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Hercules (1997) e o perfeccionismo do casal divino

4. Onde estão os deuses agora? A omissão cinematográfica do divino

1.6 Representações Cinematográficas: Zeus e Hera

1.6.2 Hercules (1997) e o perfeccionismo do casal divino

O relacionamento de Zeus e Hera também é representado de forma positiva no cinema. Hercules, o filme de animação da Disney, providencia uma história alegre, que contraria o tom pesado do filme anteriormente analisado. A Walt Disney Animation teve, nos anos 90, uma fase de enorme êxito, criando alguns dos filmes, crítica e comercialmente, mais aclamados. Este foi um período de experimentação narrativa intensa que ficou conhecido como “The Disney Renaissance”. A experiência correu muito bem de um ponto de vista comercial, originando uma receita com lucros superiores a muitas das produções de eras passadas2.

As fontes de inspiração já não eram contos de fadas clássicos, por norma extraídos do corpus Grimm, passando a criar-se narrativas baseadas em contextos históricos específicos ou em culturas distintas. Deste modo, a década trouxe-nos obras como:

Aladdin (1992), que interpreta uma das histórias incluídas em Mil e Uma Noites, um livro

de contos árabes; The Lion King (1994), passado no continente africano, todavia, baseado em Hamlet de Shakespeare; Pocahontas (1995), lenda de raiz histórica que decorre no séc. XVII, na América pós-colombiana; e o filme em análise, Hercules (1997), que explora a cultura clássica grega. O período da Disney Renaissance termina com Mulan (1998) que se desloca para a Ásia, explorando-se o tema da “donzela que vai à guerra”, e com Tarzan (1999), baseado na obra literária de Edgar Rice Burroughs3.

As personagens destas longas-metragens de animação foram criadas com o intuito de se destacarem das narrativas típicas da “donzela em apuros”, que é salva no terceiro acto por um belo príncipe. A Pixar não foi a primeira produtora de animação a ter a ideia de contar histórias um pouco diferentes. As produções da Disney, na última década do séc. XX, provam isso mesmo. A protagonista feminina já não precisa de ajuda para sair dos apuros em que se encontra. O tom dos filmes deixa de ser maioritariamente alegre e

1 A citação original não é esta, mas “Il ne faut pas confondre le dessin avec la mise en place”. Robert

Gammel foi quem interpretou, e tornou célebre, a frase em língua inglesa, cf. GAMMEL, R.H. I., The Shop

Talk of Edgar Degas, Boston University Press, Boston, 1961, p. 22.

2 Sobre esta fase vide PALLANT, Chris, Demystifying Disney: A History of Disney Feature Animation,

Continuum Publishing, New York, 2011, p. 89-111.

3 Cf. BOOKER, M. Keith, Disney, Pixar and the Hidden Messages of Children’s Films, ABC-CLIO,

florido. E, como referimos, uma nova corrente de influências geográficas, culturais e históricas define estas histórias.

Todas estas características são identificáveis em Hercules (1997), realizado por Ron Clements e John Musker1. O filme animado conta a história de Héracles (Tate Donovan), filho dos deuses gregos Zeus (Rip Torn) e Hera (Samantha Eggar). O herói perde a sua imortalidade quando Hades (James Woods) coloca o seu plano de conquista do Olimpo em acção. Hércules é levado para a Terra e forçado a beber uma poção que lhe retira quase toda a sua divindade. De modo a poder voltar ao Olimpo, o jovem tem de provar que é um verdadeiro herói.

Como se percebe, através desta sinopse, o mito original de Héracles, aqui renomeado Hércules2, é alterado apesar de não ser adulterado3. As modificações correspondem todas a uma necessidade de manter a linha narrativa de Hercules, pelo que cada mudança cria uma nova característica, própria desta personagem da Disney. Assim, Héracles não é um dos primeiros heróis gregos, mas sim o último; nasce deus e não semideus (filho de um deus e de uma mortal); usa uma espada e não uma clava; e Alcmena, esposa de Anfitrião, é a sua mãe adoptiva, não a sua mãe verdadeira. Muitas outras diferenças existem. Nenhuma delas surge por acaso.

