Para se analisar o contexto histórico do Setor de Alimentos no Brasil, foi sintetizado, até o ano 2000, com base no trabalho desenvolvido por Guarido Filho
(2000), o qual aponta que a industrialização de alimentos no Brasil, segundo informações da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação – ABIA – tem seus primeiros registros no século XVI com o ciclo do açúcar (ABIA, 1999). Neste período a concentração da produção se situava basicamente no Rio de Janeiro e na região Nordeste do país. Somente após a independência, em 1822, é que começaram a surgir plantas industriais, envolvendo a extração de óleo comestível do caroço do algodão e, posteriormente, do beneficiamento e moagem de cereais, laticínios e bebidas (principalmente alcoólicas). De acordo com a Associação, provém de 1907 o primeiro levantamento industrial realizado em terras brasileiras.
Naquela época, contabilizaram-se 87 estabelecimentos produtores de massas alimentícias, 199 (cento e noventa e nove) de açúcar, 4 (quatro) de massas de tomate e 1 (uma) de amido de milho, dentre os quais, com exceção da produção açucareira, já se verificava uma concentração industrial na região Sudeste do país (ABIA, 1999)
Os últimos trinta e cinco anos (1963-1998) indicam que a indústria de alimentação não parou de crescer – sua produção industrial aumentou em média 4%
ao ano, ampliando em três vezes e meia o tamanho do setor (ABIA, 1999). O bom desempenho do setor, entre outros fatores, é atribuído basicamente a estes três: a taxa de crescimento da população, ao aumento da renda percebida e o processo de urbanização nos grandes centros econômicos (ABIA, 1999).
Tendo por base os estudos de Belik (1995), Guarido Filho (2000) acrescenta que a partir deste momento, dois fatores são responsáveis pela transformação da dinâmica da indústria de alimentação brasileira: (i) a emergência de uma política de exportação de produtos agrícolas semi-processados e manufaturados e (ii) a consolidação de um padrão de consumo interno tipicamente urbano. Alguns dados apresentados por Guarido Filho (2000) ilustram esse processo: no período, o país elevou a participação de produtos processados, como carnes processadas, óleo e farelo de soja, suco de laranja na exportação, deixando de lados a posição de exportador de produtos primários não industrializados, ou simplesmente commodities, como o café. Além disso, constatou-se que ao longo desses anos aflorou uma predominância do consumo interno de alimentos industrializados, independentemente da classe de renda.
A expansão das empresas agro-industriais nos anos 70 resultou em sua consolidação nos anos 80 – a indústria passou de abatedora, produtora de açúcar e
beneficiadora, para uma indústria com maior elaboração tecnológica (BELIK, 1995;
ABIA, 1999). Nesse período, internamente, a tendência de aumento na participação de produtos com maior valor agregado se manteve, embora o período tenha sido marcado pela recessão interna, favorecendo produtos com menor exigência de renda para a compra, aqueles com baixa elasticidade-renda. Ao longo da chamada
“década perdida”, o setor acompanhou o crescimento vegetativo da população, 1,9%
ao ano, taxa bem menor que nos anos anteriores, porém acima da média da indústria de transformação que, por sua vez, teve uma variação negativa em torno de 2% no período (ABIA, 1999; CARMO, 1996).
Com base nos estudos de Carmo (1996), Guarido Filho (2000) apresenta que nos primeiros anos da década de 90, a indústria de alimentos viu seu faturamento líquido decrescer a taxas nunca imaginadas. A redução de 12,6%, em termos reais, menor taxa histórica do setor, alertou os produtores. A indústria alimentícia, embora seja considerada por muitos como estratégica no crescimento econômico, já que acompanha o aumento da população, estando resguardada de oscilações bruscas, não está completamente alheia à instabilidade econômica (ABIA, 1999, CARMO, 1996). Diante disso, a crença na necessidade de modernização do setor começa a ser definida.
Foi com o processo de abertura para o mercado internacional e a necessidade de adaptação aos novos padrões de qualidade e produtividade que se agravou a preocupação com os ganhos em eficiência e melhoria da competitividade, reforçando a criação de programas de reestruturação das empresas do setor produtor de alimentos (SATO, 1997a; ABIA, 1999). Esse processo de ajuste não foi exclusivo do setor; pelo contrário, reflete um movimento generalizado de toda a indústria de transformação em remodelar não somente seu plano produtivo como também o financeiro. Como resultado, após alguns anos de recessão, em 1993 o crescimento industrial volta a deixar sua marca (SATO, 1997a). Ainda nesse período, constata-se aumento significativo das exportações do setor – 71% entre 1990 a 1996 – indicando que a conquista de mercados externos se infiltrou como estratégia alternativa para o destino da produção, incentivando os investimentos no setor (ABIA, 1999). Finalmente, esse processo de reestruturação do setor também ocorreu sob a forma de aumento na concentração industrial no setor, cujo objetivo, neste momento, foi o de aumentar a escala de operação, visando a ganhos de produtividade e redução de custos fixos.
Atualmente, a indústria alimentícia continua em processo de mudança. A estabilização econômica, depois do Plano Real, abriu espaço para que as empresas nacionais aumentassem seus esforços em capacitação para a competitividade. Por outro lado, a melhoria do ambiente interno com o controle da inflação, elevando a renda real dos consumidores, contribuiu para a entrada de diversas empresas no país (GUARIDO FILHO, 2000).
Tendo por base os estudos de Capozoli (2000a) e Capozoli (2000b), Guarido Filho (2000) observou que a estabilidade no patamar dos juros, a melhoria do poder aquisitivo por meio de programas governamentais como os repasse de renda e expansão do volume de crédito na economia são os principais fatores apontados por analistas, os quais podem ter favorecido a viabilidade deste incremento na produção para a indústria de alimentos brasileira.
