• Nenhum resultado encontrado

2 CAPÍTULO I: IDENTIDADE

2.5 Identidade profissional

A realidade social, enquanto realidade construída historicamente, é ao mesmo tempo objetiva e subjetivamente acessada pelo indivíduo, num processo contínuo caracterizado por três momentos: a) exteriorização: aparição da realidade como fato

exterior, que impõem que o indivíduo saia de sua introspecção para apreender a realidade externa; b) objetivação: processo que imprime o caráter de objetividade aos produtos exteriorizados da atividade humana; c) interiorização: a realidade social objetivada é reintroduzida na consciência por meio dos processos de socialização (HELOANI;UCHIDA , 2007).

Desta maneira,

Um acontecimento é interpretado é como manifestação de processos subjetivos de outrem, e, dessa forma, torna-se subjetivamente significativo para mim. Em uma relação de “compreensão” dos processos subjetivos momentâneos do outro, eu “compreendo” o mundo em que vivo e me aproprio dele como sendo meu, em um processo de identificação. Para nós, a interiorização só se realizará quando houver essa identificação, ou melhor, a identificação é condição sine qua non para a interiorização (HELOANI; UCHIDA, 2007, p. 188).

Para desenvolver suas proposições sobre identidade profissional Dubar partiu dos estudos sobre socialização. Assim, em seu livro A socialização: construção das identidades sociais e profissional, o autor expõem, em ordem histórica, os grandes pontos de vista sobre socialização e afirma que a partir da obra The social Construction of Reality (A construção social da realidade, 1996) de Peter Berger e Thomas Luckmann, que distingue “socialização primária” de “socialização secundária”, o conceito de socialização se emancipa do âmbito da escola e da infância e começa a ser aplicado ao campo profissional, relacionado às questões das transformações sociais:

Se a socialização já não é definida como “desenvolvimento da criança”, nem como “aprendizado da cultura” ou “incorporação de um habitus”, mas como “construção de um mundo vivido”, então esse mundo também pode ser desconstruído e reconstruído ao longo da existência. A socialização se torna um processo de construção, desconstrução e reconstrução de identidades ligadas às diversas esferas de atividade (principalmente profissional) que cada um encontra durante sua vida e das quais deve aprender a tornar-se ator (DUBAR, 2005, p. 17, grifos do autor).

A socialização não é essencialmente transmissão de valores, ou resultado de aprendizagens formalizadas, mas é principalmente uma construção lenta e gradual de um código simbólico, não como crença e valor herdado das gerações precedentes, mas como construção da representação de um mundo, ou seja, construção de um sistema de referência e de avaliação do real, que permite ao sujeito “se comportar

desta maneira de preferência àquela nesta ou naquela situação”. Neste sentido, a socialização é, enfim, um processo de identificação, de construção de identidade, ou seja de pertencimento e de relação (DUBAR, 2005, p. 24).

Dessa maneira, como nos lembra Silva

podemos falar de muitas identidades que nos atravessam, tais como a pessoal, a familiar, a social, a profissional e assim por diante. O que de fato muda é o sistema de representações ao qual nos referimos e diante do qual ocorre nosso reconhecimento (SILVA, 2009, p. 47).

Neste sentido, podemos dizer que tanto a produção como a integração das várias identidades se dão por via da linguagem. E, ao tratarmos sobre identidade profissional, podemos dizer que os vários sistemas de representação delineados em meio aos múltiplos grupos que o indivíduo interage ao logo da vida interferem para sua configuração, com destaque para o contexto de trabalho (DUBAR, 2005).

Dubar (2005) propõe o modelo da dupla transação, a objetiva e a subjetiva, que articula as dimensões temporal e relacional para formação identitária profissional.

Tabela 1 - Dupla transação identitária

Transação objetiva Transação subjetiva Processo relacional Processo biográfico Identidade para o outro Identidade para si - Identidade atribuída/propostas

- Identidades assumidas/incorporadas - Identidades herdadas - Identidades visadas Que tipo de pessoa você é

Dizem que você é Que tipo de pessoa você almeja ser Fonte: Dubar (2005, p. 142). Elaboração da autora.

Na primeira dimensão, trata-se das formas “espaciais” de relações sociais (eixo relacional); no segundo caso, trata-se das formas de temporalidade (eixo biográfico).

Dubar propõe que a identidade para si (modo como o sujeito se percebe) e a identidade para o outro (como os outros percebem o sujeito) são configuradas a partir da dualidade entre as esferas individual e coletiva. Apesar de inseparáveis, a ligação entre as duas é problemática e incerta, uma vez que a experiência do outro é impossível para o sujeito, que precisa então se ancorar na comunicação para se informar sobre a identidade que o outro lhe atribui (DUBAR, 2005).

Para ele, a identidade profissional resulta da socialização que ocorre em meio a processos relacionais e biográficos. O primeiro diz sobre os processos que ocorrem

dentro dos sistemas de ação do sujeito, e o segundo tem a ver com a história e projetos da pessoa. A socialização primária ocorre na infância, e a socialização secundária ocorre ao entrar no mundo do trabalho.

Relacionados à identidade para o outro e a identidade para si, estão os atos de atribuição e atos de pertença. Os atos de atribuição são as classificações feitas por si e pelo outro a partir de relações e modos de agir no tempo presente (professora e psicóloga, por exemplo). Já os atos de pertencimento relacionam-se mais ao tempo futuro e abarcam os aspectos de mudança possíveis na identidade, uma vez que as identidades atribuídas no tempo presente podem ser ou não aceitas. Isso pode disparar a busca por uma identidade desejada pelo sujeito. A conformação às categorias implica atender as expectativas de ação socialmente vinculadas a essa categoria, o que inscreve as configurações identitárias na dinâmica de relações de poder com vetores de força "atribuir", "legitimar" e "incorporar" identificações. Para que ocorra a incorporação da identidade-para-si, esta precisa ser legitimada pelo grupo e pelo sujeito.

A dinâmica que equilibra o processo de incorporação de identidade se dá com a articulação entre duas transações: transações objetivas e transações subjetivas. A transação objetiva é a relação do sujeito com o espaço de trabalho. A transação subjetiva carrega traços de temporalidade futura, se refere às projeções realizadas para si. A articulação das duas transações se dá de maneira complexa que impele o indivíduo a estabelecer uma negociação identitária a partir de escolhas e das consequências destas escolhas.

Segundo Dubar, a escolha profissional é preponderante para a construção identitária, uma vez que coloca em jogo uma projeção futura de si, porém as relações que se dão no ambiente de trabalho são fatores de fundamental importância para a configuração identitária, via apropriação das atividades desempenhadas. A configuração identitária profissional é influenciada pelas ações e pelos posicionamentos do indivíduo no ambiente de trabalho. O indivíduo pode se posicionar de maneira semelhante aos interesses da empresa e dos superiores ou pode ter um posicionamento de resistência. E o posicionamento do indivíduo se reflete em suas projeções futuras de carreira. Assim, a configuração identitária se relaciona ao modo como é percebido e reconhecido.