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2.4 A obra como imagem de realidades existenciais

2.4.2 Holografia – Paradigma da imagem absoluta

Como verificámos, a fotografia é uma tecnologia de que os artistas se apropriaram e que se traduz por uma semelhança bidimensional e plana da realidade. Ainda que ofereça características que traduzam essa realidade, elas correspondem a uma relação equívoca, se quisermos, a uma incomunicação. A holografia, poderemos dizer, é uma amplificação das características da fotografia, de tal modo que ficam colmatadas as “deficiências” desta, ao ponto de criar confusão imagética. De facto, a tecnologia que melhor traduz a ideia de totalidade, no que diz respeito à explicitação dos registos é sem dúvida a holografia. Esta adiciona algo mais à fotografia – a tridimensionalidade e a paralaxe. A holografia, com todas as características da fotografia torna-se mais presente, envolve mais o observador, faz com que este se interpenetre na obra, de tal modo que fica a fazer parte de um jogo virtual, onde existe uma grande semelhança com a realidade retratada. Como nos diz Isabel Azevedo215, ela deixa de representar visualmente o objecto, para passar a conter toda a sua informação visual.

Durante todo o século XX, a arte “evoluiu” e enveredou por caminhos que privilegiam a interactividade. Não se estranhe, por isso, que alguns modos de representação tenham cimentado uma posição fundamentalmente direccionada para a participação do público. A holografia é uma dessas artes mediáticas que propicia ao receptor da obra um permanente envolvimento espacial, não pela duplicação, mas antes pela mimesis da informação visual e espacial da realidade primeira. As representações holográficas evocam a referência a uma qualquer realidade, por tradução literal e unívoca dela mesma. A holografia tridimensional regista ou “escreve” toda a realidade, porque capta toda a informação existente na luz no momento do registo.

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AZEVEDO, Maria Isabel – A luz como material plástico. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2005. Tese de Doutoramento em Estudos de Arte apresentada ao Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. p. 101.

Ao longo dos anos, a arte foi-se transformando. As mudanças sócio-históricas, as diversas alterações do conhecimento e as inovações tecnológicas são factores que contribuíram para que os modos de percepção das obras se alterassem. A holografia artística e os modos de a entender são um exemplo dessas modificações. As formas de ver a matéria, o tempo e o espaço mudaram simultaneamente com ela. Estas novas mudanças, sobretudo os novos tratamentos do tempo e espaço, colocam a holografia no topo da representatividade imagética. As grandes semelhanças, entre a realidade primeira e a sua representação são fruto de um medium tecnológico que permite uma total correspondência entre uma e outra.

A holografia, descoberta em 1948216, apenas se desenvolveu plenamente após a descoberta do laser. Então, rapidamente foi testada como uma aplicação, sendo um novo

medium para uso em criações artísticas. Inicialmente, as imagens holográficas eram muito

coladas à realidade do objecto, mas rapidamente se autonomizaram, desenvolvendo vários tipos de propostas, conforme a sensibilidade de cada artista, tal como acontecia com as outras tecnologias e materiais. Hoje, a holografia adquire uma nova importância, pelo que podemos dizer que, com ela, também surgiu um novo conceito plástico. De facto, muitos são os artistas que experimentaram esta tecnologia e com ela concretizaram um novo registo da realidade. Por outro lado, convirá não olvidar que o fruidor desempenha um papel cada vez mais importante nos processos de criação, colocando questões sobre o artista e a natureza da obra. Desvanecem-se estéticas obsoletas, propagando-se, em contrapartida interfaces tecnológicos, que fazem uso de circunstâncias sensoriais e extra- sensoriais, em processos multidiversificados, onde a emoção e as significações são altamente realçadas.

A realidade é sempre o ponto de partida para qualquer criação artística e, na holografia, esta realidade acaba por ser espelhada na obra. Por esta razão podemos dizer que a holografia é um registo “total” da realidade. Registo, porque fixa, numa placa emulsionada, de alta resolução, as franjas de interferência resultantes de feixes da mesma frequência e coerentes217; e “total”, porque o resultado desse registo corresponderá a uma tradução mimética e plurívoca da realidade que lhe deu origem. É esta “totalidade” que

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Denis Gabor (1900-1979) foi em 1948, o inventor da holografia, mas esta só foi desenvolvida na década de 60, graças à descoberta do laser.

