Capítulo III O Desfecho de Uma Saga
17 Idem, Ibdem, p 661 vol
determinados sujeitos no caso. corno por exemplo. sobre a presença de Walter Testa em Água Limpa, que a princípio fora testemunhado por Napoleão e Veiga. Inicialmente afirmaram que Walter realmente estivera lá no Sábado, acompanhando o delegado, enquanto Geraldo Malaquias continuava a afirmar que Walter Testa jamais esteve em Água
Limpa, enquanto João Relojoeiro estava vivo. Somente nos últimos depoimentos, as falas irão se ajustar em urna única versão para os fatos.
Segundo a defesa, não é verdadeira a condenação pública de Walter Testa pela população local; que não passavam de boatos e que algumas pessoas estavam aproveitando
da condição política de que desfrutava o acusado e pretendiam com isso desmoralizá-lo
perante a opinião pública. A defesa ainda ia mais além. dizendo que Walter e sua família é
que foram vítimas de urna exploração política, visando "inutilizar" o mesmo como candidato nas eleições.
De acordo com a defesa, João Relojoeiro, após ser medicado no domingo pela manhã havia ficado fora de perigo e, somente os atos cometidos após a saída do médico poderiam ser considerados causadores da sua morte e, por isso, Walter Testa não pode ter responsabilidade nenhuma já que nesta ocasião não se encontrava na fazenda. Com estes argumentos os advogados de Walter Testa pedem pela sua impronúncia no julgamento em questão.
Este pedido é ouvido pela justiça criminal que não reconhece Walter Testa como co autor no crime de Água Limpa, sendo despronunciado em 04 de julho de 1957, de forma que, o mesmo não vai a julgamento, encerrando-se aí a sua defesa. Esta decisão foi recorrida pelo promotor de Justiça Cyro Franco em OS de julho do mesmo ano.
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Roberto Testa: Vulgo Bebé. com 40 anos de idade, casado. industrial, natural de
Batatais, São Paulo, sabendo ler e escrever, professando a religão Católica Apostólica Romana. Sua defesa é feita pelo advogado Oswaldo de Freitas.
Contra este ilustre cidadão pesa a acusação de co-participação no assassinato de João Relojoeiro, tendo ainda como agravante o fato de ter se evadido do "distrito da culpa". ficando foragido da justiça desde a morte da vítima, em 2 de setembro de 1956 até o dia 12 de novembro de 1958; ou seja, só retoma à cidade após a absolvição de seu cunhado Geraldo Malachias pelo júri popular, em 26 de maio de 1958.
No dia seguinte ao seu retomo, os advogados do acusado, Osvaldo de Freitas e Jacy de Assis, apresentam o pedido de remoção do acusado para o Hospital Santo Agostinho. que deveria ficar hospitalizado para efetuação de exames, vale dizer na mesma clínica em que esteve também hospitalizado seu irmão. O pedido foi deferido pela Justiça. O julgamento de Roberto Testa foi rapidamente agilizado, pois apesar da fuga seus advogados continuaram a dar andamento no processo, sendo julgado em 24 de novembro do mesmo ano, antes do julgamento de Veiga e Napoleão, que estavam presos em cárcere comum, desde que foi expedido os mandados de prisão. Napoleão já havia apresentado um pedido de agilização do mesmo, mas a justiça privilegiou Roberto, passando o seu julgamento à frente dos outros.
O privilégio de estar hospitalizado, mediante atestado de saúde e ainda a rapidez com que é agilizado o seu julgamento, toma-o uma exceção na morosidade judiciária, enquanto que os investigadores presos em Belo Horizonte continuaram aguardando uma data para o julgamento não desfrutando de tais regalias.
De acordo com a acusação, Roberto Testa é considerado culpado por participar ativamente de toda a ação, desde a captura de João Relojoeiro até o seu desfecho em Água
Limpa, tendo, ainda, contribuído nas agressões que ocasionaram a morte do acusado, tanto quanto os outros envolvidos.
Foi ele quem no seu carro buscou os presos, na tarde do dia 29 de agosto. A acusação faz uso das palavras de Antônio Valentino, única testemunha que esteve durante todo o tempo ao lado da vítima João Relojoeiro. refutando o álibi apresentado por testemunhos "idôneos" de amigos de Roberto, ao alegarem que na tarde do dia 29, Roberto Testa estivera na parte da tarde executando uma operação bancária e que logo em seguida saiu em pescaria com seu sócio e seu amigo Natal Feiice.
