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CAPÍTULO VII
Gabinete São Vicente (1870-1871)
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É preciso dizer a verdade ao país, e é que nesta questão nos achamos todos confundidos. Se a princípio havia conservadores opostos à ideia, tam-bém do lado liberal os havia, e muitos. Cumpre mesmo reconhecer que tal-vez os primeiros passos para a solução desta grave questão partissem dos conservadores e não dos liberais.
Decerto São Vicente não precedeu a Jequitinhonha, Silveira da Mota, Tavares Bastos, mas São Vicente representava um partido, era uma força governamental, e, se é impossível dizer, se foi antes dele, com ele, ou de-pois, logo depois dele, que despertou, sob o mesmo influxo da opinião, e da guerra, a consciência do Imperador e a do governo, em 1866, de homens como Nabuco, Saraiva e Zacarias, ele terá sempre a honra de ter sido o primeiro dos nossos homens de governo que na questão dos escravos tentou e conseguiu mover o nosso mecanismo político todo – Imperador, Conselho de Estado, mi-nistério – de ter sido o primeiro a formular o conjunto de medidas que desen-raizou a escravidão do nosso solo em 1871.
O Imperador, com o espírito de justiça a que era propenso, desejava que a primeira lei de abolição fosse executada pelo estadista que iniciara a ques-tão em 1866; sabia que Itaboraí não aceitaria nunca um projeto que satis-fizesse a ele, e para substituir o gabinete não via senão São Vicente com o grupo de conservadores moderados que Nabuco assinalara da tribuna do Senado. Dar-se-á, com efeito, uma singular coincidência
105entre a organi-zação São Vicente e a indicação de Nabuco no seu discurso de 12 de julho.
Nesse discurso, Nabuco, como vimos, indicara São Vicente, Torres Homem, Bom Retiro, Três Barras, Teixeira Júnior e o seu grupo,
106e era este o
gabi-105 O órgão radical, já republicano, Opinião Liberal, em 1º de outubro de 1870, aludia a essa coincidência: “O Sr. D. Pedro II, cujo fraco é contentar a oposição, humilhando aqueles a quem confia a suprema gestão do seu Império, quis cortejar a oposição do Senado or-ganizando o gabinete indigitado pelo Sr. conselheiro Nabuco em um dos seus notáveis discursos. Então o ilustre conselheiro figurara, como coisa tolerável, um governo com-posto dos Srs. São Vicente, Três Barras, Sales Torres Homem e Bom Retiro. O Sr. D. Pedro II agarrou-se às palavras do Sr. conselheiro Nabuco, e acaba de nomear ministros os Srs.
São Vicente, Três Barras, e Sales Torres Homem. Quanto ao Sr. Bom Retiro, S. M. reserva-o para sucessor dos precedentes, e oportunamente mediador entre estes e o Sr. Zacarias.”
106 O grupo que Teixeira Júnior reuniu em maio e 1870 para pedir a nomeação de uma comis-são especial encarregada de dar parecer com urgência sobre as medidas que julgasse conve-niente adotar-se acerca da importante questão do elemento servil no Império, compunha-se, além dele, de Pereira da Silva, Ferreira Viana, Junqueira, João Mendes, Ângelo Tomás do Amaral, Souza Reis, Cândido Torres, Lima e Silva, Duarte de Azevedo, Perdigão Malheiro, Paula Toledo.
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nete formado por São Vicente, que não consegue a entrada de Bom Retiro:
ele, na presidência do Conselho e em Estrangeiros; João Alfredo, Império;
Três Barras, Justiça; Sales Torres Homem, Fazenda; Pereira Franco, Marinha;
general Câmara (visconde de Pelotas), que não aceita, depois Araújo Lima, deputado pelo Ceará, Guerra; Teixeira Júnior, Agricultura. Nem Nabuco ao fazer aquela indicação recebera uma revelação de São Cristóvão por algum amigo íntimo do Paço, como Bom Retiro ou o mesmo São Vicente, nem o Im-perador e São Vicente formaram esse gabinete por indicação de Nabuco.