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A luz libertada pelo laser é “coerente”, ou seja todos os fotões do mesmo movem-se de forma organizada, paralelamente e na mesma direcção, e com um único comprimento de onda, i.e., uma única cor.

propicia ao fruidor um envolvimento constante com a obra. Poderá esse registo consubstanciar-se num processo de comunicação? Afinal, esse registo é o resultado diametral e fiel de uma dada realidade e explicita essa realidade convincentemente. Se a linguagem escrita e oral permite irrefutavelmente a comunicação, não menos verdade é o facto de elas serem equívocas. Ora, dadas as grandes semelhanças que a holografia possui com a linguagem, visto que também ela “fala”, também carrega uma enorme carga ambígua, poderá parecer paradoxal o facto de simultaneamente a considerarmos equívoca e inequívoca, mas de outro modo não seria possível. Uma coisa é a sua essência e outra será a sua aplicação contextual e artística. Considera-se, pois, que a “comunicação” é confirmada pela transmissão inequívoca das suas características, mas a relação dessas características entre si e entre estas e o fruidor é inevitavelmente uma relação equívoca. Não podemos esquecer que, não obstante a holografia ser uma representação exacta da realidade, ela não é essa realidade, o que permite concluir que a delimitação218 da sua representação olvida algumas características, sejam elas físicas ou meramente de outra ordem.

O plano da obra expressa-se, não de forma equívoca, mas antes como uma duplicação da realidade, incorporando todas as suas características. Para Rosa Oliveira «(…) olhar para um holograma é como ver um objecto através duma janela, de maneira que a sugestão do espaço pode ser interpretada como se da realidade se tratasse»219. Cria- se, pois, uma mimesis de toda a informação visual e espacial da realidade primeira, uma espécie de palimpsesto imagético onde, num determinado suporte, encontraremos uma sucessão de elementos que narram a objectualidade física da realidade/tema, como se de um texto que existe sobre outro texto se tratasse. Não se trata, no entanto, de prostrar a realidade primeira, mas sim de lhe dar outro sentido existencial. Caso contrário, estar-se-ia a criar processos documentais e não artísticos.

É nesta transliteração que o efeito de uma possível comunicação se perde, porque, se um ponto na realidade corresponde a um ponto representado, esse mesmo ponto corresponderá a múltiplas formas dentro de cada um de nós. Por isso, dentro do efeito

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O holograma embora fiel é uma representação parcial da realidade, isto se tomarmos em consideração, que para além da realidade representada existem outras realidades. A realidade física circundante, ou a sua contextualização escapam à sua representação. Pode então falar-se de uma delimitação.

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OLIVEIRA, Rosa Maria – Pintar com luz – Holografia e criação artística. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2000. Tese de doutoramento em Design apresentada ao Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. p. 57.

especular, toda a tradução literal da realidade submete-se a novas interpretações, auxiliadas por processos “transartísticos”, se quisermos na linguagem de Genette, “transtextuais”220 (fig. 20). Com efeito, a holografia artística só existe pela sua artisticidade, quer dizer, pelas características que a tornam obra de arte – uma paraexistencialidade. Neste contexto, a relação dos vários elementos inerentes à sua criação, favorecem a sua interpretação. A obra estará portanto sustentada e alicerçada por um rol de elementos assessórios, alguns dos quais lhe são exteriores e a ajudam a correlacionar-se no contexto em que se encontra. Por outro lado, são as suas características de amplitude, comprimento e fases de ondas electromagnéticas (a luz) que argumentam em favor de uma mimesis, evidenciando um complexo jogo de relações que, por sua vez, permitem a evidência de diversos momentos espaciais. Tal só é possível porque, de facto, cada ponto do objecto impressiona toda a placa e cada ponto desta é uma visão de conjunto. A quadrimensionalidade criada é um prolongamento da realidade primeira. Criam-se vários momentos em que se desenvolvem quatro dimensões: o “antes”, o “agora” e o “depois”. Este, por sua vez, inclui os diversos pontos de vista, que sucessivamente se vão alterando com a deslocação do fruidor. Todos esses momentos se complementam e correlacionam mutuamente.

Fig. 20 | Esquema de transtextualidade artística da holografia.

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cf. GENETTE, Gérard – Palimpsestes – La littérature au second degré. Paris: Seuil, 1982. (poétique). pp. 7-14. cf ainda, MARTINEZ, Elisa – O sistema das exposições de arte e seus modos de transtextualidade. In CONGRESSO BRASILEIRO DE CIENCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30, Santos. “Mercado e comunicação na sociedade digital”. [Actas em CD-ROM]. Santos: Intercom [Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação], 2007. ISBN 978-85-88537-26-6. Também disponível em versão Postscript em: <URL:http://www.adtevento.com.br/intercom/2007/resumos/R1058- 1.pdf>.

