Humberto da Silva Miranda1 RESUMO
Este artigo objetiva debater a relação entre a cidade e o “viver a infância” a partir da preocupação de como foi construída, historicamente, a noção de criança cidadã. Tendo como foco o âmbito da rua, buscar-se-á discutir como esses espaços se tornaram, ao longo do século XX, cenários das mais diferentes formas de sociabilidades nas cidades. As ruas como espaço de brincadeiras e de conversas tornaram-se locais de moradia, de trabalho e até de exploração sexual.
Mas como o Sistema de Justiça brasileiro produziu dispositivos legais a fim de garantir o direito das crianças viverem o espaço urbano? A partir desta pergunta, analisaremos como o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária produziram o discurso sobre o direito da criança viver a cidade.
Palavras-chave: Infâncias, cidade, História
ABSTRACT
This article aims to discuss the relationship between the city and the "live the childhood" from the concern of how was historically constructed the notion of citizen child. Focusing on the street pace, we will try to discuss how these spaces became, throughout the twentieth century, scenarios of the most different forms of sociability in the cities. The streets as spaces for games and conversations have become places of housing, work and even sexual exploitation. But, how did the Brazilian Justice System produce legal provisions to guarantee children's right to live in urban space? Based on this question, we will analyze how the Statute of the Child and Adolescent and the National Family and Community Coexistence Plan produced the discourse on the right of the child to live the city.
Key words: Childhood; City; History.
PONTO DE PARTIDA...
A errância, multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma imensa experiência social da privação de lugar — uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis (deslocamentos e caminhadas), compensadas pelas relações e pelos cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um tecido urbano, e postam sob o signo do que deveria ser, enfim, o lugar, mas é apenas um nome, a cidade (CERTEAU, 1994, p. 230).
Ao pensar a cidade, o historiador francês Michel de Certeau nos faz refletir como este espaço físico
148 e social pode ser visto a partir da
experiência humana. Portanto, aprendi com Certeau que, para analisá-la, é importante concebê-la a partir da “errância”, ou seja, da caminhada sem destino, pois o sentido que podemos produzir sobre a cidade pode partir das diferentes andanças.
É na cidade que muitas histórias são vividas, trajetórias são construídas e conquistas são alcançadas. É no espaço citadino que as pessoas sobrevivem às mais diferentes adversidades, produzindo, muitas vezes, memórias de dor e trauma. Nesse sentido, a cidade é o espaço onde as experiências humanas são praticadas, assim afirma Certeau.
No Brasil, os núcleos urbanos se configuram de forma mais intensa a partir da segunda metade dos oitocentos, sendo o século XX um período fortemente marcado pelo crescimento das cidades e pelos desdobramentos que impactaram diretamente a vida social da população. Para a pesquisadora Lúcia Lippi Oliveira,
A intensa urbanização que se iniciou no Brasil no final dos anos 50 começou a apresentar seus efeitos já nos anos 60. O crescimento de áreas metropolitanas, a ampliação da rede urbana e o aguçamento de seus problemas, entre eles a marginalização de enormes
segmentos pobres da população, marcam as últimas décadas do século XX (OLIVEIRA, 2002, p.10).
A explosão demográfica ocorrida na década de 1950 e 1960 deve ser entendida a partir do crescimento industrial e outros fatores econômicos. Contudo, não pode ser analisada distante da reflexão dos problemas sociais gerados (que ainda hoje persistem) e das contradições.
Por outro lado, as cidades ainda são marcadas pelo fascínio da urbe, construído na modernidade. De acordo com Oliveira, “a cidade continua a exercer grande atração entre as populações que para ela se dirigem em busca de novas oportunidades de vida. Dados recentes do IBGE indicam que mais de 80% da população brasileira vive hoje em cidades” (OLIVEIRA, 2002, p.10).
Mas como esses espaços urbanos são pensados pelas diferentes pessoas que neles circulam? Homens e mulheres, idosos e crianças. Será que a lógica urbana vem sendo pensada para acolhê-los?
Este trabalho se pautará, portanto, na preocupação de como as cidades tornaram-se palco para a circulação das crianças no Brasil, tendo como foco a problematização na qual foi construída historicamente a ideia do direito das crianças viverem a cidade.
149 É bastante comum ouvirmos
dos mais vividos as memórias das brincadeiras de rua e das mais diferentes formas de sociabilidade nesses espaços. Era no brincar que as crianças exerciam a sua cidadania. A historiografia da infância registra que o século XX foi marcado pelas mudanças significativas no mundo urbano, de modo que este deixou de ser reservado para as experiências cidadãs e tornaram-se locais de negação da infância, uma vez que eles passaram a se inserir no mundo do trabalho, da mendicância e até do abandono familiar.
A rua será um espaço privilegiado nesta reflexão. O objetivo é debater a cidade a partir das ruas, uma vez que elas possuem importância fundamental nas configurações das cidades e até na vida de seus moradores. De acordo com Maria Stella Bresciani,
Não estranha as cidades existentes serem descritas no verbete como um conjunto de várias casas dispostas em ruas e cercadas por uma cinta comum, essas ruas, na medida do possível, fossem perpendiculares umas às outras de modo que, nas esquinas, as casas formassem
ângulos retos [...] (BRESCIANI, 2002, p.20).
Seja nos projetos urbanísticos descritos nos verbetes ou nas memórias das mais diferentes experiências humanas, as ruas não podem ser concebidas como meros espaços para circulação de pessoas ou de mercadorias. É na rua que nossas crianças e adolescentes se encontram para viver as mais diferentes experiências. Do correr ao brincar de esconde-esconde, ao correr para fugir da polícia...
As pesquisas realizadas por Fernanda Miller apontam que nos dias de hoje as crianças estão cada vez mais afastadas do mundo das ruas, pois estas se apresentam como locais de perigo, impedindo-as de viverem diferentes formas de sociabilidade nesses espaços. Para Miller,
A rua é entendida pelas crianças como oposta à casa, sobretudo por ser, na opinião delas, um espaço sujo e perigoso [...] São poucas as cidades brasileiras que apresentam vias limpas e uma hipótese menos comprometida seria de que, enquanto o privado – entendido como o familiar – é cuidado dentro de um contexto íntimo, a rua é de todos e de ninguém ao mesmo tempo e, então, não é assumida como responsabilidade coletiva e compartilhada. Isto porque a rua (pública, suja e perigosa) é contrária a casa (MILLER, 2012, p.
305).
150 A partir dessas questões,
proponho-me a debater como essas diferentes (re) apropriações da rua foram produzidas no século XX. É preciso entender como as ruas tornaram-se espaços das diferentes formas de sociabilidade e sobrevivência sobre as crianças e adolescentes, diante da dinâmica social e econômica produzida, e como o Estado buscou produzir dispositivos de controle e punição sobre o cotidiano das crianças.