Ilustração 62 – A família olímpica perfeita ou main stream american family. Primeira imagem, Zeus e Hera brincam com Hércules bebé, perto deles está Pégaso. Segunda imagem, o casal divino descobre que Hércules foi raptado. Será interessante comparar a primeira imagem com a sua possível influência, a cena inicial de Superman (1978), em que Marlon Brando desempenha o papel de Jor-El, pai do Super-homem, e Susannah York, no papel de Lara, mãe do herói norte-americano. Nesta comparação, Hércules ocupa a posição do Super-homem.

A primeira grande diferença, que afecta todo o enredo, relaciona-se com a imortalidade de Héracles e com aqueles que são os seus progenitores. Hércules é filho de

1 O filme foi escrito por 18 argumentistas diferentes. Os que escreveram o argumento da animação: Ron

Clements, John Musker, Don McEnery, Bob Shaw e Irene Mecchi. E os que escreveram a história inicial: Kaan Kalyon, Kelly Wightman, Randy Cartwright, John Ramirez, Jeff Snow, Vance Gerry, Kirk Hanson, Tamara Lusher Stocker, Francis Glebas, Mark Kennedy, Bruce Morris, Don Dougherty e Thom Enriquez.

2 O que se explica pelo facto de Hércules, enquanto personagem, fazer parte da história do cinema. Vide

parte seguinte deste estudo referente a Hera no cinema.

3 Sobre o mito original de Héracles, as fontes clássicas são inúmeras. Deixamos alguns dos principais

autores e obras: Od., 12.72; SOPH., Trach.; EUR., Heracl.; THEOC., Id., 13; CALLIM., Aet., 24; AP. RHOD., Arg., 1.1175-1280; APOLLOD., Biblioth., 1.9.19 e 2.7.7; OV., Met., 9.222-323, Ib., 488; HYG.,

Zeus e Hera. É sobre esta ideia que assenta o resto do enredo. Porquê alterar este elemento tão crucial? O que se tem vindo a verificar, nos filmes analisados, é uma tendência para humanizar e não divinizar. Daí que, ao se ter escolhido Héracles como protagonista, se quisesse dizer algo de muito concreto. Se perguntarmos a um classicista se Héracles é um deus ou um herói? A resposta mais provável será: ele é um herói. Mas Héracles também se torna num deus através da apoteose. O que significa que qualquer uma das respostas é aceitável. Sabendo de tudo isto, os argumentistas de Hercules quiseram manter-se fiéis à mitologia, sem corromper a história que queriam criar. Assim, optaram por uma fidelidade subtextual. À superfície, está a estrutura narrativa de base. Intrinsecamente, encontram-se inúmeras alusões aos mitos originais, como as tormentas que o herói tem de sofrer, o destino penoso da amada e a divindade antagonista que é, desta vez, Hades.

No filme vemos, por exemplo, Hércules a perder os seus poderes ao beber uma poção mágica. No mito, Héracles bebe o leite de Hera e é assim que ganha poderes sobrenaturais1. A cena em que Héracles, ainda no seu berço, estrangula duas serpentes,

também se encontra referenciada no filme, mas só quem conhece o mito a percebe2. A

própria piada recorrente, de que o jovem é um brutamontes, alude, devido à jocosidade das situações, às feições que o herói ganhou na Comédia Antiga, em que era representado como glutão e como meio estúpido3.

A segunda grande diferença, que advém da primeira, é a mudança de antagonista. Na mitologia, Héracles, por ser fruto de uma traição de Zeus, torna-se o inimigo número um de Hera. Mesmo antes de nascer, a deusa-rainha já queria prejudicar Alcides, como veio a ser inicialmente conhecido4. A invenção do nome Héracles foi uma forma de tentar apaziguar a raiva da deusa. A palavra Ἡρακλῆς é uma combinação de Ἡρα, com κλέος, “glória”5. Ou seja, Alcides passa a ser a “Glória de Hera”. Todas as tribulações a que é

submetido são causadas pela rainha imortal. Como pode o herói ser a Glória da sua injuriadora?

Isto explica-se, pois Héracles é o verdadeiro herói. Um homem que tudo sofre, mas de nada se queixa. Um azarado, que vê em todos os problemas uma solução. Como penalidade por ter cometido um assassínio, Héracles foi forçado a servir Ônfale. Durante

1 Vide HYG., Poet.astr., 2.43; ERATOSTH., Cat., 44. 2 Vide THEOCRIT., Id., 24.11; APOLLOD., Biblioth., 2.4.8. 3 Vide, por exemplo, AR., Av., 1563-1617.

