CAPÍTULO III: ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA
3.2 O Discurso dos Professores
3.2.1 Identidade Profissional
Quadro 3 – Formação Discursiva 1
IDENTIDADE PROFISSIONAL
SUJEITOS UNIDADES DISCURSIVAS
Sujeito 1 • Eu tenho uma identidade, vou falar da minha, para depois falar o que tenho em mente por identidade, que é uma identidade múltipla, é uma identidade que tá sempre em processo de construção por que ela vem tanto dessa do campo do que é interdisciplinar, do diálogo com o universo que passa pelas ciências sociais mas uma visão mais ampliada possível dentro da área da saúde pública, também o quanto tem da antropologia, o quanto ela vai ser impactante, porque nós vamos percebendo neste momento, isso é década de 80, década de 90, que todas as pesquisas na área da saúde, quanto na parte da minha formação foi na Costa do Marfim e da minha pesquisa de campo também foi e continua sendo na Costa do Marfim, então quanto a antropologia era importante, quase que por uma obrigação criada pela organização Mundial da Saúde e isso coloca em choque um pouco a própria identidade, a minha identidade profissional, então pensar nessas múltiplas identidades, o meu entendimento é que ainda que elas sejam múltiplas, não são conflitantes.
• todo antropólogo se questiona até para entender se eu estou querendo resolver um problema que é meu ou da sociedade. Então essa identidade, essa minha identidade, identidade profissional, ela sempre foi uma identidade que foi/nunca esteve totalmente definida, então para mim identidade é um processo em construção e ela sobretudo contrastiva, no sentido de que eu fui afirmando algumas posições com a relação que eu fui tendo com os meus, tiro a palavra meus, mas nas relações com os sujeitos, sobretudo com os sujeitos de pesquisa.
• hoje a minha identidade continua sendo profissional, uma identidade de professor, mas, que vai assumindo dentro da universidade um cargo de gestão, que aí vira também uma outra
coisa nesse processo, de vez em quando eu tenho que fazer determinadas escolhas não enquanto professor, mas enquanto membro da gestão. Então é uma construção política, por que ai nesse sentido, que olha, a minha identidade, pensando na identidade étnica é uma construção política e a minha identidade profissional também é uma construção política, então é um processo nunca finalizado, mas que existe pelo menos uma direção dada, um sul dado, não um norte, mas um sul dado sobre aquilo que tem a ver também com as opções acadêmicas e as posições políticas. É assim que eu entendo um pouquinho as identidades, essas múltiplas identidades.
Sujeito 2 • o termo da identidade me é muito caro e eu acho muito interessante.
A identidade profissional, ela é uma das nossas identidades.
• existe a identidade nacional que ocupa um grande espaço do ser da pessoa, mas nós somos seres que possuem características de identidade, como você bem disse, elas não são estáticas, elas se moldam no decorrer da nossa vida a diversas situações e elas também se relacionam a diversos momentos que são os papeis sociais na sociologia. Então, eu tenho uma identidade nacional, eu tenho religiosa, eu tenho uma identidade de gênero, eu tenho uma identidade profissional.
• a gente não nasce marcada pra ser nada, se a gente pegar a identidade de gênero vai ser a mesma coisa, não nascemos marcadas pra ser mulher, somos mulher a partir do momento que o caminho nos conduz a isso, se a gente pegar a identidade nacional, a mesma coisa, ninguém nasce marcado pra ser fulano de tal nação, mas aquilo vai sendo construído em você a partir do momento que sua vida vai se passando com aquele povo, repartindo aquela identidade cultural;
Sujeito 3 • Eu acho que a gente se define não só na docência, mas na nossa sociedade, a gente já talvez desde a revolução industrial a gente se define pela profissão, isso é muito, na verdade tem uma raiz muito antiga eu acho isso, talvez com as corporações de ofício, no
renascimento ainda, mas é muito curioso como as pessoas se identificam normalmente pela profissão que exerce.
