Araújo (2005), por sua vez, ao introduzir a temática ‘identidade e subjetividade no discurso acadêmico’, faz um contraponto entre o discurso do ponto de vista retórico e sob o prisma de uma abordagem socioconstrutivista da linguagem. Ela mostra que no primeiro caso, o autor/escritor do texto se mantém afixado às convenções discursivas, sobretudo no que diz respeito à impessoalidade, ao distanciamento e à objetividade, com vistas à manutenção das condições rígidas de anonimato. Por outro lado, o segundo, contrário ao primeiro, segue uma abordagem socioconstrutivista da linguagem, por meio da qual se concebe o discurso como um fenômeno heterogêneo e propício à pluralidade de vozes, sendo, portanto, dialógico/subjetivo. Do ponto de vista socioconstruvista da linguagem, conforme a autora:
A escrita é um modo específico de interação entre participantes envolvidos na construção social do significado, no qual o escritor de torna consciente de quem é, construindo sua identidade social ao agir no mundo através da linguagem e utilizando prática discursivas que sinalizam sua subjetividade e visibilidade no texto produzido (ARAÚJO, 2005, p. 11).
O foco do estudo empreendido por Araújo (2005) é o de investigar de que maneira os produtores de artigos de pesquisa em suas línguas maternas (português e inglês) expressam a subjetividade e, portanto, sua identidade no percurso de seus relatórios de pesquisa escritos, no âmbito da área disciplinar Linguística Aplicada, ou seja, em textos instanciadores do gênero artigo de pesquisa (artigo acadêmico/científico). O texto, para a pesquisadora, é sempre visto sob a ótica bakhtiniana, isto é, com base nos princípios de dialogismo e alteridade, posto que, para que o discurso (oral ou escrito) se materialize, é necessária a existências de pelo menos dois interlocutores (p.12).
Ao fazer uma revisão da literatura acerca do tema, Araújo (2005) destaca a pesquisa de Hyland (2002), o qual pesquisou o uso dos pronomes de primeira pessoa, em inglês, como marca de subjetividade do escritor no texto acadêmico. Na sequência, são apresentados alguns
conceitos de identidade, com base em Hall (2000), Kleiman (1998) e Fairclough (1992). Para a autora, é “importante e necessário que os discursos sejam estudados nas suas mais variadas formas” (ARAÚJO, 2005, p. 15). Para ela, deve-se incluir, nesse estudo, os gêneros textuais, a fim de que se possa “entender como os processos de construção de significados se realizam a partir das práticas discursivas em que os participantes estão engajados” (ARAÚJO, 2005, p. 15). Nesse sentido, ao considerar o discurso acadêmico como prática social, com o objetivo de compreender o processo de construção de sentidos e identidades, a pesquisadora em tela analisa e compara o uso da primeira pessoa nos artigos de pesquisa, procurando constatar a presença da subjetividade e visibilidade dos autores e as identidades por eles construídas nesse gênero acadêmico.
Para tanto, baseada na tipologia do estudo de Tang & John (1999), a pesquisadora se empenhou em investigar de que maneira os escritores, como agentes sociais, por meio de seus textos, constroem sentidos e identidades “em espaço histórico e institucional específico dentro de práticas e formações discursivas específicas, por meio de estratégias específicas” (ARAÚJO, 2005, p. 15). Para tanto, a autora fez um mapeamento de todas as expressões linguísticas preferidas pelos autores dos textos “para expressar a subjetividade”, além das “identidades reveladas no uso das estratégias” disponíveis nas duas línguas estudadas (p, 16).
Na análise, com base na interação escrita, ao mostrar a subjetividade nos textos, foi constatado que, ao usarem as formas pronominais, especialmente pronomes pessoais e de outros recursos da língua, foi observado que os autores tentaram “romper com as formas tradicionais do discurso acadêmico que exige um estilo objetivo e impessoal, marcado linguisticamente pelo uso da voz passiva e nominalização” (ARAÚJO, 2005, p. 17). Nessa tentativa, por meio do uso dos pronomes pessoais, quer seja no singular quer no plural, os autores buscam apresentar sua própria identidade, ao mesmo tempo em que desenvolvem, simultaneamente, um estilo acadêmico próprio. Ao identificar algumas representações no uso de pronomes pessoais, Araújo (2005) percebeu, assim como fez lvanic (1998 apud Tang e John, 1999, p. 26), a existência de uma escala que vai da presença constante de subjetividade do escritor, por meio do pronome eu, a um distanciamento do escritor, marcada pelo uso do pronome pessoal na primeira pessoa do singular, nós.
