2 IDENTIDADES: SITUANDO E RELACIONANDO A QUESTÃO
2.4 IDENTIDADE PROFISSIONAL E O CAMPO DAS REPRESENTAÇÕES
O tema das identidades e os perfis que lhes são denotados têm sido frequentemente abordados em estudos relativos aos fenômenos sociais contemporâneos. Tanto do ponto de vista pessoal, quanto social, a questão das identidades configura-se como um caminho producente para uma melhor compreensão de práticas singulares e/ou coletivas, desencadeadas no seio dos múltiplos campos de vivências, como defende Moreira (2005).
A identidade pessoal, aquela que comporta o conceito que o sujeito tem de si mesmo, que o distingue de todos os demais, apresenta uma paradoxal dualidade, conforme sugere Dubar (2005): uma faceta que singulariza, mas que precisa ser reconhecida pelo outro. Essa relação intrínseca e indissociável engendra-se por um processo fluído e dinâmico, uma vez que a identificação pode ser refutada, como conferimos em determinadas situações nas quais uma perspectiva social maior influi na identificação individual, ou redefinida, haja vista serem as identidades (re)construídas social e culturalmente, o que as coloca em um contínuo de (re)significações e caracterizada por uma natureza multifragmentada (MOITA LOPES, 2002; BAUMAN, 2003; HALL, 1996).
A interação social, portanto, tem papel significativo no modo como nos entendemos e lidamos com o outro. Isso significa que as identidades sociais atravessam o indivíduo à medida que ele se percebe dentro do contexto social do qual faz parte e percebe também os outros em relação a eles próprios (MOUFEE, 2001). Isso se traduz pela compreensão de pertencimento a uma instância maior e, ao mesmo, tempo uma definição de si mesmo, pois é a identidade que define “o que você tem em comum com algumas pessoas e o que o torna diferente de outras”, conforme entende Weeks (1990, p. 88). Portanto, as identidades sociais se instituem em um processo de constante negociação entre os sujeitos, mediante representações construídas em vistas a uma coletividade que, por sua vez, reflete a unicidade que se engendra pela diferenciação entre uma sociedade ou grupo dos demais (DUBAR, 2005; HALL, 1996).
Por conseguinte, notamos que a relação entre a identidade pessoal e a social nos coloca diante das práticas e dos papeis sociais que desempenhamos e assumimos. Desse modo, ser professor, por exemplo, tem uma significação tanto pessoal quanto social e, de modo análogo, implica a assunção de determinadas responsabilidades e atividades. Quando assumimos um determinado papel social, estamos mobilizando não só essas facetas identitárias como outras que nos situam em diferentes campos de vivências, dentre os quais se encontra o campo profissional.
A identidade profissional tem como um de seus pilares constitutivos o conjunto de referenciais compartilhados que não só orienta uma determinada atividade como permite um reconhecimento entre aqueles que a exercem (BLIN, 1997; DUBAR, 2005). Segundo Silva, A. M. (2003), as representações que atravessam as identidades profissionais se assentam em três dimensões, as quais apresentamos na figura abaixo:
FIGURA 1 – Dimensões das representações profissionais (Adaptado de Silva, A. M. 2003)
A dimensão funcional nos permite um aprofundamento sobre as representações acerca do papel social de uma atividade profissional, nesse sentido, é possível tratar de aspectos que envolvem a percepção que o sujeito tem de si mesmo e de outros sujeitos ao compartilharem de uma mesma realidade profissional. Além disso, essa dimensão nos permite verificar a manutenção de modelos e/ou de referenciais que reforçam essa ideia de pertença social e profissional. A dimensão contextual estreita a relação esse o campo formacional e o campo de atuação, através da qual podemos cogitar os níveis de aproximação de uma formação profissional com as demandas do contexto de atuação desse profissional, desvelando representações referentes ao âmbito pessoal, físico, técnico, dentre outros. Essa dimensão nos dá as bases para uma compreensão dos processos de pertencimento do sujeito a uma realidade social, o que se configura mediante a dimensão identitária, que diz respeito às motivações, identificações, que “colaboram para a construção de um saber profissional e para a orientação das condutas e das práticas profissionais”
(SILVA, A. M., 2003, p. 9), construindo não só uma imagem de nós mesmos diante das representações que assumimos, como projetando outras em função dos nossos anseios e desejos.
A interface entre essas dimensões permite que tenhamos uma percepção acerca das representações que o sujeito faz tanto sobre a sua prática profissional quanto em relação a sua interação com outros sujeitos que estão diretamente envolvidos na mesma atividade, compartilhando de um mesmo papel social, e indiretamente, em relação àqueles que essa atividade atinge. Processo esse importante para a (re)construção da identidade profissional, como acena o autor citado.