• é muito comum apresentar uma pessoa para outra e dizer: aqui fulano, é psicólogo tá, aqui fulana, ela é professora. A gente não diz de outros atributos da composição da nossa identidade com tanta força, quanto a gente diz do atributo da profissão e a gente não costuma dizer, tá aqui fulano, ele é corintiano, tá aqui beltrano e ela gosta de soltar pipa, a gente usa sempre a profissão como identidade, o que tem inclusive gerado uma série de transformações da forma como as pessoas se veem, relacionada as transformações das profissões, aquelas profissões muito tradicionais de certo elas continuam com a sua identidade muito firme, do advogado, do engenheiro, agora com o surgimento de novas manifestações profissionais, novas profissões as pessoas têm inclusive encontrado dificuldade de identificar a profissão e de se identificar nessa profissão né
• eu estou fazendo essa contextualização, a meu ver vinculando um pouco a questão da identidade com o mundo do trabalho
• identidade é algo muito subjetivo, é profundamente subjetivo, por outro lado a identidade, ela é, nos coloca na relação com a sociedade. E aí eu estou passando para o segundo ponto que eu queria abordar dessa primeira questão que é a diferença que o Paul Ricoeur faz, que eu acho muito interessante, que é a identidade ele chama: a identidade idem identidade ipse ou às vezes ele fala ipseidade, quer dizer essa identidade idem, é como a sociedade vai nos ver, eu sou professor, você é professora e nos identificamos profissionalmente, agora você é professora com a sua ipseidade e eu sou professor com a minha ipseidade, quer dizer dentro dessa categoria ser humano, dentro dessa categoria professor, cada um de nós tem também uma identidade singular que não tem espelho em outro.
• Então nesse sentido a identidade também nos diferencia, eu acho que a dificuldade da complexidade da questão sobre o que a
identidade profissional, tá no encontro dessas duas coisas, porque a identidade profissional, ela vai procurar, ela vai buscar essa identidade idem, isso que nos identifica profissionalmente;
Sujeito 4 • por muito tempo, bastante tempo, eu pensei que o principal ponto da minha carreira era a pesquisa que eu tinha que fazer, era como pesquisador e que como pesquisador, eu deveria levar para sala de aula a fronteira do conhecimento, ou seja, eu não estou lá para repetir o que está no livro, mas eu estou lá para trazer outros elementos que o livro não consegue contemplar, em algum momento eu percebi que é algo mais, que a gente precisa fazer algo mais, então eu tenho percebido cada vez mais, que as aulas que a gente dá, que são dadas nesse formato nos últimos 200 anos, elas não servem mais, o público mudou.
• eu não fui formado como professor, apesar de ter feito meia dúzia de disciplinas na licenciatura na Unicamp, durante a minha graduação, não tenho nenhuma formação como professor. Então toda a minha atuação sempre foi como pesquisador, como cientista.
• o fato de não ter tido uma formação como professor, talvez, torne a coisa mais que difícil, se bem que eu já estou nisso há 12 anos, mas assim, sei lá muitas vezes, talvez se tivesse tido algum tipo de formação nesse sentido, teria ajudado um pouco mais.
• de um tempo pra cá, nos últimos 2 anos assim, eu tenho pensado, esse cenário aí de os alunos mudaram, eu tenho pensado como que eu consigo mudar as minhas aulas, mudar essa prática docente, para além da ideia, que a ideia que eu tinha até um tempo atrás de ser um grande pesquisador, vou publicar um monte de artigo e aí eu vou estar sempre na fronteira do conhecimento e levo pra sala isso daí e mesmo faça isso com pouca didática, ou de uma forma ruim, mas eu consigo trazer informações que não estão no livro, né. Agora eu tenho pensado que não, talvez eu preciso de outras estratégias, porque eu acho que não tá funcionando.
• Só que ao mesmo tempo como cientista, eu acho que o que nos move é o conhecimento, se você não tem um conhecimento, você não
consegue fazer nada diferente, não que você vai repetir aquele conhecimento daqui a 20 anos, mas que quando for necessário, você consegue construir um pensamento, para desenvolver novos conhecimentos, pra isso você tem que ter o estepe anterior para se apoiar nele.
• Eu já vi essa profissão como algo muito importante e de uns dois anos para cá fiquei muito desanimado com a falta de recursos para pesquisa, uma construção de uma ideia de que a gente só precisa dar diploma para os alunos, então assim, de uns dois anos pra cá eu fiquei meio desanimado;
Sujeito 5 • Como identidade profissional, eu entendo a maneira como o próprio profissional da educação se percebe enquanto um ator na área de educação. A maneira é que obviamente é relacionado com a maneira como ele é percebido pelos atores com quem ele se relaciona, sejam os discentes, seja a coordenação de curso, a direção da universidade.
Então é algo, a maneira diria assim, tentando resumir um pouco, a maneira como ele se olha no mundo enquanto docente e como ele se olha, como ele se percebe e como ele se coloca em relação aos outros atores também e a percepção dos outros atores deste universo.
