NÚCLEOS COLONIAIS
2.3 Higiene e mortalidade
Diante do acelerado desenvolvimento da região e, sobretudo, do projeto de reordenamento da capital paraense, muitas medidas tiveram que ser tomadas no âmbito da saúde e da higiene da população para diminuir os altos índices de mortalidade causados por diversas doenças epidêmicas na região. Aliado às constantes moléstias se considerava que um conjunto de fatores também contribuía para elevar essas taxas, tais como: condições geográficas e climáticas desfavoráveis, programa imigratório e falta de saneamento urbano. Desta forma, por muitos anos, o desafio das autoridades políticas e sanitárias foi criar mecanismos que pudessem garantir melhores condições de vida para a população.
Belém do Pará, a partir do final do século XIX era retratada nos relatórios e mensagens oficiais como sendo uma cidade que apresentava um aspecto altamente insalubre e degradante, com terrenos baldios e abandonados, muitos lixões espalhados pelas margens dos rios, esgotos sem drenagem e, o que mais indignava aos dirigentes públicos, a ignorância repugnante de grande parte da população.
O esforço para tentar reverter esse quadro desolador partiu, no final do século XIX, de uma ação conjunta entre os poder público municipal e o estadual, através de um acordo celebrado na Lei de nº 187, de março de 189864, tendo como uma de suas
primeiras ações, a constituição de uma comissão de profissionais com alto
conhecimento técnico para elaborar um plano geral de embelezamento e
saneamento urbano.
No plano que houvesse de apresentar, a comissão teria em vista, entre outros serviços, o alargamento, nivelamento e alinhamento das ruas, travessas e praças da cidade; um plano completo para as futuras edificações publicas e particulares, que obedecesse á hygiene e embellezamento da cidade e das construçcões; o estudo do saneamento das docas, do litoral e das obras do porto de Belém e o estudo da drenagem do solo e deseccamento de pantanos. (BELÉM, O Município de./Relatório apresentado ao Conselho Municipal pelo intendente, 1902, p. 95).
Segundo o Gestor Municipal, a situação em que se encontrava a cidade anteriormente era de total abandono, necessitando urgentemente de medidas concretas, porém a carência de pessoal para realizar os serviços de limpeza de ruas, drenagem de rios, pavimentação, era insuficiente. No entanto, já nos primeiros meses de sua de sua administração, Antonio Lemos, relata com orgulho todos os melhoramentos feitos não só na área urbana da cidade, mas em todos os distritos e vilas, sob a orientação de profissionais das áreas de engenharia urbana e medicina higiênica.
Os fundamentos da razão médica, para Gondra (2000), teve no período uma forte influência na reordenação das ações direcionadas para a solução dos problemas de ordem social. Esse agenciamento, segundo o autor, acontece simultaneamente com o processo de consolidação e legitimação da ciência médica ocidental, a qual se denominou Higiene, tendo como campo de ação a “medicina do social”.
Ancorada nesses pressupostos, a cidade de Belém ia sendo remodelada e o desejo de transformá-la em modelo de civilidade e progresso era cotidianamente propagandeado entre seus moradores, para demonstrar o clima de prosperidade que já se respirava nas ruas.
O Executivo Municipal não media esforços para virar a página do atraso vivido durante anos de monarquia e muitos acordos eram firmados através de leis e resoluções para que se avançassem as ações relacionadas especificamente aos setores de vigilância sanitária e de obras públicas65
. O ritmo frenético dos trabalhos propiciava uma série de serviços e melhorias que chamava a atenção de toda a população “[...] cuja enumeração
65 Algumas das Leis e resoluções publicadas foram: Lei nº 218, que autoriza o intendente a regulamentar o serviço sanitário municipal; Lei 225, que autoriza o intendente a reorganizar a secção de obras municipais;
Lei nº 197 para o início da construção do necrotério; Lei nº 173, que abria concorrência pública para a construção de duas avenidas; Lei nº 225, para reorganização do serviço de engenharia e contratação de pessoal técnico e especializado nas áreas de higiene e de melhoramentos públicos; Resolução de nº 37, autorizando o intendente a alargar a avenida independência; Resolução de nº 42, dando diversas denominações a praças, ruas e travessas na Vila do Pinheiro.
seria excessivamente longa e demasiado fastidiosa”. (BELÉM, O Município de./Relatório apresentado ao Conselho Municipal pelo intendente, 1902, p. 100).