Consoante a essas ponderações, Dubar (2005) acrescenta que ao explorarmos essas três dimensões, as quais definiu como o mundo vivido do trabalho, a trajetória sócio- profissional e a formação, temos a possibilidade de compreender melhor a intersecção que há entre as identidades pessoais, sociais e profissionais, o que, do ponto de vista de uma análise dimensional e crítica das identidades, conforme intencionamos com essa investigação, é deveras producente.
Para Moscovici (2003) as representações atuam como “uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos” (p.26). Desse modo, elas seriam como operadoras de significação na sociedade, o que, por sua vez, contribuiria significativamente para a percepção das identidades nos contexto onde estas se engendram.
Desse modo, essas representações, em se tratando do âmbito profissional, se caracterizam como “conjuntos de cognições descritivas, prescritivas e avaliativas relativas aos objetos significativos e úteis à atividade profissional e organizados num campo estruturado apresentando uma significação global” (BLIN, 1997, p. 89). Sendo assim, através das representações conferimos que o agir, que dialoga com a identidade pessoal e as práticas, e o interagir, confluente com as identidades e os papéis sociais, contornam as identidades profissionais. Na sequência trataremos dessas ponderações refletindo sobre o professor de línguas em formação.
Segundo Blin (1997), o processo de construção da identidade profissional permeia dois processos: um que atenta para as características individuais, cuja relação com o perfil profissional é significativa, haja vista ser esse o nível que se processa durante a formação inicial, e outro que da vazão às características coletivas, comumente, relacionado ao período das experiências concretas, da atuação junto a contextos reais e em interação com outros profissionais da área. Segundo o autor, esses processos permitem uma identificação com o
campo profissional, seja no estágio virtual ou efetivo, e com o grupo que integra essa realidade. Eles confluem, portanto, para “a maneira de elaborar um sentido para si na multiplicidade de papéis sociais, e de fazê-la ser reconhecida por seus companheiros de trabalho” (MIRANDA, 1998, p.217).
Como já sinalizamos em oportunidades anteriores neste capítulo, o nosso objetivo na pesquisa centrou-se na investigação da construção de identidades do professor de língua em formação, atentando para o aspecto profissional. Com base nos pressupostos já apresentados, entendemos que a identidade se constitui pela fluidez (RAJAGOPALAN, 2006), como um espaço de (re)construções e (re)significações dinâmicas, por isso, cremos na pertinência de concebermos o processo de formação inicial, período em que o professor desenha o seu perfil profissional mediante as competências e habilidades acessadas e apreendidas, como parte constitutiva da identidade profissional.
A docência é uma atividade social de significações múltiplas, que solicita do seu profissional um intenso envolvimento, uma vez que esse trabalho “não é constituído de matéria inerte ou de símbolos, mas de relações humanas com pessoas capazes de iniciativa e dotadas de uma certa capacidade de resistir ou de participar da ação dos professores (TARDIF E LESSARD, 2005, p. 35). Nesse sentido, a identidade profissional do professor configura-se como sendo:
[...] um processo de construção e desconstrução, formação e deformação, um movimento em que o docente assume formas identitárias, via processo de identificação e não-identificação com as atribuições que lhe são dadas por si mesmo e pelos outros com quem se relaciona. Nesse movimento, há constantes atos e sentimentos de pertença e não-pertença, estreitamente relacionados à subjetividade, à memória, a processos metacognitivos, aos saberes e experiências de pessoas singulares e do grupo (PLACCO, 2006, p. 21).
Um processo que, segundo Rajagopalan (2001), se estabelece pelas (re)negociações de identidades, o que tem início nos primeiros anos de formação acadêmica do professor. É durante esse processo que deve haver um estímulo e a promoção de reflexões e de debates que visem a uma postura crítica desses profissionais a respeito de questões que atravessaram a sua prática profissional.
Sendo assim, ao considerarmos que toda forma de estar e/ou se ser na sociedade afirma um tipo de identidade e que os contextos sociais são histórico e culturalmente situados, concebemos que a identidade profissional do professor de línguas deve
compartilhar das atualizações nos contextos de sua atuação. Com base nisso, trataremos, na sequência, de um aspecto que tem nos preocupado e que, por isso, adotamos como o elo nodal para tratarmos da questão da identidade e da formação inicial do professor de línguas em nossa investigação, trata-se do paradigma inclusivo no contexto de atuação desse profissional.