Sujeito 6 • Eu acredito que seja o conjunto de atributos, características que façam com que nós sejamos próprios, exclusivos de alguma maneira, seja do jeito de falar, do jeito de passar informação, não só talvez falando como professora, mas talvez também como pesquisadora, então não só como uma profissional, mas também como um ser humano como um todo, acredito eu que envolva um relacionamento com os colegas, nosso caso que está no ensino, o relacionamento com os alunos nas suas diferentes interfaces, nós temos ai aluno de graduação no caso, aluno de pós graduação, a gente tem técnicos, a gente tem colegas, então acredito que todo esse conjunto, essa forma que você se apresenta, define você, propriamente, não só na profissão, então eu acredito que seja por ai,
não sei se existe uma resposta certa ou não, mas eu entendo dessa maneira.
• eu fiz uma pós graduação no instituto de pesquisa, então eu estava muito acostumada com aquele tipo de linguagem, com aquelas pessoas que estavam focadas naquele ambiente e a partir do momento que hoje eu estou em uma instituição pública federal, ainda mais a UFABC, que ela fez e faz ainda parte de um contexto muito importante de mudança na sociedade, então ela tem um caráter bastante social, então a gente tem perfis de pessoas, de alunos, de colaboradores diferentes demais, de diferentes classes sociais, de diferentes experiências, então isso faz com que a gente também se modifique, se reconstrua buscando atuar melhor pra essas pessoas, tentar responder de uma forma melhor as necessidades dessas pessoas e eu acredito que vice versa, então realmente muda o tempo inteiro.
Sujeito 7 • A identidade profissional tem a ver um pouco com a identidade mais ampla que as pessoas tem, que tem a ver com as suas perspectivas de vida, com o que acredita, enfim, identidade profissional parece ser uma coisa bastante ampla e bastante importante.
Sujeito 8 • Para mim a identidade profissional é uma coisa engraçada, porque eu fiz ciências sociais, fiz numa boa universidade, tive uma boa formação, mas é um tipo de faculdade que não te dá uma identidade profissional clara. Depois eu fiz mestrado e doutorado em sociologia, que também é uma profissão que embora seja relativamente disseminada, fiz o curso de ciências sociais na fundação Santo André. Então tem um monte de gente que se designa sociólogo, mas os meus colegas em particular, eu lembro que quando eu entrei no mestrado, fiz um cartãozinho, que eu botava lá socióloga, as vezes você está num encontro, num congresso qualquer e você passa o contato de e-mail, seu telefone e eu lembro que as pessoas falavam “nossa XXX, você tem cartão?” “mas, você se sente socióloga?” eu falava: “mas eu fiz ciências sociais, eu vivo de sociologia, se isso não é definição pra ser socióloga, não sei o
que é.” Então as pessoas ou riam ou se espantavam, e diziam: a não
“eu sou bacharel em ciências sociais”
• se alguém perguntar a minha profissão, eu sou socióloga, a minha função está em ser professora de magistério superior, uma outra coisa, mas é interessante, porque a partir do momento que você entra na universidade, você começa a ser chamada de professora, com todo status, inclusive pelos próprios colegas
• eu particularmente, a minha identidade profissional é de uma socióloga, com pós doutorado em sociologia e por outro lado sou professora de magistério superior
• eu dei aula 1 ano e meio numa universidade particular, eu dava uma aula por semana só, foi interessante também, mas não é a mesma coisa, mas só a partir do momento que eu entrei na universidade federal é que eu me senti professora de fato, embora eu ainda ache que, aí uma coisa engraçada, porque eu falo, mas quando eu me comparo por exemplo com um professor de educação básica, eu acho que eles são mais professores do que eu. Eu até brinco, professor de verdade, porque ser professor de adulto, supõe uma certa autonomia do seu aluno, você vai lá dá uma aula, você vê que ele aprende e tal, supõe uma certa ordem. E quando você tem adolescentes e crianças, você é muito mais responsável por aquele aprendizado
Sujeito 9 • identidades profissionais, isso é algo muito forte, porque a gente vai tendo que reconfigurar, remodelar. Então ao ingressar no ensino, na docência, essa busca, a primeira busca por essa identidade, na atividade docente foi do aprofundamento, a minha experiência anterior como jornalista ela abria muitas perspectivas, abria muitas possibilidades, mas havia sempre uma angustia muito grande em relação ao aprofundamento, a densidade, ao adensamento mesmo do conhecimento, da busca, da reflexão.