FIGURA 08: Crianças passeando de bicicleta na Estrada de Bragança – atual Almirante Barroso
FONTE: Álbum do Pará, 1899.
Entre as obras de melhoramentos na cidade executadas no início do século XX, pode-se destacar:
Adequação, conservação e construção de prédios;
Melhoramentos de vias públicas com arborização, construção de calhas, valas, sarjetas;
Construção de pontilhões e pontes sobre os igarapés que cortavam a cidade; Alargamento, nivelamento, e alinhamento das ruas, travessas e praças da cidade;
Estudo do saneamento das docas, da drenagem do solo e dessecamento de pântanos;
Construção de necrotério e forno crematório para lixo e animais mortos; Compra de equipamentos para serviço de limpeza urbana, entre outros.
FIGURA 09: Serviço de limpeza pública da capital
FONTE: Relatório apresentado ao Conselho Municipal de Belém, 1905.
A questão da limpeza pública era sem dúvida, o grande desafio a ser enfrentado pelo governo e a necessidade de garantir serviços adequados ao lado de políticas de educação direcionada à população se tornava urgente para que os munícipes – especialmente os que moravam nos cortiços e subúrbios da cidade – não fossem obrigados a conviver cotidianamente com ameaças de epidemias, causadas por diversas doenças provocadas em parte pela sujeira urbana.
Assim, não restava outra opção aos gestores públicos se não a aplicação de vultosos recursos em ações e programas direcionados para o enfrentamento do problema.
Com este propósito, conjugado com o projeto de saneamento urbano, muitas medidas na área de vigilância sanitária e educação higiênica foram tomadas, atingindo não só ambientes ou repartições públicas da cidade, como também as casas as residências particulares.
O eixo fundamental para a implantação do progresso na cidade de Belém, como em qualquer cidade brasileira, norteava-se pela política de higienização do espaço público. A estratégia saneadora implementada pela nova administração municipal iniciou com a organização do serviço sanitário. A cidade foi dividida em distritos sanitários e os médicos incumbidos, entre outras coisas, da vacinação e revacinação da população. (SARGES, 2002b, p. 116)
As políticas direcionadas à higiene, ao saneamento urbano e à saúde executadas, especialmente na capital, objetivavam não só a manutenção do equilíbrio sanitário da população. Elas tinham também como propósito forjar uma imagem positiva da região no exterior, garantindo com isso, a entrada de famílias de imigrantes, para trabalhar e povoar o extenso território paraense. No entanto, somando-se às inúmeras doenças típicas da região, muitas outras eram supostamente trazidas exatamente por essas famílias e essa contradição levou as autoridades estaduais a tomar medidas preventivas para proteger a população e tentar equacionar o problema.
Sobresaltos agudos trouxe á população de Belém o aparecimento da peste
bubonica na cidade do Porto, por causa das communicações numerosas e frequentes entre essa praça portugueza e a nossa. Na imminencia do perigo, tomei as mais energicas providencias, de modo a collocar Belém ao abrigo de uma invasão do mar oriental; e entre outras, importar o serum Yersin, e o serum
Haffkin, reputados geralmente como meio curativo e prophylatico. (PARÁ, Estado do./Relatório apresentado ao Governador do Estado Augusto Montenegro por José Pares de Carvalho ao deixar a administração, 1901, p. 39-40).