A indicação de Nabuco resultara somente da sua observação exata da mar-cha do Partido Conservador para a emancipação, dos homens que a dirigiam, da constância do Imperador, e o gabinete, por sua vez, resultava dos fatos observados. A desagregação do partido da estabilidade e da resistência pela força da ideia abolicionista, por sua natureza radical, tinha que obedecer a leis certas e positivas. O que Nabuco fez em julho foi prever a sua aplicação de modo preciso.
São Vicente, porém, não era o homem próprio para a delicada missão de que se incumbira; era um publicista, um diplomata de valor, um homem de Estado, mas não tinha a resistência que a luta parlamentar exigia, nem a faculdade de impor-se e de dirigir. Logo no primeiro esboço do seu ga-binete revela perplexidade: vê disputarem-lhe a direção. São Lourenço, a quem convidara e que sacrifica, quer ditar-lhe o programa ministerial; Três Barras entra para o gabinete somente para frustrar a reforma; os epigra-mas da Reforma, órgão liberal, onde neste tempo aparece Joaquim Serra,
107107 Joaquim Serra é, na Reforma, durante o decênio conservador, a vida do jornalismo libe-ral. De certo modo, foi ele o criador da moderna imprensa política; ele, quem tornou o espírito a primeira qualidade do jornalista. A pena, entretanto, com que escreve não a embebe, ele, em fel; não fere, nem tira sangue; o seu gracejar é espontâneo, quase im-pessoal; não só ele é sempre o primeiro a rir-se do que diz ou escreve, como os que põe em cena riem-se francamente do cômico que ele lhes empresta. É um Meilhac político;
compõe com os assuntos do dia burlescos tão inofensivos para os personagens que neles aparecem como La belle Héléne para os gregos ou La Grande Duchesse para as pequenas cortes da Alemanha. De fato, é a época de Offenbach, e Serra, como toda a geração con-temporânea, tem o espírito saturado de Alcazar. O que ele faz na Reforma é um grande carnaval político, à moda do carnaval mitológico de Orphée aux enfers. A voga dos seus Boatos é grande; o que se aprecia nele é a verve, a facilidade, o bom humor da carica-tura; bem poucos são os que preferem a essas “bufonerias” inocentes a naturalidade do escritor, que ainda escreve a língua de João Francisco Lisboa. Esse foi, porém, o primeiro Joaquim Serra (ou melhor, o segundo, o da Reforma, porque o primeiro fora o poeta de Um coração de mulher, arrebatado pelo jornalismo e pela política), o de 1868-1878, o da época em que a vida não tinha para ele um objetivo, em que o caráter político estava ainda
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tiram-lhe o gosto de governar, tão superficial era em sua natureza a ambição da primazia; e não só ele compõe um gabinete que o não acompanha, como compõe, sem necessidade, um gabinete todo ele desunido. Para a campanha da emancipação, a primeira condição do ministério era ser homogêneo; a segunda, ter o ânimo de existir. O gabinete São Vicente, porém, não tinha nem fôlego, nem vontade de viver. Nas primeiras conferências, viu-se bem que nesse gabinete, organizado para a emancipação, o organizador tinha pensado em tudo, menos no fim para o qual o formara. Logo na apresentação às Câmaras, Três Barras e São Vicente mostravam-se em desacordo, as reti-cências do primeiro modificavam ainda mais a dúbia alusão do presidente do Conselho à reforma do elemento servil.
108A imprensa ultraconservadora, para designar assim a dissidência que a questão dos escravos opera no partido, entre os amigos e os adversários da reforma, assinala desde logo a origem suspeita da nova política. O mesmo jornal, que dois anos antes denunciava como facciosa a linguagem dos chefes liberais falando do Poder Pessoal, faz aparecer na cena política, por trás de São Vicente, a sombra do Imperador.
109É a terceira ou quarta vez no reinado, levando em conta a Maioridade, que o partido dos velhos monarquistas se queixa da intervenção indébita do Imperante: 1840, 1844, 1863, 1870; por que não acrescentar 1853 – a Conciliação?
A omissão [dizia o Diário do Rio, em 2 de outubro] do elemento servil no discurso da abertura do corpo legislativo em 6 de maio do corrente ano deu rebate no campo dos adversários do gabinete e serviu de tema a investidas
sem condensação, disperso pelo vasto campo da sensação, da curiosidade, do prazer, do desenfado. Em 1879 é que começa – e em 1888, 29 de outubro, acaba – o outro Serra, figura resplendente na história da abolição, pela seriedade, constância, sacrifício e heroísmo do seu incomparável combate de 10 anos, dia por dia, até a vitória final de 13 de maio. Deste, porém, não cabe aqui falar.
