O estudo da heresia adquiriu nova perspectiva crítica nos anos 60. Isto implica dizer que muito questionou-se acerca do significado desta como conceito ou de sua inserção em momentos específicos, fazendo com que os estudos de caso servissem para pensar a heresia como fenômeno geral, submetido e pertinente a uma força histórica. Organizada por Jacques Le Goff, a obra Heresias e Sociedade foi fruto destes debates,
estabelecidos entre historiadores em um colóquio.1 Aqui é selecionada como representante de uma corrente, cuja principal contribuição foi a do reposicionamento dos questionamentos acerca das heresias, que passam a ser consideradas por seu vínculo com processos históricos permeados por conflitos sociais. De acordo com os trabalhos que seguiram a este posicionamento, as dissidências religiosas eram indicativas de tensões e demandas conjunturais de cunho social, estando, na maioria das vezes, associadas a um descontentamento em relação à própria Igreja como instituição e/ou à sua hierarquia.
A despeito destes trabalhos estarem voltados, em sua maioria, para o período da Idade Média Central ou Baixa, suas análises se pautam em questões gerais que servem de refllexão para o tratamento das fontes em séculos anteriores. Tratava-se de uma inciativa de pensar heresia como fenômeno e de suscitar questões relativas à origem do herege, ao seu vínculo com uma comunidade ou grupo social e, principalmente, seu papel no desenrolar de contextos tomados como pressupostos neste tipo de análise. Nesta corrente notamos, por exemplo, trabalhos como o de Morghen,2 que expressa mais uma vontade em compreender o catarismo por sua pertinência ao período da reforma que delimitar as características maniqueístas apropriadas pelo movimento ou a ele atribuídas, apreciando-nas como rótulos utilizados para exclusão e obscurecimento das verdadeiras motivações deste coletivo religioso.
Tais pesquisas contribuíram em nossas reflexões na medida em que foram responsáveis pela formulação de questões hoje vistas como elementares, mas precursoras de estudos que retomam a discussão acerca das relações políticas e sociais que permeiam as querelas religiosas. No entanto, cabem críticas a estes modelos interpretativos, em especial se atentarmos para o nosso objeto.
Pertinente a este momento da produção sobre o tema, Georges Duby, já apresentava as limitações destes trabalhos em sua obra Idade Média, Idade dos Homens, reclamando uma falta de apoio metodológico aos debates e, contudo, fazendo coro aos estudos sócioeconômicos da temática, questionando-se acerca do papel do herege em uma dada sociedade. Em suas considerações, o medievalista elabora uma generalização que garante diálogo com o pensamento historiográfico contemporâneo e considerações
1
LE GOFF, Jacques. (org.). Herejias y sociedades en la Europa pré-industrial (siglos XI-XVIII).
Comunicaciones y debates del Coloquio de Royamont presentados por Jacques Le Goff. Madrid, Siglo XXI, 1962.
2
MORGHEN, R. Problemas en torno al origen de la herejia en la Edad Media. In: LE GOFF, Jacques. Op. Cit., p. 89-102.
realizadas nesta dissertação. Dentre os pontos, cabe destaque para a relação diretamente proporcional entre a expansão e a organização institucional da Igreja e seus mecanismos de repreensão, condenação e exclusão de uma heterodoxia. Exposições como “todo herético torna-se tal por decisão das autoridades ortodoxas”, e a afirmação de que este “permanece sempre, um herético aos olhos dos outros (...) aos olhos da Igreja, aos olhos de uma Igreja”,3
fazem-nos constatar que alguns dos aspectos já percebidos naquele momento podem e devem ser (re) pensados.
