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5. Concelho de Campo Maior

05.10. Herdade das Argamassas CMP 386 / CNS

Implantação típica de uma villa, beneficiando de uma óptima exposição solar, de bons acessos à via XV e de uma variedade de solos na sua envolvente, o que lhe permitiria adoptar um modelo de exploração plurifacetado. Para mais, as evidências de exploração mineira sugerem que os filões de cobre foram também aproveitados.

O projecto de investigação, que se previa plurianual, acabou por ser precocemente interrompido mas, ao contrário de outras situações, foi dado a conhecer, pelo que existem noções concretas sobre os resultados das escavações e a relevância do sítio e do seu espólio165. Contudo, a área escavada acabou por ser insuficiente para se perceber o modelo

de villa que existiu neste território.

Na que se confirmaria ser a pars urbana implantou-se a Sondagem 1, onde foram escavados quinze compartimentos, registando-se os habituais índices de conforto com a presença de pavimentos musivos (sempre combinando motivos geométricos e vegetalistas, embora em um deles pareça ser identificável um corso), e elementos de bases e de colunas em mármore. Um dos aspectos mais interessantes reside no modo como os pavimentos já

162 1959: 154-155: “Houve aí diversas habitações romanas, cognoscíveis pela telharia” e 1967: 43: “[...] em cuja

área se dispersa abundância de fragmentos de telha romana.

163 Saa, 1959: 155. No tomo final (1967: 41-42) menciona as “ruínas romanas”, e aqui localiza Ad Septem Aras,

conferindo ao local uma inusitada e não explicada importância.

164 CNS 25389.

165 Sirvo-me sobretudo da comunicação apresentada por Sandra Brazuna (2011) nas IIIas Jornadas de Arqueologia do Norte Alentejano e dos relatórios dos trabalhos arqueológicos apresentados pela Era-Arqueologia S.A. e da responsabilidade de Brazuna, Jorge e Sarrazola (2002) e Brazuna (2002-2003) que permitem uma radiografia exaustiva dos trabalhos realizados.

se encontravam deteriorados antes dos derrubes de telhados terem selado os espaços, não tendo sido encontradas tesselas soltas e, inclusivamente, mostrando alguns destes pavimentos sinais de remendos.

Quanto aos espaços, pelas dimensões da área intervencionada não é possível perceber a planimetria da casa. Destaca-se claramente um espaço principal, o Compartimento 1 (em posição central face aos restantes, o que não significa que fosse essa a sua posição no edificado, visto que nos falta a noção global), com os seus 52.2m2, o mais

amplo de todos. Poderia anteceder uma sala de tripla abside – o espaço 7/11, pelo menos a julgar pelo arranque da parede de fecho a Sul, mas tal não é absolutamente claro. Mas a tomar esta hipótese, então poderia situar-se descentrado face ao eixo do peristilo, resultante contudo de um rearranjo da área em momento tardio, pois corta um muro anterior. Em olhar geral salienta-se a pequena área ocupada pela generalidade dos compartimentos, assemelhando-se a pequenos cubiculae ou a meros espaços de trabalho, a tal ponto que resulta complexo propor sentidos de circulação nos espaços do conjunto. Dentre eles destaco o 12, com uma base de lareira em posição central onde foram recolhidas várias mós e fragmentos de cerâmicas de armazenamento, parecendo um espaço de trabalho inserido em plena pars urbana. É difícil perceber se estamos perante um âmbito plenamente romano, concordante com o restante contexto de uso, ou se perante uma reocupação posterior, como em dado passo parece propor a autora, embora a primeira hipótese seja plenamente plausível. Assume-se que “a identificação de diversos instrumentos agrícolas sob o derrube das coberturas em compartimentos da área residencial, sobre pavimentos em mosaico, e a inexistência de espólio cerâmico, ou outro, que não seja residual, apontam para que este espaço tenha sido abandonado pelos seus proprietários de forma organizada, tendo posteriormente sido utilizado para diferente funcionalidade e talvez por outras pessoas.”166 Seria muito interessante perceber se são estas as actividades, ou pessoas, que

realizam os rasgos nos pavimentos de mosaico.