4 Vide APOLLOD., Biblioth., 2.4.12

um ano teve de obedecer a todas as humilhações a que a rainha de Lídia o submetia1. Problema? Solução. Previamente, Héracles tinha sido induzido por Hera, num ataque de loucura, a matar os filhos que teve com Mégara. O herói foi instruído a arrepender-se, completando doze tarefas à escolha de Euristeu2. Problema? Solução. Só depois de ter uma morte trágica é que o herói pôde receber a sua derradeira recompensa, ascendendo aos céus e tornando-se um deus. Héracles é o Job da mitologia grega. Héracles é um verdadeiro herói.

Ilustração 63 - Zeus e Hades. À esquerda, contraste entre o físico dos irmãos-deuses, um é musculado e luminoso, brilhando dos pés à cabeça; o outro é anafado e tenebroso, sendo que apenas o seu pouco “cabelo” brilha, como fogo infernal3. À direita, Hades “dialoga” com Pain ou Agonia (Bobcat Goldthwait) e Panic ou Pânico (Matt Frewer).

No filme da Disney, a mensagem subliminal não é muito diferente. Aqui o seu antagonista é o deus do submundo. Um inimigo mais poderoso, portanto, do que o seu paralelo mitológico. Na longa-metragem, Hércules tem de crescer com pais adoptivos4; é traído pelo amor da sua vida; tem de completar inúmeros trabalhos impossíveis; e, no fim, tem de ir ao Hades, mergulhar no rio Estige, envelhecendo drasticamente, quase ao ponto de definhar por completo, de modo a poder recuperar a sua amada5, Mégara (Susan Egan), já redimida. Quando Héracles a traz ao mundo superior percebe que ela está morta (mesmo que não por muito tempo). Só depois de ultrapassar todos estes desafios, física e moralmente desafiantes, é que o herói pode voltar ao seu lar.

Ao se optar por Zeus e Hera como os pais de Héracles e, subsequentemente, por se fazer de Hades o antagonista, os argumentistas providenciaram uma representação do casal divino como seres perfeitos. Zeus não trai Hera, logo, Hera não se vinga de ninguém.

1 Vide OV., Fast., 2.305; SEN., Herc. Fur., 464; LUCIAN., Dial. D., 13.2; APOLLOD., Biblioth., 2.6.3. 2 Vide, por exemplo, Il., 8.363.

3 Talvez melhor descrito por Dante Alighieri, vide DANTE, Inferno, canto 12, 14, 19 e 25.

4 Esta ideia pode aludir ao mais relevante herói norte-americano: o Super-homem. Também ele foi criado

por pais que não são os seus, tal como podemos assistir em Superman (1978), realizado por Richard Donner e escrito por Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, e Tom Makiewicz. Este não é o único elemento narrativo que Hercules (1997) copia. O filme da Disney é uma leitura americana da mitologia associada ao herói grego.

5 Ideia retirada do mito de Alceste e Admeto, em que Héracles se voluntaria para resgatar a rainha do

São um casal e pais sem falhas1. O próprio Olimpo é retratado como um lugar idílico. Ainda em bebé, Hércules ao brincar com um dos raios de Zeus, coloca-o na boca e electrifica-se. Aborrecido, o deus-menino atira o raio. O trovão acerta numa das inúmeras colunas jónicas e destrói-a. De imediato, esta refaz-se, como que por magia. Aparentemente, nenhum mal pode afectar este espaço. Só Hades tem o poder para trazer alguma infelicidade temporária.

Ilustração 64 - O Olimpo em Hercules (1997). Primeira imagem: o Olimpo representado como uma montanha flutuante. Segunda imagem: alguns dos deuses do panteão; da esquerda para a direita; Apolo ou Hélio, Ares, Afrodite, Atena e Posídon, reconhecíveis pelos atributos iconográficos. Última imagem: Dioniso na sua representação cinematográfica típica: inebriado e avantajado. De notar que todos os deuses olímpicos brilham profusamente.