Neste contexto para Guarido Filho (2000) é plausível afirmar que a indústria alimentícia, segundo Carmo (1996), está passando por uma grande revolução, um verdadeiro salto qualitativo em relação aos beneficiamentos e transformações por que passaram os produtos agrícolas, implicando hoje em uma maior elaboração, acrescida de outros processamentos onde se sofistica e inova o produto.
Em termos gerais, para Guarido Filho (2000), o setor de alimentos no Brasil flutua neste enquadramento:
• Possui papel estratégico, enquanto “colchão amortecedor” das oscilações econômicas (CARMO, 1996). De acordo com Sato (1997b), este tipo de indústria, “por se tratar de bens de consumo essenciais, apresenta menos sensibilidade às oscilações conjunturais da economia. Em fase de expansão, cresce a taxas maiores que a da indústria total de transformação e, em períodos de recessão sofre menos impactos nas taxas de crescimento”. Dessa forma, contribui positivamente para o crescimento da economia brasileira, amenizando as oscilações em períodos críticos (ABIA, 1999).
• Acompanha os movimentos da estrutura do mercado brasileiro, principalmente, aqueles decorrentes do processo de urbanização e do próprio crescimento vegetativo da população (VIGLIO, 1996).
• “É um setor de grande impacto social e indicador de melhoria na capacidade de consumo dos estratos inferiores de renda” (SATO, 1997b). Nesse
sentido, destacam-se aqueles produtos cujo consumo cresce com a renda, como laticínios, conservas, derivados do cacau e outros, além daqueles com baixo valor agregado, tais como cereais, café e açúcar. Esses tipos de produtos tendem a aumentar sua participação no mercado na proporção em que há aumento da renda real, crescimento do emprego e melhoria na distribuição de renda no país (SATO, 1997a). A melhoria do poder de compra das classes D e E, nos anos posteriores a implantação do Plano Real serve como exemplo do potencial de consumo decorrente de uma maior e melhor distribuição de renda (TROCCOLI, 1996; PAULA, 1997).
• Tecnologicamente, caracteriza-se por promover um desenvolvimento muito mais adaptativo do que inventivo (ABIA, 1999). Fator que, apesar dos avanços e esforços dispensados nos últimos anos, ainda deixa o setor em uma situação de defasagem na competição pelo mercado internacional (CARMO, 1996). Outras características, apontadas por Carmo (1996) revelam que a maior parte da tecnologia do setor é importada, sendo quase exclusivas das grandes plantas industriais.
Segundo dados do Anuário da ABIA (2010) apesar da crise que afetou de forma clara a economia do mercado internacional neste início de século, derrubando importações e encomendas, o aumento dos negócios do mercado interno permitiu que à indústria de alimentos registrasse, em 2009, um significativo crescimento em faturamento, levando em consideração este atual momento: 3,09% a mais que o ano de 2008. No decorrer do período, cita o relatório, a indústria de alimentos acumulou um faturamento de R$ 291,6 bilhões, onde se destacou o crescimento acentuado do segmento de bebidas, com um acréscimo de 10,2%. Já o mercado de produtos alimentares, o índice de expansão alcançou 2,3% sobre a produção do ano anterior.
Destaca ainda o Anuário ABIA 2010 que, embora o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro tenha acusado uma pequena queda em 2009, os fabricantes de alimentos exibiram sua competência em aumentar o volume de produção em 1,6%
sobre o ano de 2008. Elevaram também as vendas que cresceram 3,06% neste período. Sendo o terceiro índice acima de 3% registrado nos últimos quatro anos.
Atualmente, segundo o Anuário da ABIA (2010), o setor industrial de alimentação envolve um universo de aproximadamente 38,5 mil empresas (sendo
que 94,7% dos estabelecimentos industriais são formadas por micro e pequenas empresas) as quais são responsáveis por mais de 1,44 milhões de empregos diretos, montante que pode ser triplicado, considerando seus efeitos indiretos.
A produção industrial do Paraná avançou 14,2% em 2010 e alcançou o melhor resultado desde 1992, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou o levantamento regional. O índice, que está acima da média nacional (10,5%), é o quinto melhor entre as 14 regiões pesquisadas pelo Instituto. Dentre os setores com resultado positivo destacam-se veículos automotores (57,6%), mobiliário (28%), edição e impressão (26,7%), máquinas e equipamentos (24,5%), produtos de metal (21,6%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (10,9%), bebidas (10,6%), madeira (10%), alimentos (8,3%), celulose, papel e produtos de papel (5,3%), borrachas e plásticos (5,3%), e minerais não metálicos (5,2%). De acordo com Fernando de Lima, pesquisador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), o resultado anual do Paraná mostra uma forte recuperação da indústria em relação à crise do ano anterior, promovida tanto pela expansão interna, decorrente do aumento da renda e da oferta de crédito, quando pela retomada das exportações (IPARDES, 2011). Esta exposição buscou considerar alguns aspectos que ilustram o contexto da indústria produtora de alimentos no Brasil, de modo a caracterizar, de forma mais abrangente o ambiente macroeconômico na qual ela evoluiu e atualmente está inserida.
Consideraram-se como fontes de pesquisa: livros, artigos de jornais, revistas e da internet, específicos sobre o setor, além de relatórios setoriais confeccionados por reconhecidas instituições nacionais, como o relatório anual elaborado pela ABIA em 2010 e pelo IPARDES em 2011.