Concordamos com o fato de que a parcialidade do discurso eclesiástico é, por vezes, a única responsável pela dicotomização entre o cristão ortodoxo e o herege e, consequentemente, pela mobilidade destas fronteiras. Todavia, acreditamos que a relação entre ambos não é unilateral, pois o último não pode ser visto apenas como produto da perspectiva do primeiro. Tal qual a heterodoxia que constrói, a ortodoxia pode ser pensada como construída neste processo e não como um conjunto de normas e preceitos homogêneo e pré-definido. Igualmente, o herege não deve ser figura submetida a uma classe de forma rígida, como se não houvesse espaço de interecessões sócio-culturais ou de agência para certas personagens. Fugimos, portanto, de associações simplistas como a relação entre campo/camponês/grupos subalternos e heresia, notada em alguns dos trabalhos lidos.4
A sutileza desta proposição pôde apenas ser considerada a partir de estudos mais recentes, dentre os quais se destacam os seminários realizados em Nice na década de 90, também transformados em uma obra organizada por Monique Zerner,5 na qual algumas questões foram recolocadas, de acordo com a exaltação de uma análise crítica mais apurada das fontes. Nesta corrente, a relação entre rejeição à heresia e poder pauta-se na própria lógica de produção do discurso. Para os pesquisadores prepauta-sentes na reunião e participantes da publicação não cabe apenas uma interlocução acerca das motivações do herege, mas sim acerca da existência das heresias como sistemas de crenças articulado, optando por concebê-las mais como produtos de construções discursivas que como grupos moldados de acordo com as demandas e tensões sociais do período. Por esta via, para além de uma identificação das origens e das funções destes
3DUBY, Georges. Heresias e sociedades na Europa pré-industrial, séculos XI-XVIII. In: _____. Idade Média, Idade os Homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 209.
4
Esta perspectiva influenciou e é comum no estudo do priscialianismo na Galiza. A discussão sobre este ponto e tal historiografia, especificamente, realizamos nas páginas abaixo, no subitem 2.3, “A atuação martiniana a e cristianização da Galiza Sueva”.
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ZENER, Monque (Org.) Inventar a Heresia? Discursos polêmicos e poderes antes da Inquisição.
agentes por sua oposição à hierarquia eclesiástica ou descontentamento em relação a uma conjuntura específica, tal movimento escolhe ater-se à lógica da produção eclesiástica e sua característica excludente e universalista, exacerbada no decorrer de reformas, organizações e (re) estruturações institucionais.
Desta maneira, o vínculo entre o rechaço ao herege e poder de uma elite eclesiástica estão implícitos, ou explícitos, como na análise de Jean-Louis Biget,6 na qual o autor associa com clareza a perseguição a albigenses7 às disputas locais entre as dinastias capetíngios e plantagenetas e à ascensão da ordem monástica cisterciense.
De fato, interessa-nos em nosso estudo, caracterizar como as distorções, formulações e até mesmo invenções contribuíram para a manutenção das posições de poder dos membros da instituição eclesiástica. Não cabe, e talvez fique aqui registrada uma crítica ao tom empregado por Zerner e alguns colegas, exagerar nas proporções destas “construções linguísticas” ao ponto de separá-las de uma “realidade”, ou concretude. Devido às dificuldades no tratamento de determinadas fontes, sejam normativas, narrativas ou polêmicas,8 tal questão pode ser considerada secundária. Em suma, pouco podemos dizer acerca das características das crenças heréticas, uma vez que reconhecidamente as observamos por um olhar parcial, na maioria das vezes. Neste sentido, dialogamos com Biget que, mais voltado para as dinâmicas políticas internas à instituição que para a formulação teológica de algumas correntes dissidentes, dedica seus esforços à conjunção destas generalizações pejorativas destinadas ao “outro” religioso com as motivações da hierarquia eclesial em um momento de fortalecimento e reordenação da Igreja local. Ou seja, o autor considera força de atuação do discurso de oposição, sem para isso privilegiar uma perspectiva empírica e teórica que vise à separação e caracterização de grupos.
Assim, limitamo-nos ao apontamento do uso de manobras linguísticas e distorções no discurso eclesiástico sem associá-las às relações de poder seria, a nosso ver, improfícuo. Tampouco podemos asseverar a inexistência ou existência de certos elementos e rótulos atribuídos ao herege ou supersticioso, porém podemos perceber
6BIGET, Jean-Louis. “Albigenses”: observações sobre uma denominação. ZENER, Monque. Op. Cit., p. 229-267.
7Refere-se a uma heresia francesa do século XI. Segundo o próprio Biget, é alcunha generalizante que engloba sob um termo diversas seitas evangelistas da região de Toulouse.
