VIEILLARD-BARON, 2007). Pontuamos também que, no último capítulo desse livro, Bergson desenvolve alguns pensamentos de forma mais sistemática sobre a educação. Como afirma Huisman (2001), nessa parte do livro, Bergson desenvolve uma de suas vocações, que era o de ser um educador de uma sociedade futura, posto que ele acreditava que a humanidade tem uma potência criadora dentro dela. Vale ressaltar também que, nas obras deste teórico, existe uma categoria que sempre se faz presente, que é o tempo enquanto duração.
Depois desses breves resumos de algumas obras de Bergson, acreditamos ser possível compreender as razões que fazem alguns teóricos considerarem-no um filósofo do espírito e da libertação. Segundo Huisman (2001, p. 136), ―o surgimento de Bergson na filosofia européia do século XIX foi recebido por muitos como uma verdadeira libertação‖, uma vez que a partir dele, dimensões mais sutis do humano, como a intuição, eram levadas em consideração.
3.2. MARCEL MAUSS: UMA BREVE JORNADA PELA VIDA E OBRA DO TEÓRICO