Os migrantes cearenses estavam entre as famílias de brasileiros que mais migravam para o estado do Pará, o que despertava no governo total atenção. Em 1901, uma suspeita do aparecimento da peste bubônica naquele Estado obrigou as autoridades paraenses a enviar uma equipe médica comandada pelo Dr. Francisco da Silva Miranda acompanhado de seu auxiliar Dr. G. Martina, membros da Inspectoria Geral do Serviço
Sanitário, para formular um diagnóstico seguro acerca da enfermidade que, segundo
notícias de jornais, apavorava a população da cidade de Fortaleza, capital do Ceará. Estes e outros casos eram corriqueiros e as autoridades públicas iam, na medida do
possível, tomando medidas para evitar que a população fosse dizimada pelas dezenas de doenças que circulavam na região.
Diante dos parcos recursos reclamados pelo Governo Estadual, muitas obras de construção, adequação e aparelhamento de hospitais, clínicas, laboratórios e centros de pesquisa especializados nas diversas doenças iam sendo executadas. O avanço da ciência médica se tornara um imperativo para a efetivação das reformas que se processavam no campo da saúde pública.
FIGURA 10: Laboratório de higiene implantado pelo Governo do Estado
FONTE: Álbum do Estado do Pará, 1908.
À Santa Casa de Misericórdia do Pará, ficava a incumbência de administrar todos os demais hospitais e asilos que eram mantidos ou subsidiados pelo Estado tendo o seu provedor, a responsabilidade de informar ao Governo, em relatórios periódicos, todos os procedimentos tomados, ou seja, o fluxo de pessoas atendidas, mortes, curas, doenças, entre outros.
Na tabela a seguir, estão destacadas algumas destas instituições gerenciadas pela Santa Casa no decorrer dos anos no Estado do Pará.
TABELA 05: Hospitais administrados e mantidos pela Santa Casa de Misericórdia do Pará
INSTITUIÇÕES CARACTERÍSTICAS
Hospital de Caridade Além de atender pessoas enfermas, este hospital socorria também pessoas desvalidas e que posteriormente eram atendidas em suas residências, recebendo gratuitamente algum tipo de medicamento.
Hospício dos Lázaros Destinado a receber pessoas tidas como loucas que não tinham meios para subsidiar tratamento.
Asylo de Alienados Também destinado a pessoas sem nenhum recurso.
Hospital S. Sebastião Era caracterizado como hospital de isolamento para tratamento de pessoas acometidas de varíola.
Hospital Domingos Freire Também se caracterizava como um hospital de isolamento
que recebia pessoas acometidas de febre amarela.
FONTE: Elaborado pelo autor a partir de diversas mensagens governamentais.
Os dois hospitais de isolamento, situados na capital paraense, eram considerados vitais para o tratamento e o controle da febre amarela e da varíola, doenças de maior incidência na região e que por muitos anos levaram a óbito parte da população, o que exigia por parte da Inspectoria Geral do Serviço Sanitário, controle e monitoramento constantes. Ter esses dois hospitais sob a guarda das religiosas da ordem “Filhas de Sant’Anna” já era um alento, pois para as autoridades públicas, elas “[...] se dedicavam zelosamente pela sorte dos doentes ali acolhidos”. (PARÁ, Estado do./Relatório apresentado ao Governador do Estado Augusto Montenegro por José Pares de Carvalho ao deixar a administração, 1901, p. 45).
Segundo Lobo (2008), encerrar os doentes para que não contaminassem o resto do povo da cidade foi uma prática muito comum durante a Colônia e que se estendeu por muitos anos da República. O sistema de asilo impunha ao confinamento obrigatório todos os doentes, usando muitas vezes da força física para mantê-los isolados, porém, na primeira oportunidade, preferiam fugir para viver com a família, quando existia ou o que era mais corriqueiro, viver pelas ruas da cidade perambulando e pedindo esmola.
Certamente que para a exigente elite paraense da época, quanto mais essas instituições ficassem afastadas do centro urbano da capital, para evitar o inconveniente e o infortúnio trazido por essa gente melhor. Esta seria uma das metas a ser alcançada pela racionalização do espaço urbano das cidades brasileiras no início da República.
Assim, apoiado no discurso de que a eficácia do tratamento estava relacionada com a qualidade do clima, as autoridades politicas e sanitárias iam cedendo aos constantes apelos da elite e tentavam isolar cada vez mais essas pessoas do convívio social, como se pode notar no trecho da mensagem abaixo.