8Em sua análise, Zerner aponta para os três tipos, preocupando-se sobretudo com as polêmicas e a demonstração dos recursos utilizados na construção de uma heresia. No que tange aos documentos utilizados no corpus desta pesquisa eles também estariam vinculados à narrativa, como o sermão e a HE, e à normativa, como as leis e as atas conciliares por sua característica legislativa.
como tais recursos de diferenciação serviam ao propósito de legitimação da posição de influência da elite episcopal.
Por este prisma citamos a pesquisa de María Escribano Paño, em especial, a análise que faz do movimento priscilianista na Península Ibérica romana. Em alguns de seus textos9 a autora sintetiza as principais contribuições de ambas as correntes citadas. Por um lado, reconhece no aparecimento do priscilianismo, especificamente, o indício de uma desintegração do coletivo eclesiástico, sendo sua rejeição por um grupo de bispos denotativa de tensões sociopolíticas; por outro lado, está menos inclinada a buscar as motivações para o surgimento da seita que a investigar como a atribuição desta ao maniqueísmo dentre outros elementos, funcionam de forma a excluir opositores, numa lógica de definição e negativização da “alteridade religiosa”.
A associação entre o combate à heresia e as disputas por poder no seio da Igreja destaca-se como argumento para a hipótese da existência de incipiente formulação ortodoxa, intentada pelo episcopado da Galiza sueva. Com o propósito de reforçá-lo, atentamos para a análise de autores que, como Ecribano Paño, se debruçaram sobre as nuances e dinâmicas da distinção entre a ortodoxia e as crenças heréticas.
De trabalhos como esses, sublinhamos os autores que se voltaram para o que seria o princípio destas deliberações, em concílios orientais, importantes pois retomados no Ocidente no decorrer do processo supracitado, e em heresiologias. Privilegiamos, assim, as contribuições de Robert Markus, Gerald Bonner, Mark Edwards e Caroline Humfress.
Robert Markus apresenta em seu livro, uma compilação de diversos ensaios, a questão da autodefinição do cristianismo entre os séculos II e IV,10 recorrendo a fatores sociais e políticos que pudessem lançar luz sobre o crescimento de uma normativa que visava à diferenciação do cristão em relação à sociedade. Refere-se, de seu modo, à construção de uma identidade, no caso, de um grupo com características próprias e exlusivas, por intermédio de condutas específicas que afastassem o religioso do mundo e dos demais.
9Aqui citamos dois textos que dialogam com as mesmas questões, partindo de objetivos e atingindo hipóteses semelhantes. ESCRIBANO PAÑO, María Victoria. Alteridad Religiosa y maniqueísmo en el siglo IV d.C. Studia historica. Historia antigua, n. 8, p. 29-47, 1990. ______. Herejía e poder en el s. IV. In: CANDAU MORÓN, J. M. et al (org.). La Conversión de Roma: Cristianismo y Paganismo.
Madrid: Clássicas, 1990. p. 151- 189.
10MARKUS, R. A. The Problem of Self Definition: from sect to Church. In: ______. From Augustine to Gregory the Great: history and Christianity in Late Antiguity. Londres: Valorium Reprints, 1983. p. 1-15.
Seu texto é retomado por vários autores, e tem importância considerável na discussão acerca da delimitação de uma Igreja e das dinâmicas pertinentes a esforços de uniformização. É contribuição fundamental nos estudos acerca da Antiguidade Tardia e, em particular, faz-se pertinente a este trabalho por sua exposição da seguinte problemática: a dificuldade e a impossibilidade de se observar uma Igreja, como se esta fosse algo pronto e indentificável, que resumisse a tarefa do historiador a uma simples descrição. Na contrapartida, Markus aponta para a importância da distinção na construção de uma identidade cristã, considerando a conotação que o conceito de heresia adquire neste processo, ou seja, de divergência em relação a uma verdade da fé, lentamente formulada pela necessidade de separação entre o cristão e sua sociedade. Assim, resta dizer que seus estudos abrem espaço para debates e ideias como as aqui privilegiadas.