108 “O país demanda, sem dúvida, algumas medidas ou reformas muito importantes.
Especializarei as que se referem ao elemento servil e à melhor administração da justiça.
A primeira exige uma solução prudente, previdente, que procure compor e harmonizar os valiosos interesses que nesse assunto estão incluídos. A segunda decide de valiosos direi-tos que não estão bem garantidos. Envidaremos os nossos esforços para coadjuvar a tare-fa legislativa.” (sessão de 30 de setembro)
109 Como referência à parte que o Imperador possa ter tido na atitude assumida por São Vicente e no programa ministerial, tem particular interesse um documento por ele redi-gido para uso do presidente do Conselho, no dia mesmo da organização, e cujo autógrafo me foi obsequiosamente comunicado pelo Dr. Oliveira Borges, genro do marquês. Nota O.
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de alguns dos próprios aliados. A ninguém era estranho que o ministério, nesse ponto, tinha contra si uma respeitável e decisiva opinião: desde então começou a circular a ideia de mudança do gabinete, e alguns fatos vieram confirmar que havia trabalho para que tal resultado se verificasse, encer-rada a sessão. Ora, tais circunstâncias não podiam deixar de enfraquecer e de fato enfraqueceram, o gabinete. Se essa foi uma das causas de sua reti-rada, seria o caso de aprovar o seu procedimento, sem contudo poupar-lhe a censura de ocultá-la. O que desde maio se propalava realizou-se em setem-bro; o Sr. visconde de São Vicente foi o sucessor do Sr. Itaboraí, e apresenta como a primeira reforma de que se há de ocupar a do elemento servil.
A influência do Imperador era tanto mais visível na organização, quanto o ministério, pretendendo avançar na questão dos escravos que o Imperador tinha a peito, francamente retrocedia na da eleição direta, que ele não que-ria. O Imperador, adiantado, radical às vezes, em matéria de escravidão, de instrução, nas questões religiosas ou sociais, enquanto a matérias políticas, a tipos constitucionais, como o da eleição indireta, era refratário; o velho Partido Conservador, pelo contrário, relativamente à emancipação era in-transigente, quanto à eleição direta, porém, dispensava até a Constituição.
O instinto lhe dizia que a propriedade territorial era a sua força e a elei-ção direta a sua garantia. São Vicente não representava bem esse instinto do antigo Partido Conservador, dos Eusébios de Queirós, dos Itaboraís, dos Uruguais, que passará ao filho deste último, o segundo Paulino de Souza; ele não era pelo partido, mas pela prerrogativa; pertencia, como Bom Retiro, a um terceiro partido, neutro, eclético, que se poderia chamar Moderador, em conformidade com os interesses, as tendências, as peculiaridades da posição do Monarca.
Por essa retrogradação em matéria eleitoral, declarando, ao contrário de Paulino de Souza, que para a eleição direta era preciso reunir uma consti-tuinte, o novo gabinete desde a sua apresentação levanta contra si o Partido Liberal, que o indicara pelo órgão de Nabuco.
Nada espero do ministério atual [escrevia este em 1º de outubro] por-que tem menos força nas câmaras para fazer as reformas, e o São Vicente é dos conservadores o mais doutrinário. Já ele disse no Senado que a eleição direta carece de reforma da Constituição, e, pois, está mais longe de nós do que o ministério passado.
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O ministério era mais moderado, afetava querer viver com a oposição;
chegara a dizer nas Câmaras, ao apresentar-se:
Na luta das legítimas opiniões políticas ou das aspirações de influência, na direção de interesses sociais, a moderação é sempre útil ao Estado, e por isso mesmo a todos. Sem ela é difícil bem reconhecer a verdade, apreciar o que mais convém. O ministério não só concorrerá para isso, mas desejaria mesmo a coadjuvação de todos os brasileiros, sem quebra de suas opiniões conscienciosas. Ele prezará os serviços feitos ao Estado, a honra e os talen-tos, onde quer que estejam ou quaisquer que sejam as ideias políticas.