Quanto ao espólio, note-se que sobre os níveis de pavimento foram encontrados elementos de cerâmica comum, cerâmica de paredes finas, lucernas e terra sigillata hispânica e norte africana, enquanto que, associado aos derrubes, foram exumados fragmentos de

terra sigillata hispânica e clara D, configurando um momento de colapso algures no século V

(ou VI, dependendo dos fabricos africanos). Particularmente interessante resulta a presença de alfaias agrícolas sobre os pavimentos167, incluindo os de mosaico, o que pode reflectir

um momento terminal de ocupação do sítio em que este tivesse perdido a sua vocação residencial, e se tivesse reconvertido em grande espaço de trabalho agrícola, ou de armazenamento e apoio a actividades rústicas. Contrariando esta leitura com uma perspectiva mais prosaica, poderia pensar-se que se tratam dos instrumentos com que o

dominus procedia à manutenção do seu hortus, mas parece claramente não ser esse o caso,

dadas as alterações estruturais (pavimentos de mosaico rompidos, lareira...). Ou seja, a villa de Argamassas documenta uma rara situação de transformação da pars urbana em actividades de cariz fortemente rural nos seus últimos momentos de ocupação, tornando-a em caso exemplar para a compreensão dos processos que conduzem ao final das villae.

Em outra área intervencionada – na Sondagem 9 – os sete compartimentos identificados parecem pertencer a outro sector dentro da mesma pars urbana. Detectaram-se dois momentos, com uma reformulação dos módulos estruturais, passando parte deste espaço a ser utilizado como lixeira, com grande quantidade de cerâmica comum, por vezes possibilitando colagens, além de outros materiais (terra sigillata clara, lucerna, duas moedas, um anel), mas sobretudo muitos ossos e carvões. Este conjunto sobrepunha-se aos vestígios de um muro anterior. De acordo com os materiais aqui encontrados, a duração de utilização deste espaço parece ser bastante tardia, com fragmentos de terra sigillata clara D,

166 Brazuna, 2003: 4.

167 No decurso dos trabalhos nas Sondagens 1 e 4 foram encontrados um escopro, um maço em ferro e uma

foice sob o derrube (na 4); uma colher em ferro e um possível elemento de charrua, associados ao derrube (Sondagem 1).

embora estes elementos necessitassem de ser claramente aferidos168. A escassa potência de

solo e o alto grau de destruição dos contextos e estruturas inviabilizam uma leitura mais clara, mas mais uma vez parece assistir-se à “ruralização” de um contexto residencial.

Em outra Sondagem – a 4 – foram intervencionados ambientes pertencentes à pars

rustica, que assim não estaria muito distante do núcleo central. Os pavimentos em terra

batida e os compartimentos de alvenaria mais grosseira albergaram uma área de fundição de metal, com inúmeras escórias e cerâmicas com marcas de sobre-aquecimento. Todavia, ficaram por localizar outros espaços de cariz artesanal e de transformação que certamente comporiam o núcleo de actividades económicas da propriedade.

Finalmente, nas Sondagens 5, 6 e 7 foram identificadas áreas de condução e contenção de água, nomeadamente com valas de drenagem e o que poderá ser uma boca de cisterna.

Em leitura geral, a villa da Herdade das Argamassas traz alguns dados relevantes para o debate, não esquecendo contudo que a área escavada e registada é ainda uma ínfima parte em relação ao total. Trata-se de uma unidade rural com um denso e coerente lote de testemunhos, sobretudo a partir do século III, dado que não existem materiais ou outros indicadores para os momentos anteriores (apenas fragmentos de cerâmica de paredes finas). É possível que este seja o século de uma ampla reformulação estrutural, diagnosticada em algumas estruturas que cortam espaços anteriores. A este momento pode então corresponder o processo de monumentalização da residência, com a possível ábside do Compartimento 7 assentando sobre estruturas anteriores. Não é fácil perceber em planta este espaço, e a sua relação com o restante edificado, mas a confirmar-se ser uma sala de tripla ábside, teríamos uma área muito extensa, seguramente acima dos 300m2. Em

momento terminal, o espaço parece entrar em rápida degradação antes do abandono final. É possível que a pars urbana tivesse sido transformada em outro tipo de ambiente: os mosaicos deixam de ser cuidados e o espaço “ruraliza-se”. Admitamos que a propriedade tivesse mudado de mãos, e agora fosse utilizada como um mero armazém ou espaço de actividades produtivas. Se durante o século III/IV assistíamos à monumentalização, os séculos V e/ou VI trazem a ruralização do edificado. Em resumo, encontramos neste sítio um raro testemunho de um processo arqueologicamente difícil de diagnosticar, e que se prende com o final das villae enquanto espaço de representação do proprietário e sua passagem para um novo modelo de gestão.

05.11. Tapada da Pombinha