Para a acusação, o álibi se apresenta fraco, haja vista que a operação bancária ocorrera por volta das 13 horas e a diligência chegou em Água Limpa no final da tarde, de forma que daria tempo suficiente para Roberto estar nos dois lugares, e ainda retomar para a pescaria que, segundo testemunhas, teria ocorrido no final da tarde "já anoitecendo". Tal pesquisa de qualquer forma é questionáYeL pois, os amigos podiam estar comprometidos com o denunciado, no sentido de inocentá-lo. Mesmo porque a sua participação na retirada dos presos da cadeia foi comprovada, também, pelo carcereiro Filó, que diz ter entregue os presos aos investigadores e a Roberto Testa que dirigia um carro de cor clara e usava trajes de viagem, não de pescaria, sendo seguido por um carrinho pequeno, dirigido por Geraldo Malachias que tinha em sua companhia um funcionário.
Para a acusação, um outro fato que confirma a sua participação sena o seu desaparecimento do "distrito da culpa", alegando na cidade que estava em pescaria (por 2 anos e 4 meses), sendo que nem os seus familiares sabiam ao certo o seu paradeiro, configurando, neste caso, a sua fuga.
" ( . .) valendo o seu silêncio e a sua ausência como uma suspeita de comprometimento que dá côres vivas aos indícios
de uma responsabilidade no revoltante delito praticado
contra João Relojoeiro (..) "18
Conforme a acusação, a sua presença em vários lugares como no Panga, em cidades
de Goiás e no Rio Uberabinha, quando quis, neste último lugar, em um determinado
momento, atirar João Relojoeiro no rio, são evidências do seu envolvimento no crime:
"(..) que à meia noite, mais ou menos, Veiga saiu num carro com João, Antônio e Bebé, rumo ao local, onde o primeiro
alegara estar as jóias escondidas; que numa caminhonete, o
declarante {Napoleão) saiu com Tobias mais atraz, e quando chegaram na ponte, o carro de Veiga estava ali, parado; que, o declarante foi ter ao mesmo. onde lhe disseram que João
estava negaciando no tocante ao paradeiro das jóias; que Bebé, numa atitude de fúria, quis tirar o prêso de dentro do
carro para jogá-lo no rio, da ponte, tendo o declarante
impedido o desatinado ato; ( .. ) "19
São todos esses indícios que levam a acusação a pedir a responsabilidade de
Roberto como co-autor do crime de violência arbitrária, que ocasionou o homicídio atroz de
João Relojoeiro.
A defesa inicia a sua pronúncia, revelando pesar pela morte inesperada de João Relojoeiro, "cuja vida era preciosa aos interesses de todos". Esta declaração nada mais é do
11 Idem, ibdem, p. 25 vol I
19 Idem, ibdem p. 26. vol I
que uma tentativa de capturar a simpatia do júri, ajustando a imagem da vítima àquelas tecidas pela imprensa e já assumidos enquanto representação pelo povo. de homem de bem que foi morto injustamente na cadeia, culpabilizando a repercussão desse caso à exploração política de alguns interessados em denegrir a imagem da importante família Testa, que, desfrutando de uma importante posição econômica, social e política na cidade é, muitas vezes, alvo da inveja de alguns. Segundo a defesa. o que realmente ocorreu foi uma conspiração para destruir a carreira política de Walter Testa, chegando ao cúmulo de lançarem boatos de que o furto era uma mera simulação. A idéia era destruir o político Walter Testa:
(..) cujo conceito social de homem de bem e de Presidente do Sindicato do Comércio Varejista, cujo prestígio de político e vereador e cuja situação de industrial de grande projeção, naturalmente o recomendavam como um dos prováveis candidatos de seu partido a Prefeito da cidade (..) "20
A defesa para desvalorizar o testemunho de Antônio Valentino, vale-se do argumento de que o Inquérito Policial iniciou-se sob um clima de tumulto e agitação que contagiara todo o processo e que a testemunha, se aproveitando do fator sentimental em que estava envolto o caso, a "pretexto de que este confessara sob coação", passa a acusar para se defender, os investigadores e membros da família Testa, entre eles seu cliente Roberto Testa.