• essa identidade profissional pra mim, ela estava muito associada ao caráter, a possibilidade de assumir a produção intelectual na sua plenitude, na sua integralidade, enfim, como uma pesquisadora full
time, como uma docente full time e a pesquisa sempre foi muito relevante, o motivo principal, o modo principal, o modo operante principal. Então eu diria que a identidade, ela está muito marcada por essas contradições e por essas clivagens, por algo que você busca como o Santo graal, enfim, aquele elemento que vai, enfim, em busca desse desejo, em busca dessa, enfim, quase uma utopia que você está imaginando que vai de fato adquirir. E obviamente que no decorrer do processo, as variáveis, a realidade vão se impondo e vai reconstruindo aquela visão inicial, aquele desejo inicial. Então eu diria que a identidade profissional é basicamente feita de uma busca, de um projeto e ao mesmo tempo do contraponto que a realidade impõe a você, então ela tem essa dupla característica, de busca permanente e de reconfiguração permanente em torno dessa busca, ou seja, o que de fato é possível transformar o seu anseio, o seu desejo, na realidade do cotidiano, como é que você reconstrói isso cotidianamente.
• é curioso porque essa dimensão intelectual, essa busca da produção intelectual, ela vai na verdade ficar em parte comprometida, por esse desvio, que é um desvio que não é casual, é um desvio que eu me envolvi e não me arrependo de ter me envolvido, mas que dissolve em parte aquilo que eu entendia como elemento central dessa identidade, portanto, que eu buscava, que era uma identidade de produção intelectual.
Dos discursos dos professores enunciados a partir da primeira formação discursiva ressalta uma ideia comum: a de que a identidade é um processo dinâmico em construção, resultante de múltiplas dimensões – pessoais, formativas, profissionais. O sujeito 1, por exemplo, assinala a vertente política da identidade, considerando-a como uma construção política, nunca concluída e que decorre, quer do exercício profissional, quer dos cargos de gestão exercidos quer, até, das opções políticas. A identidade surge, não como um dado, como algo definitivamente construído, mas como uma busca, sujeita a reconfigurações permanentes em função das realidades. A dimensão de pesquisa surge como fator importante na configuração e reconfiguração da identidade. Mas a identidade surge também ligada à formação inicial “a minha identidade é de socióloga” (S 8); a minha identidade é o resultado de identidades
múltiplas, não conflitantes, estando ligada “à área da saúde e da antropologia” (S 1). Os percursos formativos individuais têm enorme repercussões na construção da identidade, o que significa que esta é o resultado da confluência de múltiplas formações, de múltiplos percursos que se cruzam, se encontram. Ser professor/a, pesquisador/a, ter compromissos com a área da educação, pertencer a uma instituição que aposta num novo modelo educativo, o modo como a sociedade vê os professores, as expectativas que cada um cria em relação ao exercício profissional e à produção intelectual são traços, indicadores que definem, na perspectiva dos sujeitos, a identidade. Recordando o conceito de cena englobante proposto por Maingueneau, consideramos que os discursos dos sujeitos estão relacionados com os contextos profissionais/institucionais e, por isso, o gênero de discurso é muito acadêmico, “muito profissional”. A sua perspectiva sobre o conceito de identidade está em consonância com as posições teóricas que apresentamos no referencial teórico. Todas as posições teóricas perspectivam a identidade como um processo dinâmico em construção e como confluência de múltiplas dimensões (pessoais, profissionais, institucionais, sociais). Todavia, os discursos dos professores revelam um sentido bem claro: o professor da educação superior é, sobretudo, um pesquisador. Neste sentido, somos induzidos a inferir que há uma gestão e uma “fabricação” da identidade (LAWN, 2001) em função de exigências de produtividade e de múltiplas regulações (quer internas, quer externas). Salientamos como dimensão negativa, o fato de os sujeitos não terem referido o ensino e a prática pedagógica como dimensão importante da sua identidade profissional. Parece, por isso, que as exigências performativas acabam por determinar o que entendem por identidade.
3.2.2 Construção da identidade profissional
Quadro 4 – Formação discursiva 2
CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE PROFISSIONAL
SUJEITOS UNIDADES DISCURSIVAS
Sujeito 1 • a trajetória que eu tenho, que passa, que só depois de chegar aos 50 anos que a gente olha pelo retrovisor, olha para trás e diz assim: “olha as escolhas não foram tão minhas escolhas, mas algumas coisas foram também sendo construídas;
• o fato de ser filho de retirantes, filho de dois nordestinos que saem do recôncavo da Bahia, se instalam uma parte na região da zona leste