Se os cubistas pretendiam a representação do objecto na sua total dimensão, a holografia vem concretizar tal desiderato. Trata-se de uma realidade directamente relacionada com a realidade segunda. Esta relação (hiperexistencialista) é digamos, a maior evidência da holografia 3D, visto que ela abandona a alusão às tradicionais técnicas artísticas e passa a ser uma “ilusão”, uma vez que corresponde à realidade primeira de forma absoluta, mas nunca chega a sê-lo. Ela “narra” e “fala” sobre a primeira realidade, sobre os seus conteúdos, sobre aquilo a que corresponde. A holografia já não se apoia apenas sobre um medium, mas sobre um processo em constante acção.

Saliente-se ainda, o facto desta sequência, que vai da realidade primeira até à obra de arte, passando pelos vários processos que legitimam a holografia como obra de arte, apenas ficar completa após a efectivação dos seus elementos exteriores (tais como as referências à obra) e após o cumprimento da similitude entre a realidade primeira e a realidade segunda. No fundo, entre realidade primeira e obra de arte (imagem holográfica), encontra-se a representação da realidade primeira (holograma), que só será efectivada como obra de arte após a observância desses factores.

São as ínfimas partículas de emulsão, a amplitude, comprimento e fases de ondas electromagnéticas (a luz) e no registo de microscópicas ondas de interferência luminosas, que é formada a nossa racionalidade à realidade segunda e são estes factores, que permitem extrair a realidade física, para mudar virtualmente de espaço e de tempo, desvendando literalmente a realidade segunda. É devido aos factores informacionais do holograma que temos acesso à realidade primeira, jogando com o tempo e o espaço. Ainda que o suporte seja físico e facilmente visível, este desaparece estreitando o laço entre o espaço e a representação e entre esta e o fruidor.

Esta realidade virtual criada pela holografia suscita uma interacção com o tempo e espaço, permitindo-nos deduzir novas e diferentes concepções estéticas, segundo as diferentes modalidades holográficas, e por conseguinte incrementar novas razões taxionómicas. Analisar a holografia será antes de mais apreender a realidade primeira e racionalizá-la, criando uma equiparação biunívoca. Questionar uma realidade sintética (no sentido de artificial) é, antes de mais reconhecer a amplitude sígnica da realidade primeira e promover a sua especulação, no sentido do apuramento do seu verdadeiro significado estético/holográfico. A posição do fruidor será claramente orientada por estas relações de

dicotomia, uma vez que a realidade primeira se desdobra e adquire uma nova extensão que, embora semelhante, pertence ao domínio da significação.

A totalidade de informação, que a representação holográfica oferece traduz-se num paralelismo conivente com a realidade primeira e logicamente submete-se à pluralidade de significações por partes dos fruidores. Se bem que estas novas concepções possam evocar a referência à realidade primeira correspondente, existirão contudo diversas interpretações da obra, em virtude do absoluto desconhecimento da realidade primeira, inviabilizando pois a conotação desta com uma possível comunicação. Portanto, o fruidor apreende, explora e formula novas significações. Note-se que a descrição da realidade primeira levada a cabo pela holografia é igualmente possível nas atitudes mais actuais e abstractas, em que a realidade primeira (o objecto) tem origem nas interferências de ondas de luz. Porém, poderá não ser identificável uma directa relação entre esta realidade e representação holográfica. Nestes casos, a tradução linear mantém-se, mas perde-se a informação que complementa a realidade primeira e, consequentemente, a fruição dispersa-se. Amplia-se a equivocidade, a compreensão distorce-se e a fruição resulta apenas da transmissão das características físicas da obra, do puramente visível. A pluralidade de opiniões aumenta e a obra enriquece-se.

Estaremos com certeza a evocar momentos de compreensão e de “diálogo” e, entre a natureza objectiva invariável e a factualidade espaciovectorial, de uma representação tridimensional. Esta técnica é um registo de imagem virtual idêntica à realidade, com a mesma paralaxe existente quando se vê um objecto real, sem haver necessidade de recorrer a nenhum auxiliar da visão. Questionar uma realidade sintética será paralelamente criticar o que lhe deu origem na sua total dimensão e levar a descobrir a possível posição do fruidor perante um mundo que, não sendo imaginário, pode ser especulativo de uma realidade imaginária, em virtude do absoluto desconhecimento dessa mesma realidade. Na verdade, a holografia é uma nova realidade que o sujeito fruidor apreende e explora, formulando novas significações, igualmente paralelas à realidade primeira, mas sempre diferentes desta, só assim se compreendendo a sua artisticidade.

A holografia, enquanto teatro da realidade, é nos dias de hoje o maior paradigma da imagem absoluta. Na sua acepção etimológica, ela “escreve tudo”, é portanto o registo de uma infinidade de interferogramas, indo criar uma interacção, seja num mundo que simula a realidade, seja num mundo simbólico ou imaginário. É nesta relação de dependência, em

que uma realidade descreve a outra, e na multidimensionalidade do espaço e do tempo, que a obra se enobrece.