Os hospícios dos lazarentos e dos alienados precisam ser quanto antes transferidos para outras localidades, e attendendo a esta urgente necessidade entrei em negociação para adquirir por compra a magnifica fazenda Cafesal que com pequenos dispendios e a uma hora de viagem da capital, presta-se admiravelmente a bem accomodar os dois hospicios, ficando no corpo e nas alas principaes do bello e bem construido edifício a administração centralisada e dispersos em pequenos chalets os lazarentos que assim constituirão uma especie de colonia agricola, e gosarão de certa liberdade relativa, na sua tristissima e dolorosa reclusão compulsoria. É dever nosso tratal-o com humanidade até que a sciencia nos revele o desejado segredo de restituil-os curados á integridade da vida civil. (PARÁ, Estado do./Relatório apresentado ao Governador do Estado Augusto Montenegro por José Pares de Carvalho ao deixar a administração, 1901, p. 39).
Mesmo com todo o investimento no setor, as ações implantadas não eram suficientes para diminuir os índices de mortalidade divulgados pelo Governo que eram, por sua vez, agravados pelos programas de imigração, ocorridos especialmente entre as duas últimas décadas do século XIX e início do XX. Certamente, que se considerarmos os números não divulgados oficialmente, essa estatística poderia ser ainda maior.
Mesmo assim, o quantitativo de mortes ocorridas pelas diversas moléstias publicado nas estatísticas oficiais periodicamente, ainda causava espanto e crescia de forma diretamente proporcional ao desenvolvimento urbano. Os endereços eram quase sempre os mesmos, ou seja, nas áreas de subúrbio, que geralmente careciam dos programas de saneamento urbano, coleta de lixo e higiene.
Merece destaque um caso que “escapou” nos relatos oficiais, acontecido em um bairro de Belém em setembro de 1904. Na ocasião, os moradores de uma vila situada na Avenida Conselheiro Furtado ao se inquietaram com o forte odor vindo de uma casa abandonada, comunicam o fato ao serviço de vigilância sanitário. Ao ser arrombada a porta, fora encontrado um cadáver de um “homem varioloso”, já em estado de putrefação.
Segundo os agentes públicos, tratava-se de um passageiro de um dos últimos vapores vindos do sul que abandonado, segundo informações dos vizinhos, por uma mulher que havia fugido levando todas as roupas sem deixar vestígios, permaneceu por lá até ficar naquelas condições. (PARÁ, Governo do./Mensagem dirigida ao Congresso Legislativo, 1905).
Acredita-se que estes fatos eram bastante comuns e que aconteciam com certa frequência na cidade em virtude da grande demanda que havia de ser coberta pelo serviço de inspeção sanitária que, por sua vez, quase sempre não atendia a todas as ocorrências. Para ter uma noção dos casos de mortalidade, as tabelas a seguir demonstram alguns números de mortalidade entre nacionais e estrangeiros, em virtude do acometimento de algumas das principais doenças que mais receberam atenção dos setores competentes entre os anos de 1904 e 1905 em hospitais, asilos e casas de recolhimentos do Estado, de acordo com dados oficiais.
QUADRO 04: Óbito por febre amarela no período de julho de 1904 e junho de 1905 entre brasileiros
ESTADOS PERÍODO/MESES
JUL AGO SET OUT NOV DEZ JAN FEV MAR ABR MAI JUN
Pará - 01 - - - - 01 - - - - - Maranhão - - - - 01 - - - - R. de Janeiro - - - 01 - - - - - São Paulo - - - 01 - - - - R. G. do Sul - - - 01 - 01 - - - Total - 01 - 01 01 - 03 - 01 - - -
FONTE: Elaborado pelo autor a partir de documentos publicados através de mensagens pelo Governo do Estado, 1905.
QUADRO 05: Óbito por febre amarela no período de julho de 1904 e junho de 1905 entre os estrangeiros
PAÍSES PERÍODO/MESES