No texto Dic Christi veritas Ubi Nunc Habitas: Ideas of Schism and Heresy in te Post-Nicene Age, Gerald Bonner sublinha a existência de uma convivência entre a multiplicidade de entendimentos acerca da fé afirmando que, mesmo quando algumas destas fossem consideradas errôneas por parte da hierarquia eclesiástica, não eram condenadas tão rigidamente como a partir do fim do quarto século.11 Para ele, o fator diferencial seria, então, a crescente identificação entre o Império Romano e a Igreja, a qual teria encorajado uma busca veemente pela coesão religiosa, uma vez que esta se confunde com a coesão política sob um imperador.12 O autor cita o que teria sido uma “revolução constantiniana”,13
objetivando demonstrar que desde o Concílio de Nicéia (325) e o surgimento das heresiologias demarcou-se um período de separação entre a Igreja pretensamente unificada e os dissidentes, cismáticos ou hereticos,14 sendo exatamente na aproximação legal entre estes últimos perceptível o crescimento de um esforço de definição e uniformização da ortodoxia nicena. Tais tratados eclesiásticos tinham, sobretudo, um intuito diferenciador entre o que era sancionado ou não, apontando um inventário dos grupos que teriam contradito a tradição canônica.
11
BONNER, Gerald. Dic Christi veritas Ubi Nunc Habitas: Ideas of Schism and Heresy in te Post-Nicene Age. In: KILNGSHIRN, William E; VESSEY, Mark. The limits of ancient Christianity. Essays on late antique thought and culture in honor of R. A. Markus. Michigan: The University of Michigan Press, 1999. p. 63-79.
12BONNER, Gerald. Op. Cit., p. 79.
13Aqui o autor faz referência às argumentações de Robert Markus no livro “The end of the Ancient Christianity”, para depois corroborar a ideia retomando-a, dentre outros, no momento em que exemplifica a união entre os interesses eclesiásticos e seculares pelo caso do priscilianismo. BONNER, Gerald. Op. Cit., p. 77.
Dentre as ideias de Bonner optamos por selecionar duas, associadas entre si, para comentário: a noção de que neste momento ainda não havia qualquer homogeneidade nas decisões acerca dos assuntos da fé cristã e a importância da união entre os âmbitos clerical e político no que tange a assuntos religiosos. Sobre esta última afirmativa, entendemos que a premissa da qual o autor parte, de que o período de Constantino teria representado um ponto de cisão histórica, pode e deve ser criticada ou relativizada, pois abre espaço, ainda que inconscientemente, para a identificação de um marco histórico que determinaria o momento de fixação de uma ortodoxia, ponto referencial e unilateral de definição da heterodoxia, ignorando quaisquer esforços de delimitação de uma perspectiva cristã unívoca posteriores ao quarto século.15
O reconhecimento da importância das mudanças contextuais do período constantiniano, pela caracterização de uma nova dinâmica de definição religiosa, não constitui, necessariamente, um marco, denominado como “revolução”. De outra forma, seríamos forçados a aceitar a ideia de que anteriormente à aceitação do Império, o cristianismo estivesse apartado de questões sócio-políticas.
Sobre tais aspectos é importante destacar concepções como as que Mark Edwards expõe em texto em The Cambridge History of Christianity: Constantine to c. 60016 e no livro Catholicity and Heresy in the Early Church.17 Em ambos o autor destrinchou diversos aspectos da sucessão de reuniões conciliares ditas ecumênicas, muito provavelmente também partindo do mesmo pressuposto da relação entre o acirramento das decisões doutrinárias e a ingerência do Estado romano, desde Constantino, nas questões eclesiásticas. A sucessão exaustiva de complexos conflitos e debates acerca de diferentes interpretações cristológicas e dogmáticas, por ele demonstrada, aproxima-se do que chamamos de processo de formulação da ortodoxia cristã, ou melhor, das ortodoxias cristãs. O plural cabe na medida em que, ao atentar
15Endossamos, neste ponto, as palavras do especialista no período, Mark Edwars: “Não pode ser sustentado, então, que antes do Concílio de Nicéia de 325 não havia corpo magisterial que propusesse definir o que poderia ou não ser acredittado e que apregoasse os comandos de Cristo sobre os apóstolos. Não se pode sequer argumentar que os ensinamentos do episcopado demonstravam maior uniformidade depois que antes do Concilo de Nicéia (...)”. Com efeito, o autor relativiza este marco, apresentando Tertuliano e Orígenes, dentre outros, como teólogos que partilhavam deste esforço uniformizador e diferenciador desde fins do século II e meados do III. EDWARDS, Mark. Catholicy and Heresy in the Early Church. Surrey: Ashgate, 2009. p. 1-7.