O filme também inclui elementos de outras narrativas mitológicas. Hercules começa com uma referência à Titanomaquia – através do prólogo musical das musas (que cantam em tom gospel). No final da longa-metragem, esta inclusão hesiódica tem o seu

pay-off. O plano de Hades era soltar os titãs e tomar o trono celestial do seu irmão. Devido

à intervenção de Hércules, este objectivo é inviabilizado. A forma como os criadores do filme decidiram representar os Titãs é de enorme interesse, visto que eles são associados a elementos da natureza: pedra, gelo, lava e vento, i.e., terra, água, fogo e ar, os quatro elementos naturais. Todos eles demonstram animosidade em relação a Zeus.

Outra adição mitológica encontra-se, entre muitas mais, na figura de Pégaso, o cavalo alado. Como se sabe, esse ser passou a pertencer a Belerofonte, que o conseguiu capturar, ou a Perseu, depois de este decepar a cabeça da Medusa. A única ligação possível com Hércules está na ascendência do herói divino. Através de Alcmena, mulher de Anfitrião, Héracles é descendente de Perseu. Além das alusões mitológicas, os diferentes cineastas quiseram incluir referências cinematográficas à cultura contemporânea. Assim, Tebas assemelha-se a Nova Iorque ou Los Angeles, e o “Leão de Némea”, nunca mencionado como tal, é representado como sendo Scar, o vilão de The

Lion King (1994), recorrendo-se assim a uma intertextualidade cinematográfica.

“How do you kill a god?”. Em Hercules, ao contrário de outras histórias neomitológicas, os deuses são mesmo imortais, não morrem. Hades, contudo, tem em sua posse uma bebida que consegue tirar a imortalidade a um ser. Como se mata um deus? Com uma artimanha literária. Este engenho narrativo não é a única desvirtuação existente.

Em relação às histórias tradicionais da Disney, há uma conjuntura que pretende criticar o terceiro acto habitual, visto que, antes de o herói salvar a princesa, ela salva-o primeiro, sacrificando-se e dando a sua vida pela dele. Apesar disso, o filme tem um final feliz. Hércules vai ao submundo, tal como Orfeu, e resgata, desta feita com êxito, Mégara. No final, Hércules reúne-se com Hera e Zeus, voltando a ser imortal, mas opta por abdicar desse estatuto e voltar à Terra, permanecendo humano.

A forma como Zeus e Hades foram representados também merece destaque. O brilho mitológico dos deuses foi claramente definido no filme. Zeus e os restantes olímpicos brilham dos pés à cabeça. Hades, em contrapartida, como se fosse uma réstia de cabelo, tem uma pequena chama brilhante no topo da cabeça1. O contraste entre uma

figura e a outra demonstra uma influência cristã. A diferença iconográfica do brilho entre os dois deuses-reis, e o antagonismo de Hades perante o protagonista, é sintoma dessa irresistível contaminação cristã. Nenhum escritor, artista plástico ou cineasta consegue ficar indiferente ao peso de Deus e de Satanás do Cristianismo. A principal diferença entre estes e outros criadores é que, enquanto estes tentam manter os traços gerais das histórias mitológicas (tanto gregas como cristãs), outros desrespeitam por completo a construção narrativa e a significância humana da mitologia.

Ilustração 65 – A revolta do submundo e a catábase de Hércules ou o “Orfeu bem- sucedido”. À esquerda, Hades adverte os titãs: “Guys… Olympus is that way”. À direita, Hércules nada até ao fundo do Estige para recuperar Mégara. Quanto mais desce, mais velho fica.

***

Nos filmes analisados no capítulo 3 da II parte, tornou-se perceptível que Zeus e Hera, como casal, são personagens moderadamente recorrentes. Eles são seres perfeitos que se entretêm a brincar com o destino dos humanos. Durante o século XX, este é o tipo de representação que o casal divino recebe no cinema. Com o virar do século, as duas

1 Alusão ao fogo do inferno na tradição cristã, talvez melhor descrito por Dante Alighieri, vide DANTE,

divindades continuaram a ser retratadas, contudo, são mais vezes referenciados como entidades individuais, do que como casal divino. Existem excepções, claro. Hera, por exemplo, ganha primazia não como mulher de Zeus, mas antes desempenhando o papel alusivo, indirecto, de protectora.

1.7 Representações Cinematográficas: Hera