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2.3 Contributo das diferentes teorias para a compreensão da sexualidade.

Estágio 5.- A orientação para o contrato social democrático

3. Os jovens e a sexualidade

3.1.2. Identidade sexual

A identidade sexual foi estudada por diversos autores, os quais tentaram integrar no conceito uma série de variáveis.

Shively e DeCecco (1977; 1993) apresentam um dos modelos de Identidade Sexual mais completo (Pereira, Leal & Maroco, 2009), propondo que o constructo deve compreender quatro componentes distintos:

- O sexo biológico (tal como é geneticamente determinado);

- A Identidade do Género (a convicção de cada indivíduo como sendo homem ou mulher); - Os papéis Sexuais-Sociais (definidos pelo conjunto de características socialmente associadas ao feminino e ao masculino);

- A Orientação Sexual (inclinação afetivo-sexual que um sujeito exerce face a outro de sexo oposto ou do mesmo sexo, tendo em consideração dimensões importantes, mas distintas como a fantasia, o desejo e o comportamento).

Este modelo pode ser esquematizado na seguinte figura (Pereira, & al, 2009):

SEXO BIOLÓGICO

(anatomia, cromossomas, hormonas) macho………intersexual………fémea

IDENTIDADE DE GÉNERO (sentido psicológico do self) homem………transexual………mulher

PAPÉIS SEXUAIS SOCIAIS (comunicação/acção social do género) masculino………adrógino………feminino

ORIENTAÇÃO SEXUAL (resposta romântica/erótica)

atracção por mulheres………bissexual/assexual………atracção por homens

Figura 4. Modelo de Identidade Sexual de Shively e DeCecco (1977;1993)

Segundo Knobel (1992), a partir do seu nascimento, a criança já começa a ser diferenciada sexualmente pela família através de roupas, cores, brinquedos e objetos. Os pais de forma natural, impõem, durante a infância, as diferenças entre meninos e meninas e a sociedade

51 trata de acentuá-las mediante elementos meramente externos. Mas, a definição da identidade sexual só se dará ao longo de um complexo processo biopsicológico e social, no qual as atitudes da família influem de maneira determinante.

Apesar de desde o nascimento, meninos e meninas já receberem mensagens sobre o seu papel sexual na sociedade e construírem a sua identidade, Knobel (1992) aponta que é a partir do instante em que o indivíduo integra a sua genitalidade, que esta passa a dominar a sua conduta e as suas aspirações.

As mudanças físicas correlacionadas com as mudanças psicológicas levam o adolescente para uma nova relação com os pais e com o mundo, mas isto só será possível se o adolescente puder elaborar lentamente os vários lutos pelos quais passa, ou seja, o da perda do corpo infantil, a perda dos pais idealizados na infância e a perda da identidade infantil. Quando o adolescente vive todo esse processo, integra-se no mundo com um novo corpo já maduro e uma imagem corporal formada, que altera a sua identidade, e é esta a grande função da adolescência, a busca da identidade que ocupa grande parte de sua energia.

Nesta perspetiva, o desenvolvimento social ocorre em simultâneo com o desenvolvimento dum sentido de identidade pessoal, tal como a identidade sexual. O significado psicológico da identidade sexual refere-se a três aspetos: a identidade de género, que é o nosso sentimento interior de sermos homem ou mulher; o papel do género, que representa toda uma série de normas de comportamento exterior que uma dada cultura considera apropriadas para cada sexo; a orientação sexual, que é a escolha de um parceiro sexual. Identidade de género, papel do género e orientação sexual são importantes determinantes da existência social da pessoa (Stoller, 1968).

A orientação sexual é um componente da sexualidade que se distingue por uma atração emocional, romântica ou afetiva prolongada a indivíduos de um género particular. Existem três orientações comumente reconhecidas: a homossexual, com atração por indivíduos do mesmo género; a heterossexual, com atração por indivíduos do género oposto; e a bissexual, com atracão pelos dois géneros. Pode referir-se às pessoas com uma orientação homossexual como sendo gays ou lésbicas. A orientação sexual é diferente do comportamento sexual porque se refere aos sentimentos e ao autoconceito. As pessoas podem ou não expressar a sua orientação sexual nos comportamentos que adotam (American Psychological Association, 2000). A orientação sexual é a preponderância de sentimentos, pensamentos, fantasias e/ou comportamentos sexuais ou eróticos de um indivíduo que está presente desde uma idade muito precoce, talvez desde a conceção (Savin-Williams, 1990; Vrangalova & Savin-Williams, 2010).

52 Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana considerou que a homossexualidade não é uma doença; em 1975, a Associação de Psicologia Americana chegou à mesma conclusão.

Em 1987, a terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais já não referia a homossexualidade como uma parafilia. Em 1993, a Organização Mundial de Saúde no ICD-10 não contemplava a homossexualidade como doença. Este processo de despatologização da homossexualidade não está todavia erradicada da nossa sociedade; como afirma Leal (2004), esta celebrada despatologização da homossexualidade não foi capaz de resolver todas as questões que longos anos de perversões e um repertório nosológico cientificamente estipulado, tinham instalado Apesar da aparente abertura relativamente à homossexualidade, ainda persistem estereótipos e mitos enraizados na nossa cultura. Um dos mitos questiona se as crianças educadas em famílias homossexuais, irão no futuro ter orientação homossexual. Este mito é contrariado entre outros pelos estudos de Golombock e Tasker (1996), outro mito também aponta para que filhos que crescem com pais homossexuais poderão sofrer os estigmas sociais ligados à homossexualidade. No entanto, os estudos realizados vão no sentido de que as crianças de pais homossexuais têm relações satisfatórias com os seus pares e adultos (Perrin, 2002; Stacey & Biblarz, 2001). Existe de igual forma, a ideia preconcebida que estas crianças se tornarão socialmente desadequadas por falta de modelos parentais, por não terem contacto com o sexo oposto no seio familiar, ou que estarão mais sujeitas a situações de abusos sexuais. Mais uma vez, os estudos contradizem esta ideia (Clarke, 2001, Stevenson, 2000). Apesar de estarem cientificamente refutados, verifica-se ainda o preconceito de se ser homossexual (Matias, 2007). Como referem Pereira, Leal e Maroco (2009) “Infelizmente, ainda nos deparamos com uma forte ignorância social e científica acerca das questões da sexualidade humana em geral e da homossexualidade em particular. Isto pode fazer com que os indivíduos que se identificam como homossexuais estejam sob forte pressão familiar e social, próprias dessa falta de informação e intolerância, muitas vezes traduzidas na discriminação.”(p 13).