16EDWARDS, M. Synods and councils. In: CASSIDAY, Augustine, NORRIS, Frederick W. The Cambridge History of Christianity: Constantine to c. 600. Nova York: Cambridge University, 2008. p. 367-86.
para a instabilidade destas posições e acordos,18 e para o papel dos diversos agentes e grupos envolvidos, o autor enfatiza seu caráter político. Reforça a fragilidade de uma visão simplista que reduza a questão trinitária a uma resolução conciliar. Em oposição, elabora um amplo e detalhado estudo da patrística dos séculos III e IV, demonstrando sutis dissidências entre pensadores cristãos, dificuldades na apropriação de um vocabulário comum e a negligência em pontos fulcrais nestas reuniões.19
Na mesma linha, Caroline Humfress relembra aspectos semelhantes em seu livro Orthodoxy and the Courts in Late Antiguity,20 atentando não apenas para a fluidez destas decisões, porém para a importância dos estudos relacionados a construções discursivas, interessando-se pelo “processo taxonômico” de caracterização e oposição ao herege.21 Apóia-se em um conjunto de textos normativos, acerca da prática forense da condenação e a flutuação de termos usados nesta documentação com o intuito de associação entre uma crença ou prática a um adjetivo ou substantivo com conotações negativas. Garante um debate mais flexível, isto é, menos determinado por parâmetros temporais rígidos, pois atenta para a constante re-significação ou reutilização de conceitos para definir ou condenar a heresia, desde o século II a Agostinho de Hipona.
A partir de alguns dos conflitos históricos apresentados por Edwards e das contribuições de Humfress podemos argumentar a favor de um repensar a definição de heresia, considerando as variáveis e reconhecendo a instabilidade de sua caracterização, pelo próprio reconhecimento de ausência de uma ortodoxia que fosse compartilhada igualmente por uma totalidade hierárquica, não no Império, e menos ainda em reinos fragmentados. Percebemos que de divergência entre opiniões, a “verdade da fé” e sua contraposição é construída, formulada e reformulada com o passar do tempo. Sendo tal construção pertinente a formas de organização da instituição eclesiástica, como a intentada nos reinos suevo e de Kent.
Com efeito, os autores citados pautam-se, constantemente, neste momento histórico, não observando a similitude de fenômenos posteriores, também permeados pela condenação de heresias e pela associação explícita entre poderes religiosos e
18Bonner também dialoga com esta ideia, inclusive afirmando que “(...) fatores pessoais entravam nas disputas sobre a doutrina, assim como indivíduos teólogos buscavam recomendar suas próprias teorias e depreciar aquelas de outros.” BONNER, Gerald. Op. Cit., p. 65.
19Neste ponto, o autor dedica-se a definir as múltiplas concepções acerca de arianismo existentes no período dos concílios gerais e ausência de definição das hipóstases. EDWARDS, M. Op. Cit., p. 107-116.
20HUMFRESS, C. Defining Heresy and Orthodoxy. In: ______. Orthodoxy and the Courts in Late Antiguity. Oxford: Oxford University Press, 2007. p. 217-242.
21A ideia se apresenta em todo o capítulo, mas a expressão, explicitamente colocada, “processos taxonônomicos”, em momento específico. Cf.: HUMFRESS, C. Op. Cit., p. 228.
políticos. Nem mesmo atentam para a impossibilidade de separar estes poderes em contextos como os de desenvolvimento dos reinos romano-germânicos. Todavia, apesar de não se voltarem para o período de nosso interesse, deixando uma lacuna nas possibilidades de estudo da temática, dialogamos com sua análise na medida em que eles pressupõem uma relação entre o vínculo secular-eclesiástico e o acirramento dos esforços de autodefinição do cristianismo, responsáveis pelo combate a seitas, doutrinas ou organizações religiosas concorrentes.22
Se tal oficialização religiosa ocasionou, no reino suevo ou de Kent, um acirramento de disputas entre sedes episcopais que influenciaram no curso da formulação do que viria a ser entendido como catolicismo na região, é interessante