Os resultados da análise mostraram a existência de seis identidades acadêmicas distintas manifestadas por meio da escrita dos autores. A primeira delas é que apresenta o escritor como narrador do processo de pesquisa, ou seja, é aquela em que há recorrência do “nós” (we, em inglês), o que detona, para os textos em inglês, que “o escritor compartilha com o leitor informações relativas aos objetivos, metodologia, procedimentos e análise da pesquisa
(ARAÚJO, 2005, p. 20). Já nos textos em português, os escritores se mostram, conscientemente, mais como autores, especialmente pelo uso do pronome de primeira pessoa do singular ou da desinência verbal que revela a primeira pessoa. A segunda identidade é a de escritor como compartilhador, é aquela estabelecida a partir de pronomes de primeira pessoa do plural, usados genericamente, de modo que o escritor “compartilha conhecimento prévio, entendimento e interpretação de terminologia e teorias com o leitor” (ARAÚJO, 2005, p. 21).
A terceira identidade, o escritor como avaliador, mostra o escritor no papel de avaliador, aquele que partilha opiniões, visões ou atitudes com o leitor em relação àquilo que se mostra no texto, o que pode ser fator de persuasão para quem lê. Assim, os pronomes de primeira pessoa do singular e do plural, juntamente com verbos como acho, penso, supomos, encontramos, e seus equivalentes em inglês; e, ainda, por adjetivos atributivos, nas duas línguas, como: interessante, relevante, válido e admirado. Já a quarta, o escritor como formulador de ideias, “representa a concepção do escritor de suas ideias, de suas inferências ou conhecimento em relação ao tema desenvolvido”. (ARAÚJO, 2005, p. 21). Por meio dos pronomes de primeira pessoa, o escritor se mostra como construtor de significados, com pensamentos e ideias no texto como resultado de inferências da parte teórica ou do processo de pesquisa (ARAÚJO, 2005).
O escritor como guia, quinta identidade, é aquela em que escritores mostram sua subjetividade por meio do pronome de primeira pessoa do plural, o que facilita a compreensão do leitor no que diz respeito à estrutura textual, já que este é guiado por aquele, para que possa ver os pontos visíveis e óbvios no texto. Por fim, a identidade seus, o escritor como recapitulador de informações, é marcada pronome de primeira pessoa do plural, acompanhados de verbos de relato, como ver, notar, argumentar, e seus equivalentes em inglês. Nessa identidade, o escritor retoma informações já citadas no texto, e, ao fazer isso, “compartilha conhecimento dado e prepara o leitor para introduzir uma informação nova, mas relacionada com o tópico em questão” (ARAÚJO, 2005, p. 24).
Em suma, o resultado da pesquisa revelou que a subjetividade não só é um aspecto constitutivo da linguagem como também “está se tornando cada vez mais presente na escrita dos artigos na área da ciência da linguagem em contraposição à objetividade do discurso científico dominante” (p.27). Assim, o estudo de Araújo (2005) coaduna com o de Coracini (2001, 2007), já que em ambos os casos, posso afirmar, as pesquisadores foram capazes de comprovar, por meio do mapeamento de diversas estratégias linguísticas, a existência da subjetividade no discurso da ciência, em particular em textos instanciadores do gênero artigo científico nas áreas de Humanas, Biociências e Linguística Aplicada. Em consequência de tal
constatação, reitero, encontra-se desfeita a dicotomia objetivo/subjetivo, dado que os autores/escritores dos artigos se revelam como sujeitos que interpretam os fatos do mundo sob um ponto de vista instituído historicamente, o que significa, por essa razão, que o discurso da ciência, nas palavras de Leibruder (2003, p.241), é “perpassado pela subjetividade”, uma vez que é “através de um filtro histórico, formado pelo conjunto de perspectivas assumidas por grupos de indivíduos ao longo do tempo, que o mundo tem sido interpretado”. Nesse sentido, a mesma autora ressalta que “a objetividade supostamente característica do discurso da ciência é tão só uma estratégia argumentativa, cujo objetivo é o de persuadir o leitor/interlocutor sobre o ponto de vista do autor/escritor” (p.248).
Sinalizei anteriormente que os recursos linguísticos categorizados por Araújo (2005), como estratégias discursivas reveladoras das identidades do escritor como avaliador e como recapitulador de informações equivalem a alguns recursos avaliativos do sistema de ‘engajamento’ do Sistema de Avaliatividade. Por conseguinte, tais estratégias são os pontos estudados por Araújo (2005) que convergem com a pesquisa em tela. Embora trabalhando sob perspectivas diferentes, as duas pesquisadoras se empenharam em investigar a presença da subjetividade no discurso da ciência e, por meio de diversas estratégias, elas mostraram que “a despeito das aparências o discurso científico é altamente argumentativo”, portanto, subjetivo (CORACINI, 2007, p.193).